Edição 22

Matérias Especiais

Região Centro-oeste

O cerrado e o Pantanal são as presenças mais fortes na natureza do Centro-Oeste.

O cerrado tem mais de dois milhões de metros quadrados, quase um quarto do território brasileiro. Em Goiás e Minas Gerais, é chamado carinhosamente de sertão. Sertão é uma realidade física também presente no nosso imaginário, nas histórias e lendas que constroem a cultura brasileira. O escritor mineiro Guimarães Rosa e o goiano Bernardo Élis fizeram deste bioma o cenário de vários de seus livros. São histórias de amor e valentia, de homens que lutam pela posse da terra nas imensidões sem fim. “Sertão é dentro da gente”, escreveu Guimarães Rosa.

MAPA_centrofundoÁrea: 1.612.077 km2
Estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, além do Distrito Federal
População residente: 10.823.207
População economicamente ativa: 5.382.185

E o Pantanal aparece com intensidade nos versos de Manoel de Barros, que vive em Campo Grande (MS) e é considerado um dos maiores poetas brasileiros vivos. Escreve Manoel: “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando”.

O cerrado é formado por árvores baixas e arbustos altos, entremeados de grama e ervas, com um regime bem marcado de chuvas. Chove de cinco a sete meses por ano, o resto é seca.

Nos primeiros séculos da colonização, foi deixado quase intocado. Apenas em parte dele se criava gado. Nas últimas décadas do século XX, o cerrado foi usado para a agropecuária, aumentando a produção de grãos e carne, mais voltada para a exportação. Isso gera recursos, mas por outro lado é questionável, num momento em que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) informa que o setor agropecuário tem os preços mais baixos dos últimos 150 anos.

As grandes plantações — das quais a soja talvez seja a mais característica — empobrecem o solo e contaminam terra e água com o uso intensivo de agrotóxicos. Levantamento feito pelo WWF em 1994 mostrou que a perda média de solos nas culturas de grãos no cerrado está em torno de 10 kg de solo por quilo de grão produzido. Em 1997, o Ministério da Agricultura estimou uma perda anual de um bilhão de toneladas de solo fértil nas culturas de grãos por causa da erosão em todo o Brasil.

O solo é a epiderme da Terra, sua camada superficial, cuja espessura vai de alguns milímetros a várias dezenas de metros. Ele se forma a partir de uma rocha matriz, que se transforma através da ação da vida vegetal e animal, da água e do ar. Para alcançar um centímetro de espessura, um solo precisa de algo entre 50 e 2 mil anos, dependendo de onde esteja localizado. Por isso, o solo é considerado um recurso de difícil renovação. Apenas 22% das terras do planeta são cultiváveis.

Outro custo ambiental é a degradação das pastagens. Em 1997, quase 25% das pastagens do cerrado estavam degradadas, pois foram desenvolvidas em solos impróprios e com técnicas inadequadas. A Embrapa também indica a morte progressiva de pastagens com braquiária (capim) numa faixa que vai do Acre à Bahia, incluindo parte do Centro-Oeste. Para resolver esse problema, será necessário criar formas de pecuária menos agressivas ao meio ambiente.

Um outro problema no cerrado é a retirada da vegetação para produzir o carvão que alimenta siderúrgicas. Essa atividade gera trabalho escravo e trabalho infantil mal remunerado.

As bacias hidrográficas do Centro-Oeste enfrentam hoje uma mudança no regime de águas, por causa da substituição da vegetação original por culturas de ciclo curto. Além disso, a irrigação com pivô central consome um litro de água por segundo por hectare irrigado. Ela altera a acumulação das águas e cria conflitos entre a agricultura e os outros usos da água (abastecimento urbano, saneamento, pesca, etc.). Não se trata de ser contra o cultivo e a irrigação no cerrado, mas, sim, de reivindicar seu melhor aproveitamento.

Além disso, acompanhando uma tendência geral no País, o número de habitantes das populações urbanas do Centro-Oeste aumentou de um milhão para 8,86 milhões entre 1960 e 1966. Cidades como Brasília e Goiânia são exemplos de crescimento desordenado.

Para reverter esse quadro, os ecologistas recomendam a oferta de créditos, assistência técnica e terras para a agricultura familiar, que absorve muito mais mão-de-obra e tem menos impacto sobre a natureza. Ocupar o campo não deve significar apenas fazer agricultura, mas investir em atividades menos impactantes, como piscicultura, criação de animais (jacarés, emas, etc.) e, principalmente, turismo rural, do qual temos um bom exemplo em Bonito (MS).

Finalmente, é preciso pensar na matriz energética. A expansão programada de geração de energia nas principais bacias do cerrado — Araguaia, Tocantins, Xingu — não está sendo feita para o consumo da população do Centro-Oeste, e sim visando atividades industriais (produção de alumínio, ferro-gusa, etc.) que causam grande impacto e são subsidiadas pelos governos, ou seja, seu custo é pago pelo total da sociedade, embora seus produtos pertençam a poucos e se destinem basicamente à exportação.

Também se recomenda a criação de novas e maiores unidades de conservação no Centro-Oeste, para a manutenção das cadeias da diversidade biológica. A Constituição brasileira considera como patrimônio nacional a Amazônia, a Mata Atlântica e o Pantanal. Os ambientalistas recomendam que o cerrado também seja incluído nessa lista.

As opções do Pantanal

O conceito de “Ilha Brasil” surgiu em 1544, no livro do piloto Jean Affonse. Ele afirmava que os rios Amazonas e da Prata nasciam num lago interior, fazendo do Brasil uma “ilha”. O tal lago interior seria formado pelo Pantanal Mato-grossense e pelo Chaco boliviano. Esse argumento foi usado pelos portugueses para reivindicar mais território. Ou seja, se o Brasil fosse uma ilha, talvez ficasse fora dos limites do que seria o território espanhol na América do Sul, demarcado pelo Tratado de Tordesilhas.

O Pantanal brasileiro é o maior sistema inundável contínuo de água doce do mundo: tem 139 mil km2. Durante séculos, a pecuária extensiva em pastagens naturais, uma população pequena e a conservação dos seus limites permitiram que se mantivesse quase intacto.

Nas últimas décadas, a situação mudou. O desmatamento que assoreia os rios, a abertura de rodovias e a contaminação dos cursos d’água pelo garimpo nas bordas da região pantaneira estão colocando o ecossistema em perigo. Houve ainda uma tentativa de implantar uma hidrovia pantaneira para escoar os grãos do cerrado. Mas estudos mostraram risco da drenagem do Pantanal se fosse afundada a calha do Rio Paraguai, e o projeto foi abandonado.

Hoje, o ecoturismo é a melhor alternativa econômica, social e ambiental para a região. Além disso, recomenda-se ampliar as unidades de conservação. No momento, está sendo criado o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, no Pantanal do Mato Grosso do Sul.

Projetos e Experiências

Novos rumos para a criação de gado

A criação de gado bovino ajudou a colonizar nosso país. Mas, tradicionalmente, está identificada com a destruição da natureza. Para fazer pasto, é preciso derrubar a floresta. Isso acontece em quase todo o Brasil, com mais intensidade na Floresta Amazônica, ambientalmente inadequada para a pecuária.

No Pantanal Mato-grossense, a criação de gado tem um perfil particular. A presença de campos naturais próprios para pastagens; um solo arenoso e frágil, que não permite muitas cabeças num pequeno espaço; a grande disponibilidade de terras; e, sobretudo, o ciclo das águas (que obriga a um deslocamento periódico dos animais, evitando pisoteio excessivo da vegetação) fazem da pecuária pantaneira uma atividade menos predatória. Segundo a bióloga Bernadete Lange, da ONG WWE, “A criação de gado vem sendo executada de forma equilibrada com a natureza. Aqui, agricultura, mineração ou industrialização provocam impacto ambiental muito maior que a criação de gado”.

Com a crise econômica dos últimos anos, a pecuária tem se ressentido em todo o País. Os criadores pantaneiros sofrem com a competição de pecuaristas de outros estados, que confinam o gado e oferecem preços mais competitivos. Hoje, muitas fazendas de gado estão abandonadas no Pantanal, causando problemas ambientais, pois, sem os animais, o capim cresce excessivamente e altera o equilíbrio do ecossistema.

Novos rumos estão sendo procurados. O Projeto Vivo, em Bonito (MS), procura integrar a pecuária com critérios de proteção ambiental, o turismo ecológico e a educação para o meio ambiente.

Na Fazenda da Barra, com 600 hectares, o manejo do gado é feito da seguinte forma: as pastagens são divididas em piquetes. O gado fica poucos dias em cada piquete, permitindo a renovação do capim. A qualidade da pastagem melhora, e o animal se alimenta bem, principalmente porque recebe também uma mistura à base de homeopatia, que ajuda a absorver melhor o capim. Os piquetes são demarcados com uma cerca de fios eletrificados à base de energia solar, bem mais barata que as cercas comuns. Ao se aproximar dela, o animal leva um pequeno choque e se afasta.

E tem mais…

No sul de Minas Gerais, experiências parecidas estão sendo implantadas. E, no centro-norte do Estado do Rio de Janeiro, a Cooperativa Agropecuária Regional de Cantagalo (Coopac) trabalha com o projeto Eco-leite. O objetivo é desenvolver tecnologia para tratar os efluentes e implantar um programa de gestão ambiental.

A industrialização da produção de leite no Brasil — estimada em 21 bilhões de litros por ano — gera cerca de 84 bilhões de litros de efluentes por ano. Cerca de 96% dos laticínios não fazem qualquer tratamento desses efluentes.

A água é usada em todas as etapas de fabricação de laticínios: é tão essencial quanto o leite. Para evitar desperdício, a Coopac criou o Vale Água, que dá uma remuneração adicional aos funcionários que se destacarem nas medidas de economia de água.

Além disso, procurou controlar vazamentos, trocar registros defeituosos e válvulas de controle da vazão. Com isso, o volume de água adquirida na Cedae diminuiu em cerca de 80%.

O uso de produtos de limpeza e os derrames de leite, que contém muita gordura, são prejudiciais aos rios e riachos em que são lançados. Por isso, uma outra providência será dar tratamento adequado aos efluentes gerados pela fabricação de laticínios.

Ecoturismo e pesca no Pantanal

O ecoturismo é a atividade que mais cresce e gera empregos no Pantanal Mato-grossense. Cerca de 300 mil turistas visitam a região todos os anos, e 270 mil são pescadores. As agências de viagem investem pesado na pesca. O comandante Paulino Artega, dono de vários barcos, afirma: “O que dá emprego aqui é o turismo. Hoje existem muitas embarcações e hotéis na beira do rio. O meu barco leva em média 70 pessoas, e a maioria vem para cá só por causa da pesca”.

O Pantanal tem 240 espécies de peixes: um paraíso para os pescadores. Os mais procurados são o pintado, o pacu e o dourado, considerados nobres. Mas a captura sem controle está ameaçando muitas espécies. Por isso, o Ibama criou normas para essa atividade: cada espécie só pode ser capturada a partir de um determinado tamanho. Os peixes pequenos têm de ser devolvidos ao rio. O turista Gilmar Couto acha importante haver limites para a pesca: “Se não preservar, um dia toda essa beleza vai acabar”.

Os turistas procuram se adaptar à nova realidade. E a grande preocupação ainda é a pesca industrial. Pescadores profissionais lançam as redes e trazem peixes de todos os tamanhos; as espécies nobres são separadas, e o restante morre. A partir de 1998, a pesca predatória passou a ser crime, de acordo com o artigo 34 da nova Lei de Crimes Ambientais. A pena vai de um a três anos de prisão. Segundo a Polícia Florestal, os flagrantes de pesca ilegal diminuíram, mas o grande perigo são os pescadores bolivianos e paraguaios que atravessam a fronteira para praticar pesca industrial predatória.

O TAMANHO DOS PEIXES
Eis os tamanhos mínimos permitidos para captura das seguintes espécies:
Nome do Peixe
Tamanho
Cachara
80 cm
Curimbatá
30 cm
Dourado
55 cm
Jaú
90 cm
Pacu
40 cm
Piau
25 cm
Pintado
80 cm
Piraputanga
30 cm

 

RPPN: a vez da iniciativa privada

RPPN: você sabe o que significa essa sigla? Acertou quem disse Reserva Particular do Patrimônio Natural. São áreas transformadas em reservas por particulares e ONGs para ajudar a preservar o meio ambiente. E quem transforma parte de suas terras em RPPN ganha isenção de impostos.

Em 1981, quando o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense foi criado, os técnicos queriam incluir algumas áreas secas que serviriam de refúgio para a fauna terrestre durante as cheias, já que a área fica constantemente alagada. Mas faltaram recursos. Em 1995, a ONG Ecotrópica começou a adquirir áreas em torno do parque. Hoje, ela tem três propriedades, com 60 mil hectares. O parque tem 135 mil hectares. Com a RPPN, a área protegida é ampliada em quase 50%.

Segundo o psicólogo Thomas Roosen, da Ecotrópica, “Se o governo não banca a recuperação da natureza, pelo menos criou a possibilidade, nos últimos anos, de particulares preservarem isso aqui, garantindo mais oportunidades para o meio ambiente se manter”.

Além de preservar a área, a Ecotrópica realiza estudos sobre a fauna pantaneira e pesquisa o impacto humano sobre as aves desse ecossistema.

E tem mais: no Rio de Janeiro, a RPPN ajuda a salvar micos-leões-dourados.

A Fazenda Bom Retiro, no município de Silva Jardim, a cerca de noventa quilômetros do Rio de Janeiro, foi transformada numa RPPN por estar muito próxima à Reserva Biológica de Poço das Antas, uma unidade de conservação que abriga grande quantidade de micos-leões-dourados, espécie ameaçada de extinção.

Dos 556 hectares da Fazenda Bom Retiro, 472 já foram registrados no Ibama como RPPN.

Em 1994, as matas da fazenda abrigavam apenas um casal de micos. Em 1998, a família havia crescido. É o que diz o dono da fazenda, o agrônomo Luís Nelson Faria Cardoso: “Nós estamos agora com oito micos, sendo um casal e seis filhotes.

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