Edição 77

Em discussão

Relação entre subjetividade e tecnologia nas escolas: Como ficam os professores e os alunos na era das transformações?

Nelcileide de Oliveira da Silva

1. Introdução25_em_discussao

Viver uma realidade cujo acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação tem se ampliado de forma diferenciada significa propor olhares que possibilitem enxergar as alterações nos hábitos e padrões de consumo, a globalização de referências culturais e a organização das formas de exercer um trabalho no âmbito educacional. Para ir mais além, viver essa realidade é privilegiar o esforço de reconhecimento do sujeito e suas formas de inserção nessas transformações.

Para compreender a subjetividade do professor no exercício do trabalho, será importante construir antes uma reflexão sobre os paradigmas atuais do mundo da tecnologia. Este estudo traz, como ponto de partida, a compreensão de como as transformações atuais repercutem na subjetividade do sujeito, as implicações dessas transformações e que estratégias subjetivas o professor constrói para lidar com as demandas que lhe são impostas.

Trabalhar com tecnologia é um processo de transformação. Essa relação tem por base uma reflexão fundamental do ser com o mundo. Essa atividade não visa só a sobrevivência, a criação de bens ou o desenvolvimento da sociedade, mas um crescimento e conhecimento individual, ou seja, a construção subjetiva do sujeito.

Portanto, o interesse deste artigo se concentra na busca de elementos que permitam orientar a compreensão das relações existentes entre as configurações subjetivas e a reorganização que ocorre no campo educacional. Pretende-se recuperar a ideia do professor como sujeito da ação do sistema educativo. Acostumado com um processo tradicional, necessita-se dar-lhe uma dose de visibilidade e percebê-lo como sujeito e agente de profundas mudanças no processo pedagógico.

Por outro lado, vimos o aluno como receptor dessa nova transformação, não como um agente passivo, mas agindo ativamente, construindo uma nova forma de aprendizagem e conhecimento do mundo.

Mediante uma geração curiosa e ansiosa por conhecimentos, a tecnologia na escola vem facilitar e ampliar os caminhos para novas descobertas de aprendizagem, comunicação e criação do sujeito para uma era de inovações e transformações (Martina Roth).

A opinião da Doutora em Filosofia e Mestre em Pedagogia Martina Roth é que:

[...] ter apenas computadores na escola não é o bastante, é necessário que os professores tenham acesso e façam bom uso dessas máquinas, o que significa oferecer novas perspectivas e novas metodologias. São dois elementos que andam juntos, e não se pode avançar um sem o outro. A estratégia para se ter computadores na escola é educar usando novas tecnologias.

Hoje vemos que muitas escolas, principalmente públicas, são estruturadas com salas de informática, mas tanto alunos quanto professores não têm acesso às máquinas, muitas vezes por falta de conhecimento e profissionalismo. Para tanto, faz-se necessário que os professores se atualizem capacitando-se mais para essa nova era da tecnologia; do contrário, é desperdiçar tempo e dinheiro.

De acordo com o espanhol Fernando Hernandéz, a escola é uma instituição que se organiza através de saberes historicamente acumulados e construídos, que devem ser resgatados, recuperados e conservados, acrescentando os saberes construídos e adquiridos no presente, sem esquecer que, estando na era da tecnologia e globalização, esses saberes são dinâmicos e complexos, transformando-se vertiginosamente. Hoje não há donos de saberes, pois as veredas são intransitivas e não permanentes. Aprende-se a aprender todos os dias e a todo momento. Há necessidade de propiciar momentos de interação com os alunos, para criar oportunidades de desenvolvimento do “olhar crítico”, para que as informações sejam analisadas, refletidas e só depois transformadas em saberes construídos à luz da criticidade e do fazer inteligente (Amélia Hamze, professora FEB/CETC e Fiso).

2. Tecnologia na sala de aula

Todo e qualquer trabalho em sala de aula deve ter um objetivo. A tecnologia na escola deve ter a finalidade de ensinar. Estamos confrontando uma geração que está a todo o vapor, o mercado lançando aparelhos cada vez mais modernos, e a escola, por sua vez, deve acompanhar a nova era, a nova geração. Assim, o professor deve usar os meios tecnológicos como estratégia e recursos de ensino. Isso implica dizer que a tecnologia deve estar presente nos planos de aula e projetos estabelecidos tanto pelo professor quanto pela escola.

Em uma entrevista à Revista Escola, a pesquisadora Maria Elizabeth de Almeida falou: “Em um mundo cada vez mais globalizado, utilizar as novas tecnologias de forma integrada ao projeto pedagógico é uma maneira de se aproximar da geração que está nos bancos escolares”.

Defensora do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação, ela faz uma ressalva: a tecnologia não é um enfeite, e o professor precisa compreender em quais atividades ela efetivamente ajuda no aprendizado dos alunos. “Sempre pergunto aos que usam a tecnologia em alguma atividade: qual foi a contribuição? O que poderia ser feito sem a tecnologia? Se ele não consegue identificar claramente, significa que não houve um ganho efetivo”, explica a educadora e pesquisadora.

26_em_discussao

Ainda de acordo com Maria Elizabeth, a tecnologia em sala de aula facilita o aprendizado do aluno por se tratar de novas linguagens digitais que estão no cotidiano dos alunos e das escolas: “Esses alunos já chegam com o pensamento estruturado pela forma de representação propiciada pelas novas tecnologias”.

Implica dizer que hoje é muito fácil para as crianças e os jovens lidarem com a nova linguagem, através de celulares, lan house, a ponto de já saberem antes mesmo de ser mostrado. Daí a importância e a necessidade de atraí-los, pois essa nova geração gosta do novo, de desafios; e a escola junto com o corpo docente deve ir ao encontro deles, levando uma metodologia inovadora, a fim de despertá-los para uma aprendizagem que não seja monótona e cansativa, mas que os levem à descoberta, à integração e à comunicação.

3. A tecnologia e a relação entre professor e aluno

Quando se fala em tecnologia na escola, evidencia-se que essa ferramenta, apesar de sua crescente valorização e importância nos dias atuais, não substitui os atores do processo de ensinar e aprender, mas consegue transformar o ambiente da aula tradicional.

Existem momentos em que professor e aluno têm um encontro formal para que aconteça uma atividade de ensino. Essa atividade de ensino é um processo que pressupõe, ao mesmo tempo, a presença do professor e do aluno. No entanto, esse momento não precisa ser necessariamente numa sala de aula, pois, com a modernidade, a globalização trouxe no seu bojo as novas tecnologias.

A atividade de ensino-aprendizagem é um processo em que o conhecimento é produzido tanto pelo professor quanto pelo aluno, pois ambos ensinam e aprendem ao mesmo tempo.

O professor, além de usar computadores para preparar suas aulas, pode também usar a tecnologia para estabelecer uma metodologia diferente, criando um novo tipo de relação com o aluno, que, por sua vez, não estuda só na escola, mas quando está em casa consegue se comunicar com os colegas, discute sobre as aulas e ainda se comunica com o próprio professor, estabelecendo uma relação mais personalizada, assim a aprendizagem ocorre de forma mais natural.

A educadora Martina Roth defende uma transformação no processo de ensino e aprendizagem que prepare as crianças para enfrentar as novidades do século XXI. Formar jovens aptos a lidar com as novas exigências deste século é uma meta que só será alcançada com uma transformação sistêmica da Educação, com intervenções no ambiente escolar e no currículo.

De toda forma, o professor é o mediador, o facilitador; portanto, por mais que seja transformada a metodologia através da tecnologia, é necessária a presença do professor para auxiliar, instruir, orientar e mostrar conteúdos através de aulas dinâmicas com vídeos, filmes e slides. Sobretudo, é indispensável a presença do professor no benefício da aprendizagem.

4. Tecnologia e Educação

As Tecnologias da Informação e Comunicação têm causado uma mudança imensa na Educação, dando origem a novos meios de difusão do conhecimento e da aprendizagem e, particularmente, interferindo nas relações entre professores e alunos. As enciclopédias foram substituídas pelas enciclopédias digitais, pela consulta de portais acadêmicos e outros sites diversificados. Passamos a usar sistemas eletrônicos e apresentações coloridas para converter as aulas tradicionais em aulas mais atrativas e, frequentemente, deixamos de lado o consagrado quadro-negro e o giz e passamos diretamente para as superfícies e projeções interativas.

A revolução que surgiu através da internet possibilita que a informação produzida em qualquer lugar esteja rapidamente disponível em todo o mundo, originando uma reforma nas práticas de comunicação e educação em vários aspectos, como na leitura, na escrita, na pesquisa. A tecnologia é usada como instrumento complementar na sala de aula ou como estratégia de propagar a informação, permitindo tanto o ensino como o trabalho individual ou em grupos entre alunos. Ela está presente também nas reformas educacionais.

A TV Escola é um programa voltado para a educação a distância, em que milhões de alunos e professores são beneficiados. As escolas ganham televisão, antena parabólica e, conectadas a um canal exclusivo via satélite, recebem uma programação de alta qualidade.

O renascimento tecnológico tem sido visto como um conjunto de pesquisas, descobertas e inovações nas últimas décadas. A força fundamental que incentiva esse renascimento é a inteligência traduzida pelo uso de instrumentos científicos e tecnológicos.

Para os PCNs, o computador é ao mesmo tempo ferramenta e instrumento de mediação. Ferramenta porque permite ao usuário realizar atividades que seriam muito difíceis ou mesmo impossíveis, de construir objetos virtuais, fazer simulações, realizar cálculos com rapidez e editar textos. E um instrumento de mediação porque possibilita o estabelecimento de novas relações para a construção do conhecimento e novas formas de atividade mental.

O uso do computador possibilita a interação e a produção de conhecimento no espaço e no tempo. O meio informático possibilita diferentes formas de comunicação, produzindo ou recebendo informações.

Atentando para as considerações anteriores, é impossível pensarmos em cidadania sem uma alfabetização tecnológica. Poder usufruir da Tecnologia da Comunicação e da Informação deve ser uma competência básica a ser favorável no conjunto do currículo escolar e de suas disciplinas.

5. A tecnologia na infância (do Infantil ao Fundamental I)

O contato com a tecnologia começa cada vez mais cedo. Hoje, vemos crianças que ainda não sabem ler nem escrever, mas dominam um mouse com a mesma habilidade de quem usa um brinquedo. O uso do computador na Educação Infantil favorece o desenvolvimento da criança em vários aspectos, como raciocínio, concentração, coordenação motora e conhecimento cognitivo. Nas escolas privadas, é mais comum ver crianças de 3 a 4 anos manuseando computadores. Há especialistas que garantem: quanto mais cedo uma criança tiver acesso à tecnologia que lhe vai servir no futuro, melhor.

Atualmente, a informática já faz parte da rotina dos alunos. A tecnologia está presente nos brinquedos, no cinema, nas agências bancárias, na TV, em computadores, aparelhos celulares e aparelhos de som, levando-os ao entretenimento, ao serviço e à educação.

Dessa forma, as crianças têm a chance de entrar no mundo da fantasia e, de forma lúdica, superar as dificuldades de aprendizagem constantes nos conteúdos de Matemática, Física, História, Ciências, etc. Por outro lado, a tecnologia permite aos professores o aumento de suas capacidades criativas e a modificação de suas atitudes em relação aos alunos, aumentando sua capacidade de assimilação e compreensão dos conteúdos.

6. Tecnologia – linha do tempo do que foi utilizado nas salas de aula

Como mostra a revista Nova Escola com o tema Guia de Tecnologia na Educação, com a apuração de Júlia Medeiros e colaboração de Elisângela Fernandes, podemos ver as seguintes transformações ocorridas com os equipamentos usados em salas de aula por professores.

Século XVIII – Quadro-negro e giz – possibilitam o aumento do número de alunos e o surgimento do professor que conhecemos hoje. Desde 1980, dividiram espaço com o quadro branco e o pincel atômico.

1887 – Mimeógrafo – Permite a impressão de pequenas tiragens com papel-carbono e álcool. Colabora principalmente na preparação de provas, em exercícios e lições de casa.

1900 – Episcópio – Projeta, em tela, objetos ou superfícies opacos, como fotografias e páginas de livros. Para funcionar corretamente, a sala deve estar completamente escura.

1950 – Retroprojetor – Com ele, o professor não precisa mais ficar de costas para a turma. Além disso, preparar as transferências é bem mais rápido do que escrever com o giz no quadro.

1971 – Computador – O primeiro uso em aulas no Brasil foi na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mas, rapidamente, passou a contribuir também para o ensino das crianças.

1984 – Data-show – Exibe a imagem do computador em uma tela ou na parede. Tem gerado o abandono dos demais recursos de projeção que existiam antes dele.

1990 – Internet – Apesar de ter sido utilizada na Guerra Fria, ela chega às escolas na década de 1990. A partir daí, revoluciona o acesso de professores e alunos à informação.

1991 – Lousa Digital – Reproduz a imagem do computador em uma tela sensível ao toque, na qual também é possível escrever. Com isso, deixa o antigo quadro com cara de passado.

2010 – Tablet – Nos Estados Unidos, existem mais de 20 mil aplicativos educativos. No Brasil, há intensa distribuição para docentes e alunos do Ensino Médio, com usos variados.

7. Considerações finais

Diante dos estudos realizados, há de se pensar sobre as formas de apropriação das inovações tecnológicas nas escolas, que, se não trazem consequências diretas sobre a subjetividade do professor, provocam alterações na organização dos tempos e espaços, nas relações docentes e nos papéis associados à mediação tecnológica. Dessa forma, implicam a subjetividade de professores a ponto de modificar a organização institucional, a prática docente, a relação professor-aluno e as relações e os papéis institucionais.

Após os estudos realizados, observou-se que as transformações tecnológicas deixam o docente em relevo com as mudanças na subjetividade do professor e provocam uma reflexão sobre a questão da identidade docente: o que é ser professor? Não parece fácil responder a essa pergunta, pois o professor vem assumindo outros lugares. Ele deixa de ser o “transmissor de conhecimento” para ser o “mediador de conhecimento”, aquele que faz acontecer a relação do aluno com o saber, numa metodologia inovadora.

A mudança na subjetividade docente não é consequência direta da inovação tecnológica educacional, mas um processo de mudança geral na história da vida de cada professor e no momento em que ele se encontra. As realidades temporárias de sua história evidenciam que ele se situa a partir do ciclo da trajetória acadêmica e de sua prática no campo da Educação.

Sob o ponto de vista do momento histórico em que vive, um processo de mudanças políticas é evidenciado nas relações contratuais que também influem no estatuto de ser professor. Esses fatores apontam para a necessidade de se problematizar mais profundamente a profissão docente e verificar, criticamente, o vasto campo profissional da educação.

Nelcileide de Oliveira da Silva é educadora.
Endereço eletrônico: nelcileide.noliveira@gmail.com.

Referências

ALMEIDA, Maria Elizabeth. Uso das TICs nas escolas. Pesquisadora da PUC-SP. Disponível em: .

HAMZE, Amélia. Tecnologia e Escola. Disponível em: .

MEDEIROS, Júlia; FERNANDES, Elisângela. Linha do Tempo da Tecnologia na escola – Revista Nova Escola – Guia de Tecnologia na Educação/julho 2012.

PATRIARCA, Cláudia Maria. A Tecnologia no Ensino Fundamental. Disponível em: .

ROTH, Martina. Revista Nova Escola – Guia de Tecnologia na Educação/julho 2012. São Paulo: Abril.

cubos