Edição 69

A fala do mestre...

Relação professor-aluno: interfaces na produção do conhecimento

Nildo Lage

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Nas últimas décadas, o maior desafio da Pedagogia é organizar ferramentas capazes de proporcionar suporte e aporte ao professor, para que a Educação não perca terreno no espaço escolar e se distancie dos passos do mundo. E, na era contemporânea, tornou-se relevante a sua atuação, pois o planeta se compactou pela eficácia da tecnologia. Esses impactos geraram tremores que fenderam a sociedade, cujos blocos adotaram perfis peculiares, estabelecendo que a Educação se adaptasse para atender a um mercado cada vez mais diversificado.

Foi dada a largada. E, para que o processo educativo acontecesse nessas camadas, foi preciso abrir leques, construir pontes, alterar conteúdos… O cerco foi se ampliando com tamanha eficácia que caminhos se convergiram para a escola… Ninguém escapa das suas teias… Se alguém quiser SER, o caminho é o da escola… Se o propósito é SABER para FAZER melhor, a escola é a referência — até para os que buscam o CONVIVER… Na esperança de se curar da deficiência de conhecimento e ser uma pessoa MELHOR, a sala de aula é o consultório.

Teorias foram criadas, recriadas… Reavaliadas… A evolução não aconteceu… Algo estava saindo errado… O professor ensinava, ensinava, e o aluno não aprendia… O SABER, por mais exposto, não era notado, absorvido, e ninguém entendia o porquê nem sabia o que FAZER para atender às expectativas de alunos e pais.

A ausência de respostas transformou o CONVIVER no ambiente escolar numa relação tensa, pois o professor não queria SER a diferença na vida de um aluno que não sabia que se relacionar com o Outro e respeitar as diferenças era um procedimento eficiente de ensinar e aprender.

Quando o eco silencia, olhares se perdem… A voz da verdade ecoa. A saída é cada um se internalizar no próprio universo e, quando a subjetividade impera, emoções são asfixiadas; sentimentos, esfacelados; desejos se entrelaçam no querer do Outro, que não percebe nem acolhe os anseios daqueles que veem sonhos e esperanças se precipitarem para o abismo.

Mas compreender a origem das coisas, da vida, do mundo, é um dos maiores reptos do homem desde a sua criação; a busca não pode parar. Platão — que muitos creem ser a gênese — ambicionou chegar a um ponto inimaginável na época em que o conhecimento se colidia com a fé. Na queda de braço entre subjetivo e intersubjetivo, inseriu uma semente num terreno — que, para a maioria, era improdutivo — e germinou o conceito epistemológico, para que o conhecimento ganhasse um cunho teórico.

Platão se foi, mas os ecos platônicos soam na era contemporânea por meio de discípulos, como John Creco e Ernest Sosa, que tentam ir além por acreditarem que a epistemologia pode mapear propriedades humanas, principalmente o intelecto, por ser a “teoria do conhecimento”, que facilita a vida por meio do estreitamento entre as pessoas e alarga os horizontes do entendimento, facilitando o processo de aprendizagem. Como reforça o filósofo francês André Lalande, que expandiu esse conceito: “[...] é essencialmente o estudo crítico dos princípios das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinado a determinar sua origem lógica (não psicológica), seu valor e seu alcance objetivo”.

No universo escolar, a epistemologia abre janelas, constrói diferentes nomenclaturas, considerações que geram particularidades, pois compreender a sua essência para avaliar o relacionamento sujeito-objeto, ensinante-aprendente, é arquitetar uma base para que os pilares da Educação se fortaleçam e sustentem uma prática educativa capaz de transformar comportamentos.

Fundamentos epistemológicos da relação professor-aluno

Ao submergir nesse conceito até chegarmos aos fundamentos epistemológicos da relação professor-aluno, é impossível não olharmos à beira do caminho e fazermos uma consulta ao mestre Aurélio para que nos esclareça que epistemologia é “[...] O estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das ciências já constituídas; teoria das ciências”. Mas, tanto quanto a resiliência, inserir a epistemologia contemporânea nas entrelinhas da Pedagogia para, assim, salientar a sua importância no desempenho do ensino-aprendizagem por meio do estreitamento do relacionamento professor-aluno é primordial prudência para se armar a base terminológica para que ensino e aprendizagem não se afastem na zona de confluência, onde amor e afeto não transitam.

Epistemologicamente falando, o relacionamento professor-aluno, de tão essencial à composição do conhecimento, se transforma num laboratório onde sentimentos e desejos são reciclados; individualidade, respeitada; sonhos, compartilhados, fazendo com que conceitos históricos sejam descartados para dar espaço à prática coletiva; e, quando a aprendizagem chega ao nível coletivo, é um sinal de que escola, família, governo e professor finalmente enveredaram pelo caminho que pode levar às conquistas através da Educação.

Mas adentrar no terreno das relações é assumir a eletrizante missão de enveredar por um campo minado. Relacionamento requer regras, parâmetros, pois confrontá-las com as diferenças de gerações, gênio, natureza, personalidade e correlacioná-las no dia a dia da escola são desafios sem precedentes, já que esse ambiente é o ponto de encontro dos desníveis sociais, confrontos religiosos e desequilíbrios familiares que içam barreiras naturais, afastando aluno de aluno e professor de aluno.

Nesse universo, o professor divide-se, multiplica-se e nem sempre adiciona bons resultados, pois a escola apenas matricula, o gestor distribui as turmas, o coordenador planeja, e o professor mexe, remexe, desdobra-se para atingir ideais, mesmo com algumas receitas no mercado de professor ideal, como a preparada pelo professor Pedro Morales (2001):

O professor ideal precisa ter uma boa conduta e competência para ensinar; atitudes como controlar a classe, ser compreensivo, atencioso e estar disponível para ajudar os alunos são fundamentais para se manter um bom relacionamento. A relação aluno-professor é humana e influi tanto para o bem como para o mal. O professor transmite ensinamentos importantes e duradouros, os alunos também influem sobre o comportamento do professor, que ao perceber a dedicação e o sentimento do aluno em relação aos trabalhos, dedica-se mais e passa a melhorar o seu modo de tratar seus alunos; mas, quando isso não ocorrer, o professor não deverá punir-se como culpado, precisará controlar seus sentimentos e não responder com desinteresse ao desinteresse de seu aluno. A motivação para aprender envolve inúmeros fatores interligados mutuamente dentro e fora da escola num processo embutido de emoção, motivação e afetividade; assim, pensamos que não há aprendizado se o educando não está motivado.

Como a Geração Alfa não abre mão da liberdade que a própria fase determina para explorar o mundo, abraça a tecnologia como parceira e bate de frente com a radicalidade da geração Coca-Cola, que não recebe a diversidade como identidade do Outro e tenta dominar o território por meio do autoritarismo, impondo seus “pensamentos lógicos”, com armas conservadoras, como “gritos, ameaças, chantagens” e até mesmo “perseguições”, para que tais punições sirvam de alerta à classe, sem comprometimento com a moralidade.

E, como o reflexo comportamental de um traça o perfil do outro, delineando o relacionamento entre ambos, o aluno mira o seu alvo nas notas — que, na verdade, é tudo o que interessa aos pais —, adotando o decoreba como veia de escape, e abre mão da aprendizagem para não ficar para trás.

Se no século VIII a.C., quando os padrões familiares e religiosos tinham duras regras, o poeta grego Hesíodo já declarava, convicto: “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”. Passaram-se três séculos, e o que era horrível ficou assombroso, a ponto de preocupar Sócrates, que fez o mesmo alerta:

A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos, eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem os seus pais e são simplesmente maus.

De lá para cá, a humanidade não conseguiu ajustar essa falha, que permite refluir a essência de valores, e as gerações dos que eram maus ficaram sem limites, hostis… E, ao se enveredarem pelas dependências da escola, transformam o ambiente escolar num campo de batalha por não haver relacionamento professor-aluno.

Essa é a realidade da nossa Educação. Realidade que é exprimida com detalhes meticulosos no filme O Clube do Imperador, do diretor americano Michael Hoffman, cujo enredo transcorre na década de 1970 e explora com sutileza a ótica weberiana ao retratar os conflitos de uma sala de aula provocados pelas diferenças — mesmo com o corpo discente sendo formado por alunos de alto nível social de todas as partes do mundo —; filhos de pais abastados são matriculados na busca de uma formação educacional à base de princípios e valores morais.

O enredo transcorre nas dependências da afamada escola americana St. Benedict’s, exclusiva para meninos, onde o empenhado professor William Hundert, interpretado pelo ator Kevin Kline, que, por ser deslumbrado pela cultura clássica, não abre mão do sucesso de seus alunos. Para tal, tem os próprios métodos e impõe o correto como regra e a moral como base para edificar o caráter humano, teorizando suas aulas por meio do estudo de imperadores romanos, artistas e filósofos gregos, como Júlio César, Aristóteles, Sócrates e Platão.

A Educação brasileira necessita urgentemente de mais professores como William Hundert para que o íntegro e o correto sejam inseridos como conteúdos curriculares, e, mesmo se surgirem alguns Sedgewicks Bells, sua arrogância e presunção não poderão ameaçar a conduta dos demais, pois haverá competências para transformar individualismo em coletivo por meio da amizade, que estreita relacionamentos, transforma comportamentos por meio de aulas alegres, dinâmicas e recheadas de valores, nas quais informações e conhecimentos constroem o saber de uma geração que já pôs o pé na estrada sem lenço, sem documento e sem saber aonde quer chegar.

Pois professor que tem ambições para o crescimento humano do seu aluno lê, indaga, pesquisa, se aperfeiçoa, se certifica e tem modéstia para ouvir conselhos e dicas como os do mestre Piaget: “O professor não ensina, arranja modos de a própria criança descobrir. Cria situações-problema”. Mesmo consciente de que recomendações, como as de Piaget, dificilmente descartarão ranços, principalmente num setor que vende Educação e desconhece cultura e valores.

A crise exige responsabilidades, cobranças e determinações de metas, pois nas últimas décadas o humano tornou-se um caçador de fórmulas concluídas, e esse comodismo vem extinguindo do espaço escolar os porquês; e, sem porquês, não existem buscas; e, sem buscas, respostas se silenciam sem satisfazerem curiosidades, pois muitos educadores não se atrevem a explorar um universo capaz de trazer réplicas admiráveis — o potencial contido em si mesmo —, para, assim, auxiliar o seu aluno no processo de aprendizagem e aprender que ensinar é compartilhar, dividir com o outro a fatia do saber de que ele necessita para crescer como humano. Afinal, ensinar não tem fórmulas nem regras definidas, apenas suporte para explorar as habilidades individuais e auxiliar o Eu de cada aluno, como já afirmava Galileu Galilei: “Você não pode ensinar nada a um homem. Você pode ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo”.

Choque de interesses

Como em todo espaço de convivência, é impossível não haver a queda de braço para que o jogo de interesses impere. No espaço escolar, essa disputa sempre resulta em conflitos, pois o professor, na retaguarda, admite que precisa mudar para se relacionar melhor — principalmente com o seu aluno, e, mesmo a escola não dando tanta importância, o bom relacionamento descarta o estresse e facilita o seu trabalho — e assume que excede, pois a cada ano o clima no recinto escolar fica mais enfadonho devido à indisciplina, à falta de respeito, à sexualidade, que aflora cada vez mais cedo. E a desestrutura familiar, aliada aos desníveis sociais, favorece relacionamentos tensos.

Mas, entre quatro paredes, o professor vive situações extremas. Como o aluno não deixa passar uma oportunidade para ir à forra, apronta todas e leva a pior: quando não, visita a Direção para a clássica assinatura de advertências, perde ponto, leva suspensão, pois o professor se vê instigado a usar o seu arsenal de defesas, e adota posturas rígidas para impor respeito e não perder a autonomia. Nesse choque de interesses, a última palavra é do professor, e isso não é autoritarismo, é preciso assumir o seu posto como regente responsável pela ordem.

Conflito das gerações

Para encontrar o caminho para suavizar o clima de conflitos e construir um relacionamento entre professor e aluno, é preciso reavaliar o pensar, o agir, a prática, para que os atos do agente responsável por ensinar — o professor — sejam repensados por meio de uma avaliação qualitativa, se o seu agir aproxima ou o aparta. Se o professor não abrir os olhos para vislumbrar que os pressupostos epistemológicos abrem novas vias, se perderá nos labirintos da sala de aula sem que seu aluno note um reflexo do crescimento humano.

Esse conflito de gerações impede a interatividade, principalmente numa época em que Internet e celular tornaram-se populares, provocando uma brusca transformação social. A escola tem consciência dessas mudanças, mas lhe é negada estrutura por parte dos governos para acompanhar a evolução de seus alunos.

Daí, as dificuldades de conectarem os elos que vinculam professor e aluno no mesmo universo, pois duas gerações distintas não dialogam devido à subversão de pensamentos dessemelhantes.

Só que o aluno tem fome de aprender, e o professor não consegue adicionar os ingredientes do cardápio que atenda à sua cadeia alimentar. E, assim, não há interatividade, pois o professor não abre mão dos métodos que executa desde o primeiro dia de docência. Não inova porque descarta o novo, e o novo é tudo que fascina o aluno. E, como o novo não chega, impera o bilinguismo de época: professor não conhece o aluno porque não compartilham ideias, e o aluno se torna um aro perdido na roda escolar por não compreender atos e atitudes do professor.

Os mais desolados tentam, chegam a arranhar a língua internetês, pegam as manhas do PlayStation, entram no Facebook para que a tecnologia se torne ferramenta das suas aulas… E conscientizam que falar o linguajar do aluno é uma necessidade urgente, mas esse interessado, muitas vezes, é podado pelas dificuldades para readequar a nova forma de ensinar, por se esbarrar nas argileiras para trabalhar com as diferentes mídias, como salienta Moran (2000, p. 36):

A Educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais progressistas e participativos das tecnologias que facilitem a educação dos indivíduos.

Mas o sistema cobra resultados consciente de que o que oferece — o ProInfo (Programa Nacional de Tecnologia da Educação, criado em 1997 para promover o uso pedagógico de Tecnologias de Informática e Comunicações – TICs, na rede pública fundamental e médio) — não é o suficiente. É preciso suporte, como especialização e capacitação continuada, para que esses subsídios afastem o bilinguismo da sala de aula, pois são palpáveis as diferenças comportamentais, as ideias e os costumes entre as Gerações X e Alfa, determinando que o professor amplie os seus horizontes de relações humanas, como aconselha o professor José Ângelo Carlos Cintra, da Escola de Engenharia da USP, em seu livro, Reinventando a Aula Expositiva, que norteia os professores X — os chamados baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964 —, que se relacionam com Z — os titulados nativos digitais, pois nasceram em meio às parafernálias da Internet e da tecnologia. É como se não falassem a mesma língua e não tivessem linguagem determinada, que estreita o relacionamento; aprender e ensinar se tornam um processo monótono.

Certamente não falarão o mesmo dialeto nem comungarão os mesmos propósitos, pois, como os nossos pais, que viveram épocas diferentes, gerando muitas vezes conflitos com as próprias crias, com o professor não é dessemelhante, e são esses diferenciais que elevam barreiras naturais entre aluno e professor.

É preciso encarar a realidade de que o planeta está em constante processo de mutação, trazendo o novo a cada giro, e essas novidades devem ser disseminadas entre o professor e seu aluno, como acredita Cintra:

O mundo vai para frente, não tem volta. Muitas pessoas dizem que o mundo está mudando para pior e isso não é nem questão de valor, mas o mundo mudou. Toda mudança tem uma perda. Porém, como X é conservador e reacionário, no fundo ele não quer que mude, pois a zona de conforto dele é da forma que estava.

E, assim, cada vez mais seguro pelo amparo da lei que lhe proporciona essa zona de conforto, o professor se esvazia de conteúdos, vende aulas cada vez mais uniformes, que entediam o aluno, incitando os conflitos, pois a Geração Z quer ação, um caminho novo para trilhar, e o professor X estacionou no cais, tornando-se âncora e até mesmo um iceberg na rota do seu aluno.

Para restringir essa distância, é preciso ação. Professor tem que ser bom, e o bom é o que se recicla para inovar, refletindo no aluno uma imagem mediadora, não um carrasco que impõe respeito por meio do terror, como enfatizou o mestre Paulo Freire (1996, p. 96):

O bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio, e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas.

Mas, para entendermos o relacionamento professor-aluno, é inevitável retroagir um passo para sabermos até onde os ranços impedem os avanços. Esse empirismo — pedagogia diretiva — salienta seus procedimentos, cujas referências são as experiências, e, por ter como teoria básica o clássico, descarta o lúdico, adotando a metodologia e as ideias racionais como base de ensino, a verdade como regra e a razão como meta, doutrinas que não são obtidas, mas fornecidas pelo próprio aluno no percurso do viver.

Se colocássemos na balança o índice de seguidores da tese empirista, ficaríamos alarmados, pois o número de professores seguidores dos filósofos ingleses, como Jonh Locke, David Hume, Francis Bacon e George Berkeley, é impressionante. Muitos são tão fiéis que chegam a rezingar pela falta da professora de disciplina Palmatória.

Com tantos behavioristas no ambiente escolar, fica difícil inserir as concepções epistemológicas, e a quebra de paradigmas se torna cada vez mais remota, pois a nova leva de professores resiste ao primeiro passo na busca de novas formas de ensinar e aprender, por meio do aperfeiçoamento, da compreensão dos processos mentais que influenciam o crescimento e desenvolvimento humano no espaço escolar.

Essa resistência estimula acirradas discussões, pois coloca em xeque as ciências que buscam uma associação de hábitos, dificuldades e os correlacionam com fatores familiares, sociais e religiosos, pois o empirismo, na essência do seu ranço, apaga as hipóteses contrárias: “Ninguém sabe de nada… É tudo deduções…”, e a Educação permanece estagnada à base da memorização de informações, dados, e os frutos estão à mostra na vitrine das escolas: uma Educação cujo ensino é a transmissão de informações para alunos passivos, pois a prática docente se resume em repetir, repetir e repetir, sem um convite à reflexão, deixando, assim, de experimentar o novo.

É preciso urgência para suplantar o empirismo, para que o intersubjetivo assuma o seu espaço em sala de aula para suavizar a relação professor-aluno por meio de aulas dinâmicas, para que o aprendente e o ensinante cumpram, por meio do envolvimento, da troca, um aprender homogêneo, pois, quando se aprende ensinando, o Outro que chega à busca do aprender é surpreendido com o crescimento humano. Quando percursos educativos são acordados, desafios se tornam causas possíveis, objetivos se resumem em metas claras tanto para o ensinante quanto para o aprendente, pois o conhecimento passa a ser produzido simultaneamente entre ambos.

Tudo que não pode acontecer é a inversão de papéis. O respeito mútuo é uma regra que jamais poderá ser rompida, para que o vínculo de amizade, apreço entre professor e aluno não se estremeça, pois é essa sintonia que aproxima, transforma comportamentos, fazendo do aprender uma deliciosa sensação de superação e do ensinar a recompensa do dever cumprido, além de receber como troféu o prazer de apreciar a vitória do Outro. Afinal, o intersubjetivo abre uma janela para que o aluno faça críticas, desfaça dúvidas por meio de questionamentos, debates, por ter liberdade para aprender errando e crescer com os acertos.

Essa sintonia amplia os horizontes do professor, que adquire desenvoltura para tecer a colcha de recortes dos sonhos, sem incluir remendo novo em tecido velho para contrafazer fracassos; atrevimento para atrelar caminhos e, nessas veredas, edificar o elo do relacionamento entre ele — o professor — e seu aluno e de seu aluno com o mundo.

Instruir decreta aptidão para encaixar as duas peças genuínas que formam o quebra-cabeça aprendizagem: ensinador e ensinante, pois, desacoplados, são dois corpos estranhos; em sintonia, são uma orquestra, cuja cadência desperta ambos para tocarem a melodia da vida; mesmo com os descompassos das notas, não perdem o ritmo nem se afastam dos propósitos. O professor tem a consciência de que o seu agir pode ser o diferencial, como afirma Abreu e Masetto, 1990, 115:

É o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas características de personalidade, que colabora para uma adequada aprendizagem dos alunos; fundamenta-se numa determinada concepção do papel do professor, que, por sua vez, reflete valores e padrões da sociedade.

Para atingir esses propósitos, professor deve ser mestre. Mestre na arte de acolher, reaproximar, recolher… Para tanto, não é necessário um mestrado fora do País… Simplesmente, fazer uso das habilidades e competências para intermediar, abrir caminhos por meio de uma comunicação fluente, capaz de abrir leques e, assim, ampliar os conhecimentos do seu aluno… Esse MESTRE pode até ser formado numa faculdade… Afinal, a própria lei determina que seja assim, mas a honra desse título é a mais legítima essência presenteada pelo Criador àqueles que são diferenciais, a pedra de esquina do planeta sala de aula… Essência que, ao exalar, atrai, seduz… Constrói um relacionamento de respeito, de afeto, de confiança… Onde, muitas vezes, rejeita palavras… Porque o MESTRE conhece, compreende o seu aluno… Por isso, não é preciso gritos, punições, pois o seu próprio silêncio educa, orienta, ao permitir que seu aluno se manifeste como oportunidade de ser… Pois o verdadeiro MESTRE é aquele que admite sempre ter algo a aprender, pois essa busca é um dos ingredientes da receita para se tornar um bom ENSINADOR… E todo bom ENSINADOR traz em si o desejo de dividir, compartilhar, relacionar-se com o Outro e, assim, aprender com os que buscam nele apoio para crescer.

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