Edição 59

Matérias Especiais

Resiliência…

Nildo Lage

Acompanhar o tique-taque do medidor do tempo sem perder a cadência, a sintonia com a vida ou sem desviar de propósitos exige mais e mais de quem não admite tornar-se um alvo das turbulências da vida moderna. Essas oscilações absorvem a energia que fortalece e podam iniciativas que protegem por se nutrirem do que o humano guarda a sete chaves: sentimentos e autoestima.

Transitar nesse meio requer habilidades, competências, comedimento, elasticidade para se reconstruir após um episódio, voltar ao estado original depois de uma perda, um fracasso, uma tragédia. Ser munido de agilidade para superar dificuldades ou se esquivar de transtornos é uma eficiente tática.

Se, de um lado, o mistério da vitória é não ter medo de se confrontar com o Eu que se rebela contra a natureza — o espírito que se debate para resistir às fraquezas da carne —; de outro, a forma como se é preparado para agir perante situações, provações e problemas do cotidiano refletirá na trajetória futura.

Nesse itinerário, ser forte, valente, determinado e seguro muitas vezes pode não proporcionar amparo, pois, no ringue da vida, nascer é o milagre da concepção, mas viver é uma arte que exige equilibrismo para resistir a investidas e traições, flexibilidade para arrostar os tremores dos relacionamentos e moderação para não desabar ao receber os golpes inevitáveis do acaso.

Mas, como a ciência acredita ter réplicas para todos os questionamentos, esclarece com veemência que a resiliência — nascida há pouco mais de três décadas — foi gerada genuinamente no seio da Física para explicar “a capacidade de um objeto absorver a pressão e depois voltar à sua forma original”.

Transpor os limites da ciência lógica e enveredar pelas trilhas do humano para compreender a definição de resiliência é um desafio mesmo para a neuropsiquiatria, que comprova, em inúmeros estudos, que a mente é uma máquina em desenvolvimento constante e que o cérebro humano é provido de estruturas capazes de se modelar perante acontecimentos e fatos do dia a dia a ponto de se adaptar a ambientes e situações extremas.

Na ótica da Física, que esclarece com exatidão a composição e a evolução da vida, não é preciso necessariamente ser um Albert Einstein para decifrar códigos ou compreender que a reconstrução é a garantia do recomeço, muito menos um Sigmund Freud para saber que material e imaterial dificilmente se acoplam, principalmente quando a “genética” de um não suporta as reações químicas dos “transtornos” do outro. Forçar um ajuste para chegar à homogeneidade é se aventurar num campo minado: não se sabe quando e como acontecerá a explosão fatal.

Como o “cientificamente falando” é a verdade para a maioria, a explicação é convincente e se torna aceitável, principalmente para quem busca lógica para compreender as vibrações e os desníveis comportamentais.

Mas discutir um termo que ultrapassou o campo da Física, expandiu-se para o corporativismo e envereda pelos caminhos da Educação é transitar num paralelo em que conflitos de ideias e ideais provocam a guerra na arena do saber, pois especialistas como Leonardo Soares Grapeia — administrador, fundador e gestor do site Agenegocios.com — têm olhares diferenciados sobre resiliência, que “é a arte de transformar toda a energia de um problema em uma solução criativa”.

A ciência reforça, confirmando com extrema veemência, que a resiliência exprime na sua essência “a capacidade humana de superar tudo, tirando proveito dos sofrimentos, inerentes às dificuldades”. Já os caçadores de tendências creem piamente que a resiliência pode ser a saída de problemas, principalmente na área corporativa, como declara a diretora da SEC Talentos Humanos, Vivian Maerker Faria:

Transferindo o conceito de resiliência para o comportamento humano, representa a capacidade de o indivíduo lidar com pressões, imprevistos e situações difíceis mantendo a sua forma original, a sua essência, sem prejudicar sua saúde física e seu equilíbrio emocional.

Em meio ao fogo cruzado, transitam os que entendem que, se subdividida, pode ser trabalhada como instrumento de transformação de vidas, lançando o desafio de trabalhar o humano para transformá-lo num ser resiliente, principalmente em ambientes que transformam vidas — no espaço escolar —, como orienta o diretor científico do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Pessoal – Aliança, George Souza Barbosa:

Tenho defendido que ela é um atributo inato do ser humano, porém necessita da intervenção externa para sua maturação. A mesma coisa que acontece com a capacidade de ser alfabetizado. Está lá, no entanto, necessita haver uma intervenção sobre ela para sua potencialização.

Tais contendas vêm atraindo adeptos, e, por ter tido resultados surpreendentes na América do Norte, a resiliência é cada vez mais frequente na vida do homem para promover o equilíbrio, com a perspectiva de evitar que a raça se transforme numa espécie sem autodomínio, pois o corre-corre da vida moderna acarreta o mal do século: o estresse. Estresse que, nas últimas décadas, reflete-se numa geração cada vez mais fadigada emocional e psicologicamente, exigindo da ciência que marche a passos largos para alcançar a fórmula que cure males invisíveis.

Mas será que a ciência atingirá a autossuficiência para instituir o dispositivo capaz de gerenciar o íntimo e regular as tensões? Monitorar a mente humana para impedir traumas e repor danos, gerando, assim, a capacidade de se reconstruir a cada tragédia, perda ou fracasso?

É necessário educar a Geração Y, que transita com maestria pelo universo cibernético se alimentando do novo — onde romper distâncias é uma questão de vontade, fazer é somente querer — e quebra barreiras culturais, familiares e religiosas, satisfazendo-se com um clique. Um clique que abre janelas em que a liberdade se torna uma cilada para muitos que acreditam que a vida é a doce peripécia de trafegar na cauda de um sonho e pousar no planeta das causas possíveis.

Nessa transição entre virtual e concreto, real e irreal, que aglomera corpos e para que dispersa pensamentos, é preciso que o educador busque “recarregar a bateria” para que as turbulências familiares e sociais não afetem o desempenho do seu trabalho e para que tenha condições de tornar as suas aulas mais proveitosas, pois a carga horária longa e o deslocamento de uma escola para outra favorecem os desgastes físico, emocional e psicológico.

Afinal, o “planeta sala de aula” não rege a sua rotação nem tem luz própria, pois recebe influências diretas dos satélites “educandos”, cujos choques temperamentais, desequilíbrios familiares e diferenças sociais, culturais e religiosas não permitem eclipses para direcionar olhares para um alvo, pois as sombras das diferenças, muitas vezes, encobrem os esforços do educador que planeja uma aula com extremo cuidado e se frustra no instante seguinte com os resultados. Ao passo que uma simples visita ao parque proporciona rendimentos surpreendentes.

Esses fracassos devem ser encarados como referência aos que buscam a resiliência como apoio de equilíbrio pessoal e profissional e uma prova de que, mesmo com as tecnologias disponíveis à Educação para facilitar a sua vida, deparam-
-se com dificuldades para obter resultados satisfatórios, pois essa competência é o suporte do educador.

Sem resiliência, torna-se complicado conviver num ambiente onde as contradições com os colegas imperam e os fracassos com os alunos são rotina. A fraqueza e a limitação humana permitem que muitos não alcancem realizações por não encararem as diferenças como entraves pessoais, impelindo muitos pelo caminho da intolerância, em que prevalecem os desencontros por falta de diálogo e compreensão.

Nessa corrida pelo contrabalanço, o desafio maior é adicionar ingredientes para solidificar o alicerce do humano. Montar obstáculos de defesa é fácil, o complicado é se reerguer a cada queda e partir para novos horizontes por meio da superação, salientando que o forte não é o que não cai, mas o que resiste aos ataques e retém táticas para livrar-se das emboscadas de um mundo cada vez mais capcioso, onde crises existenciais, financeiras e sentimentais impelem muitos a trilharem o caminho do fim.

Segundo a Especialista em Educação Simone Cardoso,

A resiliência é a mola mestra que impulsiona educador e educando a superarem as barreiras da aprendizagem, contornar os conflitos da convivência e fazer com que o processo de ensinar e aprender se transforme numa aventura deliciosa, pois a resiliência ameniza o clima dos relacionamentos e facilita a compreensão de mundo, ajudando na superação de dificuldades, pois a maior virtude do resiliente é a flexibilidade de se adaptar, superar, transformar as adversidades em alternativas e as crises numa janela para o sucesso.

Para desenvolver essa habilidade tão importante no humano, o primeiro passo a ser ensaiado é o que leva ao encontro do Eu por meio do autoconhecimento. Essa ligação provoca o confronto entre o Eu e seus conflitos, com fraquezas e limitações. Limitações que ajudarão a tirar proveito de situações e fabricar o combustível da iniciativa que abre saídas de escape.

Infelizmente, a ruptura da essência humana vem provocando a intranquilidade social, que é consumida vorazmente pela anomalia da modernidade que se sustenta de valores, sentimentos, da própria identidade que permite ser desgastada numa convivência fria, sem compromisso e respeito pelo outro.

E, mesmo conscientes de que o mundo globalizado determina um novo perfil de cidadão para atender ao mercado, que estabelece flexibilidade, agilidade e dinamismo para ultrapassar barreiras, contornar conflitos e transpor isolamentos, ainda há milhares que se deparam com dificuldades para montar o kit básico de sobrevivência na selva de pedra, pois acompanhar um planeta onde o tempo é a maior cilada é a regra sincrônica para que os trilhos da produtividade não descarrilem e atropelem sonhos.

Mas educar para a resiliência é…

Ensinar para uma vida de riscos. É preparar educandos carentes de acolhimento, desprovidos de confiança para enfrentar as oscilações, sem perder o controle, a autoconfiança, pois, assim como a superação de uma empresa ante uma crise econômica é o estado da sua estrutura organizacional para administrar colapsos e gerar alternativas para recuperar perdas, a do homem não é diferente. Seu desempenho ante um dano está na sua capacidade de encontrar soluções e ultrapassar dificuldades. A vitória ou o fracasso dependerão da perseverança e dos caminhos escolhidos.

Afinal, administrar sonhos e contrabalanceá-los com fracassos e derrotas estabelece desenvolturas e aptidões para moderar oscilações, abrir passagens, construir um referencial para vencer sem provocar estragos maiores, como declara o coach, consultor e palestrante Flávio Souza:

Vencer é, apesar de tudo que possa acontecer, acreditar nas pessoas e saber que, por detrás de cada ato humano, por mais difícil que alguém possa parecer, há sempre uma intenção positiva para consigo. Vencer é ter a esperança sempre renovada, lembrando que o sol nasce todos os dias e para todos. Vencer é ter um sentimento profundo de fé, força e perseverança mesmo em momentos difíceis.

A mensagem, impregnada de significados intrínsecos, traz nas entrelinhas o alerta de que tentar e fracassar são processos eficientes de ensinar e aprender a lição de que não se pode ganhar sempre, pois são as derrotas que equilibram o viver e as vitórias são um tempero que nem sempre chega no momento em que se prepara o prato dos sonhos.

Não vislumbrar esse horizonte é não admitir crescer e aceitar o fim como rendição do espírito que perde o ânimo, do coração que se entrega à incapacidade de recomeçar para reencontrar as trilhas do próprio existir.

Um exemplo de resiliência é o Japão, que arquitetou as suas estruturas para resistir aos abalos de terremotos e prepara, dia após dia, a população para enfrentar tragédias.

Mal contabilizou os prejuízos materiais e as perdas humanas dos episódios provocados pelos tremores e tsunamis de 11 de março, o país já se projeta para promover o crescimento econômico, e, como nas tragédias anteriores, será mais uma página negra da sua história que será virada.

A sua capacidade de recuperação é tamanha que, além de se reconstruir a cada tragédia — a exemplo da de Hiroshima na Segunda Guerra Mundial, quando a economia saiu da estagnação e atingiu o patamar de 12% —, volta à normalidade fortalecido, preparado para turbulências ainda mais violentas. Porque reconstruir e voltar à forma normal são as armas do resiliente, que, além de se recuperar, permanece cauteloso, fortalecendo as suas bases na iminência de um ataque.

Tamanha superação não tem segredo, pois uma das responsabilidades do governo é, literalmente, preparar a população para enfrentar situações de emergência — como terremotos, tsunamis, tempestades de gelo, chuvas de verão que provocam enchentes, deslizamentos… —, e estas são acatadas como normas invioláveis da escola, que promove o crescimento humano por meio de uma educação que valoriza a cultura e respeita as tradições, pois esses princípios são questão de honra para um país cujos costumes são passados originalmente de geração para geração e, o mais importante, exigem a parceria das famílias que educam com princípios e valores.

Essas atitudes nos ensinam que ser resiliente é confrontar os obstáculos e encará-los como desafios que devem ser superados. É transformar uma situação de desgraça em oportunidade para crescer, tirando proveito dos erros, aprendendo com os acertos e amadurecendo com as perdas por meio da superação, da capacidade de se recuperar através de decisões esboçadas, atos coerentes e conscientizar-se de que perfeito é unicamente Deus e ser resiliente é uma questão de educação e disciplina.

O poder de recuperação dos nipônicos ensina que ser resiliente é declarar aos problemas que o desejo de ser feliz se sobrepõe principalmente às tragédias, pois vencer é uma questão de criar oportunidades e transformá-las em escolhas para vencer. Devemos criar as nossas para proporcionar a nós a chance de levar uma vida sem abismos e nos conscientizar de que chances não se perdem, são agarradas por outros que vêm atrás de nós ambicionando alcançar o mesmo alvo: o equilíbrio.

Mas ser resiliente requer estrutura e capacidades específicas, entre elas o aprender. Aprender que o tempo perdido com inimizades, desamores, disputas pode destruir oportunidades de sermos mais felizes. Aprender que palavras podem abrir caminhos, mas fecham muitas portas, que bloqueiam a entrada de soluções. Por isso, aprender com o silêncio, com o olhar para o outro, com as perdas do outro é uma sábia experiência para evitarmos palavras que ferem, abatem, atiram milhares de pessoas ao precipício.

Tais ensinamentos nos advertem que ensinar com valores forma profissionais capacitados com valores inerentes à formação humana, pois conviver institui regras, perímetros, mas ensinar determina técnicas, e educadores resilientes são tudo para que a educação seja sinônimo de aprendizagem equilibrada.

Se o instrumento de fortalecimento social — a escola — não proporcionar condições para formar cidadãos resilientes, inserindo essa ideia no contexto dos educadores, continuaremos com uma sociedade falida, abalada pela violência, e um sistema político contaminado, no qual a resiliência é aplicada para reforçar salários e equilibrar benefícios.

Para proporcionar estrutura para que o educando vislumbre esse horizonte, é primordial blindar o educador com a couraça da capacitação, para que ele possa desenvolver competências que o auxiliem no enfrentamento da violência; a dissolver o preconceito; trabalhar as desigualdades como males que corroem as bases da Educação; inserir especialistas para trabalhar o psicológico, o emocional, o espiritual, o religioso; entender o que a criança vê em si, na família, na comunidade; e trabalhar esses pontos como base de sustentação, despertar o sistema de ensino para uma realidade que exige valorização do humano “educador”.

Para desenvolver essa habilidade no educador, é preciso que o sistema não apenas o habilite, ofereça condições dignas de trabalho, mas que o valorize com salários justos, para que a migração de escola em escola não o sobrecarregue; é preciso trabalhar a autoestima, proporcionando suporte psicológico e pedagógico. Assim, apresentam-se alternativas e “recarrega-se a bateria”, pois o educador é tão humano quanto os que procuram a escola em busca de vitórias e, como humano, também é alvo de turbulências familiares, problemas sociais, profissionais e financeiros e crises existenciais, que influenciam diretamente no desempenho do seu trabalho.

Se o sistema não preparar os seus profissionais técnica, emocional e psicologicamente para que possam encarar as próprias crises, atraindo para o espaço escolar valores que resgatem princípios, dificilmente as tempestades comportamentais provocadas pelas adversidades da sala de aula serão suplantadas.

Exercitar a resiliência como ferramenta no espaço escolar é preparar o corpo docente para educar com iniciativa e entusiasmo e formar cidadãos confiantes no que querem, no que podem. É prepará-los para romper o medo, a insegurança e transpor barreiras por meio da promoção do envolvimento, fazendo com que os pais participem da vida educacional do filho, com brincadeiras, jogos educativos, como testes na convivência familiar, aplicando a regra de que vencer ou perder é uma questão de atenção, esforço e persistência. Para que, sem perceber, a criança se veja impelida a buscar os próprios horizontes e criar as suas trincheiras de defesa.

Contextualizá-la na Educação é tão importante quanto salas amplas e informatizadas, educadores eficientes e gestores competentes. A resiliência pode ser um instrumento importantíssimo, pois vencer e superar sem consequências é uma necessidade. Afinal, o desafio de viver em meio a avanços tecnológicos, degradações de valores e tragédias colocam muitos entre os paralelos da morte e de uma vida sem expectativas.

Ser resiliente nesse clima de instabilidade e competitividade acirrada é um privilégio de poucos que se agarram nesse pendão como garantia de sucesso, pois a superação humana — cada vez mais desprovida pela ameaça da violência urbana e familiar, das tragédias naturais que vêm abalando nações, destruindo famílias inteiras — deixa todos em estado de alerta máximo, na iminência de um golpe fatal.

E a escola, como segundo lugar em que o indivíduo mais absorve informações por meio da convivência e do relacionamento interpessoal, deve ser um local onde a resiliência seja promovida como inserção de conhecimentos que fortaleçam a capacidade de superação, formando educandos preparados para encarar o mundo além do seu universo pessoal, do muro da escola, usufruindo dos recursos intrapessoais.

Educar com resiliência é importante porque…

Fortalece as bases do educador e educando, propiciando condições de trabalho e, se o sistema proporcionar salas de aula menos abarrotadas, especializações e inserir na carga horária tempo para estudos, pesquisas, para que o seu cotidiano se transforme num exercício que propicie situações que fortaleçam a autoestima, gerem o prazer de ensinar e a alegria de aprender, os resultados serão surpreendentes.

Sem essa defesa, o educador não terá condições de oferecer ao educando o amparo individual para evitar que muitos se tornem alvos vulneráveis a qualquer situação de dor, tristeza ou perda. Se não encontrarem suporte no ambiente escolar, com profissionais preparados para criar um vínculo positivo entre educando e educador, apoio afetivo com o envolvimento da família e trabalhar conteúdos que introduzam valores sociais, princípios religiosos, a escola dificilmente formará cidadãos resilientes.

Sabemos que muitos não superam por falta de iniciativas, por não acreditarem na capacidade de edificar os próprios sonhos — e essa deficiência de atitudes, esse descarte de valores, esse asfixiamento de sentimentos não lhes permitem ultrapassar as barreiras do universo pessoal — admitem ser derrotados pelas limitações, por não confiarem que vencer é proporcionar ao Eu a oportunidade para recomeçar, pois são os recomeços que impulsionam a ultrapassar, ir além e se cientificar do quanto podem ser fortes, capazes se resistirem, e é o fim que os aguarda se desistirem sem lutar.

É impressionante como, na trajetória humana, muitos não se descobrem no mundo por se depararem com dificuldades para transitar no sentido traçado entre os dois caminhos mais buscados: o da ambição, que acaricia o ego, e o da felicidade, que nina o coração. E é nessa passagem que muitos fortes caem por confiarem unicamente na força, e os fracos se elevam por agirem com sabedoria.

Mas é comum apreciarmos pessoas que fracassam, desistem de intentos com tamanha facilidade que chegam a abrir mão de ideais por encontrarem dificuldades para superar um dos maiores desafios do humano, que é vencer as suas limitações para exceder as barreiras lançadas pelo próprio Eu, e simplesmente perdem a direção, a opção de saída e agem obedecendo aos instintos por acreditarem que a autodefesa instantânea pode afastar ameaças, inconscientes de que essas reações são os manifestos da vulnerabilidade, que revela a desestrutura para enfrentar situações que exigem maturidade.

E, como muitos não superam esses empecilhos, vivem de aparências, usando o sorriso como cartão de visita, o olhar para expressar firmeza, atos para salientar valentia. Mas, quando se voltam para o próprio Eu, chocam-se ao se depararem com um cenário de angústia, decepções e dor.

Pois, quando o frágil fio da esperança se arrebenta, sonhos se despedaçam, sentimentos caem no despenhadeiro e vidas se destroem por não alcançarem um grau de maturidade para chegar à resiliência e entenderem que a maior derrota não é perder a batalha final, mas as deficiências de estrutura para se reconstruírem e jamais terem lutado para defenderem os próprios ideais.

Pois, num mundo de guerras, violências e artimanhas, é preciso proteção individual, edificar a base para se autodefender nas batalhas travadas diariamente. Nesse percurso, ser resiliente é mais do que uma virtude, é um antídoto para a superação de problemas, principalmente a neurose da sociedade atual: a depressão.

Para não ser contaminado por esse vírus que faz vítimas fatais, é fundamental aprender que o sorriso, o carinho, o amor são janelas que se abrem para a vida. Fechá-las, principalmente para o próximo, é podar sonhos, asfixiar ideais, interromper caminhadas. É se conscientizar de que aprender a perdoar, a doar, para melhorarmos como cidadão, como ser humano, como pessoa que ambiciona chegar ao alto, é abrir o nosso leque de oportunidades.

Mas é necessário maturidade para entender que a vida é uma montanha-russa: sempre haverá alguém abaixo e acima de nós.

Nessa excursão de sobe e desce, compartilhar pode ser uma forma inteligente de não chegarmos desprovidos na descida, pois a sensação de subir nina o ego, acalenta a alma, acelera o coração, mas a descida, mesmo com suas emoções delirantes, exige moderação, principalmente para não desabar e recomeçar sem danos.

Essa é a base do resiliente. A principal lição para quem ambiciona a resiliência para uma vida equilibrada. Afinal, vida é a soma de um todo. Um todo dosado com um misto de desafios, perdas, superação e conquistas. Aquele que não consegue adicionar esses ingredientes dificilmente se tornará um ser resiliente.

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