Edição 97

Lá Vem a História

Retalhos retocados

Leandro da Silva

Transitando no centro de Nilópolis, a passeio, fui surpreendido por um jovem assentado no chão e lamentando sobre… Não sei, essa é a grande verdade. Mas aquele ato me preocupou bastante. Não sei explicá-lo. De uma coisa eu tenho certeza, algo me incomodou para ouvir as prováveis queixas daquele jovem. Então, o fiz. — Tudo bem, menino — dizia eu!

Ele, por sua vez, continuou de cabeça baixa chorando incessantemente. O seu choro era um grito estarrecedor de socorro. Parecia que ele havia perdido a base da sua vida — os seus pais.

Bem, percebi que ele não queria muito assunto. A alma o inquietava. Não sabia qual era o motivo que o levou a peregrinar nas ruas. Era preciso, então, uma proximidade maior para, assim, conhecê-lo e ajudá-lo.

Resolvi indagar novamente:
— Tudo bem, jovem?

Depois de ouvir pela segunda vez uma voz grave o chamando, ele aos poucos elevou a cabeça e tentou tirar força da alma para me responder assim: — Olá!

Essa foi a única palavra que o jovem conseguiu exprimir: — Olá!

Após um breve diálogo entre mim e ele, percebi no seu olhar que aquele menino estava vivendo uma vida por conta própria. Seu olhar era vago e sem foco. Sua voz, trêmula e incapaz de anunciar o que de fato estava sentindo. Era patente observar que a fase da adolescência tinha sido derrubada pela solidão materna e paterna. Sua fase transitória entre a infância e a adolescência tinha sido interrompida por uma maturidade precoce e desnecessária. Era uma criança doente e amargurada, sem nenhuma expectativa de vida. Os seus retalhos (aqui representados como os conflitos da alma) precisavam de retoques.

— Olá! — respondi da mesma forma para mostrar-lhe que não existia nenhuma distância entre mim e ele.

— Posso tomar assento aqui com você? — indaguei-lhe.

— Sim, pode — ele respondeu.

— Por que você se encontra desta maneira? Divida comigo a sua dor, as suas angústias e os seus lamentos — eu disse.

Aos poucos eu ia percebendo que o jovem estava querendo alguém para conversar sem exigências e, sobretudo, com tempo para entendê-lo.

— O senhor nem me conhece e quer me ajudar? — disse ele estranhando a minha postura.

— Sim! Será que você me autoriza? Ou quer tentar derrubar esses gigantes da alma sozinho? — eu respondi-lhe.

Notei que ele não tinha pressa e tampouco coragem para mencionar o que de fato estava acontecendo com ele. Seu estilo era de um jovem de família que tinha posses. Um jovem a quem não faltava nada — essa foi a minha leitura imediata. Mas lhe faltava alguma coisa.

— Já tentei por várias vezes dominar os retalhos da minha vida, mas não estou conseguindo… Eles, os meus pais, me dão tudo que eu peço. Sou um filho que talvez o senhor gostasse de ter. Não sou indisciplinado. Gosto muito de estudar. Sou respeitoso. Carinhoso. Atencioso — ele me contou um pouco da sua vida pessoal.

Confesso-lhes que fiquei com uma pulga atrás da orelha. Se os pais são presentes, uma vez que eles dão tudo ao seu filho, por que eu o havia encontrado desolado? Que situação estranha! Ele confessou que tem muitos retalhos que não foram resolvidos.

— Que maravilha! Quer dizer que os seus pais cooperam bastante para você ser um adolescente sadio! Estão sempre por perto! Não somente exigem, mas incentivam e investem nos seus estudos! Possuem diálogos abertos! Estão sempre prontos para o ouvir! Estou feliz! Mas eu preciso ser sincero com você — disse eu.

— Pode perguntar o que o senhor quiser! Eu estou gostando muito de conversar com você — disse ele.

— Ok! Estou com uma pulga atrás da orelha. Podes me ajudar a retirar? — indaguei- lhe.

— Eu sabia que o senhor ficaria um pouco confuso. Como pode um adolescente falar bem dos seus pais e estar assentado aqui, numa pedra servindo como poltrona, chorando e totalmente perdido? — ele respondeu conscientemente.

— Foi isso mesmo que eu pensei, nobre jovem — eu lhe respondi.

— Vou tentar lhe contar. Tudo poderia ser diferente na minha vida se meus retalhos fossem retocados (confrontados) por eles. Mas não foi isso que aconteceu. Vivo demonstrando, para eles, ser um adolescente forte, com uma personalidade firme, bem resolvido e sem nenhum conflito que abale minha estrutura. Apenas finjo ser o que de fato não sou e não gostaria de ser. E o que mais me chateia é que eles não conseguem enxergar, que não sou o que eles estão pensando que sou. Eu consigo enganá-los facilmente. Ser um adolescente sorridente, disciplinado, educado e estudioso não quer dizer que os meus retalhos (ilusão, confusão, solidão, vontade de fazer uso de drogas ilícitas, explorar o mundo e carência) foram corrigidos. Pelo contrário, eles não têm sido resolvidos pelos meus pais. Eles acham que sou maduro o suficiente para administrar todos os meus embates da alma. Dizem, na roda dos amigos, que sou bastante maduro para dirigir meus dilemas. Estou cansado de viver no engano para deixá-los despreocupados. Preciso de ajuda urgentemente! Agora você entendeu? — disse, respondendo meu questionamento.

Aos poucos eu ia percebendo que o jovem estava querendo alguém para conversar sem exigências e, sobretudo, com tempo para entendê-lo.

O jovem lavou a sua alma. Mostrou-se maduro em alguns aspectos.

— Entendi perfeitamente. A imaturidade dos seus pais os fazia acreditar que você era o outro desconhecido. Eles lhe davam o que você não tinha falta, apenas isso. A grande verdade, meu jovem, é que eles também foram criados dessa forma. Só dão aquilo que receberam. Sendo assim, levante desta pedra e vá para a sua casa contar-lhes o que você me relatou hoje. Abrace-os e tente entendê-los. Até porque eles são filhos como você — disse eu.

O jovem prontamente se levantou daquele conformismo e disse assim:

— Hoje aprendi que os meus pais também precisam retocar os seus retalhos, e a peça-chave para este retoque sou eu. Entendê-los será, a partir da presente data, um desafio.

Moral da história:
Conhecer o filho na íntegra é fundamental para ensiná-lo a dirigir os seus tumultos da alma. Parabéns aos pais que conhecem, na íntegra, o filho que têm dentro de casa.

Leandro da Silva é graduado em História pela Universidade Gama Filho/RJ. Coordenador Pedagógico no Colégio e Curso Frônesis/Nilópolis/RJ. Professor de História no Centro Escolar São Mateus/São João de Meriti. Pós-graduando em Gestão da Educação e Políticas Públicas Educacionais pela Faculdade Educacional Araucária (FACEN)/SP. Autor do livro Pais e Filhos — Editora All Print/SP.
E-mail: prof.leandrosilva23@yahoo.com.br

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