Edição 45

Matérias Especiais

Saber indígena, encontro com a humanidade

Socorro Vieira

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A diversidade cultural no Brasil não pode prescindir das culturas tradicionais indígenas, guardiãs de uma memória coletiva de outras formas de perceber o mundo e a natureza, com diferentes racionalidades e modelos de convivência social. Ainda encontramos comunidades indígenas que preservam traços originais, falam línguas próprias, têm modos de organização social, crenças, técnicas e mundos simbólicos particulares.

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Nesse contexto, a relação com o sagrado, conformando os sentidos da existência, torna-se mais evidente.

O sagrado humaniza a pessoa e a sociedade

Nas sociedades tradicionais indígenas, cabe ao rito, como espaço simbólico de manifestação do sagrado, a incessante tarefa de dominar ou afastar o caos e estabelecer a ordem, por meio da dramatização coletiva e de seus elementos de simbolização. Os mitos, representantes do sagrado e donos dos saberes supremos, perpetuam-se. Na dramatização ritual, garantem a sobrevivência das sociedades e das racionalidades que as ordenam e contribuem para a definição de uma identidade coletiva. É pelo ritual que eles “purificam” a sociedade, banindo a doença, o mal, a desordem e os impulsos selvagens. É pelo rito que ocorre a iniciação em todas as etapas da vida, e o ser humano torna-se um ser social.

A ritualização entra, portanto, em composição com o sagrado e é uma prática de todas as culturas que atuam eficazmente no sentido de reproduzir, pela encenação e pela simbolização, o imaginário coletivo que sustenta as formas de organização social, mantendo uma continuidade e uma ordem. Nas sociedades indígenas, tudo é visto em estreita ligação: vida humana e natureza fundem-se numa única lógica. A competição individualista não encontra bases para se desenvolver e se fixar.

Laços desfeitos, pistas perdidas, luzes apagadas

A determinação da cultura atual de apagar o não moderno da memória coletiva desconsidera o fato histórico de que as sociedades contemporâneas fixam raízes nos terrenos das culturas tradicionais e de que os povos primitivos são autores de engenhosos e sábios projetos de domesticação de relações sociais conflituosas, sobre os quais foram edificadas as civilizações antigas e atuais. As novas concepções culturais não percebem o que essas culturas podem oferecer, em termos de sentidos da existência e de lógicas de interação das pessoas entre si e com a natureza.

Ao romperem com a herança cultural dos mundos primitivos e tradicionais, com seus saberes, seus universos simbólicos e seus mitos, as culturas modernas cortaram laços significativos da humanidade com suas origens, eliminaram pistas que poderiam indicar possíveis rumos e destruíram conhecimentos que ajudariam a iluminar seus percursos. No Brasil, a devastação humana e cultural, através das lutas de forças desiguais, atravessou o século 20. Vários artifícios foram, e ainda são, utilizados em manobras inescrupulosas pela apropriação dos territórios indígenas. A introdução proposital de gripes e outras epidemias em comunidades de índios é um exemplo desse traço de brutalidade da civilização moderna.

Mas as forças enigmáticas, fundadoras e controladoras dos universos concebidos pelos povos indígenas, desafiam as leis da sociedade civilizada. Algumas culturas, aparentemente dizimadas, ressurgem, reocupam seus antigos espaços e difundem-se, vitalizadas por seus mitos e ritos. A tradição, embora desprezada, executa silenciosamente a tarefa de protegê-las.

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É preciso reaproximar o secular e o sagrado

Nas sociedades contemporâneas, novas racionalidades, fundamentadas nos saberes seculares, sobretudo no conhecimento técnico e científico, são instauradas em todos os espaços de socialização dos indivíduos. O processo acelerado de dominação da natureza destrói mitos e desafia os poderes dos deuses. Essas concepções são construídas num deslumbramento quase fanático pelo avanço tecnológico e por seus efeitos: a acumulação de riquezas, a alteração de tempo e de espaço, as facilidades trazidas pela modernidade. Tais racionalidades adquiriram força dogmática idêntica à das religiões e providenciaram os meios de se expandirem e de eliminarem os obstáculos do seu curso.

Uma das estratégias é desvirtuar o passado, que é considerado atraso e arcaísmo, contrapondo o “sem cultura”, o rude ou o selvagem à cultura moderna da obsessão pelo consumo, pelos padrões e pelas etiquetas de civilidade.

Mas o estado permanente de incertezas e mudanças fragmenta e enfraquece a organização social. Assim, da mesma forma que as sociedades tradicionais, o mundo moderno também constrói suas instituições e instâncias de ordenação social que, embora ritualizadas, tornam-se efêmeras e mutantes, perdem o poder de fornecer respostas e segurança aos indivíduos e, portanto, a capacidade de gestão da desordem, provocando uma ansiedade e um desamparo social.

Um traço marcante distingue as sociedades indígenas tradicionais das sociedades modernas. As primeiras demarcaram seus rumos com base numa certeza fundamental que configura a relação das pessoas entre si e com o mundo: a de que os poderes regentes da natureza e da existência (vida e morte) extrapolam as forças humanas e pertencem ao domínio do sagrado e dos mitos. Já na modernidade, o sagrado reaparece, mas difuso e transfigurado, impotente para eliminar a angústia e o desamparo social produzidos pela incerteza num mundo individualizado. Os mitos modernos dão respostas parciais, acabam não cumprindo o prometido e, por isso mesmo, são frequentemente permutados, ficam à mercê das escolhas dos indivíduos, expostos como mercadoria, com todos os atrativos do consumo e do mercado.

Inicialmente, a Ciência, obstinada pela secularização e empenhada em promover o desenvolvimento, tentou banir o sagrado, banalizou os mitos, os ritos e os valores tradicionais. Na atualidade, ela própria, mergulhada na incerteza e na multiplicidade de possibilidades que sua incessante produção fez brotar, continua à procura de elementos que restabeleçam a ordem social e sinalizem segurança, permanência e direção.

Nesse cerco, à procura de horizontes, a Ciência é obrigada a buscar pontos originários das sociedades,norteadores e formadores de sentido.

Ela tenta, dessa forma, encontrar pistas da complexidade nos mundos desaparecidos
ou subterrâneos e nos saberes preservados nos invólucros da tradição.

Socorro Vieira é Doutora em Ciências e professora adjunta do Programa de Pós-graduação em Serviço Social na Universidade Federal da Paraíba.
E-mail: socorrosvieira@yahoo.com.br

Fonte: Revista Diálogo: Educação, do Preconceito à Diversidade. Ano XIII. Nº 50. Maio de 2008. p. 18–21.

Referências Bibliográficas

BALANDIER, George. O Contorno: Poder e Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. Idem. A Desordem: Elogio do Movimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
BIRMAN, Joel. Mal-estar na Atualidade: Psicanálise e as Novas Formas de Subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Tópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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