Edição 22

Ambiente-se

Salve o Mangue!

Estuário tem lama rica em alimento

Estuário é a faixa de transição entre os ambientes terrestre e marinho. É onde a água do mar se encontra com a água doce do rio. Dessa mistura, surge um solo alagado, salino e rico em nutrientes e em matéria orgânica. Poucas plantas estão aptas a sobreviver num local inundado pelo mar e com pouco oxigênio. Mas isso não impede que florestas cresçam na água salobra: são os manguezais.
A matéria orgânica é produzida por fungos e bactérias que decompõem proteínas, açúcares e gorduras de animais e os transformam em alimento espalhado na água.

Manguezais estão ameaçados

Existem catorze zonas estuarinas ao longo dos 187 km de costa em Pernambuco. Mas apenas três estão preservadas. As onze restantes vêm sendo destruídas. Os motivos são muitos. Em Paulista, em Olinda e no Recife — áreas fortemente degradadas —, muitas casas e prédios despejam esgotos sem tratamento, causando enorme poluição. Há indústrias que liberam resíduos poluentes, como cloro e caldas de usinas de cana. Estuários e manguezais têm sido aterrados para a realização de obras públicas e moradias. Em Suape, a construção do Porto destruiu mais de 600 hectares de mangue. É triste demais. Principalmente porque essa destruição mexe com o equilíbrio de um ecossistema complexo, que demora de cinco a dez mil anos para se formar.

Curiosidades
• Um manguezal leva entre 15 e 20 anos para ficar completo.
• Da casca do mangue-vermelho se extrai o tanino, substância usada pela indústria para o tratamento de couro.
• As litorinas são pequenos caramujos que ajudam o ser humano a conhecer o nível do mar. Elas se agrupam nas raízes do mangue e servem para “marcar” o sobe-e-desce da maré.
• As ostras (Crassostrea rhizophorae) deveriam ser depuradas antes de ingeridas pelos seres humanos. Basta deixá-las durante 12 horas em água limpa e pronto: bom apetite!
• No sertão do Araripe, em Pernambuco, há vestígios de estuários que existiram há 65 milhões de anos, quando o local era mar.
Manguezais e estuários são ecossistemas* auto-sustentáveis porque produzem seu próprio alimento. Servem como filtro natural, transformando as impurezas que vêm pelo rio e reciclando a água do mar.

Manguezal é floresta

O manguezal tem diferentes tipos de árvores, como o mangue-vermelho, o mangue-branco e o mangue-siriúba. Em apenas cinco anos, uma árvore de mangue fica adulta e reproduz, podendo chegar a vinte metros de altura. Suas raízes são capazes de passar períodos cobertas pela água do mar e conseguir o oxigênio que não encontram no solo. É o caso das raízes chamadas pneumatóforos, que deixam uma ponta fora da lama, ajudando a planta a “respirar”. Bromélias e orquídeas são outras espécies da flora do manguezal.

Manguezal e estuário: base da cadeia alimentar dos oceanos

Manguezais e estuários são ecossistemas* auto-sustentáveis porque produzem seu próprio alimento. Servem como filtro natural, transformando as impurezas que vêm pelo rio e reciclando a água do mar. Observe como funciona a cadeia alimentar:

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* Os ecossistemas são formados pelo local e pelos seres que nele vivem e se relacionam, interferindo no meio físico.

Na pontinha da cadeia, estão os fungos e as bactérias, que entram em ação no fundo dos estuários, mineralizando e decompondo tudo o que morreu e transformando novamente em vida. É a matéria orgânica: alimento prontinho para os produtores.

Aqui estão os consumidores secundários, os carnívoros: aves, peixes e mamíferos, inclusive o ser humano. Todos utilizam os produtores secundários como parte do cardápio.

A larva de caranguejo, a zoéia, é um microcrustáceo que está no segundo grupo, o dos consumidores primários ou produtores secundários. Aqui, temos os animais que só comem plantas e vivem debaixo d’água. Há larvas de ostra e de peixe e também animais adultos. Até o peixe-boi, que é um mamífero herbívoro, faz as refeições a partir do trabalho dos produtores.

A base é formada pelos produtores: milhares de plantas concentradas na superfície do estuário. Algumas são pequenas, como o fitoplâncton, uma microalga que não pode ser vista a olho nu. Outras são maiores, como as algas vermelhas, pardas e verdes. Com a luz do sol, elas fazem a fotossíntese e produzem energia. Esse processo é chamado biomineralização do alimento.

Pesca artesanal sustenta famílias

Mais de 20 mil famílias de pescadores sobrevivem da pesca artesanal e da coleta de moluscos e crustáceos em Pernambuco. É o caso de Miriam Martins, de 29 anos. Filha de pescadores de Itapissuma, ela aprendeu com os pais a profissão. Miriam é marisqueira e sustenta os três filhos coletando siris, ostras e sururu em Itamaracá. Consegue 4 kg de mariscos e 2 kg de siri por semana. Costuma vender os animais aos domingos, na Praia de Boa Viagem. Miriam sobrevive respeitando o meio ambiente: “Só pego os grandes. Ostra e siri novinhos, eu solto para que possam crescer”, diz a marisqueira. O local de trabalho também oferece lazer. Quando a maré sobe, e os filhos não estão na escola, a pedida é nadar no estuário: “A gente adora”, afirma ela.

Fonte: Salve o Mangue! Suplemento especial do meio ambiente, julho/2001. Programa Leitor do Futuro – Diario de Pernambuco. Oficina 2 Rodrigues – Produção Cultural.

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