Edição 59

Matérias Especiais

São muitos os alunos resilientes?

Celso Antunes

Muito mais do que se poderia imaginar.

A democratização do ensino e a facilidade para as condições de acesso à escola sofreram brutal mudança nos últimos dez anos, e, dessa forma, milhões de crianças antes afastadas do estudo pelo trabalho infantil ou pelas dificuldades múltiplas impostas por uma escola elitista puderam chegar às salas de aula e, não raramente, em muitas classes das escolas públicas, constituem a maioria ou a totalidade dos alunos. Esse número continua a crescer, e o perfil socioeconômico do aluno do ensino público de dez anos atrás rapidamente se transfigura. De um integrante da classe média, satisfatoriamente alimentado e usufruindo de razoável condição de habitação e lazer, passa a ser filho de mãe solteira ou pai desconhecido, egresso de uma família estruturada em bases totalmente diferentes da família convencional, suportando duras pressões sociais que se associam a um quadro de fome qualitativa, indigência, miséria e violência.

O paradoxo é que esse aluno resiliente descobre uma escola pública moldada em estruturas antiquadas e com professores geralmente despreparados para acolhê-lo. Essa situação mostra perspectivas de agravamento, uma vez que foram definitivamente removidos os impedimentos, trazendo esse novo aluno a essa superada escola.

ANTUNES, Celso. Resiliência: a Construção de uma Nova Pedagogia para uma Escola Pública de Qualidade. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

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