Edição 43

A fala do mestre...

Se a boa escola é a que reprova, o bom hospital é o que mata

Hamilton Werneck

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Ao abordarmos a questão da avaliação do rendimento escolar, precisamos levar em conta a cultura da reprovação aqui instalada desde os tempos da colonização pelo fato de os colonizadores não necessitarem de cérebro para levar adiante a Colônia. Para tanto, bastava a força física.

A cultura da reprovação era o alicerce para a liberação da mão-de-obra barata endereçada ao corte da cana, às minerações e ao trabalho braçal em geral. Portanto, a educação era para muito poucos, sobretudo porque não se tinha a necessidade, dentro da visão do colonizador, de se distribuir renda.

Passamos da Colônia ao Império e daí à República, permanecendo, porém, a mesma mentalidade entre nossos governantes e entre as forças produtivas do País.

Para justificar tal situação, o comando do processo centrava-se nos currículos oficiais, sempre beneficiando uma determinada classe social, uma vez que os menos favorecidos não são contemplados em função de suas culturas de origem. Poucos, portanto, conseguiam atravessar um ensino voltado para um ambiente cultural que estava relacionado a uma minoria.

Tendo assimilado isso, o corpo docente das escolas, formado nas universidades de mesma mentalidade, ainda hoje reporta os mesmos estigmas à educação — que, se não enfrentar uma mudança curricular séria, terá sempre os mesmos problemas —, alegando, em nome da boa qualidade (leia-se currículo oficial), que não poderá mandar adiante os alunos que nada sabem.

Alguns buscam a justificativa estatística voltando-se para a curva de Gauss e, com essa análise, concluem ser natural e “normal” que sempre existam alguns reprovados, sendo que os poucos excessivamente bons não são contemplados com especiais cuidados da escola. Assim, busca-se o processo que leva à mediocridade, existindo até, em nossos dias, exames vestibulares que usam fórmulas estatísticas que beneficiam os resultados médios, como que descartando os pontos fortes dos alunos.

Se submetêssemos os resultados aos crivos de ênfase nos pontos fortes, não poderia subsistir tal processo. O método estatístico de classificação prioriza a mediocridade na sua busca tecnicista de valores médios em detrimento de genialidades em aspectos específicos.

Usando esse sistema com o apoio estatístico, o professor, por vezes, não percebe que, se os tempos fossem diferentes, os resultados poderiam contrariar a curva em que ele se apóia.

É por isso que professores e famílias e até sistemas de educação acreditam mais nas escolas que reprovam do que nas escolas que conseguem fazer com que seus alunos aprendam, dado que é “natural” para eles haver reprovação, e o antinatural é ter os alunos aprovados. Quando todos são aprovados, a estrutura social não aceita o resultado como confiável.

Daí o resultado de os exames escolares serem verdadeiros concursos, e não a aferição do rendimento, sobretudo dentro de uma característica diagnóstica que provoque mudanças futuras.

Cria-se, então, a idéia de uma escola verdadeiramente pesada, de conteúdos carregados, difíceis de serem suportados pelos alunos e, o pior de tudo, marcada de conteúdos desnecessários, desatualizados. Assim, diminui-se o papel importante do professor como criador de situações de alta significação para os estudantes, transformando-o em mero“piloto” de livro didático, o que acarreta, ao mestre, uma grande frustração, já que a sua missão é altamente criativa.

Centra-se, então, o trabalho escolar em currículos que saturam e tiram a felicidade dos alunos, criando, no momento das avaliações, um clima desagradável e de oposição entre educador e educando. Isso é sentido pelos mestres responsáveis quando chega a semana de provas, se as avaliações não ocorreram durante o processo.

Mas existem, por incrível que pareça, os que gostam de tudo isso, como se familiares escolhessem um hospital com todas as características constrangedoras para lá colocar seu ente querido, imaginando, assim, salvar-lhe a vida. Como se o bom hospital fosse aquele que eliminasse a vida, porque certas escolas eliminam a vontade de estudar, matam os gênios, promovem os medíocres ou, o que é muito pior, quando instadas a mudar, “mandam” para a série seguinte os que sabem e os que não sabem, exatamente para provar que o sistema seletivo e excludente é a solução.

Mesmo com a Independência, com o Império e todas as repúblicas, nós permanecemos com mentalidade colonizadora em relação à avaliação do rendimento escolar.

As mudanças solicitadas ao sistema passam pelos conceitos de eficiência e eficácia. Hoje, muitas escolas são eficientes, porém pouco eficazes, exatamente porque não fazem o que deve ser feito. Assim, os alunos se desinteressam e não gostam das escolas, perdendo-se pelo meio do caminho, atrapalhando o desenvolvimento do País através da permanência da má distribuição de renda.

Se a escola percebesse que as reprovações comprometem o seu nome e seu capital intangível — porque a boa escola deveria ser a que ensinasse e o aluno aprendesse, tanto quanto um bom hospital deveria ser aquele que permitisse a maior cura de seus pacientes —, a situação seria outra, porque estariam mudados os conceitos de qualidade em educação. A qualidade deve ser avaliada pela convivência, pela partilha, pela inclusão, pela solidariedade e pela relação de confiança entre educador e educando. O que faz perder a força desses itens certamente não será uma boa educação, porque seu perfil será gerador de excessiva competição no lugar da cooperação, produzirá mais excluídos, e não partícipes dos bens que o País é capaz de produzir.

O que se propõe para transformar as escolas é que sejam lugares em que exista a esperança.

“Nenhuma equipe produz dentro da tristeza. A tristeza é sinal da falta de esperança. A cara feia, a carranca, a mesma coisa. Somos alegres e felizes porque temos esperança, e, por sua vez, a esperança é fruto de uma crença, de uma fé forte e segura de que estamos criados e em processo de criação, construindo este mundo para melhor; portanto, nossas mãos se estendem em sinal de solidariedade e ajudam o crescimento dos demais.”

Numa visão de Einstein, nós fazemos parte do universo, e, se crescemos, o universo cresce conosco. Não estamos sozinhos, existem bilhões de seres humanos e viventes pulsando conosco.

“Nossa esperança leva a crer que, na medida de nosso crescimento, há um crescimento proporcional de toda a criação pela solidariedade de todos os entes criados, todos obras do Criador.”

Prof. Hamilton Werneck
www.hamiltonwerneck.com.br

Referências Bibliográficas

WERNECK, Hamilton. Se a Boa Escola é a Que Reprova, o Bom Hospital é o Que Mata. 8. ed. Rio de Janeiro: DPA, 2000.

Sobre avaliação, do mesmo autor: Prova, Provão, Camisa de Força da Educação, da editora Vozes; e A Nota Prende, a Sabedoria Liberta, da DPA.

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