Edição 73

Matérias Especiais

Síndrome de burnout em docentes: Suas causas e estratégias para ser enfrentada

Adriana Barros

conjuntosNas últimas décadas, estudos se voltam para a compreensão da síndrome de burnout em docentes; inicialmente, é possível entendê-la como uma reação do organismo às pressões sofridas pelos professores. Estas os conduzem a apresentar uma série de comprometimentos de ordem biopsicossocial, prejudicando a qualidade do ensino e, ao mesmo tempo, gerando problemas para os alunos, para a administração, para os pais, para a sociedade e para toda a comunidade escolar.

Atualmente, compreende-se o sofrimento psíquico de professores como um sinal do mal-estar que se instalou na realização do trabalho pedagógico. Essa concepção é pensada segundo as questões conflitantes, geradoras e inibidoras da ação e do desejo do professor relacionados à sua prática.

Para as reflexões sobre o sofrimento psíquico docente, partiremos das muitas características apresentadas, que frequentemente são queixas relacionadas a dores de cabeça, vômitos, cansaço físico, desânimo, tristeza, irritabilidade, caracterizando sintomas relacionados à subjetividade, ao desgaste psíquico, oriundos do trabalho docente e que podem refletir no equilíbrio organísmico.

Tal fenômeno se deve, principalmente, à evolução das sociedades contemporâneas. Haja vista que já houve uma época em que o ato de ensinar era considerado um sacerdócio, uma vocação, a que os profissionais da Educação deviam dedicar-se quase heroicamente, na verdade a atitude heroica parece se fazer presente no contexto atual, já que o docente vem sobrevivendo frente a tantos infortúnios. Ser professor era motivo de grande orgulho profissional, uma vez que a profissão desfrutava de amplo prestígio social, além de uma realidade sociopolítico-econômica bem distinta da dos dias atuais, ou seja, as questões salariais, bem como as condições de trabalho, eram bem melhores que as de hoje.

Atualmente, o professor percebe-se cobrado a efetuar mudanças em um tempo muito pequeno. Tal entendimento é reforçado por Esteve (1999, p. 59) ao relatar que o professor está sobrecarregado de trabalho, obrigando-se a realizar “uma atividade fragmentária”, na qual deve realizar múltiplas tarefas concomitantemente. A ele, é cobrado lidar com aspectos potencialmente estressores — como baixos salários, escassos recursos materiais e didáticos, classes superlotadas, tensão na relação com os alunos, excesso de carga horária, inexpressiva participação nas políticas e no planejamento institucional, comportamento disciplinador — com sorriso simpático, comunicação repleta de gentileza, inserção equilibrada dos limites, coerência na avaliação e habilidade e capacidade na orientação aos alunos, bem como o estando sempre a postos para receber os pais, sinalizando o momento pedagógico e comportamental do seu filho, além dos compromissos burocráticos e das diferentes identidades das empresas/escolas em que atuam. Todavia, frente a essa lista que parece ser interminável, não pode sequer esquecer-se de olhar para si e se esforçar para lembrar que tem vida própria.

O homem da modernidade vem encontrando dificuldade em dar um sentido à vida dissociado do trabalho. É importante que este espaço redirecione o sentido de sua experiência enquanto ambiente de convivência sadia, respeito, compromisso e qualidade de vida própria.

O trabalho forma a identidade do indivíduo, a profissão do indivíduo caracteriza o seu ser, o indivíduo é a sua profissão. Jacques (1996) afirma que os diferentes espaços de trabalho oferecidos constituem-se em oportunidades diferenciadas para a aquisição de atributos qualificativos da identidade do trabalhador.

A partir do momento em que o indivíduo está inserido no contexto institucional, está sujeito a diversas variáveis que podem diretamente atingir o seu trabalho. Em muitas situações, a organização age pressionando o profissional, levando-o a estados de doença, de insatisfação e de desmotivação. Entre estes, encontram-se o estresse e a síndrome de burnout.

O termo burnout consiste na composição de duas palavras da língua inglesa — burn = queima e out = exterior — e sugere que a pessoa, ao sofrê-lo, acaba ficando física e emocionalmente consumida, além de apresentar comportamento agressivo e irritadiço (BALLONE, 2005).

Para Pereira (2002), burnout é um termo que remete a uma gíria da língua inglesa que se refere “àquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia [...] uma metáfora para significar aquilo ou aquele que chegou ao seu limite e, por falta de energia, não tem mais condições de desempenho físico ou mental” (p. 21).

De acordo com Esteve (1999), significa morrer de tanto trabalhar, consumir-se em chamas, é um tipo de estresse ocupacional que se caracteriza por profundo sentimento de frustração e exaustão em relação ao trabalho desempenhado, sentimento que aos poucos pode estender-se a todas as áreas.

A definição mais aceita atualmente sobre a síndrome de burnout fundamenta-se na perspectiva sociopsicológica (Maslach & Jackson, 1981). Essa perspectiva considera a síndrome como uma reação à tensão emocional crônica causada por se lidar excessivamente com pessoas. É um construto formado por três dimensões relacionadas, mas independentes.

A primeira delas é a de exaustão emocional, caracterizada pela falta ou carência de energia e entusiasmo e pelo sentimento de esgotamento de recursos. É possível somarem-se sentimentos de frustração e tensão, pois os trabalhadores podem perceber que já não têm condições de despender mais energia para o atendimento de seu cliente ou demais pessoas como faziam antes.

A segunda é a de despersonalização, situação em que o profissional passa a tratar os clientes, os colegas e a organização como objetos. Os trabalhadores podem desenvolver uma insensibilidade emocional.

A terceira dimensão é a baixa realização pessoal no trabalho, definida como uma tendência do trabalhador a se autoavaliar de forma negativa. As pessoas se sentem infelizes consigo mesmas e insatisfeitas com seu desenvolvimento profissional. Também experimentam um declínio do sentimento de competência e êxito, bem como de sua capacidade de interagir com os outros.

O fenômeno burnout foi pesquisado e estudado em relação aos professores e à situação de ensino mais do que em relação a outras áreas profissionais, o que talvez indique que o trabalho do docente é visto como catalisador das condições propícias ao desenvolvimento da síndrome, que começa com uma sensação de inquietação e aumenta à medida que a alegria de lecionar, gradativamente, vai desaparecendo.

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Segundo Reinhold (Lipp, 2002, p. 65), o burnout é um risco ocupacional ao qual estão expostas, especialmente, as pessoas que trabalham em profissões altruístas, as quais têm em comum os contatos interpessoais intensos — como acontece com os professores. O burnout se instala, muitas vezes, a partir de expectativas elevadas, e não realizadas.

Wanderley Codo define o burnout como o nome da dor de um profissional encalacrado entre o que pode fazer e o que efetivamente consegue fazer, entre o céu de possibilidades e o inferno dos limites estruturais, entre a vitória e a frustração (Codo, 1999, p.13).

Ainda segundo o autor, burnout foi o nome escolhido para definir uma situação de estresse e, em português, significa algo como perder o fogo, perder a energia.

É uma síndrome através da qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas já não o importam mais e qualquer esforço lhe parece inútil (Codo, 1999, p. 238).

Codo (1999, p. 240) alerta que o estudo da literatura internacional indica que não existe uma definição única sobre o burnout, mas é consenso nos estudos até hoje desenvolvidos que seria uma resposta ao estresse laboral crônico.

A síndrome de burnout é descrita na literatura como intimamente ligada ao estresse. Apesar das similaridades, estresse e burnout são coisas distintas. O estresse é definido como uma reação de adaptação do organismo, com três fases: alerta, resistência e exaustão (Lipp, 2001 p. 11–13). Já as características principais do burnout envolvem sentimentos de insatisfação, desilusão, falta de realização, distanciamento emocional, impotência e apatia, incluindo três fatores que podem ou não se manifestar de forma sequencial: exaustão emocional, falta de realização pessoal e despersonalização (Maslach; Jackson, 1981 apud Lipp, 2004, p.132).

O burnout está sempre relacionado com atividades laborais, e o estresse não necessariamente. No entanto, o que de fato diferencia o estresse da síndrome de burnout está nas consequências de um e de outro; ou seja, o estresse acomete quase sempre apenas a pessoa envolvida, já a síndrome vai mais além, afetando também o resultado do seu trabalho e as pessoas que estão diretamente envolvidas no ambiente onde o fenômeno é constatado.

Os profissionais de educação e saúde são apontados como uns dos que mais sofrem dessa síndrome, já que estão em contato direto e excessivo com seus usuários. Sabe-se que pessoas que trabalham em profissões sociais são geralmente dotadas de grande idealismo, desejam intensamente ajudar os outros e esperam ter um alto índice de liberdade pessoal e autonomia em seu trabalho; em contrapartida, desejam reconhecimento pelo seu engajamento. A falta desse reconhecimento torna-se fator de predisposição para a síndrome de burnout.

Inicialmente, a síndrome pode se tornar imperceptível; ela não acontece repentinamente, é um processo acumulativo, começando com pequenos sinais de alerta que, quando não são percebidos, podem levar o “[...] professor a uma sensação de quase terror diante da ideia de ter que ir à escola” (Lipp, 2002, p. 65). O burnout em docentes afeta o ambiente educacional e interfere na obtenção dos objetivos pedagógicos, leva esses profissionais a um processo de alienação, desumaniza o trabalho, ocasionando problemas de saúde, absenteísmo e intenção de abandonar a profissão. A síndrome de burnout pode ser tanto um quadro temporário como pode se tornar uma situação constante e permanente.

Nesse contexto, o educador, com todo o seu empenho, esforço e aparato metodológico, dá-se conta de que não consegue ser “perfeito” em sua ação educativa, pois nem tudo sai como planejado, e a garantia de que “tudo vai dar certo” geralmente é substituída por um sentimento de frustração quando percebe que algo está sempre faltando, que não consegue tudo “controlar”.

No contexto das instituições educacionais, tem sido comum ouvir dúvidas, angústias e reclamações sobre as atuais condições de trabalho do professor: falta de recursos materiais, desvalorização salarial, jornada dupla de trabalho, pressão sofrida pela escola para tratar de questões que deveriam ser tratadas no âmbito familiar, falta de envolvimento da família com as questões educacionais de seus filhos, insatisfação com as disparidades entre as discussões teóricas recebidas em sua formação e seu uso na prática, entre outras.

Com isso, é possível perceber, de forma clara e evidente, os indícios de desânimo e descontentamento com a profissão docente, a dúvida sobre a importância do professor, a desvalorização de sua profissão, o excesso de trabalho, as dificuldades em relacionar teoria e prática nas situações cotidianas.

Tudo isso faz despertar para aquilo que é concebido como uma crise de identidade pela qual vêm passando os professores do nosso tempo. Os conflitos que vivenciam quando são/estão inseridos na prática, em relação às teorias discutidas na formação, apresentam uma grande dissonância, ou seja, como dito corriqueiramente, “a teoria na prática é outra”.

Mediante essa comprovação, é de grande importância motivar a reflexão e o senso crítico sobre a valorização da profissão docente. A sociedade, as autoridades e os educadores precisam mudar comportamentos, redefinir conceitos e atitudes, bem como os valores em que acreditam, os objetivos que os motivam a trabalhar e o tipo de homem que querem formar. Os professores precisam recuperar o orgulho de ser docentes (Esteve, 1999).

A sociedade, as autoridades e os educadores precisam mudar comportamentos, redefinir conceitos e atitudes, bem como os valores em que acreditam, os objetivos que os motivam a trabalhar e o tipo de homem que querem formar.

Para tanto, vale destacar a importância da prevenção e da intervenção contra a síndrome de burnout na vida do docente, tendo em vista a necessidade do desenvolvimento de atividades de lazer e recreação, bem como de relaxamento, como meios de alívio do estresse e da tensão ocorridos no seu cotidiano profissional. Todavia, isso é pouco. É necessário, ainda, atentar para o bem-estar e a saúde do profissional, englobando o aspecto biopsicossocial e considerando não só a prevenção, mas também a importância do tratamento para que o profissional portador de sofrimento psíquico, de síndrome de burnout e de estresse consiga preservar o bom andamento da instituição e a sua saúde física e mental, lembrando sempre da qualidade de vida e do equilíbrio do seu organismo em sua totalidade.

Adriana Barros é psicóloga – CRP 02/8524. Possui licenciatura plena em Psicologia com aperfeiçoamento da prática de Psicologia Clínica pela Faculdade de Filosofia do Recife (1992) e é especialista em Psicologia Clínica na abordagem fenomenológico-existencial pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) (1996). Mestra em Ciências da Educação pela Universidade Internacional do Chile (SEK) (2010). Atualmente, presta serviço na Faculdade de Goiana, no curso de pós-graduação em Psicopedagogia. É psicóloga em consultório particular com atendimento a criança, adolescente, adulto e casal (de 1993 a 2013). Atua no setor de Treinamento com palestras motivacionais e oficinas vivenciais para pequenas e médias empresas. E ainda é psicóloga convidada para participar de vários programas de rádio e TV, bem como de entrevistas em jornais.

Endereço eletrônico: adriana_sbs@hotmail.com.

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