Edição 79

Matérias Especiais

Sobre Procusto e o bom jardineiro

Uma questão para Roberto Crema: Você disse que deveríamos indagar sobre quem somos para dar notas a alguém? Mas como fazer um filho evoluir sem julgar seus atos e fazê-lo crescer em todas as dimensões?

Roberto Crema: Compreendo bem que essa questão traduz um impasse que todos nós vivenciamos. Jamais me esquecerei de uma ocasião em que estava levando meu filho de 16 anos — hoje com 24 — para a escola, onde cursava o primeiro ano do segundo grau. De repente, ele desafiou: “Pai, eu não vou aguentar! Eu tenho 40 professores… Cada um me dá uma aula de 40 minutos, e eu só os vejo na outra semana. Pai, eu não vou aguentar! Só de Matemática, eu tenho cinco professores; não vou aguentar!”.

É muito triste e degradante chamar isso de educação. Embora impactado, devo confessar que gostei de ouvir meu filho falar que não ia aguentar. Às vezes, o problema consiste em se aguentar o que não é para ser aguentado! Em não sofrer e não apresentar um sintoma quando ter saúde é ser capaz de sofrer, de apresentar um sintoma qualquer que denuncie a contradição. Eis o drama da normose…

Agora, como expressar a um filho, numa situação como esta, uma mensagem que aponte para um caminho do meio, para uma possibilidade que não seja abortiva e extremista. “Eu estou com você, meu filho. Eu o compreendo e sei que o erro não é seu; que esse sistema está esgotado e falido. Agora, procure aguentar, fique e atravesse essas contradições, pois dentro do sistema você terá condições melhores e mais efetivas para transformá-lo!” Bem, sabemos que isso não é nada fácil!

Na Unipaz, há 15 anos temos buscado implementar outras formas de avaliação que não utilizem a comparação. Comparar é um absurdo! Um educador é como um bom jardineiro. Você já viu um jardineiro comparar um jasmim com uma flor-de-maracujá? E exigir o mesmo currículo de ambos?

Fizeram isso conosco e, ainda dominantemente, estão fazendo com nossos filhos. Na medida em que fomos torturados normoticamente, já não nos damos conta da própria tortura. Essa é a famosa “cama de Procusto”, aquele bandoleiro da mitologia grega que oferecia sua hospitalidade a todos os viajantes. Se o hóspede fosse maior do que a cama que lhe era oferecida, Procusto cortava-lhe as pernas, para bem adaptá-las ao móvel. Se o hóspede fosse menor, ele as espichava, naturalmente. Ocasionalmente, aparecia um hóspede do tamanho da cama, ou seja, do tamanho de Procusto. Eis o que representa, bem literalmente, um currículo rígido e padronizado.

Esse método de comparação e de dar notas gera muito sofrimento. Na Unipaz, aqueles que fazem a Formação Holística de Base sabem que, quando o aprendiz chega ao último estágio, não encontrará uma banca de suposto-saber para avaliar um suspeito-saber. O aprendiz é convidado a apresentar uma obra-prima. O que é uma obra-prima? É algo concreto, que ele transpirou para fazer, por ter integrado a abordagem holística, obra que brota de sua vocação singular. Pode ser uma realização artística, científica, educacional, espiritual ou filosófica, que não será comparada a nenhuma outra, dentro do que D’Ambrosio denomina de ética da diversidade.

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Eis a beleza da diversidade. O Grande Arquiteto providenciou que houvesse flores de todas as cores para que um jardim possa exalar sua natural harmonia, que decorre da unidade na diversidade. Nós recebemos talentos diferentes e, às vezes, quando somos avaliados apenas a partir de um único padrão, temos que jogar a individualidade e a originalidade na lata do lixo. Para sobreviver, temos que nos vender por notas. Mais tarde, venderemo-nos por outras notas. Creio que a normose da comparação e padronização escolar encontra-se na origem mesma da corrupção que aí está…

A atitude educativa é a de facilitar que cada um possa se desenvolver a partir de sua vocação, parindo sua palavra própria, florescendo a partir de uma alteridade. Como fazia o grande educador Sócrates, um autêntico parteiro que, por meio de sua maiêutica, facilitava que cada um desse à luz a si mesmo. Creio que poderemos encontrar outras formas criativas e construtivas, além da citada obra-prima, de auto e de heteroavaliação, como um processo centrado no aprendiz.

Lembro que, em um grupo de formação que eu facilitava há alguns anos, todos eram avaliados de uma forma muito interessante, porque era transformadora. A pessoa sentava na cadeira quente e fazia sua autoavaliação. Depois, ouvia de cada amigo e amiga uma avaliação de seu processo. Ninguém julgava, apenas diziam: “Na minha escuta, na minha visão, você apresentou tal forma de caminhar entre nós”. Geralmente, ao final do processo, as pessoas apresentavam profundas mudanças, mesmo na véspera de terminar a própria formação.

Então, proponho o desafio de encontrar novas formas de avaliar e transmutar as escolas num jardim, lembrando que o bom jardineiro não é tanto o conhecedor de botânica; é o amante das plantas. Eis a pedagogia maior e essencial, a pedagogia do amor.

Quando perguntaram a Dom Bosco, um grande terapeuta e educador, qual era a sua pedagogia, ele respondeu: “É ciência, espiritualidade e carinho”. Só faltou incluir a arte para indicar a completa abordagem transdisciplinar! Então, viva os bons jardineiros! Viva a possibilidade de esse jardim surgir e encantar, novamente, nossa ferida e subtraída humanidade!

In. CREMA, Roberto. Análise Transacional Centrada na Pessoa… e Mais Além. São Paulo: Ágora, 1984.

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