Edição 20

Matérias Especiais

SOLIDARIEDADE E PAZ

Saber colocar-se no lugar do outro.
Não responder à violência com violência.
Promover o diálogo.
Interessar-se pela comunidade.
Descobrir e valorizar o que há de positivo nas pessoas.
Fazer parceria, juntar forças.
Cuidar das causas dos problemas.
Conhecer e usar os recursos legais.
Não ficar em silêncio diante da injustiça.
Cultivar a espiritualidade da esperança e da reconciliação.

Solidariedade, caminho da paz
26. Para chegar à paz, o caminho é a solidariedade vivida a partir do sentimento de responsabilidade fraterna, que não exclui ninguém.

Panorama Internacional
48. No mundo, a cada sete segundos, morre uma criança de fome. Calcula-se que, a cada dia, 100 mil pessoas morrem de fome ou de suas conseqüências e que o número de seres humanos com carências alimentares chega a 840 milhões. Entre estes, 27 milhões pertencem a países desenvolvidos. A subnutrição crônica, quando não conduz à morte física, produz freqüentemente uma mutilação grave. Dados e reflexões semelhantes podem ser oferecidos com relação à saúde, moradia, educação e ao trabalho.

49. O planeta também corre riscos e sofre agressões. Cuidar dele não é atitude romântica de ecologistas que amam belas paisagens ou preocupação de cientistas alarmados com o futuro da Terra. É uma necessidade básica para nossa sobrevivência. O planeta também precisa da solidariedade da humanidade inteira.

Solidariedade aos povos em conflito: a preocupação é prevenir e resolver conflitos por meio de negociação, alerta prévio e ajuda humanitária. Grupos organizados com esses objetivos têm encontrado apoio da opinião mundial. É o que acontece, por exemplo, com as organizações Brigada Internacional da Paz, Médicos Sem Fronteiras e Clamor pelo Timor.

Panorama Brasileiro
52. No Brasil, quando se fala de violência, normalmente se pensa em fatos ligados à vida urbana: assaltos, seqüestros, chacinas, violência do trânsito e crimes com o uso de armas de fogo. Freqüentemente associado a populações negras, pobres e socialmente marginalizadas, esse tipo de violência constitui, em geral, sintoma de um problema maior: nossa economia não está organizada para atender às necessidades e aos direitos básicos das classes populares.

Violência Armada
67. Pessoas se armam com medo e acabam matando gente em discussões de trânsito, em brigas de bar, em momentos de descontrole, por causa de drogas… As situações são variadas; e as tragédias, irreversíveis.

68. A violência urbana é causada por uma combinação de fatores. Apesar de não ser a causa da violência, as armas de fogo são o seu principal instrumento, tornando-a letal. Em nosso país, 68% dos homicídios são cometidos com essas armas. Na realidade, elas provocam muito mais danos do que benefícios à sociedade. Elas transmitem a falsa ilusão da defesa privada perante a defesa coletiva, porque, na verdade, não existem “armas do bem” em mãos de pessoas particulares. Pesquisa da Secretaria da Segurança Pública do Rio de Janeiro e do Instituto de Estudos da Religião – Iser, após analisar dados sobre 77.527 pistolas e revólveres apreendidos no Estado do Rio entre 1951 e 2003, demonstrou que 25.648 dessas armas, isto é, 33,1%, foram legalmente registradas antes de caírem nas mãos de criminosos ou ficarem em situação ilegal. Isso significa que, compradas de forma lícita, mergulharam no tráfico clandestino de variadas formas: roubo, furto, perda, revenda, uso indevido, etc. São diferentes formas por meio das quais “cidadãos de bem” — involuntariamente, muitos deles — estão abastecendo o crime organizado.

69. As campanhas pelo desarmamento visam mostrar às pessoas de bem que sua arma é mais um risco que uma proteção para si e sua família. Coloca em perigo seu bem mais valioso: a vida. Quanto a desarmar os bandidos, essa é uma tarefa da polícia, que precisa ser reformulada para ser mais eficiente e respeitosa dos direitos dos cidadãos. Fazer isso é tão necessário quanto o desarmamento.

Violência Doméstica
82. É bom não esquecer um outro tipo de violência, que acontece quando certas famílias se fazem valer de sua situação social para levar vantagem, prejudicando a coletividade, negando direitos a outras famílias, humilhando os mais pobres, educando para o preconceito, buscando privilégios ilegítimos. A revolta de muitos pobres não vem exatamente do que lhes falta em bens materiais, mas da permanente humilhação a que são submetidos e do preconceito com que são vistos.

Construção da Paz
86. Paz não é somente ausência de guerra, porque também a tirania pode trazer tranqüilidade social, impedindo revoltas, esmagando os descontentes, como foi a pax romana de outros tempos e como é hoje o caso da hegemonia bélica dos Estados Unidos. Tranqüilidade social só é paz quando as exigências da justiça encontram uma realização harmônica. Como nem toda ordem é justa, a ordem criada deve sempre se confrontar com a ética. Longe está a paz da monotonia. Assim como a arte da música reside na harmonização de diferentes sons, é a justa harmonia de uma sociedade que faz da paz um desafio tanto maior quanto mais complexa e diversificada é essa sociedade.

89. Quando falamos sobre paz, precisamos pensar em dois aspectos: um é que ela deve viver em nós, e o outro é que devemos ser seus agentes, trazendo-a para a nossa sociedade. Os construtores da paz devem tornar-se eles mesmos instrumentos de paz, a tal ponto que possam dizer, inclusive na hora do conflito extremo: “Eu te dou a minha paz”. A paz é, acima de tudo, uma visão: a visão de que a humanidade é como um corpo de que somos todos membros. É um olhar que nos faz descobrir que o outro, em vez de ser meu antagonista ou inimigo, é meu irmão ou minha irmã. A paz se torna, assim, uma força interior que nos permite amar os inimigos e enfrentar os conflitos com ações e métodos não violentos, para que todos tenhamos paz.

Lógica da retribuição X Lógica da solidariedade
96. A solidariedade previne a violência. Uma sociedade solidária devolve aos excluídos cidadania e condições de vida digna. Numa sociedade solidária, o processo de construção de uma cultura de paz passa pelo reconhecimento dos direitos de todos, pelo cuidado com os grupos mais débeis, pela superação da fome e da miséria, por uma justa distribuição da renda, pela correta administração dos bens públicos e honesta administração da justiça, pela conservação da integridade do meio ambiente, por relações internacionais justas. Uma classe política solidária trabalha pela elaboração de leis que promovam o bem comum de toda a sociedade.

Não-violência ativa
cf02105. É preciso educar para a não-violência. Ela exige a coragem de não ceder nem ao violento nem ao nosso desejo de desforra. Mahatma Gandhi (1869–1948), uma testemunha inegável da força da paz, dizia: “A humanidade somente acabará com a violência por meio da não-violência”. Gandhi exerceu essa não-violência de forma extremamente ativa: liderou a Marcha do Sal e estimulou os indianos a tecerem suas próprias roupas em protesto contra as leis inglesas de domínio econômico. Ele substituiu a força da violência pela força da verdade e da solidariedade total para com seu povo. Foi mais forte do que aqueles que o prenderam e o perseguiram, especialmente porque se recusava a ser tão violento quanto o sistema contra o qual lutava. O pastor batista Martin Luther King (1929–1968) foi pelo mesmo caminho: enfrentou as leis racistas de seu país, os Estados Unidos, com protestos pacíficos que deixavam seus opositores muito mal perante a opinião pública mundial. Resistiu, recusando-se a cooperar no acatamento de leis injustas. Teve coragem e firmeza, incomodou muito seus opositores, mas nunca cedeu à violência. Sua vitória moral, efetiva e política foi imensa.

Educação para a paz nas comunidades
140. Não é suficiente desejar a paz: temos que trabalhar por ela. Trabalhar pela paz significa sustentar com persistência um movimento em direção à implantação dos valores da paz. Esse movimento se chama solidariedade. Sermos solidários para construir a paz é uma proposta de testemunho das comunidades cristãs unidas nesta Campanha da Fraternidade. Solidariedade é o caminho que a CF–2005 Ecumênica propõe a toda a sociedade para construir uma cultura de paz.

145. A paz, por se tratar de uma realidade construída pela comunidade humana, pode ser ensinada e aprendida. Na cultura de violência em que vivemos, a educação para a paz surge como espaço de aprendizagem de uma cultura de paz, transformando-se num instrumento decisivo na formação dos cidadãos de uma sociedade democrática. Em primeiro lugar, a educação para a paz apresenta-se como educação para a tolerância e o diálogo, como aprendizagem para viver na pluralidade e superar preconceitos e estereótipos. Educação para a paz é experiência de transformação do potencial de agressão em ações não violentas na resolução dos conflitos. Mas a educação para a paz é também o espaço de argumentação e de debate. Desvela como a violência se forma e projeta alternativas para a construção da sociedade possível. Finalmente, é o lugar onde aprendemos a desenvolver o potencial de mudança — o poder que temos, que cada um tem, de operar em solidariedade —, superando o comodismo e a passividade, engajando-se no trabalho em rede, no grande mutirão em curso pela construção de uma cultura de paz nas comunidades e no mundo.

Calendário da paz
148. O tempo, por se tratar de uma referência humana fundamental, também tem se convertido em um elemento importante na promoção de uma cultura de paz. Celebrar é um modo de avivar sentimentos, de “fazer memória” para alimentar compromissos. Mundialmente, são muitas as datas relacionadas com a construção da paz.

1º de janeiro Dia Mundial da Paz
8 de março Dia Internacional da Mulher
21 de março Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial
1º de maio Dia Internacional do Trabalhador
15 de maio Dia Internacional dos Objetores de Consciência
4 de junho Dia Internacional das Crianças Vítimas de Agressão
5 de junho Dia Internacional da Ecologia e do Meio Ambiente
21 de junho Dia Internacional de Luta por uma Educação Não-sexista e sem Discriminação
26 de junho Dia Internacional Contra o Uso e Tráfico de Drogas e Dia Mundial da ONU em Apoio às Vítimas de Tortura
5 de agosto Dia Nacional da Saúde
9 de agosto Dia Internacional dos Povos Indígenas
6 de setembro Dia Internacional de Ação pela Igualdade da Mulher
8 de setembro Dia Internacional da Alfabetização
21 de setembro Dia Mundial da Paz, celebrado desde 1981 pela ONU
23 de setembro Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Meninas(os)
1º de outubro Dia Mundial da Alimentação
17 de outubro Dia Internacional para Erradicação da Pobreza
24 de outubro Aniversário da Carta da ONU e início da Semana do Desarmamento
20 de novembro Aniversário da Declaração dos Direitos da Criança e Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil
25 de novembro Dia Internacional da Não-violência Contra a Mulher
1º de dezembro Dia Mundial de Solidariedade com as Vítimas da Aids
3 de dezembro Dia Mundial de Pessoas Portadoras de Deficiência
10 de dezembro Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948

 

Fonte: Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. Solidariedade e paz: texto-base CF–2005 Ecumênica/Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. São Paulo: Salesiana, 2005.

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