Edição 88

Em discussão

Sou professor, como me posicionar diante da educação das metas?

Sérgio Marcelo Salvino Bezerra

14_em_discussaoRecentemente, participei de uma reunião com professores do Ensino Médio em uma escola pública. Entre os vários temas ali abordados, surgiu uma questão muito inquietante. Um colega, com suas razões, mostrou-se bastante indignado com as metas estipuladas pela Secretaria de Educação para a escola. Ele, legitimamente preocupado com os resultados de seus alunos, afirmou que “o professor perdera a sua identidade”. Aquela frase de imediato me impressionou, deixando-me pensativo e até afônico. Confesso que, por alguns minutos, a inquietação daquele professor invadiu a sala de reuniões de forma descomunal. Não era a primeira vez (e a última tampouco) que eu ouvia um colega decepcionado com o sistema educacional do País, mas, desta feita, algo me convidava a uma reflexão mais profunda.

A preocupação em atingir metas nos remete a empresas, a profissionais de vendas, a instituições financeiras, entre tantos outros ramos que quantificam seus resultados e trabalham em busca de atingir aquilo que foi proposto pelo empregador. Mas… E o que dizer de uma escola e de profissionais de Educação que buscam “bater meta”? Surge agora um contexto complexo e subjetivo que envolve interesses de diversas naturezas. Convido o amigo leitor a pensar um pouco sobre o que chamaremos de educação das metas.
Em uma análise rápida e simples, encontramos várias definições para a palavra meta. De origem grega, segundo Ferreira (2010), esse verbete nos conduz à reflexão sobre objetivo, denota alvo e nos remete à ideia de algo almejado e que deve ser claramente definido.

No aspecto etimológico, fica fácil perceber que metas são necessárias à Educação, inclusive sendo imprescindível ao nosso projeto de vida. A questão, todavia, é que precisamos compreender como o professor entende algumas propostas que lhes são apresentadas como metas.

Que metas são essas que levam um professor a questionar seu valor enquanto educador? Como metas são representadas por números e classificam escolas como boas ou ruins? Quais metas foram efetivamente discutidas com professores e analisadas por quem está diretamente ligado aos estudantes no cotidiano escolar?

Segundo a Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, a meta é um indicador objetivo que representa o desafio proposto para cada escola na busca da melhoria dos resultados do Estado. As metas são estabelecidas a partir da realidade vivida por cada escola, tendo, como desafio, melhorar em relação a elas mesmas.

Neste ponto, o comprometido professor, citado no início do texto e que até o momento nos inspira, poderia questionar: “Quem apresenta a realidade vivida por cada escola à Secretaria de Educação? Quais os critérios estabelecidos para avaliar uma escola com toda a sua complexidade?”. Certamente as respostas a esses questionamentos não seriam objetivas, muito menos convincentes.
Este é o contexto e o sentimento de muitos profissionais da área de Educação, sobretudo professores e professoras que se questionam diariamente sobre o seu papel na escola. Profissionais com anos de docência que nunca foram convidados a opinar sobre estratégias que melhorariam as escolas nas quais há anos convivem com a comunidade escolar encontram-se com um sentimento de obsolescência que amargura seu cotidiano laboral.

15_em_discussaoA meta não pode ser atingida sem que todos os atores envolvidos entendam aonde se quer chegar. Estabelecer meta exige um amplo debate e apropriação da sua funcionalidade e de seu significado dentro de um contexto próprio.

A Educação brasileira tem, ao longo dos últimos anos, estabelecido metas e adotado estratégias, objetivando, sobretudo, erradicar o analfabetismo. Essa é uma necessidade incontestável. A questão é que a linguagem utilizada por alguns governantes parece possuir caracteres incompatíveis com a realidade das escolas públicas e as condições de trabalho de seus profissionais.

A Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014, aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) com vigência de 10 anos, e apresenta vinte metas para a Educação brasileira. Para uma melhor compreensão, iremos destacar a meta 7 e a meta 9.

Meta 7 – fomentar a qualidade da Educação Básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem, de modo a atingir as seguintes médias nacionais para o Ideb: 6,0 nos anos iniciais do Ensino Fundamental; 5,5 nos anos finais do Ensino Fundamental; 5,2 no Ensino Médio.

Meta 9 – elevar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos ou mais para 93,5% (noventa e três inteiros e cinco décimos por cento) até 2015 e, até o final da vigência deste PNE, erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% (cinquenta por cento) a taxa de analfabetismo funcional.

Essas metas estabelecem alvos com números bem definidos e diversas estratégias que fazem do PNE um documento de grande importância à sociedade brasileira. No entanto, a subjetividade é que se destaca como pano de fundo deste plano. As duas metas apresentam números a serem alcançados, mas não deixam claro em suas estratégias (também apresentadas no PNE) que caminho deve ser percorrido pelo professor.

Os questionamentos são inevitáveis. A inquietação de grande parcela de docentes, no País inteiro, coloca em xeque a exequibilidade das metas propostas à Educação brasileira.

Piaget (1978) destaca que a primeira meta da Educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas; homens que sejam criadores, inventores, descobridores. Para tanto, é necessário que cada profissional da área tenha um conhecimento profundo da sua realidade local e participe ativamente da elaboração de estratégias que garantam o cumprimento de metas.

Segundo Brito (2015), no Estado de Pernambuco, que, entre os anos de 2005 e 2013, passou da 18a para 4a posição no Ideb, o modelo de gestão por resultados tornou-se um grande aliado para o estabelecimento de um formato empresarial e a implementação de vocabulário corporativo nas escolas públicas. É nesse contexto que a educação das metas se apresenta e, como uma ave migratória que se perdeu do bando, torna-se vulnerável e com grande risco de morte.

16_em_discussaoA educação das metas coloca em campos opostos parcela significativa das políticas educacionais e a experiência profissional do professor. Ela atropela o processo ensino-aprendizagem, rotulando de alfabetizados aqueles que nem sequer escrevem um bilhete corretamente. Destrói o planejamento do professor, adicionando-se novas oportunidades de avaliações com instrumentos que privilegiam o estudante sem compromisso com os estudos. É a educação das metas que faz o professor questionar sua função na escola e sentir-se incapaz.
De volta à sala de reuniões de professores… Parece-me que aquele professor, preocupado com os resultados de seus alunos, de fato não foi convidado a participar das estratégias adotadas para atingir metas estabelecidas para sua escola. Ele tem compromisso com sua lida profissional, ele planeja suas aulas e almeja preparar seus alunos para o seleto mercado de trabalho, mas não aceita que metas que priorizam quantidade se sobreponham às de qualidade.

Esse professor é um amigo inestimável, ele merece todo o meu respeito e me inspira a continuar pensando numa Educação de qualidade, e não de quantidade. Esse professor é você. Sim, é você. Um profissional comprometido com a Educação e que não admite que metas sejam impostas e não submetidas a uma apreciação séria e contextualizada com seu lugar (cidade, estado ou região) de trabalho.

As metas, como apresentadas, são necessárias à vida, mas não devem ser impostas quando o tema é Educação. Nessa área, é preciso que sejam consideradas muitas variáveis de natureza subjetivas, como a situação econômica do lugar, a localização da escola, o perfil da comunidade escolar, o histórico da família, problemas de aprendizagens e possíveis patologias dos estudantes. Por isso, não há outro profissional com tanta propriedade para estabelecer metas para a Educação como o professor.

A meta agora é mostrar à sociedade que a Educação deve ter como prioridade a valorização profissional do docente. Um professor valorizado se dedica mais à Educação, trabalha satisfeito, sua autoestima se eleva, o tempo pedagógico com seus estudantes se torna mais produtivo e prazeroso. Certamente esse é o passo mais curto para tornar o Brasil a “pátria educadora” que todos nós almejamos.
Pense nisso.

Sérgio Marcelo Salvino Bezerra é professor na rede estadual de ensino de Pernambuco e na rede municipal do Recife, graduado em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em Gestão Ambiental pela Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire) e em Psicopedagogia pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap/Cepai).
Contato: sergiobezerra.prof@gmail.com

Referências

BRASIL. Lei nº 13.005, de 24 de junho de 2014. Disponível em Acesso em 18 nov. 2015.

BRITO, Patrícia. Pernambuco sobe no índice de ensino depois de implantar metas e bônus. Folha de S.Paulo, São Paulo, 05 set. 2015. Disponível em . Acesso em 21 nov. 2015.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. 2.222 p.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

Revista Educação, São Paulo, v. 223. Disponível em . Acesso em 19 nov. 2015.

Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Educação. Modernização de Gestão. Disponível em . Acesso em 21 nov. 2015.

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