Edição 53

Lá Vem a História

Tambor mágico da rã

Uganda e Quênia

Conta-se que, à beira de um grande lago, vivia uma rã que herdara um tambor mágico do seu avô. O objeto tinha um som mágico, e todo mundo que o ouvia ficava, de repente, com vontade de dançar. Toda tarde, quando o sol já havia baixado do ponto mais alto do céu e manchava tudo de cores avermelhadas e alaranjadas, a rã pegava o tambor de seu esconderijo secreto: um buraco que havia num velho baobá. Sentada em cima de uma pedra de onde podia ver o lago inteiro, a rã tocava o tambor e cantava.

Os hipopótamos que descansavam tranquilos nas águas do lago saíam para dançar; sem conseguir resistir, os elefantes, as girafas, as zebras e as impalas, os pássaros e as tartarugas… Todos começavam a dançar assim que ouviam os sons mágicos do tambor. Quando o céu já se tingia de escuridão, a rã guardava, outra vez, o tambor no seu esconderijo, e os animais voltavam para as suas tocas.

Um dia, depois das savanas e antes de chegar aos bosques, a rã descobriu uns campos cultivados, cheios de verduras e frutas de todos os tipos, e teve a ideia de organizar uma festa-surpresa. Foi buscar seu tambor, trepou num tronco derrubado que ficava ao lado dos campos e começou a tocar sua música. Todos os animais dos arredores, atraídos pelo som mágico do tambor da rã, começaram a aparecer naquelelugar tão cheio de coisas boas para comer. E os animais — pequenos e grandes, ágeis e não tão ágeis — dançaram com todas as suas energias e comeram tudo o que quiseram: bananas, abóboras, melões, cenouras, espigas de milho, espinafres, tomates, mangas e abacaxis. Foi uma festa fantástica que durou até bem tarde da noite.

Na manhã seguinte, o proprietário dos campos estava indo tranquilamente trabalhar no seu pedaço de terra e viu que alguém havia destroçado por completo o campo! As plantas estavam amassadas, como se uma manada de elefantes enlouquecidos tivesse dançado em cima delas, e por toda parte havia cascas de bananas, de abóboras e de melões. Mas o que havia acontecido? Quem teria feito aquela bagunça tão grande?

Quando o céu se manchou de cores avermelhadas e alaranjadas, os animais esperavam, todos juntos, que o tambor mágico voltasse a soar e foram encontrar a rã para pedir-lhe que tocasse nos campos de novo. A festa do dia anterior havia sido fantástica e queriam repetir. Ela aceitou a proposta, e todos se encaminharam para lá. A rã trepou no tronco de árvore derrubado e tocou como sempre. No segundo compasso, todos os animais começaram a dançar sem conseguir resistir. Dançaram e comeram tudo o que encontraram pela frente! E, enquanto a girafa rodava e os macacos pulavam e todos os outros animais dançavam ao ritmo do tambor, apareceu o proprietário dos campos com um machado numa mão e uma pá na outra.

— Fora daqui! O que é que vocês estão pensando?

Todos correram tão depressa quanto puderam para fugir dos golpes daquele camponês zangado, com razão. Todos, exceto a rã, que continuava tocando seu tambor sem perceber nada do que estava acontecendo à sua volta.

— E você, sua rã dos infernos?! Vai ver quando eu pegar você!

Vou transformá-la no meu jantar! A rã, sem saber o que estava acontecendo nem de onde saíra aquele homem enfurecido, agarrou bem forte o tambor e saiu pulando sem parar até chegar ao lago, onde mergulhou de cabeça.

Desde aquele dia, a rã não ousou mais tirar o tambor de debaixo da água. E, de vez em quando, tocava-o ao entrar e ao sair das águas do lago, mas nunca no mesmo lugar. Os animais esperavam e pediam que ela os levasse até outros campos para organizar uma festa, mas a rã havia se assustado demais com os gritos e o machado do camponês enfurecido e decidiu que só iria tocar embaixo da água.

Se vocês forem até a beira de um lago e ouvirem o canto das rãs, talvez tenham sorte e ouçam também os ritmos do tambor mágico.

 

SOLER-PONT, Anna. O Príncipe Medroso e Outros Contos Africanos.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009

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