Edição 108

Espaço pedagógico

Tarefa de casa: qual o seu papel no cotidiano escolar?

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

O século XXI vem nos mostrar com muita ênfase a importância do protagonismo infantil e juvenil dentro e fora dos muros escolares, como também a necessidade de práticas pedagógicas que façam sentido na vida do estudante e que auxiliem no desenvolvimento da autonomia. Todavia, faz-se necessária a efetiva parceria com a família; uma família que participe verdadeiramente da vida escolar, uma família preocupada não somente com o aspecto cognitivo, mas também com o social e o afetivo.

Nesses contextos pedagógico e sociocultural, eis que aparece em discussão frequente a tarefa/lição de casa. Muitas são as indagações: para que serve a tarefa de casa? Qual o seu papel? Quanto tempo deve ser destinado para isso? Qual a função dos pais? É realmente necessário e importante ter atividades para casa cotidianamente? Uma coisa é certa: precisamos repensar a forma como são estruturadas e propostas as atividades para casa na conjuntura atual, tanto na esfera pública como na privada. É indispensável nos debruçarmos fortemente sobre o tema para que esse processo possa fazer sentido na vida de todos.

A lição de casa parece ser uma grande incógnita para pais, professores e estudantes. Para os pais, há sempre divergências de opiniões, uns acham que ter muita tarefa é o certo, outros acham que não. Para alguns professores, não é importante ter atividade para casa, basta o que se faz em sala; para outros, encaminhar muitas questões para casa, às vezes sem prévia análise e conexão com o que está sendo trabalhado, é o que importa. E, claro, há sempre os mais sensatos pais e professores, ou seja, aqueles que compreendem o sentido da lição de casa como uma oportunidade para as crianças e os jovens fixarem e ampliarem seus conhecimentos, desenvolvendo rotina/hábitos de estudos a partir do entendimento desse processo, não simplesmente pela mera resolução de questões. Já para os estudantes, a lição de casa pode ser um martírio para alguns, um prazer e compromisso para outros e algo sem sentido para uma outra parte.

Alves (2013, p. 3) faz uma reflexão acerca dos envolvidos nesse processo. Primeiramente diz que:33

O professor tem o trabalho diário de planejar tarefas condizentes aos conteúdos e possíveis de serem realizadas sozinhas pelo aluno. Depois, precisa fazer a correção, descobrir o motivo por que um aluno não as fez, revisar as dúvidas. Muitas vezes, essa rotina não reflete a variedade das situações vivenciadas em sala de aula, restringindo-se em atividades mecânicas e repetitivas.

E continua sua reflexão sobre os pais:

Os pais, em geral, têm dois tipos de visão sobre a tarefa: para alguns, é muita tarefa e não sobra tempo para outras atividades; para outros, é pouca tarefa, que a criança realiza rapidamente e não adquire hábitos de estudo. Alguns ainda acreditam que a tarefa não tem qualidade, seja porque é fácil demais, sem desafios ao aluno, seja porque a criança não consegue fazê-la sozinha, necessitando de ajuda, momento em que nem sempre eles podem ajudar, pela falta de tempo ou mesmo por não compreenderem os enunciados, diferentes dos do seu tempo de escola.

E o que pensam os principais implicados nesse processo, os estudantes? Alves (2013, p. 3) expressa que:

Para os alunos, a tarefa, às vezes, mostra-se como um castigo. Existem alunos que não se permitem errar, outros que usam a tarefa como um pretexto para ter a presença e a atenção dos pais. Há também os que têm dificuldade em organizar sua rotina de estudo e, com frequência, esquecem de fazer ou trazer a tarefa; os que não se interessam pelas atividades e costumam deixar para fazê-las mais tarde e acabam sem tempo para fazê-la ou fazendo sem qualidade. Isso quando não são os pais que fazem a tarefa dos filhos, nesse caso.

Diante de tais reflexões, proponho relembrarmos a origem da tão polêmica lição de casa. Como ela surgiu? Qual a origem dessa expressão? O que ela significa? Segundo Nogueira (2002, p. 23), “lição de casa” é uma expressão de origem árabe que significa “[...] obra ou porção de trabalho que deve ser realizada e cumprida num determinado prazo”. Sabe-se que a tarefa de casa teve início com os jesuítas através da Ratio studiorum, ou seja, “o método dos jesuítas”, primeira estrutura organizada de ensino, a qual determinava a prática mecânica, nomeada de “repetição em casa”, de enviar atividades para serem realizadas em casa que tinham como objetivo central “desenvolver as inteligências das crianças”, a fim de sanar suas dificuldades e auxiliar nos estudos posteriores. Fica claro que, desde o princípio, a lição de casa traz arraigada consigo um ar de obrigatoriedade. Frente a essa notoriedade, ficam as dúvidas: como os estudantes podem ser protagonistas dos seus saberes com atividades mecânicas? Como tornar a lição de casa algo eficiente e prazeroso? Como transformar essa ação em algo que faça sentido para professores e alunos?

Segundo Romano (2008, s/p.),

A tarefa de casa é uma oportunidade de autoaprendizagem, autoconhecimento, de reflexão, expressão e crescimento pessoal do aluno. Para isso, é necessário repensar duas crenças arraigadas: a de que a tarefa de casa tem como objetivo que o aluno aprenda o que foi trabalhado em classe, fazendo exercícios repetitivos e mecânicos, ou seja, que aprendemos pela repetição; e a crença de que a obrigatoriedade da lição diária gera, por si só, a responsabilidade e o hábito de estudo.

É preciso internalizar as palavras acima para que seja possível mudar as ações no que diz respeito ao ato de fazer e aprender com a lição de casa. A desmistificação da lição de casa na contemporaneidade é algo bastante complexo, pois requer desconstrução de conceitos e estruturas passados de uma geração para outra, ano após ano. Temos que reconstruir e reaprender as estratégias de aprendizagem com a tarefa de casa, ou seja, temos que ter em mente que essa ação ultrapassa a mera resolução de questões.

A tarefa de casa precisa ser encarada como mais uma oportunidade de aprendizagem que favorece a ligação entre família e escola. Mas é preciso que os professores desconstruam aquilo que concebem como lição de casa e passem a se questionar:

• O que quero que meu aluno aprenda com essa atividade?

• Em que ela contribuirá com a aprendizagem do meu aluno?

• Quais são meus objetivos com a atividade que encaminho para casa?

• A atividade é desafiadora? Ela fará meu aluno pensar e pesquisar?

• Terei tempo para a sua correção em sala? Como penso em corrigi-la?

Se cada professor fizer esses e outros questionamentos à medida que elabora seus planos de aula e organiza as atividades que idealiza para casa, estas terão muito mais significado para os estudantes, ou seja, é preciso entender a tarefa de casa para além de uma perspectiva meramente tradicional de obrigação/punição. É de suma importância que família e escola compreendam o valor e a finalidade da atividade para casa e que esta passe a ter sentido na vida do estudante, uma vez que, segundo Romano (2008, s/p.):

A tarefa de casa é apenas um dos aspectos da vida da sala de aula. Não se pode esperar que o aluno tenha espontaneamente atitudes desejadas frente à lição de casa se a relação estabelecida no dia a dia da classe for autoritária e não houver espaço para a dúvida, o erro, a hipótese, o pensamento divergente, para procedimentos diversos. A atitude do professor diante do conhecimento do aluno, daquilo que ele foi capaz de elaborar sozinho, terá uma influência decisiva na sua segurança para ousar, arriscar, pensar, buscar procedimentos pessoais de resolução de situações.

A tarefa de casa necessita ser desafiadora para o aluno. Ela tem que ter como propósito despertar o prazer, o desejo e a empatia, sendo vista como parte do processo educacional, e não com o objetivo que hoje tem para uma grande maioria, ocupar o tempo da criança e do jovem com a realização mecânica e repetitiva de questões, como meros robôs que reproduzem aquilo que lhes é proposto. Será que é por isso que muitos estudantes não a fazem e apenas copiam as respostas dos colegas que a fizeram? Por que crianças preferem cumprir sua “obrigação” de fazer a tarefa de casa ainda na escola, enquanto esperam os pais? Por que alguns professores não encaminham atividade para casa, mesmo com a exigência da escola e dos pais?

É notório que a lição de casa é vista por um grande de número de pais, professores e alunos como um empecilho, uma tortura, algo que não faz o menor sentido. Há professores que pensam assim porque terão que ter ainda mais tempo para prepará-las e corrigi-las, e muitos acham perda de tempo. Há pais que nunca têm ou não querem ter tempo para acompanhar as evoluções e as dificuldades dos filhos, e há os estudantes para os quais existe algo muito mais interessante para fazer, como jogar videogame com os amigos, assistir séries e filmes ou acompanhar as redes sociais, dentre muitas outras atividades que consideram mais importantes.

Estudos comprovam que uma tarefa de casa desafiadora, com objetivos claros e condizentes com a sala de aula, corrobora verdadeiramente com o processo de ensino-aprendizagem. Para isso,

Todo professor deve ter em mente que a lição de casa tem vários objetivos. O principal é ensinar a criança a trabalhar sozinha e criar um vínculo agradável com os estudos, dar-lhe autonomia para buscar o conhecimento por conta própria. Além disso, ela serve a objetivos mais imediatos, como resolver questões específicas ligadas aos conteúdos de cada etapa escolar ou antecipar algo que ainda será trabalhado em sala de aula, como se fosse um desafio. Nesse caso, o importante é dosar o grau de dificuldade proposto para não espantar ninguém (FACCIO; GUIMARÃES, 2003, s/p).

A tarefa de casa precisa ser vista como uma extensão da sala de aula em que o ato de realizá-la auxilia no ato de aprender. Vamos refletir um pouco mais: o que se faz para aprender a nadar, a cozinhar, a dirigir, a andar de bicicleta ou a pilotar um avião? Apenas fala-se: nade, cozinhe, dirija, pedale ou pilote? Isso seria suficiente para aprender? Se uma pessoa faz apenas as aulas teóricas de direção, ela aprende a dirigir? Se alguém apenas mostrar como se nada, cozinha, pedala e pilota, isso faz o outro aprender efetivamente?

A sua resposta para tais questionamentos provavelmente será não, pois, sem a prática e sem colocar a “mão na massa”, a efetiva aprendizagem será impossível de acontecer. Então, por que insistimos, no cotidiano escolar, em promover o ensino basicamente por meio da exposição verbal? Como conseguir bons resultados de aprendizagem se o estudante passa a maior parte do tempo “ouvindo” o que o professor explica em vez de praticar por meio da leitura, da pesquisa e investigação, da realização de atividades desafiadoras, da construção de hipóteses, das produções individuais e coletivas e de muitas outras ações?

A tarefa de casa, como continuação daquilo que se vive em sala de aula e com propósitos desafiadores a partir de objetivos claros do que se pretende com a mesma, faz parte desse universo de ensinar e aprender numa troca permanente de saberes. Ela, a lição de casa, nessa perspectiva descrita acima, tem um papel preponderante na aprendizagem, uma vez que pode servir como diagnóstico e, a partir daí, como mola propulsora de um novo olhar para o processo de ensino-aprendizagem.

Referências

ALVES, Vitor. A tarefa escolar como estímulo a aprendizagem. XI Congresso Nacional de Educação. Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Curitiba-PR, 2013. http://educere.bruc.com.br/ANAIS2013/pdf/9099_6086.pdf. Acesso em 26 de março de 2019.

FACCIO, Liane; GUIMARÃES, Arthur. Viva a lição de casa. Disponível em: www.novaescola.com.br. Acesso em 07 de abril de 2019.

NOGUEIRA, Martha Guanaes. Tarefa de casa: uma violência consentida? São Paulo: Loyola, 2002.

ROMANO, Eliane Palermo. Lição de casa – que prática é essa? Disponível em: http://www.ecc.br/site/pasta_258_0__licao-de-casa-%C3%82%E2%80%93que-pratica-e-esta-.html. Acesso em 26 de março de 2008.

Sugestões de leitura

BURITY, Marta Helena Serpa; CARVALHO, Maria Eulina Pessoa de. Dever de casa: visões de mães e professores, olhar de professores. Ponta Grossa: ano/vol.9, n.001. 2006. Disponível em http://redalyc.uaemex.mx/pdf/684/68490103.pdf. Acesso em 26 de março de 2019.

MORAES, Fernanda Beviláqua Costa. O dever de casa: uma análise das práticas educativas familiares. Rio de Janeiro: Dissertação mestrado/doutorado, 2006. 144 p. Disponível em http://www.uff.br/pos_educacao/joomla/images/stories/Teses/bevil%C1quamoraesd2006.pdf. Acesso em 26 de março de 2019.

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