Edição 20

Matérias Especiais

Tatiana Belinky: Papo-cabeça pra pensar

Tatiana veio da Rússia criança. O primeiro texto brasileiro que lhe caiu nas mãos era de Lobato. Leitora voraz, acabou escritora de literatura infantil, função em que estreou aos 66 anos. Foi colunista de teatro infantil, tradutora, roteirista da primeira versão do Sítio do Pica-Pau-Amarelo na tv. Aos 85 anos, publicou mais de cem livros. Fala “pelos cotovelos”, como ela diz. E não precisa que façam perguntas. Já começou como segue.

Sou mais brasileira do que vocês. Estou no Brasil há 75 anos e vocês não. Nasci em São Petersburgo. Morei em Riga, capital da Letônia, meus pais eram de lá. Comecei a ler aos quatro anos e nunca mais parei. Meus pais eram chegados a cultura. Quando cheguei, já tinha visto teatro, balé, recital, música e lido muitos livros, muita poesia.

Meus pais vieram imigrados. De classe média. Minha mãe era dentista, feminista e comunista. Viemos eu, meus pais e dois irmãos menores.

Estou em São Paulo há 75 anos, dos meus 85.

Português, a quarta língua
Meu pai era poliglota. Falava alemão, russo, francês, inglês. Os três meses que ficou sozinho aqui, com o dicionário e o talento dele, quando chegamos ele estava falando português.

Para mim foi a quarta língua. Porque, em Riga, até placa de rua era em três línguas: russo, alemão e letão. Meu pai teve que interromper os estudos por causa da guerra. Até veio na frente para ver se encontrava alguma coisa para fazer. Acabou encontrando depois de minha mãe, que em dois meses já estava clinicando. Na Rua Jaguaribe.

Meu pai encontrou representações importantes de celulose, fábricas de papel, coisas grandes. Era uma pessoa de muita cultura. Contava histórias e dizia poemas em russo, alemão. Era um homem bonito, simpático.

Escola com cheiro de fascismo
A primeira escola era alemã, na Praça Roosevelt. Era desagradável, tinha cheiro de fascismo. Ensino rigoroso e aula de português uma vez por semana. Tinha uma biblioteca boa, onde me regalei. Mas esta alegria durou nem um trimestre. Encontrei meu irmãozinho chorando: “A professora me bateu, porque meu colega dedou que usei caneta, em vez de lápis.” E ela bateu no rosto dele. Eu disse: “Amanhã não voltamos mais, prometo.” E não voltamos. Claro, contei para meus pais e eles ficaram horrorizados.

Fomos parar na escola americana, o “paraíso”: Mackenzie. Era aquela democracia. Tinha um barzinho. Descobrimos outra coisa extraordinária chamada guaraná. A gente nem sabia o que era, mas achava delicioso. Passei seis, sete anos no Mackenzie. Saí falando muito inglês, francês, e sendo uma secretária bilingüe, trilingüe.

“Tatiana é homem pra isso”
Sabe qual foi o primeiro texto em português que caiu na minha mão? Monteiro Lobato. Era o Jeca Tatuzinho. Um folheto do laboratório Biotônico Fontoura.

Sempre escrevi, eu era “a tal” da redação na escola. Escrevia bem porque sabia ler. Lia textos bons. A gente aprende mais lendo do que decorando mesóclises e outras barbaridades.

Eu traduzia, mas para mim mesma, para mostrar para as colegas, contar histórias. Quando já era casada, estávamos reunidos em casa com uma turma de colegas do Julio. Entre eles o Edgar Cavalheiro, que foi editor da Editora Nacional, biógrafo de Monteiro Lobato. Estava publicando antologias de contos de vários autores, entre eles Tchekov. Comentou que eram chatas as traduções indiretas, por meio de outras línguas. Queria uma tradução direta do russo. De repente, olhou pra mim: “A Tatiana é homem pra fazer isso!” Foi o primeiro texto meu publicado em livro: A Mulher do Farmacêutico. Comecei traduzindo.

Julio embaixo da mesa
Parece anedota. Era o casamento de uma vizinha. Na sinagoga, eu estava com uma colega de classe, Gilberta Autran, irmã do Paulo. Vi um rapaz de chapéu: “Gilberta, aquele chapéu não é dele, é emprestado. E olha só que olhos bonitos.”

Depois, encontrei um rapaz que conhecia. Ele disse que queria me apresentar um colega que tinha certeza que eu ia gostar. Fomos procurar o tal Julio. Não o encontrávamos em lugar nenhum. Ele teve uma iluminação: “Já sei.” Foi até uma mesa e começou a levantar a toalha. No terceiro metro, encontrou o Julio: aquele rapaz dos olhos e do chapéu.

Estava de pernas cruzadas, com uma garrafa de champanha e uma travessa de salgados. “Apareça, Julio, que eu quero te apresentar uma amiga, a Tatiana.” Ele saiu com aquela cara tão bonita. Com os olhos cheios de champanha, falou, com voz arrastada:

“Tatiana, quer casar comigo?”
Foi a primeira coisa que ouvi dele. Levei dois meses para encontrá-lo de novo. Estava esperando ônibus com uma amiga. De repente, vi aquele Julio do outro lado da rua. Achava que não ia se lembrar de mim. Atravessou a rua, nos cumprimentou: “Meninas, está na hora da matinê. Eu convido.” E eu, moleca como era, disse: “Não vou em três para nenhum cinema. Vamos jogar cara ou coroa para saber quem vai com ele ao cinema. Você tem uma moeda, Julio?”

Joguei a moeda. Adivinha se não fui eu quem ganhou? Aí começou. O filme era da Shirley Temple, mas não me lembro de nada. Fomos comer algo na Leiteria Campo Belo. Foi um longo papo, agradável. Na manhã seguinte, embaixo da janela estava um buquezinho e um papel com um acróstico. Um poema com as letras do meu nome:

Trazes no peito um sonho de ventura
Amável sonho que te embala a vida
Tornando-a suave e menos mal sofrida
Irmão do teu sequioso de ternura
Arde outro sonho dentro do meu peito
Não te parece assim bela medida
Amarmo-nos os dois num só proveito?

Já me mostrou aquela cara com covinha no queixo, aquelas sobrancelhas e tudo, e sai essa coisa logo de cara, com flores e acróstico? Quem resiste? Ele vinha me buscar e nós íamos namorar na Praça Buenos Aires. Uma noite chegou um guardinha: “Vocês são namorados?” E eu, irritada: “Somos, e daí? Não pode?” “Não, é que nunca vi namorados assim. Vocês só falam.” Claro que a gente nem só falava, mas discutíamos tudo: teatro, literatura, política. Ele era um pouquinho centro-direita; eu, um pouquinho centro-esquerda. Estávamos errados os dois, mas isso só descobrimos mais tarde.

Monteiro Lobato em cena
Convidei o Julio para conhecer meu pai. Papai abriu a porta, olhou bem e disse: “Achou logo um com a minha cara.” E de certo modo tinha razão. Meu tipo ideal era meu pai.

Engraçado é que foi mais ou menos a mesma coisa que o Monteiro Lobato disse para o Julio. Já estávamos casados, tínhamos dois filhos pequenos. Uma noite tocou o telefone: “Aqui é o Monteiro Lobato. Li o artigo do Julio sobre minha obra infantil na revista Literatura e Arte, gostei e quero conhecê-lo. Posso ir aí hoje à noite?”

O Julio abriu a porta e ouviu: “Na sua idade eu tinha a tua cara.” Não tinha. O Julio era mais bonito. Mas era o mesmo tipo. Homem bonito para mim tinha que ser assim, porque meus irmãos eram loiros de olhos azuis. E loiros de olhos azuis para mim eram irmãozinhos, não dava tesão nenhum.

Lobato era uma figurinha. Franzino, pequeno, seus olhos brilhavam muito. O que sabia de criança! O que virou a literatura infantil brasileira! Um divisor de águas. Ele descobriu: ler é mais importante que estudar. É a sacada. Quem lê aprende; quem estuda às vezes aprende, às vezes não. Decorar não é aprendizado. Passa de ano e esquece.

Era irônico, sarcástico, crítico, e isto era engraçado. Um grande brasileiro. Amava a pátria, queria o bem da pátria e queria fazer e acontecer.

A aproximação com o teatro
Foi por acaso. Nos convidaram para a festa da filha de uns amigos. E o Julio teve uma idéia. Em vez de dar mais uma boneca, por que não fazer um teatrinho? Escreveu uma adaptação de uma cena do Peter Pan. Foi um sucesso. Estavam lá umas senhoras de uma sociedade meio beneficente, meio cultural. Falaram com o Julio para aumentar uma hora e elas venderiam a lotação para o Teatro Municipal. O secretário de Cultura, ou prefeito, gostou. E fomos convidados a fazer teatro para crianças, para a Prefeitura. Nossa platéia era sempre lotada de crianças, sem pais. Adulto atrapalha. Ou senta na frente, a criança não vê nada. Ou senta do lado e fica cutucando: fique quieto, fale, bata palmas. Perturba. Nós tínhamos um público verdadeiro, sincero; aplaudia quando queria, vaiava quando queria.

Apareceu a televisão
Lobato já tinha morrido. Tinha só um programa para criança na televisão. Uma pré-Xuxa, vedete, Virgínia Lane. Lindas pernas, vestida de coelhinha, animadora de auditório, simpática. No Natal de 1951 a televisão nos convidou para levar a peça que estávamos fazendo pela Prefeitura. Estreamos e imediatamente o telefone tocou; pediam mais programas assim. A TV Tupi nos convidou para fazer um programa toda semana ao vivo.

Comecei a escrever. Eram histórias de La Fontaine, Esopo; brasileiras, russas. Durou alguns meses. A emissora veio dizer que tinha patrocinador e propuseram um programa brasileiro. Eu disse:
“Julio, só tem que ser Monteiro Lobato.”
Epidemia de Tatiana
tatiana01A primeira adaptação foi do Julio: A Pílula Falante. A melhor Emília de todos os tempos era a da Lucia Lambertini. Julio escreveu as duas primeiras histórias e disse: “A partir daí, você escreve.” E lá fui eu.

Um pouco mais de meia hora cada capítulo, sem intervalos e anunciantes. Ficamos 12 ou 13 anos com quatro programas por semana. Três horas de televisão ao vivo por semana. Sem contrato, e nunca falhamos um minuto.

E tudo ao vivo. Não tinha muito tempo nem para ensaio. Ler, ler, ensaio de mesa, mais ensaio, vai para o ar, acabou. E eu escrevia direto na máquina. De noite, porque de dia era dona-de-casa. Com muito prazer mesmo, tripla jornada. Mas ficava o dia matutando. Quando as crianças iam para a cama, eu já sabia o que queria. Sentava e fazia um roteiro, cena por cena. Em duas, três horas, estava pronto.

Desencadeei uma epidemia de Tatiana. Quando estava no Mackenzie, em 2 mil alunos eu era a única. Não entendiam que raio de nome era: Tia Ana, Sebastiana. E começaram a pulular Tatianas por aí. Até hoje encontro senhoras que dizem: “Sabe que me chamo Tatiana por sua causa?”

Primeiro merchandising deu certo demais
Teve um caso engraçado, um achocolatado, leite com chocolate. Aparecia no começo: Completo Puritas apresenta. E no fim: Completo Puritas apresentou. Não podia interromper o teatro. É coisa séria. Inventei uma brincadeira: havia uma espécie de intervalo no roteiro. A Tia Anastácia chamava, onde quer que estivessem: “Hora da merenda, venham todos.” Tinha pipoca, bolinhos, comidas brasileiras. Eu disse: “Julio, deixa eles tomarem Completo Puritas, põe um copo e deixa eles fazerem uma aposta, de quem toma mais depressa.” Sabe o que aconteceu? Dois meses depois, o patrocinador disse: “Não dá, não damos conta dos pedidos, pára, pára.”

Quem é o avô do seu bisneto?
O que aprendi com as crianças não aprendi em livro nenhum. Meu irmãozinho, fui “irmãe” dele. Ele “descobriu” um companheiro invisível, que se chamava Bidínsula. Perguntei: “Onde você arranjou um nome desses?” E ele: “Não arranjei, ele me disse.”

Quando fiz quatro anos, meu pai me deu uma caixa de bloquinhos, com letras. E não disse o que era aquilo, sabia como era criança, que eu ia perguntar. Daí eu perguntava: “O que é isso aqui?” E ele: “É B.” “E esse?” “U. Você sabia que juntando B com U dá BU?” Fascinante. Em dois meses estava lendo.

Quando meu primeiro neto fez quatro anos, pensei: vou fazer essa brincadeira. Dei uma caixinha de blocos. Pouco tempo depois ele estava lendo baba, bebê, papa. Pensei: vou fazer um teste bem difícil. Sentei com ele, formei uma palavra grande, Tatiana. “Vamos ver se você consegue ler.” Ele olhou para as letras, olhou para mim, daí, apontando com o dedinho, leu: “Vovó.” Lindo, né?! Meu queixo caiu. Só criança! Não dá para inventar uma coisa dessas. Meu primeiro neto, o Julinho, está fazendo 40 anos.

Às vezes apresento um senhor: “Esse aqui é o avô dos meus bisnetos.” A pessoa pára pra pensar. Aí, sabe que é meu filho.

Três bisnetos traquinas, o que é bom
Ontem mesmo estiveram aqui. São inteligentes, engraçados, mas muito traquinas – o que é bom. Criança muito boazinha é chata. Quando eu era pequena queria ser bruxa. “Por que bruxa, e não fada?”, perguntavam. Porque as fadas são chatas. São boazinhas o tempo todo. Bruxa é mais interessante. Elas podem fazer o que querem, mostrar a língua, dizer desaforo, podem até ser boazinhas, se quiserem. Só deixei de querer ser bruxa quando conheci a Emília. Bom mesmo é ser Emília, que é bruxa, fada, menina, bonita. Monteiro Lobato dizia que, quando tipava as histórias, Emília ficava do lado dando palpites. Um dia perguntou para ela: “Afinal de contas, quem é você, Emília?” E ela: “Eu sou a independência ou morte.” E eu digo: “Ela era Monteiro Lobato.”

Como escrever bem para criança
Tem que ter sido criança. Ler muito, ter imaginação. O escritor precisa ter olhos de ver. Muita gente olha e não vê nada. A cada minuto acontece uma coisa interessante, no mundo, na rua, na escola, na igreja. Tudo dá samba.

Precisa expor o livro à criança, expor a criança ao livro. Tem que levá-la à biblioteca; ter livros em casa; ler para ela; ela ver a gente lendo. Nunca vi meus avós sem livro na mão.

A criança, naturalmente, tem curiosidade. Se vê uma coisa fechada, abre. Seja uma caixinha, seja um livro. E gostam de livro. As crianças do meu entorno têm tudo, computador, videogame, praia, parque. E livro. Há lugar para tudo. Coração é como ônibus, sempre cabe mais alguma coisa. E não fica nem espremido, viu? Cada um ocupa seu espaço.

Eu sou a vovó do livro. Quero que me vejam com o livro na mão. Digo: o livro é uma coisa mágica. Sabe por quê? Porque é pequeno, você pode carregar; levar para a cama, até para o banheiro. E, no entanto, cabe até dinossauro. Cabe igreja, bruxa, ogro. E não só cabe: entra pelos olhos e ouvidos, faz um teatro na sua cabeça; mil coisas. Se isso não é mágica, não sei o que é. Além disso, cada livro é tantos livros quantos são os leitores. Porque cada leitor lê de um jeito, cada cabeça é diferente da outra. E também é tantos livros quanto o número de vezes que você lê. Se você ler um livro aos dez anos, e ler aos 15, é outro livro.

O papel das ilustrações
Quanto menor a criança, maior a ilustração; e vice-versa, quanto maior a criança, menos ilustração precisa. A melhor coisa do Harry Potter não são as histórias, é o fato de as crianças lerem texto. Aprender a ler e a decifrar textos. Mas só Harry Potter é pouco. Que leiam outras coisas. Uma vez, o Julio falou pela televisão para as professoras pedirem às crianças menorzinhas que fizessem um desenho sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Choveram trabalhos. Nós discutimos: o que será que vai aparecer mais? Todo o mundo achava que seria a Emília. No fim, Emília ganhou o honroso segundo lugar. E o primeiro sabe o que era? Era a mão do narrador tirando o livro da estante. A mão do Julio, a abotoadura brilhando. Foi a vitória. Queríamos realmente promover leitura. O livro que eu adotasse vendia, tinha fila na livraria.

O que a criança pergunta nas escolas
É de cair da cadeira. Uma menininha de nove anos perguntou: “Você é a favor do aborto?” A professora quase desmaiou. Para criança a gente tem que responder com honestidade e sem pestanejar.

De propósito, usei uma palavra difícil. Disse: “Sou a favor dos métodos anticoncepcionais.” Ela agradeceu e sentou. Era uma turminha danada. Um menininho perguntou: “Você é racista?” Eu disse: “Você já olhou bem para mim? Eu tenho orelhas grandes assim? Eu zurro? Não sou um burro. Só gente burra é racista. Gente burra e coitada, sem auto-estima. E muito triste.”

Almanaque Brasil de Cultura de Popular – Edição 64 – Julho/04 – Fotos Manoel Marques.

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