Edição 111

Professor Construir

TEA: meu universo arco-íris

Nildo Lage

Viajei para um planeta inexplorado para compreender uma desordem implacável. Suas armas, de tão ardilosas, aprisionam, imobilizam… Manobram o agir, o reagir e o querer. Estabelecem, como princípio, apartar-se do outro, conservar-se imerso no seu próprio mundo. Todavia, o repto para existir é prosseguir. Assim, investi por suas trilhas arremetendo às cegas, conduzido por murmúrios, frases repetidas, gestos inexplicáveis… Ousei embrenhar pelas entranhas da alma, crente de que chegaria à origem… Fracassei… Confrontei com um universo silencioso, em tempos alternados… Brados… Evasões bruscas… Não abordei a procedência de uma confusão que emana reações, mas não delineia coordenadas do seu marco de partida, tampouco de chegada.

Regressei ao ponto de partida… Reiniciei, transitando pelas veredas de um mundo de incógnitas, repleto de reentrâncias, e abordei o sopé de um vulcão, cujas erupções emanavam rios de questionamentos: qual o seu pretexto? Prematuridade de bebês? O que define o seu conjunto de sintomas? Brando ou severo? Qual a sua genealogia? Mutações genéticas? Quais as influências do DNA? Vai ver foi deficiência de nutrientes que gerou falhas no desenvolvimento cerebral! É ou não é de ascendência genética? Não é! Então é síndrome? Transtorno… Ou doença? Nenhuma das alternativas anteriores! É síndrome, sim… Pelo conjunto de sintomas! Se for síndrome, pode ser do cromossomo X-frágil! Ou será outra síndrome oculta aos olhos da ciência? Transtorno multifatorial? Ou outro transtorno?

Sem respostas, investi guiado por gestos, fugas, conflitos, gritos, reações agressivas… E o revés… O sinal de alerta dispara… Seja prudente, pois o cérebro desses indivíduos são radares hipersensíveis que reagem de forma inesperada ante imagens, aromas, sons, luzes, e as excitações externas podem sobrecarregá-los… Se encontra no portal… Não se abisme se, ao entrar, for ignorado ou arrostado como um peralvilho, pois não encaram os humanos como pessoas, são artefatos… Caraca! Então… São extraterrenos?

Um novo passo… A confirmação… No mesmo eco, um novo alerta… Não seja afoito… Se não for bem recebido nem conseguir ser compreendido… Calma… Respira… Alguns indivíduos têm retrocessos linguísticos expressivos, mas há aqueles que são geniais… Apesar de não falarem, não interagirem… Conservam-se desatentos a tudo a sua volta.

Um novo toque despertou a sensibilidade, aguçou os sentidos… São os radares que orientam, auxiliam na exploração, promovem a contextualização desse mundo, que, de tão característico, torna-se único, unicamente meu, e é precisamente por esse planeta ter sido reservado tão somente para mim que as diferenças despontam como barreiras, impelindo fugas e conflitos como manigâncias de autodefesa.

Novos passos… O universo granjeou formas, emanou figuras, salientou reproduções, cores… Cores do arco-íris e o segundo alerta: arquitete a plataforma para não se dissipar perante a instabilidade de indivíduos que instituem as próprias regras. Prudência é o instrumento que delineia o norte, pois os incompreensíveis não admitem justaposição… São astros sem rumo… Não sabem o que está ocorrendo à volta… Não apreendem ao primeiro contato… Por serem indivíduos perdidos em si mesmos, recuam, fogem, fecham-se e conservam-se à espreita.

É tudo ambíguo, sem nexo? Os elos não se acoplam, educador? Nada tem acepção? Mas é exatamente assim — ou mais complexo — que a vítima do Transtorno do Espectro Autista (TEA) se sente, excepcionalmente, no universo sala de aula.

Acercar-se desse universo, adicionar as peças para armar o incompreensível quebra-cabeça e, assim, abeirar-se das extremidades do TEA, que apresenta, na sua complexidade, reptos que a própria ciência não resolve. É necessário escoltar o dia a dia; ponderar o enredamento de sintomas, ações e reações que emanam ante atuações frequentes; alcançar as barreiras erigidas pela confusão que obstrui a interação social e impele a atos repetitivos. Mesmo não tendo comprobações da influência dos agentes biológicos, não se pode prever, tampouco anteparar, as não atuações das vítimas em situações de envolvimento interpessoal.

Aqueles que o cercam — pais e familiares — devem compreender seu atuar para antepará-lo, pois o autista necessita de um porto seguro, um lugar secreto para se recolher em meio aos conflitos… Uma ação pode estabelecer aproximação ou recuo se o respeito ao eu não for assentado como pontilhão, pois o desgoverno dos mecanismos do cérebro obstrui a comunicação entre os neurônios, as chamadas sinapses. Só isso? É tudo que se pode explanar sobre um transtorno que incita comportamentos irregulares, tornando o relacionamento com a própria família numa convivência complexa se seus limites não forem acatados.

O desafio é lançado àqueles que assumem a missão de inserir conteúdos e valores educadores. Terão que manter o radar acionado em alerta máximo, não desviar o olhar da tela para captar bulícios, reações, manifestos, para não romper as demarcações estabelecidas por cada eu como fronteiras invioláveis; do contrário, dilacerará esse universo de sentimentos.

Na maioria dos casos não há progresso. Não há progresso, porque a rotação do mundo autista é inversa à daqueles que o cercam. Se o agir não for preciso, corre-se o risco de desacelerar a rotação, e é exatamente por essa inversão de cadências e olhares que a sociedade, a escola e a própria família içam barreiras que dilatam o isolamento.

O único sentido bom de uma desordem intricada e emblemática são as extraordinárias habilidades. YXZ, por exemplo, é aluno do sexto ano do Fundamental II e deixa o professor de Matemática em alerta máximo. Se não examinar o conteúdo anteriormente, pode passar vexame com a turma, graças à sua desenvoltura em dominar os organismos da disciplina… Por quê? Cientistas não têm respostas, especialistas chegam a fazer pacientes de cobaia e, como na maioria das vezes, recebem como resultado o eco do próprio silêncio, não descrevem com clareza. Apenas um “Acredito que seja isso! Talvez aquilo!”. O verídico é que teorias se fundem com questionamentos.

Incluir: a Supermissão Designada a escola

Os desvios qualitativos na comunicação do autista o impelem a usar a imaginação, posicionando-o em um caminho que o desvia do fluxo de pessoas, gerando a inexistência de interação social; por resistir ao contato físico e por não exibir sintomas externos, a maioria aparenta ser pessoa normal. Todavia, esse transtorno invasivo do desenvolvimento dificulta o relacionar, não permitindo o contato físico, e tais ações impelem a vítima a assumir hábitos que se tornam rituais e a se apegar a objetos, como se essa ligação suprisse a necessidade de contato com aqueles que o cercam. Esse envolvimento é de uma dimensão que encara as pessoas como objetos.

Se aqueles que o cercam não o familiarizá-lo com a escola, ele dificilmente se adaptará ao ambiente escolar.

O ponto de largada em busca de respostas parte do desafio de que a escola — o primeiro espaço de socialização após a família — é encarregada de incluir um indivíduo que não se permite socializar, isso, muitas vezes, chega a ser um agir além-humano. Romper a linha de chegada requer tentativas, fracassos, novas experiências e novos fracassos, pois o educador não está preparado para trabalhar um indivíduo cujas habilidades e competências são contidas instintivamente e que exprime atitudes de não se relacionar socialmente. Sabemos que sem relacionamento não se tem comunicação, interação, tampouco desenvolvimento por meio de uma aprendizagem mediada através do intercâmbio, exatamente porque o matrimônio família-sociedade-Estado-instituição de ensino não sobrevém para socializar, e, sem essa junção, torna-se difícil trabalhar habilidades que exaltem potencialidades de educandos com necessidades especiais.

O fato é que a escola tem que os acolher, e o desafio foi difundido — com cobranças de resultados. O educador que não tiver estrutura, desenvoltura, passará por maus bocados até encontrar alternativas e, se ousar ir adiante, terá a oportunidade de contemplar a realidade de pais e familiares que se relacionam com pessoas com TEA, com um tour pelo enigmático universo autista.

Ao abrir a primeira fresta, os indicativos se tornam pontos de alusão. Para compreender as suas peculiaridades é essencial excitabilidade e resignação, para conceber sinais que emanam em meio às escassas erradicações que advêm no tempo do eu. O mundo autista tem a sua própria rotatividade, o seu próprio clima, o seu agir, o seu reagir, o seu recolher, o seu fechar, o seu abrir… De tão característico, seu medidor não se acerta com o do “satélite” do outro… Tantos enigmas acendem questionamentos e desafiam famílias e profissionais a arquitetarem reveses e táticas para suavizar a convivência.

Os números exibem os “satélites” que giram aleatoriamente pelo universo familiar e escolar sem encontrar o norte para enveredar pela rota que os transporte à órbita social — pois é assim que o autista se sente no meio social e escolar, como um satélite que gira em torno de si mesmo, sem localizar um ponto de sintonia com os que o cercam, e isso inquieta a própria Organização Mundial de Saúde, que estagnou ante a incógnita TEA.

O transtorno, mesmo controvertido, esquadrinhado, fisga as suas vítimas sem proceder respostas para esse “apagão” que impede o incremento neurológico. Ponto negro que nem mesmo uma força tarefa de especialistas é capaz de reverter, pois o mapeamento sinaliza que um a cada cento e sessenta bebês nasce com o “fusível” queimado.

Muitos pais, depois de jornadas de diagnósticos que não revelam nada, tropeçam… Tentam… Fracassam… Tentam de novo… A revelação… Entram em pânico quando encontram o especialista que diagnostica corretamente o transtorno.

“No primeiro instante, perdi o chão; no instante seguinte, desespero… Tão somente desespero… De tão avassalador, não consegui olhar para o meu filho!” revela MKY, mãe de autista. “Não ousei explorar o transtorno, pois explorar um universo totalmente inexplorado para a própria ciência, à procura de algo que me conduzisse à essência do mal que atormenta o meu pequeno KHR, que completou 4 anos e não fala, é um tormento. Olho para ele e corro para o quarto para chorar! Antes do diagnóstico, cheguei a aprender libras para compreendê-lo, por acreditar que fosse mudo…”

O identificador baliza que estamos na casa dos 2 milhões… Se globalizarmos esses dados, podem ultrapassar os 70 milhões no mundo… Só para idealizarmos a dimensão, a população residente de Portugal nos dados do Instituto Nacional de Estatística de 2017 é de 10.291.027… São nações de cidadãos que transitam imersos no universo do próprio eu. Seu mundo e nada mais. Quem se atrever a enveredar por esses países terá que compreendê-los para não romper o limite do seu tempo. Tempo para fazer, tempo para aprender e tempo para ser.

Olhares em fuga no planeta educação

Aos que arrostam, afugentam o olhar na tentativa de ignorá-lo, sejam compassivos! É verdadeiro! O TEA aprisiona a vítima numa bolha… Todos a veem, alguns chegam a notá-la… Todavia, poucos se aproximam, abarcam, pois o seu universo, de tão peculiar, torna-se um mundo de sacrilégios.

Formar um indivíduo que reage de forma atípica a cada contato desafia o educador a se arriscar nos contornos para improvisar a interação por meio de uma comunicação que o atraia, e, como a escola não tem estruturas para receber clientes com transtorno, permanece sem respostas a indagação que incomoda: por que a escola não promove a inclusão?

Numa visita a um espaço que atende pessoas com necessidades especiais, deparei-me com um adolescente deprimido sentado em uma cadeira no fundo da sala. De tão diminuído ao próprio mundo, não me olhou nos olhos. Observei-o desde a chegada. Entrou silencioso, sentou no lugar que ocupava todos os dias e não interagiu. Abriu a mochila, pegou rolos de fitas coloridas… Começou a brincar, como se transitasse por uma autoestrada sinuosa, repleta de atrações… Era o seu universo… Ali, explorava, redescobria o seu mundo, descobria outros mundos e até outras línguas, pois ninguém, nem os próprios especialistas da instituição, entendiam como aprendeu inglês sozinho. Autista ou autodidata?

Questionei, incitei… Ninguém ousou me responder. Não respondeu para não revelar que o gênio era mantido em vigilância constante. Estava ali sendo estudado… Tratado com mimo, e, mesmo assim, entrava em crise… Ora gritava, esmurrava a parede, ora devorava o material que recebia: papel, lápis, borracha… Ora agredia, ora era agredido… Quando não encontrava nada para devorar ou ninguém para agredir, se mordia. Qualquer som externo, até a música de um carro de propaganda em trânsito, o deixava extremamente agitado.

Ao entrar na quarta sala, fui surpreendido por um grito. Entrei num gesto brusco e me confrontei com uma adolescente de doze anos — dos três que estavam no recinto. Ela se levantou bruscamente e começou a dançar, cantar… Como se sentisse a necessidade de ser notada, inclusive por um colega que se conservava alheio a tudo à sua volta.

Consultei o professor, que revelou que LHS — a adolescente — não apenas dançava e cantava como uma profissional, era uma pintora nata. Suas obras intrigavam os especialistas, salientando que o maior erro do educador é avaliar o aluno que escreve, lê, tira boas notas… Não o potencial que o próprio transtorno agencia em cada um que se conserva arquivado num canto de uma sala da escola regular.

É simplesmente impressionante como o grau do transtorno direciona o relacionamento com a família e como esse relacionamento faz a diferença no ambiente escolar. Ante a realidade, asseguro que a base familiar é tudo… De tão fundamental, vitória ou fracasso dependem do agir e do não agir de quem cerca o autista no ambiente familiar.

A menção de que cada ser é um universo e um universo único ganha tanta veracidade que respeitar esse universo é decreto. Uns cantam, dançam, gritam… Ao passo que outros se irritam com a própria música que alegra os colegas.

Essa resposta ecoou na sétima sala ao final do corredor. A sala tinha isolamento sonoro. Ao entrar, apenas dois alunos. Um deles era TRQ, que tem a audição extremamente sensível, a ponto de os ruídos de uma moeda caindo o incomodar. Os pais de TRQ confessaram que, nas festas de aniversário, não usam música, e os convidados não podem gritar ou fazer qualquer tipo de ruído que o impaciente. Do contrário, fica nervoso e, se os barulhos não forem interrompidos, parte para a agressão. Fogos de artifício é um martírio… Na primeira explosão, corre para o ponto mais isolado e se esconde.

Visitei as unidades de ensino que esses educandos frequentam em horário oposto, e o que contemplei me deixou impressionado: o elevado número de portadores do transtorno. Nesse universo de “iguais e desiguais”, o agir docente é um diferencial dantesco. Daí a urgência de se capacitar os profissionais da educação regular para enfrentarem tal realidade. Um gesto, uma reação, uma palavra podem interromper um processo ou finalizar uma caminhada.

Hipersensíveis, de condutas distintas… Agem como peças que não se encaixam… Giram, giram, até encontrarem um lado em que possam se apoiar… BGF, do 5º ano, é um exemplo. Não fica na sala na aula do professor XYZ. Sai afoito e se esconde na do professor X. O fato? Uma brincadeira de mau gosto no Dia das Crianças? O professor X solicitou à direção que deixasse BGF em sua sala e que não lançasse no diário as transferências.

O seu desempenho foi surpreendente… A evolução foi tamanha que aprendeu a fazer o nome com letras cursivas. O diferencial? O professor! Aquele que dedica, busca e acolhe faz a diferença na vida do aluno e na própria educação.

Ao ser abordado por X, XYZ reagiu frio: “Sou psicopedagogo e não recebo por isso… Vendo aulas, não sou pago para ajustar parafusos em cabeças desgovernadas!”.

É o reflexo do desgaste de um profissional mal remunerado, mal valorizado, mal capacitado… Desrespeitado por pais e educandos, pelo sistema, pelos gestores… Que depositam esse fardo de MAUS naqueles que necessitam do seu agir BEM… Pois também é vítima… Vítima do desgaste pela carga que o sistema deposita nos seus ombros por acreditar que tem que se virar para ajustar falhas, contornar transtornos, superar traumas… Demonstrando que escola e educador não estão preparados para receber um ser agressivo, pois a maioria dos autistas são agressivos. Como avaliar? O professor tem que produzir notas?

A vereda do despenhadeiro principia pela desestrutura física e profissional. O sistema, com a vasta experiência, não aprendeu a formar um indivíduo com um transtorno que bloqueia o processo de aprendizagem. Especialistas da própria escola têm ciência de que o humano nasce para aprender. Se TEA não é doença, o que impede a pessoa com o transtorno de progredir, se a principal característica do humano é aprender? O professor X evidenciou, por meio do trabalho com BGF — grau médio —, que o autista aprende… E comprovou outro fato: a escola é uma fábrica de mitos; qualquer obstrução tem que ter laudo. E, como a insensibilidade educacional arremessa a pessoa com o TEA para um canto da sala com um “Esse doido não aprende nada, só atrapalha!”, agencia a não inclusão no espaço escolar.

É inadmissível em plena era das coisas conectadas, quando milhões de eus gritam por reconhecimento no planeta sala de aula, o presidente da Fundação Palmares declarar que “A escravidão foi terrível, mas benéfica para os descendentes!”. Assim como as pessoas com TEA, a população negra, que cresceu 32% nos últimos sete anos, tem suas chances ceifadas por uma sociedade preconceituosa, uma educação insensata. Não é pilhéria nem trailer de novela de época… É real.. Uma infeliz realidade… Desrespeito à vida, trituração de valores, arrebatamento de direitos… É a nova tendência? A escravidão foi tão benéfica para os negros, quanto a ditadura, um corretivo aos que regaram com o próprio sangue o sonho de um “BRASIL” livre?

Foi nesse poço sem fundo que a educação foi arremessada. E é no encovado desse poço que a quebra de braços autismo x aprendizagem sobrevém numa batalha desumana. E como a linha sempre irrompe do lado mais fraco, prosseguem questionamentos: por que o professor não supera? Por que o sistema não inova?

É inexplicável. Os recursos para a educação triplicaram nos últimos anos… Por que a qualidade do ensino só declina? O retorno é que o governo ainda não entendeu o significado nem a importância de inovação na educação! Qualidade estabelece ferramentas inovadoras, profissionais capacitados, bem remunerados… Cada autista pode ter um educador a mais, mais materiais e atividades. Porém, tudo que onera, o sistema exclui. Assim, essa vida é arremetida para o arquivo morto da escola com um “Fica aí… Passaremos você de ano, de ciclo… Depois você se vai… Vai desenhar, redesenhar e colorir o seu mundinho de evasões e alaridos!”.

Esse é só um parágrafo de histórias de vida que são arremessadas à beira do caminho por uma instituição que se vangloria de exercer a arte de atrair, incluir e formar para a vida. Sente-se o reflexo da propaganda enganosa ao primeiro passo nas instituições frequentadas por autistas. Nem é preciso esquadrinhar para nos deparar com um mundo à parte, pois temos a oportunidade de visualizar, em quantas dimensões almejarmos, os planetas que giram em torno de si mesmos sem encontrarem um ponto de luz.

Tais iniciativas salientam um olhar sombrio de uma educação retrógrada, graças ao descaso de um sistema que não salienta interesse em promover a evolução social, içando cada vez mais as barreiras que impedem a escola de formar o cidadão integral. É nesse cenário de exclusão e desinformação, denominado sala de aula, que pessoas com TEA e outros transtornos, na sapiência do seu silêncio, no refúgio do seu eu, permitem que murmúrios retinem para exprimir a asfixia de sonhos e direitos instituídos.

Como é difícil, educador, gestor, sociedade e você… Você mesmo, sistema! Como é complexo compreender! Compreender que síndromes como Down e transtornos como autismo não são opções listadas no momento da concepção. Se fosse tão simples assim, a ciência teria ajustado falhas emocionais, psicológicas… Retificado mutações genéticas… Se fosse tão simples assim, ninguém teria sequelas físicas, emocionais, psicológicas… Se fosse tão simples assim, muitos escolheriam não ter nascido cego, surdo, mudo, deficiente físico… De quem é a culpa? Da evolução humana? Da má formação genética? Se fosse tão simples assim, eu escolheria não ter nascido autista… Escolheria uma saúde perfeita, ser feliz e não ter que ficar o tempo todo entre fugas e conflitos! Se a culpa não foi minha, por que os meus direitos não são respeitados? Por que não sou inserido num processo de inclusão? Quem é perfeito ou domina competências para explanar que autismo é ou não é doença? Todavia, todos os dedos assinalam para a minha imperfeição!

Posso ser imperfeito a ponto de ser “deixado” de lado, mas sei o que é amar de verdade. Sei o que é viver, relacionar sem preconceitos… Posso ser um mistério para a própria ciência… Contudo, tenho capacidade para me definir e me defino como você… Um ser imperfeito que, como todos, buscam aprender, crescer, ser alguém… Conquistar o lugar ao sol.

Sou ímpar… Mas quem é par? Como você não é igual a ninguém, também sou único. Tão individual que sou capaz de edificar minha base para aprender e, quanto mais aprendo, reconheço que o que mais quero é ser compreendido… Posso ser diferente, esquisito até… Mas tenho o direito de sonhar… Não quero pena, tolerância, pois não pedi para que o autismo entrasse e fizesse parte do meu mundo… com licença, deixe-me ser eu, pois uma das minhas características é expressar a veracidade, e não avaliar o outro, mesmo que esse outro me rotule como mercadoria vencida.

cubos