Edição 44

Matérias Especiais

Técnicas de treinamento para a educação da emoção: a educação participativa

Augusto Jorge Cury

Os professores são poetas da vida. A esperança do mundo está sobre os ombros da educação. Entretanto, a mais nobre das profissões tem se tornado uma usina de estresse. Por isso, a educação moderna tem de levar em alta conta o treinamento da emoção.

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Gostaria de propor algumas técnicas para enriquecer esse treinamento e fazer com que os professores transmitam o conhecimento com mais prazer, com menos consumo de energia e com mais eficiência. Os princípios dessas técnicas podem ser recursos humanos seguidos por qualquer pessoa que queira educar a sua emoção e a dos outros. Vejamos.

Primeira: Educação participativa

• Os professores devem promover a educação participativa. Os alunos devem ser estimulados de todas as maneiras a deixar de ser espectadores passivos, que se sentam em sua carteira e ouvem inertes a transmissão do conhecimento. Esse tipo de passividade esmaga a criatividade, a liberdade e o espírito empreendedor.

• Os alunos têm de participar, de perguntar, de duvidar, de questionar, de propor ideias. Eles têm de participar da vida da escola, propor mudanças, atuar em campanhas de prevenção do uso de drogas e de Aids. Somente participando da vida da escola, eles se comprometerão com ela.

• Como é possível transformar os alunos em agentes que atuam na educação? Em primeiro lugar, eles não deveriam ser enfileirados na sala de aula, mas se sentar em forma de ferradura, ou “u”. Todos devem estar voltados uns para os outros e para o professor. O enfileiramento dos alunos parece inofensivo, mas é pernicioso e lesivo, pois cria hierarquia, produz distrações, fomenta a inércia do pensamento, obstrui a emoção. A educação clássica tem sido uma fábrica de pessoas passivas.

• É um risco ouvir excessivamente e falar muito pouco. Como eles têm a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) e sentem a necessidade de expressar o pensamento, canalizarão sua energia para conversas paralelas. Já que muitos alunos são inquietos, tensos, ansiosos, temos de canalizar essa ansiedade para a produtividade, para a participação. Caso contrário, a sala de aula será sempre um barril de tensão, um ambiente desagradável, chato, tedioso para eles.

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• Aluno excelente não é aquele que tira notas excepcionais, mas aquele que aprende a pensar e que educa sua emoção para respeitar seus pares, para ser solidário, para emitir opiniões, para refletir sobre as ideias recebidas.

• Os pais e professores devem estimular os jovens a participarem, a falarem o que pensam e sentem. A cultura da escola cultiva a timidez, mesmo alunos ansiosos podem ser tímidos. Quem é tímido pensa muito e fala pouco, vive reprimido. Na vida adulta, eles se tornam ótimos para os outros e péssimos para si mesmos. Costumam ser gentis e tolerantes com as pessoas, mas são exigentes e rígidos consigo mesmos.

• Os alunos só podem se comprometer com a escola se ela propiciar uma educação participativa que estimula o treinamento da emoção. Os professores têm de usar sua criatividade para fazer isso. Podem ser usadas as lições para estimular o trabalho em equipe que comentei anteriormente.

• Sem a educação da emoção e a educação participativa, não há como desenvolver as inteligências múltiplas, a inteligência emocional nem a inteligência multifocal. Ouviremos milhares de conferências sem colocarmos nada em prática. Todas as informações se dissiparão na segunda-feira.

Segunda: Exposição dialogada

• Em segundo lugar, a educação da emoção passa pela técnica da exposição dialogada. Os professores devem ser seguros, olhar nos olhos dos alunos e ser capazes de provocar a capacidade de pensar estimulando a arte da pergunta. A arte de perguntar gera a arte da dúvida, e a arte da dúvida estimula a arte de pensar. Quem pergunta pouco duvida pouco, pensa pouco e represa muito sua emoção.

• Se hoje você tem dificuldade de falar dos seus sentimentos e falta coragem de perguntar e questionar as pessoas que o rodeiam, é porque no passado você não teve liberdade de extravasar suas dúvidas e seus conflitos aos seus professores e aos seus pais. A criatividade e a liberdade são cultivadas no solo da pergunta.

• Os pais e professores deveriam estimular seus filhos e alunos a serem perguntadores. Lembre-se de que na infância fomos ótimos perguntadores, mas o tempo passou, a sociedade nos sufocou e fomos silenciados.

• Muitos têm medo de falar em público, outros suam frio ao levantar as mãos para fazer uma pergunta numa reunião. Foram treinados desde crianças para ficar quietos, e não para perguntar e participar. Nada é tão pernicioso quanto a cultura das provas. Os alunos aprendem a dar respostas nas provas, mas não aprendem a dar respostas na vida.

• Conheci muitos jovens que sofreram abuso sexual na infância e nunca tiveram coragem de falar para seus pais ou professores. Viveram o topo da angústia, mas, infelizmente, silenciaram. Se os alunos não têm coragem de fazer uma simples pergunta em sala de aula, como vamos esperar que eles falem dos seus conflitos mais importantes? Devemos treinar nossas crianças a falarem e a expressarem suas ideias desde a mais tenra infância.

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• Um excelente cientista, executivo ou profissional liberal é alguém que aprendeu a perguntar mais do que a responder, a questionar mais do que a se satisfazer com informações prontas. A arte da pergunta promove a educação da emoção.

• Um bom mestre ensina a seus alunos o conhecimento; um excelente mestre treina a emoção deles para perguntar, duvidar e ter consciência crítica. Na vida e na ciência, o tamanho da pergunta determina a dimensão da resposta. Um bom mestre prepara os alunos para passarem em concursos, um excelente mestre os prepara para serem pensadores na sinuosa escola da vida.

Terceira: Contador de histórias

• Os professores devem ser excelentes contadores de histórias. Devem estimular a emoção dos alunos enquanto transmitem o conhecimento. Platão preconizava que o conhecimento deveria ser transmitido com deleite. Contudo, não há deleite no conhecimento se ele não for oferecido com cores e sabores da emoção.

• Contar histórias é uma excepcional forma de dar sabor ao conhecimento. As informações transmitidas com emoção, aventura ou prazer são registradas de maneira privilegiada na memória pelo fenômeno RAM. Tente se lembrar das informações mais importantes da sua vida. Se tentar, perceberá que resgatará as experiências que foram carregadas de emoções.

• A transmissão do conhecimento com voz multissonante, segura e teatralizada abre espaço na mente dos alunos que estão com o pensamento acelerado. Facilita o registro e o aprendizado. Muitos professores precisam repensar sua postura em sala de aula e seu papel como educador.

• Pais e professores deveriam tirar o gesso da emoção. Educar deveria ser a mais séria brincadeira da sociedade. Se você quer ser um excelente educador em qualquer área profissional, nunca se esqueça de ser um contador de história. Aprenda a ser inventivo, liberte sua imaginação, aprenda a rir de você, aprenda a rir de sua seriedade.

• O mundo precisa tanto da gravata como do palhaço, da seriedade e do sorriso. Aprenderemos que o maior educador desta terra foi o maior contador de história.

Quarta: Reconstruir o rosto do conhecimento

• Todas as vezes que os professores fossem transmitir uma nova matéria, deveriam reconstruir o rosto do conhecimento. O que significa isso? Significa contar a história sintética dos cientistas que produziram o conhecimento transmitido. Significa ainda reconstruir o clima emocional que eles viveram enquanto os produziram, significa relatar a ansiedade, os erros, as dificuldades e as discriminações que sofreram.

• O conhecimento sem rosto não educa a emoção nem estimula a arte de pensar. Por isso, sou crítico dos materiais didáticos que frequentemente observo. Nada prejudica mais o desenvolvimento da inteligência dos alunos do que transmitir o conhecimento pronto, frio, sem rosto, sem história, sem vida. Os alunos não amam o conhecimento porque ele é transmitido sem tempero, sem emoção.

• Os alunos serão sempre reprodutores do conhecimento e não-pensadores se não compreenderem que o conhecimento exposto nas aulas e contido nos livros foi produzido com arte, aventura, paixão.

• Os professores devem ser capazes de levar os alunos para dentro da experiência da produção de conhecimento, devem provocar neles o espírito empreendedor, aventureiro, crítico. Reconstruir o rosto do conhecimento estimula a paixão pelo mundo das ideias, refina a educação da emoção.

Quinta: Elogiar e resgatar a autoestima dos alunos

• Um grande mestre é um grande promotor da autoestima dos alunos, um mestre do elogio. Ele elogia todos os alunos, mesmo aqueles que dão muito trabalho. Não existem alunos problemáticos, existem alunos que estão passando por problemas. Não existem alunos agressivos, existem alunos com conflitos.

• Encoraje a participação ostensiva dos alunos em sala de aula e valorize cada ideia que eles expressarem. Conte histórias para educar a emoção deles a resgatar o sentido da vida como as que estou contando sobre a grande corrida da vida. Diga-lhes que eles venceram o maior concurso da história, foram os mais corajosos do mundo, passaram por todos os riscos para atingir o pódio da vida.

• Um dos maiores segredos da educação da emoção é elogiar criticando. Elogie algumas características de uma pessoa e só depois a critique. O elogio estimula a emoção, que abre as janelas da memória e estimula a reflexão sobre a crítica. Criticar sem valorizar a pessoa que está sendo criticada trava a sua inteligência. A crítica “seca e agressiva” fere a emoção, que fecha as janelas da memória e bloqueia a capacidade de pensar.

• Os alunos precisam ter uma autoestima sólida. Elogie os alunos tímidos. Elogie os alunos obesos, discriminados, hiperativos, difíceis, agressivos. Elogie os alunos que são zombados, diminuídos e os que possuem apelidos pejorativos. Saiba que as mais drásticas discriminações começam nas brincadeiras das escolas.

• Se eu pudesse, iria de escola em escola em várias partes do mundo treinando os professores para compreender que, no espaço escolar, são desencadeados grandes conflitos emocionais. As brincadeiras ingênuas e os apelidos pejorativos produzem grandes discriminações e conflitos.

• Nunca permita que um aluno chame o outro de “baleia”, “elefante” ou coisas desse tipo por ele ser obeso. Nunca deixe de falar que a diferença entre um negro e um branco só existe na fina camada da cor da pele, ambos possuem o mesmo espetáculo da produção de pensamentos. Não se esqueça de que tudo o que está registrado na memória não pode ser mais apagado. Não é possível deletar a memória, apenas re-escrevê-la. Por isso, é muito mais difícil o tratamento psicológico do que a prevenção.

• Os pais precisam elogiar seus filhos muito mais do que criticá-los. Toquem-nos, abracem-nos, apertem suas mãos. O toque mágico. Os professores precisam usar o elogio como uma das maiores ferramentas educacionais. Somos especialistas em apontar defeitos e tardios em fazer elogios. Faça um teste, elogie diariamente e com criatividade as pessoas e os alunos mais agressivos durante dois meses. Você se surpreenderá com o que irá acontecer. Os elogios curam as feridas da alma e aquietam a ansiedade.

• Os jovens estão vivendo uma grande crise existencial. São vítimas de um mundo alucinante, veloz, ansioso, que nós criamos. Eles têm acesso ao mundo de prazer propiciado pela poderosa indústria de entretenimento, mas têm sido tristes, solitários, irritadiços. Se fosse possível comparar as ondas cerebrais dos alunos de há um século com os da atualidade, confirmaríamos a mudança no ritmo cerebral deles. A velocidade de produção dos pensamentos hiperacelerou-se na maioria dos jovens e adultos.

• A SPA, associada à paranoia do consumo, da estética e da competitividade profissional, tem roubado o encanto pela vida. Eles precisam treinar a emoção para abrandar o mundo das ideias e ser mais contemplativos. Desse modo, poderão valorizar as coisas simples e singelas, como o diálogo, a leitura, um passeio ecológico, uma caminhada para dentro do seu ser.

Sexta: Cruzar o mundo dos professores com o dos alunos

• Fico impressionado em detectar três mundos na educação clássica: o mundo dos alunos, o mundo dos professores e o mundo da instituição escolar. Não é possível educar a emoção se os mundos não se difundirem.

• Os professores devem cruzar suas histórias com as dos alunos. Eles não devem ter medo de falar de si, de suas experiências, de suas dificuldades, de suas metas, de seus sonhos, bem como de deixar os alunos falarem sobre suas histórias de vida.

• Seria muito bom se os professores contassem suas experiências reais de vida quando transmitissem temas transversais, tais como educação para a paz, educação para o consumo, educação da emoção, gerenciamento dos pensamentos.

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• Lembro-me de uma história infeliz contada por uma coordenadora pedagógica. Após ouvir-me falar em uma palestra sobre a necessidade do diálogo emocional entre os professores e alunos, ela levantou-se e disse muito emocionada a todos os ouvintes que uma aluna a havia procurado recentemente para conversar. Ela era querida pelos alunos, mas naquele dia estava ocupada e pediu para que a conversa fosse adiada para outro dia. Não deu tempo, a jovem tirou sua vida. Ela estava atravessando uma crise depressiva e ninguém sabia, nem seus pais. Quando ela quis se abrir com a professora, ela não teve tempo de ouvi-la. Nunca alguns minutos foram tão preciosos na vida de um ser humano. (Desculpe-me se comento a dor num texto sobre a felicidade, mas não quero propor um jardim sem falar dos espinhos. Os jovens têm muita energia, mas estão muito despreparados para lidar com a dor. Qualquer angústia os perturba muito. Mas não há conflitos que eles ou qualquer pessoa não possam superar. Eles precisam encontrar alguém que tenha tempo para ouvi-los, alguém que não os critique, que os compreenda, que os estimule a superar sua dor.)

• Não há dor que dure muito tempo. O medo da dor coloca combustível na emoção e debela as chamas da autoestima

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Sétima: Ensinar técnicas do treinamento da emoção e gerenciamento do pensamento

• Os alunos precisam aprender a gerenciar seus pensamentos e a dar uma direção lúcida às suas emoções. Caso contrário, o medo, as ofensas, as frustrações os derrotarão. Eles nunca deveriam ser escravos de suas ideias fixas de conteúdo negativo. Deveriam treinar ser fortes dentro de si mesmos.

• Deveriam aprender a atuar no mundo dos pensamentos e a romper o cárcere da emoção. Não deveriam fazer de uma pequena rejeição um monstro nem de necessidades não atendidas um canteiro de infidelidade. Assim como diariamente tomam banho e se alimentam, deveriam fazer uma higiene em seu mundo psíquico e alimentá-lo com sonhos e projetos saudáveis.

• Professores, não se preocupem em dar 100% das matérias que lhes foram incumbidas: essa educação está errada e falida. Numa educação participativa, que valoriza o treinamento da emoção, devemos dar mais atenção à qualidade das informações do que à quantidade.

• Ache tempo para falar com seus alunos sobre a vida deles. Muitos conflitos podem ser evitados ou superados com facilidade. Diversas crises entre jovens americanos que saem atirando em seus colegas e outras violências na escola poderiam ser evitadas se professores e alunos aprendessem a linguagem da emoção.

• A educação da emoção não pode florescer se professores e alunos dividirem o mesmo espaço físico e respirarem o mesmo ar, mas não cruzarem suas histórias, não falarem das suas emoções.

• Qualquer escola que seguir esses princípios da educação da emoção poderá sofrer uma revolução. Os professores precisam ser sistematicamente treinados para incorporá-los. A escola que educa a emoção faz fogueira com sementes, e não com madeira seca. O mestre da vida preferia sempre as sementes.

• Do mesmo modo, os pais nunca treinarão a emoção dos seus filhos se eles gastarem horas e horas ouvindo os personagens da TV, mas não tiverem tempo para gastar minutos cruzando seus mundos.

• Um recado aos pais e filhos: desliguem a TV uma vez por semana ou uma semana completa uma vez por mês. Façam coisas prazerosas, divertidas, sonhem juntos, brinquem juntos, elogiem-se mutuamente, treinem ser apaixonados uns pelos outros. O amor é o único remédio que não tem efeito colateral, mas é a flor que mais rapidamente seca sob o calor das tensões.

CURY, Augusto Jorge. Treinando a Emoção para Ser Feliz. São Paulo: Academia de inteligência, 2001.

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