Edição 68

Matérias Especiais

Texto-Base

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Apresentação

“Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8)

Vivemos da morte-ressurreição de Jesus Cristo! Seu nascimento, sua vida, seus gestos e suas palavras receberam plenificação na gratuidade da cruz. Cruz, transformação, ressurreição!

Os 40 dias que precedem a cruz e a ressurreição sinalizam o caminho que a Igreja, na liturgia, nos oferece como possibilidade de sermos atingidos pela experiência redentora de Jesus Cristo. Nas celebrações, as leituras nos provocarão a seguir o Senhor até o “clarear do novo dia”. Seguir ouvindo as palavras da Escritura é a expressão do desejo maior de sermos tomados na profundidade de nossas pessoas e comunidades pelo Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.

A Igreja, durante o tempo quaresmal, nos apresenta o jejum, a esmola e a oração como exercícios preciosos no caminho de nossa transformação em Jesus Cristo. A Quaresma deve, portanto, vir iluminada pelo desejo de conversão. Nesse tempo especial, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos apresenta a Campanha da Fraternidade como itinerário de conversão pessoal, comunitária e social. Fraternidade e Juventude é o tema da campanha para a Quaresma em 2013. O lema é inspirado no profeta Isaías: “Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8).

A juventude expressa jovialidade. A jovialidade pertence à juventude. Jovialidade não como alegria do sorriso da publicidade nem como aquilo que se opõe à tristeza e à dor. Jovialidade vem de duas palavras: jovial e idade. Idade significa a essência, a força, o vigor de alguma coisa. Jovialidade é, pois, o vigor, a essência do ser jovial. Jovial, por sua vez, não deve ser entendido no sentido de alguém sempre sorridente, pois jovial vem de jovis. Jovis é o nome com que os gregos designavam o deus supremo, o deus da força do dia. Jovialidade expressa, assim, o sentido de vigor de Deus, a força de Deus.

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A palavra juventude também vem de jovis. Juventude não como qualidade de uma idade cronológica. Deveríamos compreendê-la a partir da jovialidade. É jovem não aquele que tem idade nova, mas aquele que tem o vigor de Deus.

Do Deus que alegra a nossa juventude. Do Deus que é a vitalidade do nosso ser. Jovialidade é o modo de ser próprio de Deus. É jovem a pessoa que se deixou tomar pelo modo próprio de Deus, pela força de Deus, pelo vigor de Deus: amar sem medida, desmedidamente!

A Igreja no Brasil, ao repropor Juventude como tema da Campanha da Fraternidade, nesse tempo de mudança de época, deseja refletir, rezar com os jovens, reapresentando-lhes o Evangelho como sentido de vida e, ao mesmo tempo, como missão. A Campanha da Fraternidade é um convite para nos convertermos e irmos ao encontro dos jovens e, ao mesmo tempo, é um convite aos jovens para se deixarem encontrar por Jesus Cristo, caminho, verdade e vida (Jo 14,6).

A Campanha da Fraternidade já anuncia a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Ao assumir como lema o espírito missionário da JMJ 2013, indicado pelo Santo Padre Bento XVI, “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (cf. Mt 28,19), desejamos que todos os jovens sejam verdadeiros missionários em nossa Igreja. Jovens evangelizando jovens: “Eis-me aqui, envia-me!”. Jovens também colocando-se a serviço da evangelização através dos novos meios de comunicação. Vivendo e testemunhando a graça e a beleza de ser cristão. Beleza porque não são partícipes da vida do Reino e, por isso, são todos tomados por Deus, que alegra a nossa juventude.

Maria, Mãe das Dores, nos acompanhe nesse tempo de conversão! Com ela, digamos: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Por ela acompanhados, repitamos as palavras do profeta: “Eis-me aqui, envia-me!”.

A todos os irmãos e irmãs, todas as famílias e comunidades, uma abençoada caminhada quaresmal, um encontro renovador com Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.

Brasília, 28 de agosto de 2012.

Os tópicos a seguir foram selecionados, e estão dispostos de acordo com a sequência numérica de onde podem ser encontrados originalmente no Texto-Base.

PRIMEIRA PARTE

Fraternidade e Juventude

1. Impacto da mudança de época

1. 3. Fragilização dos laços comunitários e negação da vida

17. As pessoas, por causa das buscas e rápidas transformações desse contexto de mudança de época, ficam atordoadas com o ritmo acelerado do curso da história e desnorteadas por não mais confiarem em seus critérios, que parecem incapazes de responder às novas situações que surgem nesse período. As novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil mostram o vínculo dessa realidade com um agudo relativismo vivido pelas pessoas, que se defrontam com muitas novas possibilidades que lhes são oferecidas, associadas ao desenraizamento de sua cultura e do ambiente de origem. Mais um paradoxo: ao lado do relativismo, crescem também os fundamentalismos que rechaçam o pluralismo e o caráter histórico da realidade1.

BelleMedia_shutterstock_fmt18. O sistema econômico neoliberal, hegemônico nas economias industrializadas, submete o processo de produção a muitas cobranças e a uma árdua competição, o que se reproduz no mundo vital das pessoas. O caminho para se alcançar a estabilidade e a segurança também passa pela mesma dinâmica, o que faz a lógica da graça soar particularmente estranha no horizonte das relações entre as pessoas.

19. Essa competição faz com que as funções profissionais sejam eleitas como prioritárias entre os objetivos estabelecidos nos projetos de vida. O casamento deixa de ser a razão da felicidade futura, posto que ocupou entre os jovens das gerações anteriores, para se submeter ao “realismo profissional”. Assim, vemos projetos, em vista de se casar e ter filhos, serem adiados em prol da devida formação profissional, cada vez mais prolongada, resultando em uma maior permanência dos jovens na casa dos pais, devido à dependência econômica.

20. Nesse ambiente de individualismo, presenciamos a consolidação de uma afetividade autônoma e narcisista, notadamente nas novas gerações, que encontram dificuldade em manter relações permanentes e compromissadas e preferem um relacionamento restrito ao encontro casual. Surge o paradoxo da presença comunitária sem vida comunitária.

22. Essa geração descobriu a possibilidade de vivenciar uma fugaz felicidade no presente, sem grandes preocupações com o amanhã, o que anestesia a consciência histórica. Vive-se a própria vida e pronto. No entanto, a ausência da dimensão de futuro e de esperança e a perda de perspectiva histórica comprometem a ética, relativizando os valores necessários para a edificação das dimensões fundamentais da vida. Alienada e descomprometida com a historicidade, a pessoa passa a projetar um mundo irreal, fantasioso.

23. Os laços comunitários e sociais se fragilizam diante do acento pessoal nas propostas de felicidade, realização e sucesso em detrimento do bem comum e da solidariedade, corroborando um estilo de vida individualista, fechado a atitudes de altruísmo e de fraternidade2. Nesse contexto, a vida é negada ou ameaçada por várias formas de banalização e desrespeito: manipulação de embriões, abortos, ausência de condições mínimas para uma vida digna com Educação, saúde, trabalho, moradia, proteção à família, às crianças e aos idosos3.

24. Diante disso, essa Campanha quer lembrar dificuldades enfrentadas pelos jovens, como na sua formação, pois o mercado de trabalho é cada vez mais exigente, e como o grande número de assassinato deles. Esse contexto de mudanças tende a atenuar nas pessoas o apelo ao exercício consciente da cidadania, pois nele não há lugar para as justas interpelações dos mais necessitados ou de segmentos como o dos jovens, que são penalizados pela exclusão e pela violência em uma sociedade individualista e competitiva.

1. 4. O ativismo privado e a atuação do jovem

29. A partir da década de 1990, cresceu o envolvimento dos jovens em grupos culturais e lúdicos ligados à música, à dança e ao teatro. Apareceu um novo traço da pertença desses jovens, que se mostravam capazes de transitar por diversas tribos, sem conflitos, mesmo com uma identificação específica. No entanto, essa nova geração é ciosa de seus projetos pessoais, pensa a partir da individualidade.

30. Hoje, a atuação social da juventude é bem diversificada, pois o novo milênio trouxe novas temáticas, novas maneiras de se relacionar e de se organizar, com as novas tecnologias de informação e comunicação. As disposições éticas e as ações concretas dos jovens se realizam em diferentes espaços: esportivos, ambientalistas, religiosos, identitários, culturais, questionadores da globalização, redes sociais e outros.

31. Nota-se também a tendência dos jovens de se organizarem em espaços geograficamente mais amplos para promover intercâmbios ou para articular mobilizações ligadas às suas áreas prediletas de atuação, em certos casos porque aí foram aceitos. É uma participação que já não se resume a partidos e sindicatos. A criatividade, aliada aos meios de que os jovens dispõem, permite-lhes abrir novos caminhos para exercer o protagonismo na sociedade.

32. Percebe-se que os jovens de hoje, quando bem orientados, não se deixam manipular. Assumem suas decisões com mais determinação, aceitam correr o risco de voltar atrás. O espírito de aventura que caracteriza os jovens permite-lhes fazer tentativas, porque sabem que sempre há tempo para recomeçar, com mais experiência e maturidade.

2. A cultura midiática

2. 1. Redes sociais como ambiente

36. Sem apresentarmos um juízo de valores, percebemos imediatamente que grande parte de nossos jovens não vive mais sem os instrumentos tecnológicos próprios de seu mundo de comunicação. Aliás, não se pode mais imaginar a humanidade sem a realidade midiática; isso não tem volta. Tomemos como exemplo as redes sociais: elas atuam a partir desse novo ambiente, com uma linguagem própria, provocando uma nova visão da sociedade e do mundo.

37. O novo jeito de o jovem ser e interagir tem suas raízes nessa comunicação em rede. Ele respira e vive na chamada ambiência midiática, uma teia de novas tecnologias em que se pode ser, rapidamente, ouvido, visto, considerado. Comunicar não é, portanto, apenas uma questão instrumental, mecânica, unidirecional; é inter-relacional, é “vida”. Mesmo os mais pobres, privados desse acesso e dessa participação, são atingidos por essa realidade e provocados constantemente a fazer parte desse ambiente. Cada vez mais, a interação entre as pessoas e a formação de grupos de afinidade possibilitam uma grande porta de acesso a todos, mas especialmente aos jovens, que têm construído suas relações a partir desses meios.

2. 4. As novas gerações diante da sociedade

Eles buscam uma abordagem nova na Educação

47. Considerados como novos autores no aprendizado, os jovens estão questionando o modelo tradicional do professor que ensina e tem controle do conhecimento. Para eles, o saber é construído de maneira colaborativa, interativa e prática. Com um acesso imenso às informações, os jovens, às vezes, têm dificuldade de interpretá-las, aprofundá-las e aplicá-las à vida. Buscam, porém, novos modos de aprender e de pesquisar. Eles passaram a ser coagentes da própria educação, e não meros espectadores. Os professores passaram a ser participantes do processo, e o conhecimento das novas mídias pode até levá-los a ensinar, tornando mais interativa a relação professor-aluno no processo de ensino-aprendizagem.

Eles têm uma visão planetária

Shestakoff_shutterstock_fmt48. Os jovens que crescem na cultura midiática acreditam firmemente que o planeta lhes pertence. Eles são mais sensíveis a ecologia, comida e bebida saudáveis para o futuro. Percebem que a ameaça à vida, à natureza, ao ecossistema pode gerar insegurança tanto para eles quanto para os seus futuros filhos. Querem viver em um mundo mais pacífico, mais tolerante e mais responsável. Por isso, estão se organizando, cada vez mais, por meio das redes sociais, para defender seus direitos, a natureza, a qualidade de vida das pessoas e construir uma sociedade mais humana e solidária.

Uma geração aberta ao mundo e à solidariedade

49. Com o alcance global da Internet, os jovens sentem uma necessidade enorme de realizar ações solidárias por meio do voluntariado. Os jovens que acompanham as notícias diárias têm-se organizado para mobilizar campanhas de solidariedade em nível nacional ou internacional. Algumas campanhas, por exemplo, iniciadas por programas de televisão, têm reunido artistas e pessoas de várias religiões para doar dinheiro, filiar-se a organizações ou associações, criando redes de apoio tecnológico a populações que necessitam de energia, de telefone, de centros educacionais e de saúde.

50. Os jovens gostam de viajar, de interagir com pessoas de outros países. A experiência de voluntariado também lhes tem permitido conhecer outras nações e culturas, aprender novos idiomas, investir na própria educação e ganhar experiências profissionais.

51. Por causa de uma abertura ímpar trazida pela troca de experiências e de dados entre os que estão na rede, os jovens, com tendência a valorizar a própria cultura e a cultura de outros povos, parecem viver num mundo sem fronteiras. Há maior respeito às diferenças entre as culturas e religiões, grande capacidade de tolerância, valorização do diálogo e vontade de aprender mais sobre outros povos.

Jovens mais críticos?

53. As novas técnicas, sem dúvida, fomentam um maior ativismo social. Entre outros instrumentos, os blogs, o Twitter, o Facebook e os e-mails têm sido utilizados como promotores de consciência e atuação política. Diferentemente dos jovens das décadas de 1960 e 1970, que lutaram contra a ditadura no Brasil, ou os caras-pintadas de 1990, que saíram às ruas para protestar, a juventude de hoje tende a se organizar por meio das redes sociais. A geração das redes sociais encontra sua força de expressão na habilidade e na rapidez de rastrear informações na Internet, criar e midiatizar a mensagem, formar redes de notícias e se mobilizar em torno de uma causa. Essa mobilização virtual cresce à medida que os adolescentes e jovens adquirem seu próprio computador e têm acesso à Internet. Como fazem parte de uma sociedade fragmentada, não linear, líquida, suas manifestações políticas não se apresentam contínuas ou estruturadas, mas velozes, instantâneas e, por vezes, passageiras.4

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Todos têm direito a acessar a tecnologia moderna

56. O envolvimento dos jovens na Igreja deve ser visto a partir da interatividade nas relações. Eles desejam ser ouvidos e querem ser participantes das atividades da Igreja: liturgia, catequese, pastorais sociais e outras atividades. Sua vida de oração, seus desejos profundos de viver e amar, seu sentido de solidariedade com o próximo e sua necessidade de pertencer a uma comunidade passam pela subjetividade. Eles se envolvem como missionários quando são chamados e veem a autenticidade nas relações e organizações a serviço dos outros. Os jovens demonstram amar Jesus Cristo: “Não temem o sacrifício nem a entrega da própria vida”.5

Como eles se relacionam com a Igreja

57. O relacionamento dos jovens com a Igreja deve ser visto a partir dos valores e das atitudes que eles têm como filhos da cultura midiática. Eles se relacionam, sobretudo, a partir da interatividade; querem escutar e falar ao mesmo tempo. Conseguem captar um conceito a partir da atitude do diálogo. Sem interação, não compreendem e, portanto, não podem estabelecer um relacionamento. Esse é um grande desafio para os pastores, para os presbíteros, para os consagrados, para os leigos adultos em geral.

3. Fenômeno juvenil

3. 1. A formação da subjetividade

68. Desse modo, faz-se urgente perguntar: o que temos oferecido aos nossos jovens, a que experiências são submetidos em suas famílias, instituições de ensino, comunidades eclesiais, agrupamentos sociais? O que nossas sociedades e instituições têm proporcionado aos jovens a fim de que suas subjetividades possam ser constituídas de modo sadio, aberto e valorizador da vida?

69. Se alguns jovens se comportam de modo violento, apático ou desinteressado, isso reflete os contextos sociais engendrados pelas gerações anteriores. Se nos afastamos dos nossos jovens, eles também podem distanciar-se do que acreditamos como valores, princípios e conquistas culturais e sociais. Atualmente, existe uma carência de pessoas que se disponham a acompanhar um grupo de jovens nas comunidades; muitos deles caminham sozinhos. E, o que é pior, muitas comunidades não têm nenhuma proposta para os adolescentes e jovens, tampouco se preocupam em possibilitar encontros, estudos ou outras atividades apropriadas.

3. 2. Pluralidade entre os jovens

72. Os jovens, mais do que qualquer outro grupo de nossa sociedade, expressam este modo de ser: não mais se rebelam em bloco contra grandes estruturas de poder, mas se organizam em pequenos grupos, distintos pelas suas relações sociais, econômicas, midiáticas, culturais. Eles lutam por pequenas causas ou não lutam por causa alguma. Reúnem-se de acordo com seus gostos, costumes e suas ideologias. Em nossa sociedade, formam-se, também, grupos étnicos diversos.

3. 6. Exclusão social e violência

107. Essa violência institucionalizada, cujas consequências atingem pesadamente os jovens6 e geram tantos sofrimentos, tende a criar um espaço de estereotipagem e de ligação direta entre juventude e violência, como se ambas fossem a mesma coisa. Muitas vezes, quando se fala em jovem, automaticamente se remete à desordem, ao descompromisso e, consequentemente, à violência.

SEGUNDA PARTE

“Eis-me aqui, envia-me!”

1. 2. No Novo Testamento

1. 2. 1. Jesus instaura o novo reino

144. O desenvolvimento que se espera de alguém que vem a este mundo não é apenas físico. Nesse sentido, o texto indica também outra qualidade, a sabedoria. Trata-se da sabedoria que Jesus vai adquirindo em diálogo com as Escrituras, com seus pais e com os mestres de seu tempo. Ele despertou para essa busca desde a mais tenra idade, como sugere o episódio em que Maria e José O reencontraram, em Jerusalém, no Templo, entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os (cf. Lc 2, 46–49).

146. Em nossos dias, temos uma cultura que acentua o cultivo físico em detrimento daquele que contempla todas as dimensões do ser humano. Vemos o fenômeno em que muitos jovens crescem rapidamente em robustez, com os meios que lhes oferece nossa sociedade, mas demoram a atingir um desenvolvimento mais amplo e pleno.

147. Diante do processo de crescimento de Jesus, em estatura, sabedoria e graça, somos convidados a refletir sobre as condições favoráveis que possam contribuir no desenvolvimento das dimensões e potencialidades do jovem, processo necessário para que possa assumir o protagonismo que dele se espera.

2. Jovens na história da Igreja

Grandpa_shutterstock_15_fmt163. Se a evangelização dos jovens é bem organizada, com testemunho e metodologia, eles se empolgam com a pessoa e com o projeto de Jesus Cristo. Além da acolhida, da formação e da espiritualidade no processo de evangelização, é oportuno encantar os jovens com as inúmeras experiências dos missionários que, na história da Igreja, empenharam a vida na evangelização deste continente. Pe. Anchieta, Pe. Antônio Vieira, Pe. Manoel da Nóbrega, Bartolomeu de las Casas são alguns exemplos.

3. 4. O jovem discípulo assume a missão

186. Bento XVI, na mensagem aos jovens brasileiros7, recordou o Apóstolo Paulo, que, escrevendo aos cristãos de Roma, aconselhava-os a que fizessem visível o seu modo de viver e de pensar, mesmo que isso pudesse soar estranho aos seus contemporâneos:

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”
(Rm 12,2).

Os jovens, na sua autenticidade, no seu modo inusitado de viver e de pensar, imersos neste mundo midiático e fascinados pelas redes sociais, são chamados a um novo modo de ser Igreja, como discípulos missionários de Jesus Cristo.

4. O jovem no coração da Igreja

4. 1. Juventude como lugar teológico

189. “A juventude mora no coração da Igreja8.” Essa afirmação nos faz pensar que jamais poderíamos deixar passar um jovem sem dizer-lhe que Jesus Cristo o ama. A Igreja, o povo de Deus, existe fundamentalmente para evangelizar, dar continuidade à obra de Jesus Cristo, ser canal da graça, proporcionar espaço de comunhão e de participação, iluminar os projetos de vida individuais e coletivos e promover uma nova civilização, a Civilização do Amor9. Na mesma linha, o Documento de Aparecida convoca toda a juventude ao compromisso com a renovação da vida e do mundo à luz do projeto de Deus, pois “Os jovens têm capacidade para se opor às falsas ilusões e a todas as formas de violência”10.

192. A Igreja no Brasil entende que o jovem se constitui em um “lugar teológico” privilegiado. O que isso significa? Pois bem,

Considerar o jovem como lugar teológico é acolher a voz de Deus que fala por ele. A novidade que a cultura juvenil nos apresenta neste momento, portanto, é sua teologia, isto é, o discurso que Deus nos faz através da juventude. De fato, Deus nos fala pelo jovem. O jovem, nessa perspectiva, é uma realidade teológica, que precisamos aprender a ler e a desvelar. Não se trata de sacralizar o jovem, imaginando-o como alguém que não erra; trata-se de ver o sagrado que se manifesta de muitas formas, também na realidade juvenil. Trata-se de fazer uma leitura teológica do que, de forma ampla, chamamos de culturas juvenis. 11

TERCEIRA PARTE

Indicações para ações transformadoras

1. Converter-se aos jovens

240. Uma verdadeira conversão pastoral deverá superar o dualismo entre teoria e práxis, entre mudança pessoal e mudança social, entre conversão externa e conversão interna. Certamente, devemos elaborar um consistente instrumento teórico para a evangelização da juventude, revisar nossos métodos, adaptar-nos às novas linguagens, inserir-nos nos ambientes tecnológicos e midiáticos.

1. 1. A Igreja precisa dos jovens

242. Uma pastoral bem organizada orienta os jovens a conhecer, a amar e a abraçar a Igreja, favorecendo-lhes a responsabilidade de auxiliá-la em sua missão, inclusive por meio das relações midiáticas com que eles se identificam e de que se sentem sujeitos. Ao conhecer a Igreja “por dentro”, isto é, a partir de seu desenvolvimento, o jovem não só abraçará a missão eclesial de promover vida plena para todos, mas também saberá defendê-la, com sua própria linguagem e jeito, diante da sociedade, como instituição séria em favor de todos. Quantos jovens testemunham sua adesão consciente, livre e profunda de conhecimento, de convivência e de serviço em sua comunidade?

1. 2. Acolhida afetiva e efetiva aos jovens

243. A conversão pastoral deve selar nossas comunidades a oferecer acolhida substanciosa e oportunidades de participação aos jovens, auxiliá-los no processo de busca de respostas significativas para sua existência e para sua fé:

Quem é Jesus Cristo? O que significa acolhê-Lo, segui-Lo e anunciá-Lo? O que há em Jesus Cristo que desperta nosso fascínio, faz arder nosso coração, leva-nos a tudo deixar e, mesmo diante das nossas limitações e vicissitudes, afirmar um incondicional amor a Ele? [...] Estamos convencidos de que Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida? O que significa para nós, hoje, o Reino de Deus por Ele instaurado e comunicado? 12

1. 3. Abertura da sociedade aos jovens

Lisa F. Young_shutterst_fmt248. Ciente do impacto que essa mudança de época traz, a sociedade precisa, mais do que nunca, aproximar-se do mundo juvenil, de sua realidade cheia de feridas e de belezas, de sua potencialidade e de sua criatividade, de sua cultura e de seus modos de existência. Pais, educadores e lideranças sociais, sob as diversas formas de serviço para a formação da pessoa humana, devem sentir-se impelidos por essa realidade desafiadora, animados ao perceberem os traços de avanço, provocados para uma integração madura e para um diálogo frutuoso, visando ao bem de todos.

250. As várias instituições sociais e políticas devem considerar a voz e a presença dos jovens como contributo ímpar e imprescindível para o progresso da história e para a construção da nova sociedade. A jovialidade e a beleza deles não são uma questão meramente estética ou poética; é preciso considerá-los agentes de transformação. Em nossa sociedade, é urgente a valorização da capacidade dos jovens de navegarem na cultura midiática e de utilizarem eticamente as redes sociais para o bem comum. O diálogo com as novas gerações é imprescindível para atravessarmos com segurança e com bons frutos essa impactante mudança de época.

3. “Eis-me aqui, envia-me!”

3. 1. O protagonismo dos jovens para o bem de todos

274. O protagonismo juvenil, longe do sentido de uma autonomia inconsequente, não significa a deserção, a invalidação das instituições ou de educadores e de mestres. É um reconhecimento do potencial jovem, que muitas vezes precisa ser orientado e discernido, com paciência e com responsabilidade, a fim de direcioná-lo em favor de sua formação integral, do bem comum, da cidadania e da dignidade da vida humana.

276. De acordo com a realidade histórica e cultural dos jovens pertencentes às comunidades e às dioceses brasileiras, sugerimos abaixo algumas linhas de ação e pistas práticas. Elas devem ser trabalhadas, levando-se em conta os aspectos de cada realidade, a fim de que nossos jovens possam chegar ao amadurecimento de suas aptidões, à concretude de seu projeto pessoal, à vivência comunitária e à integração social e religiosa.

3. 2. Em âmbito pessoal

277. O jovem é sempre atraído por perfis, por modelos e por ideais, que procura imitar e assumir como próprios. A Igreja apresenta o grande exemplo e modelo de inspiração, Jesus Cristo, que oferece a todos um projeto de vida. Ele ensina o homem a ser homem, porque é “[...] o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6) para todos.

3. 2. 2. Pistas de ação

a. Despertar os jovens para o profundo sentido da consciência humana, que apela sempre para o que há de mais digno, justo e belo.

b. Proporcionar aos jovens oportunidades de diálogo com os pais, com os professores, com os sacerdotes, com os consagrados, com os seminaristas e com os catequistas a respeito de seus projetos, de sua vocação, de seus desafios, de seus medos e de seus sonhos.

c. Auxiliar os jovens a se compreenderem nessa mudança de época e a tomarem consciência da realidade da cultura midiática em que se encontram, percebendo valores, desafios e perigos.

d. Favorecer condições para que os jovens se abram à preciosidade da espiritualidade e da mensagem cristã, ao encontro profundo e sincero com Jesus Cristo.

e. Orientar os jovens para que adiram a organizações, instituições, diretórios acadêmicos em vista de seus direitos, da dignidade da vida humana e dos valores éticos fundamentais; incentivá-los para que se engajem na luta contra a violência infantil, contra o trabalho escravo, contra o tráfico humano e contra o narcotráfico.

f. Proporcionar condições para que os jovens formem, nas dioceses, nas paróquias, nas escolas e nas universidades, grupos de voluntariado e, por meio das novas mídias, criem uma rede de trabalho solidário na área da saúde, da Educação e da promoção humana.

g. Apoiar os jovens na organização de oficinas sobre temas ligados à promoção da vida, à espiritualidade, à vida, à vida missionária, ao compromisso político e ambiental.

h. Incentivar os jovens a produzir, em linguagem midiática, mensagens para serem vinculadas no formato de clipping eletrônico, videoclipes para o YouTube e para outras redes sociais.

3. 3. Em âmbito eclesial

3. 3. 1. Linhas de ação

A conscientização da responsabilidade social eclesial

299. Devemos favorecer a construção de um senso de responsabilidade social entre os jovens. Para isso, é preciso trazer um novo significado sobre aspectos que são marginalizados pelos jovens ou pelos formadores: a política em suas amplas dimensões, a dimensão institucional da Igreja, o envolvimento nas instâncias que determinam as políticas públicas com relação à juventude. São temas já amplamente discutidos em documentos anteriores, mas que caíram no descrédito da juventude. Por isso, é imprescindível um novo método de apresentação para sensibilizar e gerar interesse e engajamento.

300. Outro ponto necessário é fortalecer o caráter associativo e/ou comunitário das iniciativas juvenis de expressão da fé. Para que novos espaços de solidariedade sejam abertos, é fundamental que as próprias paróquias e dioceses apoiem os movimentos eclesiais, as novas comunidades, as pastorais da juventude e os grupos religiosos, favorecendo a efetivação dos projetos pastorais para os jovens. Para medir as discussões, são necessários bons assessores adultos e bons líderes jovens. Naturalmente, são formados a partir do esforço e do incentivo afetivo, motivacional e econômico, para que possam participar de cursos de formação e entrar em contato com a literatura especializada.

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Campanha da Fraternidade 2013: Texto-Base. Brasília:
CNBB, 2012.

1. Cf. CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2011–2015. Brasília:
CNBB, 2011. n. 19–20.
2. Cf. CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2011–2015. n. 21.
3. Idem
4. Uma pesquisa recente da Datafolha e da agência de publicidade Box, realizada
com 1.200 jovens entre 18 e 24 anos de idade, sugere um descontentamento com
instituições políticas tradicionais e aponta que, para eles, a Internet é um instrumento
de mobilização social. Cerca de 71% dos jovens entrevistados acreditam
que é possível fazer política usando a Internet, sem a participação de intermediários,
tais como os partidos políticos tradicionais.
5. CELAM, Documento de Aparecida, n. 443.
6. Segundo dados do Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do
Brasil, os assassinatos entre adolescentes e crianças no Brasil, entre 1980 e 2010,
aumentou 376%, sendo que, no mesmo período, os homicídios como um todo
cresceram 259%. Em 1980, os homicídios de jovens representavam, no total de
mortes no País, pouco mais de 11% dos casos de assassinato; já em 2010, 43%.
http://pejoteirossantos.wordpress.com/. Acesso em: 28/07/2012.
7. Papa Bento XVI, Discurso aos Jovens Brasileiros, em 10 de maio de 2007.
8. CNBB, Evangelização da Juventude, n. 01.
9. Depois do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI insistiu muitas vezes na
necessidade de uma nova civilização, a Civilização do Amor. Para João Paulo II, a
Civilização do Amor parte da revelação de que “Deus é amor”, como diz S. João
(Jo 4, 8–16), assim como é descrita pelo Apóstolo Paulo no hino à caridade (1 Cor
13, 1–13). “A Igreja sente a necessidade de convidar todos os que se interessam
de verdade pelo destino do homem e da Civilização do Amor” (João Paulo II,
Angelus, 13 de fevereiro de 1994).
10. CELAM, Documento de Aparecida, n. 443.
11. CNBB, Evangelização da Juventude, n. 81.
12. CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja 2011–2015, n. 4.

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