Edição 92

Matérias Especiais

Texto-base

mulher_professora_livro_optIntrodução

1. Quando Pero Vaz de Caminha chegou à costa do território brasileiro, maravilhou-se com tudo o que viu. Descreveu minuciosamente os indígenas, a flora, a fauna e as águas que tinha diante dos olhos. Estava de tal forma maravilhado que, ao final da carta, escreveu literalmente ao rei de Portugal: “[...] águas são muitas; infinitas. Em tal maneira graciosa [a terra] que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!I”.

2. Alguns anos mais tarde, após a chegada dos colonizadores, começa a ocupação e exploração do paraíso descrito por Pero Vaz de Caminha. A princípio no litoral. E começa a extração do pau-brasil, a árvore mais abundante que encontraram naquela imensa floresta, cuja tintura extraída era levada para a Europa. A madeira também era utilizada para fabricar móveis e instrumentos musicais. Para realizar esse trabalho, começa a exploração e escravização das nações indígenas, o sequestro de seus territórios, as dizimações por guerras e doenças. Depois vieram os negros, também na linha da mão de obra escrava.

3. Com o avançar da história, começa o avanço para o interior do nosso imenso território, seja pelo sul do País, pelo Pampa, seja pelos leitos de diversos rios. Então, aventureiros, bandeirantes e outros conquistadores interiorizaram o Brasil. Mais tarde, o próprio imperador chamou cientistas para decifrarem o que se tinha diante dos olhos. Percebeu-se que esse território tem imensa variedade de formas de vida, de florestas, de animais e de povos.

A numeração apresentada no decorrer dos trechos selecionados do Texto-base está de acordo com a publicação original das Edições CNBB. Para adquirir o material na íntegra, acesse a loja virtual das Edições CNBB.

4. Em tempos mais recentes, são delimitados e descritos os chamados biomas brasileiros, com suas interfaces e ligações, mas guardando características próprias de cada um. A expressão bioma vem de bio, que, em grego, quer dizer vida; e oma, sufixo também grego que quer dizer massa, grupo ou estrutura de vida. Bioma é “[...] um conjunto de vida (animal e vegetal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e uma história compartilhada de mudanças, o que resulta em uma diversidade biológica própriaIII”.

5. Assim, um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme e cuja formação tem uma história comum. Por isso, a diversidade biológica também é parecidaIV. Há teses de que há de sete até oito biomas, considerando os manguezais e o bioma marinho, mas esse não é o reconhecimento oficial. No Brasil, temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Nesses biomas, vivem pessoas, povos, resultantes da imensa miscigenação brasileira.

8. O papa Francisco, no início de sua encíclica
Laudato Si, diz que escolheu o nome de Francisco também por razões ecológicas. A proposta ecológica do Papa é integral, entrelaçando todas as dimensões do ser humano com a natureza. Para ele, cada criatura tem sua mensagem, que precisa ser respeitada e entendida. Mas todas elas estão interligadas. Toda a Laudato Si é um hino de espanto maravilhado diante da natureza criada que nos fala de Deus, que é um dom de Deus, da qual nós, seres humanos, somos parte integrante e também seus zeladores e cultivadores. O papa Francisco também nos coloca diante dos desafios colossais enfrentados pela humanidade, que está em uma verdadeira encruzilhada, em uma mudança de época.

9. A Igreja Católica, já há algum tempo, tem sido uma voz profética a respeito da questão ecológica. Não apenas tem chamado a atenção para os desafios e problemas ecológicos, como tem apontado suas causas e, principalmente, os caminhos para sua superação. As Igrejas particulares, as Comunidades Eclesiais de Bases, as Pastorais Sociais, as Semanas Sociais Brasileiras, o Fórum das Pastorais Sociais, o Grito dos Excluídos muito se aproximaram do nosso povo para defender seus direitos e para promover a convivência harmônica com o meio ambiente em todo o Brasil.

10. Vamos, então, de forma simples, abordar cada um de nosso biomas, com seus respectivos povos, sua situação atual, procurando entender suas características e problemas fundamentais. À luz da fé, nos interrogaremos sobre o significado dos desafios apresentados pela situação atual dos biomas e dos povos que neles vivem. No agir, abordaremos as principais iniciativas já existentes para a manutenção de nossa riqueza natural básica. Apontaremos propostas sobre o que podemos e devemos fazer em respeito à criação que Deus nos deu para “cultivá-la e guardá-la”.

A Igreja no Brasil e o cuidado da casa comum

A Quaresma e a campanha da Fraternidade

11. A Quaresma é o tempo que nos encaminha para a Páscoa. “A liturgia quaresmal prepara para a celebração do ministério pascal tanto dos catecúmenos, fazendo-os passar por diversos degraus da iniciação cristã, como dos fiéis, que recordam o próprio batismo e fazem penitênciaV.” É um tempo em que fazemos caminho para a Páscoa motivados pela Palavra e unidos aos sentimentos de Jesus Cristo, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade fraterna.

19. A Campanha da Fraternidade quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade. A vida fraterna é a síntese do Evangelho quanto às relações humanas e testemunha a nossa dignidade como verdadeiros filhos e filhas de Deus.

Capítulo 1 – Ver

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legendas

301829 1.1. Bioma Amazônia

27. A Amazônia é o maior bioma do Brasil. Geograficamente é formada pelos estados da Região Norte: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Tocantins. Mas o bioma avança para os estados do Mato Grosso e Maranhão.

3017761.1.1. Localização
28. Por esse motivo e para fins administrativos e de planejamento econômico, a Lei n. 1.806, de 1953, incorporou parte dos territórios do Maranhão e do Mato Grosso à Amazônia, criando assim o que se chamou de Amazônia Legal. Este território, com 5.217.423 km², representa 61% do território brasileiro.
29. A Pan-Amazônia (países que têm a floresta amazônica) transcende os limites brasileiros e está também no território da Colômbia, do Peru, da Venezuela, do Equador, da Bolívia, do Suriname, da Guiana Francesa e da Guiana Inglesa.

3017811.1.2. Características naturais – biodiversidadeamazonia_floresta_rio_s_opt
30. Segundo o Ministério do Meio Ambiente (2016): “A Amazônia é quase mítica: um verde e vasto mundo de águas e florestas, onde as copas de árvores imensas escondem o úmido nascimento, reprodução e morte de mais de um terço das espécies que vivem sobre a TerraVI”. A Amazônia também contém campos naturais e vegetação de altitude por também atingir os Andes, onde muitos rios amazônicos nascem.
32. Com a mesma grandeza e diversidade das formas de vida no bioma Amazônia, são também seus povos originários. Eles são os responsáveis por esse pulmão da mãe Terra continuar resistindo; eles são as principais riquezas desse bioma.
33. “A Bacia Amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de km² e tem 1.100 afluentes. Seu principal rio, o Amazonas, corta a região para desaguar no Oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros de água a cada segundoVII”. Ele também carrega uma quantidade imensa de material orgânico e sedimentos que são lançados no oceano, gerando biodiversidade marinha e contribuindo para o equilíbrio da temperatura do planeta.
38. Pela sua riqueza, a Amazônia é ambicionada tanto em nível interno como por forças externas. Muito do futuro da humanidade passa pela Amazônia. A riqueza natural da Amazônia se contrapõe dramaticamente aos baixos índices socioeconômicos da região, de baixa densidade demográfica e crescente urbanização. Desta forma, o uso dos recursos florestais é estratégico para o desenvolvimento da região.
40. Na Amazônia Legal, segundo o censo de 2010VIII, vivem aproximadamente 24 milhões de pessoas. Cerca de 80% dessa população vive no meio urbano, com todos os problemas daí derivados: ausência de saneamento básico, aglomeração nas periferias, insalubridade, desemprego e outras mazelas de uma concentração urbana desregulada. Isso também muito contribuiu para o êxodo rural.

3017841.1.3. Os povos originários e a cultura – sociodiversidade
42. As populações locais, os indígenas, posseiros, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas e toda uma infinidade de comunidades não tinham importância nos anos 1970, com a abertura e construção da Transamazônica. E, desde esse período até os dias de hoje, ainda são consideradas um entrave e empecilho para o “desenvolvimento e o progresso”. Essas populações locais passaram a sofrer as mais diversas formas de pressão para abrir caminho para o “desenvolvimento e o progresso” que chegava do Sul e do Sudeste para “redimir” a Amazônia do “atraso” em que vivia. Estava instaurado um novo período colonial no Brasil, a Amazônia se tornava uma colônia do Brasil.

3017961.1.4. A beleza, as fragilidades e os desafios do bioma Amazônia
47. A Amazônia, por sua riqueza em águas e biodiversidade, é cobiçada por corporações do Brasil e do mundo inteiro, cada uma em seu respectivo ramo: água, fármacos, essências, minérios, saberes ancestrais das populações, etc. Grandes madeireiras e serrarias conseguem aprovar propostas de Manejo Florestal junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e às Secretarias Estaduais de Meio Ambiente, mas somente para retirar as árvores nobres das florestas, inclusive de áreas de reserva, terras indígenas e parques nacionais
49. A expropriação privada de grandes áreas de terra continua sendo a principal causa do desmatamento, que, financiada pela extração ilegal de madeira, tem por principal objetivo a grilagem de terras e o avanço de fronteiras agrícolas à custa da floresta amazônica. A pecuária é a principal atividade implantada nas áreas recentemente desmatadas. Após alguns anos, as pastagens sofrem com a degradação dos solos, privados da recomposição e proteção das florestas.

3018011.1.5. Contextualização política
52. O problema fundamental da Amazônia é o modelo de desenvolvimento adotado para a região. Ignorando a vocação da floresta, seu papel no clima, no ciclo do carbono, a fragilidade de seus solos, a contribuição para os demais biomas brasileiros, sobretudo no ciclo das águas, o avanço desse modelo tem sido um desastre denunciado no mundo inteiro.
55. É preciso reconhecer que a Amazônia contribui para o equilíbrio do planeta com a sua identidade própria. Ela fornece umidade, produtos tropicais, oxigenação, etc. O atual modelo econômico quer reduzir esse bioma às mesmas características dos outros, violentando-o para que produza o que não suporta.

302659 1.2. Bioma Caatinga

3017761.2.1. Localização
59. A Caatinga encontra-se envolvida pelo clima semiárido, entre a estreita faixa da Mata Atlântica e o Cerrado. O semiárido ocupa uma área de 969.589,4 km² e abrange predominantemente territórios de 8 estados do NordesteIX, mais o Norte de Minas Gerais, circunscrevendo 1.135 municípios, onde vivem cerca de 27 milhões de pessoas. Essas pessoas representam 46% da população do Nordeste e 13,5% da população brasileira. Por sua vez, a Caatinga cobre mais de 90% desse território, com uma extensão de 844.453 km²X. É importante observar que o semiárido, clima deste bioma, é relativamente mais amplo que a própria Caatinga.

3017811.2.2. Características naturais – biodiversidadebioma_caatinga_vegetaca_opt

60. Caatinga é uma palavra originária do tupi-guarani que significa mata branca. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Tem um clima semiárido, o semiárido mais chuvoso do planeta. Trata-se de um bioma rico de vida inteligente, adaptada ao clima semiárido. Ela é tão rica que alguns especialistas falam em “caatingas”, no plural, para identificar sua imensa biodiversidade.XI

61. Em tempos de seca, a Caatinga “dorme”, hiberna, poupa água e energia, para voltar à vida plena durante as primeiras chuvas. A “ressurreição anual da Caatinga” é um dos espetáculos mais belos oferecidos pelos biomas brasileiros. Muitas plantas, como o umbuzeiro, guardam água em suas raízes, para poder ser utilizada em tempos de falta de chuva. As árvores secas e retorcidas, como também os cactos de folhas fibrosas, não são sinais de pobreza, mas de vida que soube se adaptar ao clima semiárido.

63. Com 70% do seu subsolo formado por rochas cristalinas, o bioma Caatinga tem poucas nascentes e rios perenes, portanto poucos aquíferos. O maior deles é o Rio São Francisco, que nasce no Cerrado do Oeste Baiano. Observa-se que cerca de 30% da região tem o subsolo formado por rochas sedimentares, o que favorece o armazenamento de água em aquífero, como é o caso da região do Gurgueia, no Piauí. Nessa região, as águas subterrâneas ainda são abundantes, mesmo com a destruição da vegetação, que coloca em risco a sustentabilidade desses aquíferos. Como se isso não bastasse, 99% dos rios que cortam a Caatinga são intermitentes, correndo apenas em época de chuva.

O fato gera equívocos à população em geral, que julga serem os rios secos um problema de falta de chuva.

3017841.2.3. Os povos originários e a cultura – sociodiversidade

65. Este bioma, com seu clima e sua vegetação, plasmou sobremaneira a formação e a vida social do povo da Caatinga. Podemos constatar uma maior influência das matrizes étnicas indígenas e branca. Inicialmente, possuíam um modo de vida pastoril, marcado pela criação do boi de serviço e produção do couro, do qual retiravam tudo que necessitavam. Posteriormente, este povo criador de gado sedimentou-se através do cultivo do algodão arbóreo (mocó), espécie que despertava interesse internacional e facilmente se adapta ao semiárido da Caatinga. Posteriormente, foi desenvolvida a cultura do extrativismo das palmeiras da carnaúba, a produção de cera e os artefatos de palha.

66. A sabedoria popular na Caatinga encontrou uma nova lógica e meio para nela sobreviver. Hoje, o paradigma da “convivência com o semiárido” facilitou essa permanência. Existem inúmeras comunidades tradicionais, como as 300 associações de “Fechos ou Fundos de pastoXII”, e mais de 30 nações indígenas nessa convivência do clima semiárido com a vegetação da Caatinga. Essas comunidades lutam pela demarcação de seus territórios, o reconhecimento de seus direitos à plena cidadania. Aproximadamente 40% da população ainda está no meio rural, sendo considerada a região mais ruralizada do Brasil. Entretanto, a ampliação dos centro urbanos médios e pequenos na Caatinga crescem, como em todas as regiões do Brasil, e padecem dos mesmos problemas de saneamento, violência e outros males dos centros urbanos brasileiros.

3017961.2.4. A beleza, as fragilidades e os desafios do bioma Caatinga

67. A Caatinga é o bioma brasileiro sobre o qual se tem mais desinformação, preconceitos e estigmas. Por ser semiárido, com um período anual chuvoso e outro seco, com secas cíclicas maiores, criou-se no imaginário nacional a ideia do espaço empobrecido, como se a vegetação estivesse morta, e não hibernada, com suas vacas mortas e com os fundos de lagoas esturricados. A este clima e bioma foram associadas as tragédias humanitária e social acontecidas na região em tempos de estiagens mais prolongadas. As ideias do fatalismo e de uma região inviável tomaram conta do olhar e da imaginação do Brasil e do mundo.XIII

69. A Caatinga tem sido agredida pelas queimadas e pelo desmatamento para plantio de culturas que raramente se adaptam adequadamente, como é o caso do ciclo do algodão. Lamentavelmente, a ação do homem já alterou 80% da cobertura original, que tem menos de 1% de sua área protegida, em 36 unidades de conservaçãoXIV. Outras causas do desmatamento são o gado bovino solto nas caatingas e a geração de madeira para a indústria do gesso e para as carvoarias. Como é sabido, o desmatamento gera a desertificação, problema que se agrava e amplia pela falta de compreensão dos mecanismos de bioma e pela economia irresponsável e predadora.

3018011.2.5. Contextualização política
73. Nos últimos anos, o problema da falta de água atingiu vários centros urbanos. Essa situação obrigou a sociedade civil e as autoridades políticas a vivenciarem, em outras partes do País, os desafios enfrentados no semiárido, sensibilizando-os a esta situação.

 3025701.3. Bioma Cerrado

3017761.3.1. Localização
86. O Cerrado (tratado no plural — cerrados — por alguns especialistas) é uma vegetação típica de locais com estações climáticas bem definidas (uma época bem chuvosa e outra seca); suas regiões têm composição arenosa, sendo considerado o bioma brasileiro mais antigo. Sua vegetação é encontrada principalmente na região Centro-Oeste, ou seja, ele é característico dos estado do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins, e também faz parte das belezas da região oeste de Minas Gerais e da região sul do Maranhão e do Piauí.

3017811.3.2. Características do CerradoIpê_cerrado_José-Reynal_opt
89. Compreendido como o bioma mais antigo, foi por longo período considerado inadequado para a agricultura, permanecendo como área aberta para o gado. Estima-se que tenha mais de 65 milhões de anos; com esta estimativa de vida e por ter 70% de sua biomassa dentro da terra, é considerado “uma floresta de cabeça para baixoXV”. Uma vez devastado, segundo alguns especialistas, não é possível qualquer revitalização.

3025581.3.3. Cerrado – “Caixa-d’água do Brasil”
92. O Cerrado cumpre um papel fundamental no ciclo das águas brasileiras. Embora não “produza” água, acumula as águas das chuvas em seu subsolo poroso, principalmente as vindas dos “rios aéreos”37 amazônicos, formando grandes aquíferos que abastecem inúmeras bacias brasileiras. Nesse caso específico, os biomas Amazônia e Cerrado formam a complementação perfeita para a produção e distribuição.

3025461.3.4. Biodiversidade
96. O Cerrado brasileiro é considerado a área de savana mais rica do mundo devido à sua grande biodiversidade. O conjunto de todos os seres vivos dessa região (biota) representa 5% da fauna mundial. Esse bioma possui também uma grande diversidade de tipos de vegetal, formando 14 paisagens com características próprias, que se apresentam em formação de florestas, savanas (arbustivo-arbórea e herbácea) ou campos.

3017841.3.5. Os povos originários e a cultura – sociodiversidade

98. Os povos do Cerrado são a principal e maior riqueza desse bioma. A eles se deve a preservação do que ainda resta do chamado “Cerrado em pé” (área não destruída). Eles estão presentes no Cerrado há pelo menos 11.000 anos, vivendo e convivendo com a biodiversidade desse bioma. Por isso, é necessário compreender a lógica dessas populações que habitam milenarmenteXVI o Cerrado e que desenvolveram estratégia de convivência, aprendizado e adaptação com a natureza. Nessa realidade verificam-se processos sustentáveis (produção em pequena escala, pouco capital, trabalho familiar) em uma estratégia camponesa de viver com o suficiente sem agredir ou destruir o bioma.

99. Os indígenas, primeiros habitantes do Cerrado, considerados “povos originários”, remontam às antigas “tradições Itaparica, Uma-Aratu e Sapucaí”, que originaram o tronco linguístico Macro-Jê. A totalização dessas populações indígenas chega a 44.118 indivíduos XVII.

101. Os camponeses, junto às comunidades indígenas, constituem os grupos importantes no Cerrado. Denomina-se camponês aquele agricultor que possui sua autoidentidade reconhecida como povos e comunidades tradicionaisXVIII, o que é bastante significativo no Cerrado, onde são conhecedores e guardiões do patrimônio ecológico e cultural desse bioma.

3017961.3.6. A beleza, as fragilidades e os desafios do bioma Cerrado

106. O fato de abastecer bacias hidrográficas que pendem para todas as regiões brasileiras faz com que o Cerrado tenha a particularidade de abastecer a Bacia do Rio São Francisco.

107. Sem o Cerrado, o futuro dos rios que dele dependem está ameaçado. Um bioma tão antigo mostra-se frágil em sua capacidade de resistência e regeneração. A mão humana pode extinguir rapidamente um dos biomas mais antigos da face da Terra.

3018011.3.7. Realidade política e os desafios do Cerrado

108. Muitas áreas do Cerrado, que são fundamentais para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, têm sido palco de disputas entre o agronegócio e os povos originários e comunidades tradicionais que habitam secularmente esse bioma e têm suas vidas vinculadas à sua existência. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), tais áreas estão sendo ocupadas e exploradas de forma desordenada pelo agronegócioXIX.

109. Com o pretexto da defesa e da preservação da Amazônia, avança sobre o Cerrado a ocupação desordenada em vista da exploração econômica, com a destruição da biodiversidade e a ameaça à vida e à cultura dos povos originários e a comunidades tradicionais. Ignora-se o significado de sua riqueza natural e a importância dos povos que ali habitam, bem como o seu valor ambiental no conjunto de território brasileiro e na preservação do ”ciclo das águas”.

3021031.4. Bioma Mata AtlânticaMata-Atlantica-Cachoeir_opt

3017761.4.1. Localização

117. A Mata Atlântica abrangia uma área equivalente a 1.315.460 km² e estendia-se originalmente ao longo do que hoje são 17 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e PiauíXX.

119. A Mata Atlântica era originalmente densa, extensa e rica de variedade animal e vegetal, além de campos de altitude, mangues e restingas. Entretanto, desde o descobrimento do Brasil ela vem sendo destruída. O pau-brasil, característico dela, foi o principal alvo de extração dos exploradores que colonizavam o Brasil e hoje está praticamente extinto.

120. Após a derrubada da mata, vieram as plantações que foram responsáveis pela destruição em massa da vegetação nativa; por isso, resta uma área muito pequena para a preservação de espécies que estão em risco devido à poluição ambiental ocasionada pela emissão industrial de agentes nocivos à sua sobrevivência, como, por exemplo, a poluição do município de Cubatão (SP); mais ao sul, na região Sul, a exploração predatória da Mata Atlântica devastou o ecossistema da Floresta das Araucárias devido ao valor comercial da madeira pinho extraída do pinheiro-do-paraná.

3017811.4.2. Características naturais – biodiversidade

122. A Mata Atlântica ainda guarda riquezas naturais: tem poder de regeneração. As iniciativas de preservar o que resta e tentar regenerar mínimo para não faltar água e regular o clima ainda são uma esperança viva.

127. Os manguezais que compõem o bioma Mata Atlântica têm um papel especial para o planeta, espécies e muitos povos no Brasil e no mundo. Os manguezais possuem importância ecológica de grande relevância para a manutenção da vida marinha, principalmente por possibilitar a transformação de nutrientes em matéria orgânica, gerando vidas, alimento, proteção e inúmeros serviços ao meio ambiente e à humanidade. Os manguezais, por estarem estabelecidos em áreas abrigadas e apresentarem alta produtividade, são considerados como berçários naturais para muitas espécies de moluscos, crustáceos, peixes, répteis e aves, garantindo o crescimento e a sobrevivência desses organismos.

3017841.4.3. Os povos originários e a cultura – sociodiversidade

129. Originalmente, ocupam esse imenso território litorâneo povos como Tamoio, Temininó, Tupiniquim, Caetés, Tabajara, Potiguar, Pataxó e Guarani, que foram os primeiros a sofrer com a chegada dos colonizadores. Os brancos, além de espalhar doenças, usaram os índios como soldados nas guerras contra os invasores e como escravos. Muitas etnias foram extintas, e as que sobreviveram sofrem as pressões da civilizaçãoXXI. Os remanescentes dos Guarani, Pataxó e outros ainda hoje enfrentam problemas na defesa de seus territórios e na defesa de seus direitos, como seus ancestrais.

130. Nesse espaço existem populações praieiras, quilombolas, remanescentes indígenas, os “caiçaras”, além da imensa concentração populacional urbana.

132. Para as comunidades pesqueiras, o manguezal não é apenas um lugar do qual se retira sustento, ou seja, não é apenas um bem econômico, mas faz parte dos seus territórios pesqueiros. É uma espécie de lugar sagrado que tem um valor simbólico muito forte. Existe uma consciência ecológica resultante de valores ancestrais de matriz africana e indígena, mas harmonizada pelo e com o catolicismo popular. Há um rito de profundo respeito às águas, à lama, ao cheiro, à fauna e à flora existentes nos manguezais, de modo que se institui uma linguagem própria e uma cosmovisão específica da criação.

3017961.4.4. A beleza, as fragilidades e o desafios do bioma Mata Atlântica

136. O Projeto de Lei da Mata Atlântica (Lei n. 11. 428, de 2006, e o Decreto n. 6608/2008 – Ministério do Meio Ambiente), que regulamenta o uso e a exploração de seus remanescentes florestais e recursos naturais, tramitou por 14 anos no Congresso Nacional e foi finalmente sancionado em dezembro de 2006.

137. O Brasil já tem mais de 1.100 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) reconhecidas, sendo que mais de 760 delas estão na Mata Atlântica. Das 633 espécies de animais ameaçadas de extinção no Brasil, 383 ocorrem na Mata AtlânticaXXII.

3018011.4.5. Contextualização política

144. A ausência de saneamento básico é outra grave ameaça. Grande parte dos esgotos das residências de áreas urbanas e rurais é mais despejada diretamente nos rios, no mar e nos mangues, como também resíduos que não são descartados corretamente, causando um alto nível de poluição que compromete o equilíbrio do ecossistema.

 3021361.5. Bioma Pantanalpantanal_shutterstock_1_opt

3017761.5.1. Localização

153. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Esse bioma continental é considerado o de menor extensão territorial no Brasil, entretanto este dado em nada desmerece a exuberante riqueza que esse bioma abriga. A sua área aproximada é 150.335 km2 e ocupa 1,76% da área total do território brasileiro.

154. Situado dentro da Bacia do Alto Paraguai, o bioma Pantanal é considerado como Reserva Biosfera e patrimônio Natural Mundial pela Unesco. Seu território envolve três países, sendo 70% dessa planície no território brasileiro (nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), 20% na Bolívia e os outros 10% no Paraguai.

155. Os rios que abastecem o Pantanal são provenientes de regiões bem altas, e, por isso, as águas acumulam-se facilmente, transformando o Pantanal em uma grande planície de inundação, principalmente no período chuvoso.

3017811.5.2. Características naturais – biodiversidade

156. O Pantanal tem uma das maiores extensões úmidas contínuas do mundo, com grande beleza e rica biodiversidade. O ecossistema mantém boa parte da sua cobertura vegetal nativa, responsável pela permanência de espécies que, em outros biomas, já se mostram em extinção. São cerca de 3,5 mil espécies de plantas, 124 espécies de mamíferos, 463 espécies de aves e 325 espécies de peixesXXIII.

157. O Pantanal é uma grande área continental inundável, e, a cada ano, grandes regiões dele mudam de hábitos aquáticos para terrestres e vice-versa. As cheias ocupam cerca de 80% do Pantanal. Em contraste, durante a estiagem, grande parte da área inundada seca quando a água retorna para o leito dos rios ou se evapora.

158. “Ele depende da manutenção do ciclo hidrológico, que permite o subir e baixar das águas e a inter-relação entre as espécies. O ciclo de inundação do Pantanal é regido pelas chuvas em toda a Bacia do Alto Paraguai, no período de setembro a janeiro no norte do Pantanal e novembro a março na porção sul. Qualquer mudança nesse ciclo compromete os ecossistemas e modifica toda essa paisagem”XXIV.

3017841.5.3. Os povos originários – sociodiversidade

160. “Quando chegaram os primeiros colonizadores europeus, o Pantanal já era ocupado por importantes povos indígenas de várias etnias. Somente no Mato Grosso do Sul, 1,5 milhão de indígenas habitavam a região: guarani, guató, ofayê, kaiapó meridional, payaguá, dentre outras. Atualmente, os Payaguá estão extintos, e os guató têm uma população que não ultrapassa 400 pessoas. A maioria vive em uma área indígena do Pantanal, porém alguns optaram por viver em cidades da região ou trabalhar nas fazendas”XXV.

167. É importante que se entenda que a luta dos povos indígenas não é da terra pela terra, que poderia ser em qualquer outro lugar, mas, se lutam por determinadas regiões, o fazem porque esses territórios têm valores que não são puramente econômicos, mas são, principalmente, espaços ancestrais. Sendo assim, preservar esses espaços significa preservar a identidade, a memória, a cultura e a fé desses povos.

3017961.5.4. A beleza, as fragilidades e os desafios do bioma Pantanal

169. “O bioma Pantanal tem qualidades ambientais específicas por ser uma ecorregião onde se encontra o Cerrado (leste, norte e sul); o Chaco (sudeste); a Amazônia (norte); e o Bosque Seco Chiquitano (noroeste). A convergência e a presença de distintos biomas, somadas ao variável regime de cheia e seca, conferem particular diversidade e variabilidade de espécies. A taxa de endemismo é relativamente baixa, porém as características múltiplas possibilitam a interação entre material genético de animais e plantas de maneira muito particular. Por ser compreendido como a ligação entre as duas bacias da América do Sul, do Prata e Amazônica, o Pantanal funciona como corredor biogeográfico, promovendo a dispersão da fauna e flora”XXVI.

171. As principais atividades econômicas desenvolvidas na planície pantaneira são a pecuária, a pesca, o turismo, a extração de minérios e a agricultura.

181. O tráfico, a caça e a venda de peles, couro ou artefatos provenientes de animais silvestres são práticas que, embora ilegais, ainda ocorrem. Várias espécies de animais já estiveram sob forte ameaça de extinção. As situações mais conhecidas nacional e internacionalmente são a do jacaré-do-pantanal e da onça.

3018011.5.5. Contextualização política

183. “A falta de visão e políticas integradas para o Pantanal que considerem efetivamente as tendências regionais e as necessidades essenciais das populações locais resulta em ações isoladas e com pouca repercussão em sua totalidade. Além disso, as principais demandas sociais vão sendo postas em segundo plano, devido à falta de implementação de políticas participativas e a má aplicação de recursos. São escassos os esforços para a construção de sinergias entre iniciativas, o que dificulta a implementação de estratégias sustentáveis para a melhoria da qualidade de vida no bioma Pantanal. Os problemas ambientais, sociais e econômicos na região pantaneira têm sido cada vez mais intensos, exigindo medidas articuladas e eficazes com a realidade local”XXVII, tais como: o alinhamento da atuação das diferentes esferas do poder público (municipal, estadual e federal); revisão da legislação vigente referente às áreas de proteção permanente e reservas legais para a região da BAP; integração nas políticas de conservação e uso dos recursos naturais entre os estados de Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul; maior esforço do poder público no sentido de avaliar profundamente o licenciamento e a fiscalização de novos empreendimentos que provoquem impactos sobre a região da BAP; e a implantação de um amplo programa de restauração ambiental nas áreas já degradadas e que estejam em discordância com a legislação vigente, atribuindo aos responsáveis pela degradação o ônus de custear esse processo.

3022311.6. Bioma Pampapampas_gaucho_santa-cat_opt

187. Os Campos da Região Sul do Brasil são denominados Pampa, termo de origem indígena para região plana, entretanto, essa denominação corresponde somente a um dos tipos de campos encontrados.

188. A característica principal desse bioma é a sua vegetação, que apresenta uma composição herbácea, ou seja, formada basicamente por gramíneas e espécies vegetais de pequeno porte, não ultrapassando os 50 cm de altura. Esse tipo de paisagem apresenta dois tipos bem definidos: os chamados campos limpos e os campos sujos.

189. Campos limpos: Ocorrem quando a vegetação não apresenta arbustos, ganhando uma paisagem mais homogênea, sem diferenças muito grandes entre uma parte e outra.

190. Campos sujos: Ocorrem quando há uma maior presença desses arbustos, que se “misturam” à paisagem.

3017761.6.1. Localização

192. O bioma Pampa, com 176.496 km2, ocupa 2,07% do território nacional e se restringe ao Estado do Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território daquele estado, entretanto ele se estende aos países vizinhos, Argentina e UruguaiXXVIII.

3017811.6.2. Características naturais – biodiversidade

194. Por ser um conjunto de ecossistemas muito antigos e paisagens naturais variadas entre serras e planícies, morros, onde crescem vegetação e coxilhas — pequenas colinas cobertas por pastagens —, o bioma Pampa apresenta flora e fauna próprias e grande biodiversidade, que, inclusive, não está completamente descrita pela ciência.

3017841.6.3. Os povos originários e a cultura – sociodiversidade

200. Os povos indígenas tupi-guarani habitavam o Rio Grande do Sul, localizando-se as etnias tapes, carijós, arachanes e guaianás no norte e nordeste, e os guenoas, minuanos, através de seus hábitos, foram os povos que mais contribuíram para a formação do tipo humano e social que mais tarde foi identificado como gaúcho.

201. Os primeiros europeus a ocupar o Rio Grande do Sul foram os jesuítas espanhóis vindos do Paraguai, que, fugindo dos bandeirantes paulistas, estabeleceram-se na parte noroeste do Estado trazendo indígenas e gado bovino. Esse gado recém-chegado era criado solto. Não havia nenhum rigor ou cuidado especial, já que, muito bem adaptado, o gado crescia livre alimentando-se de vastas pastagens.

206. Ainda hoje, nos pecuaristas e agricultores familiares, estão presentes os laços de apego à terra, ao trato direto com os animais, da relação com o ambiente e a identificação com o gaúcho-peão. Esse grupo social pode ser representado pela noção de pequeno pecuarista familiar, que ajudará a caracterizar os grupos de trabalhadores rurais gaúchos, descendentes de etnias indígenas, de europeus e de povos africanos.

3017961.6.4. A beleza, as fragilidades e os desafios do bioma Pampa

212. Com espécies raras e ameaçadas e lembrando uma savana, o Parque do Espinilho, no sudoeste do Rio Grande do Sul, no município de Barra do Quaraí, compõe a beleza do bioma Pampa. Ampliado como Parque Estadual do Espinilho pelo Decreto n. 41.440, de 28 de fevereiro de 2002, sua área é de 1.617,14 hectares. Nele se encontra o último remanescente significativo desse tipo de vegetação do bioma Pampa.

213. Outro destaque do bioma Pampa fica por conta de seus “banhados” — eles, ao contrário do aspecto seco do Parque de Espinilho, são presença comum na paisagem pampeana. No sul do Estado, o Banhado do Taim, protegido por uma estação ecológica do mesmo nome, é o mais conhecido. Nos municípios de Itaqui e Maçambará, na fronteira com a Argentina, ocorre o Banhado São Donato, reconhecido como reserva ecológica na década de 1970.

220. Outras preocupações que constituem ameaças ao bioma Pampa, são a ampliação da área de soja, trigo e arroz e a cultura da mamona para a elaboração de biocombustível. Há, ainda, a antiga e constante ameaça da mineração e queima de carvão mineral, cujos impactos locais, regionais e globais ­— tais como: acidificação da água, alteração da paisagem, deslocamento de população assentadas, aumento da incidência e frequência de doenças pulmonares, chuvas ácidas e emissão de gases que causam o efeito estufa — são bem conhecidos.

3018011.6.5. Contextualização política

221. O latifúndio do Pampa é fruto das chamadas sesmarias, capitanias hereditárias; por isso, essa região do Estado é onde há a menor concentração demográfica e onde há também muita pobreza, fruto da concentração da terra nas mãos de alguns em detrimento da maioria.

224. É importante destacar que, apesar de ser região latifundiária, há muitas famílias de pequenos agricultores, indígenas e quilombolas.

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Capítulo 2 – Julgar

1. Na Sagrada Escritura

227. A Sagrada Escritura não se preocupa diretamente com os biomas. Contudo, oferece elementos que iluminam a temática a partir do projeto de Deus nela apresentado. Tal projeto inicia-se pela criação e organização do mundo, conhece uma ruptura por causa do pecado, e seu verdadeiro significado é revelado em Cristo Jesus. A reflexão que se segue está dividida nesses três momentos, buscando apresentar que o mundo e as criaturas fazem parte desse projeto de Deus.

2. Harmonia original: o mundo criado

231. Dentro dessa harmonia, o homem recebe uma missão especial. O primeiro relato afirma que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27); a ele foi dado um papel mais importante que aos outros seres (Gn 1,28). O segundo relato é mais direto: nele, Deus confia ao homem o papel de guarda da criação. Por isso, Deus modela o homem do barro, sopra em suas narinas, planta o jardim e coloca o homem ali para cultivar e guardar (Gn 2,5.15). Forma a mulher da costela do homem, conferindo a ela a mesma a dignidade e a mesma missão (Gn 2,18).Desses versículos, observa-se que o homem possui, no ideal inicial, três tipos de relação: com Deus, com a obra criada e com seu próximo. A relação com Deus e com seu próximo se dá dentro do jardim, indicando que o jardim não é apenas o local do qual retira o seu alimento, mas é o ambiente do encontro com Deus e da vivência da fraternidade (Gn 1,29-31). Por isso, ele precisa ser cultivado com o mesmo amor com que foi criado, para continuar frutificando; e deve ser guardado com cuidado, para que as relações entre as pessoas também sejam fecundas. O jardim bem cuidado seria o indicativo de que as três relações estão bem cultivadas.

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Capítulo 3 – Agir

1. O agir na Campanha da Fraternidade 2017

265. O agir da Campanha da Fraternidade de 2017 está em sintonia com a Doutrina Social da Igreja, principalmente com a encíclica Laudato Si e com a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016. Elas indicam a necessidade da conversão pessoal e social dos cristãos e não cristãos, para cultivar e cuidar da criação.

266. Cuidar dos biomas brasileiros, além de ser uma ação de fé e cidadania, é uma demonstração de comprometimento para com o Criador, que paulatinamente espera a conversão de seus filhos e filhas, criados à sua imagem e semelhança. Ela também atende aos apelos do Papa Francisco, que propõe a defesa da vida na ecologia integral.

267. A encíclica Laudato Si, propõe a ecologia integral como condição para a vida do planeta. É também referência para a aproximação do homem e da mulher com o Criador e a criação. A Campanha da Fraternidade propõe o cuidado e cultivo dos biomas brasileiros e o respeito pelos povos originários.

2. O agir no bioma Amazônia

271. Acenamos propostas irrecusáveis no desejo de preservar não somente a natureza, como a urgente instalação de projetos capazes de melhorar a qualidade de vida da população nas grandes cidades situadas na região:
Compartilhar saberes e estratégias de sobrevivência e convivência com o meio ambiente oriundas dos povos originários e das comunidades tradicionais.
Valorizar e promover a cultura do bem viver (modelo da cultura indígena que cultiva harmonia para com todos os irmãos, com culturas diferentes, com Deus e a natureza).
Reforçar as articulações e resistências apoiando os povos tradicionais nas mobilizações e nas lutas por direitos e regularização de seus territórios.
Fortalecer iniciativas como as de cooperativas baseadas no agroextrativismo, pois têm gerado renda para muitas famílias.
Defender a biodiversidade e o meio ambiente articulando organismos, entidades, igrejas e comunidades.
Defender as riquezas e os saberes dos povos amazônicos, vitimados e ameaçados secularmente por interesses econômicos de empresas nacionais e internacionais.
Fortalecer a Rede Panamazônica (Repam), como espaço de articulação e intercâmbio das várias redes eclesiais que atuam em conjunto na sociedade amazônica.
Fortalecer as políticas públicas de saneamento básico e transporte público de qualidade.
Valorizar os elementos e os significados das artes, músicas e outras expressões da cultura amazônica.
Atuar na defesa de políticas públicas socioambientais para ampliar parcerias e trabalhos em rede.

3. O agir no bioma Caatinga

273. Padre Cícero, que viveu no semiárido em meados do século passado e muito contribuiu com a vida no Nordeste brasileiro, deixou onze preceitos ecológicos que continuam atuais e devem, ser exercitados nesta campanha:
Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.
Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a seca.
Se o sertanejo obedecer a esses preceitos, a seca vai aos poucos se acabando; o gado, melhorando; e o povo terá sempre o que comer.
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.

4. O agir no bioma Cerrado

275. A Igreja propõe ações para o cuidado e a preservação da vida no Cerrado brasileiro:
Promover o intercâmbio entre as comunidades locais para a troca de experiências e o conhecimento da biodiversidade do Cerrado.
Incentivar o desenvolvimento de projetos de preservação, recuperação e valorização das frutas e ervas medicinais.
Fortalecer a agricultura camponesa familiar através de meios que viabilizem a produção agroecológica, agroextrativista e as redes de comercialização.
Desenvolver ações de recuperação de nascentes de rios e reconstituição das matas ciliares.
Trabalhar pelo reconhecimento do Cerrado como Patrimônio Nacional. Promover ampla e participativa reflexão e discussão para aprovação da PEC 504/2010, que beneficiará também o bioma Caatinga.
Fortalecer a luta em defesa dos territórios tradicionais e da Reforma Agrária.
Exigir controle mais rígido sobre o licenciamento de novos projetos de irrigação.
Promover debates e seminários sobre o Projeto de Desenvolvimento da Matopiba (região agriculturável em território de Cerrado, formada por parte dos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia), que é uma grande ameaça ao Cerrado.
Exigir o respeito ao direito dos povos e comunidades tradicionais de serem consultados sobre empreendimentos que afetem seus meios de vida, como prescreve a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Envolver a população urbana no debate sobre o Cerrado, conscientizando-a de que também depende dos serviços ambientais do bioma, como a disponibilidade de água, a umidade do ar, a temperatura e todo o desenvolvimento econômico baseado nos solos e na utilização da água.
Reforçar a campanha promovida por diversas entidades cujo lema é: “Cerrado, berço das águas: sem Cerrado, sem água, sem vida”.

5. O agir no bioma Mata Atlântica

276. O bioma Mata Atlântica, rico em biodiversidade, está ameaçado.

278. Algumas ações de cuidado e cultivo que são propostas:
Exigir do poder público a recuperação das áreas degradadas, como: matas ciliares e nascentes.
Defender a demarcação dos territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.
Exigir que as políticas de saneamento básico sejam implantadas em toda área urbanizada e rural do bioma Mata Atlântica.
Apoiar o abaixo-assinado do projeto de lei de iniciativa popular para o reconhecimento, a proteção e a garantia do direito ao território das comunidades tradicionais pesqueiras.
Fomentar e/ou apoiar ações relacionadas à despoluição e revitalização das bacias hidrográficas e baías: Alto Tietê, Baía da Guanabara, Bacia do Rio Doce e Rio Paraíba do Sul.
Cuidar das nascentes e dos rios.
Apoiar as ações em defesa do bioma frente ao avanço das mineradoras que degradam e retiram riquezas que provocam perdas humano-culturais.
Participar e acompanhar a efetivação do plano diretor, sobretudo em relação ao saneamento básico dos municípios.
Denunciar os projetos econômicos imobiliários em Áreas de Preservação Permanente (APP).
Apoiar a produção agroecológica camponesa com base na agricultura familiar como alternativa ao latifúndio e ao agronegócio.
Incentivar o consumo de produtos agroecológicos e sustentáveis provenientes da Economia Solidária.

6. O agir no bioma Pantanal

279. O bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Esse bioma continental é considerado o de menor extensão territorial no Brasil, entretanto esse dado em nada desmerece a exuberante riqueza que o referente bioma abriga.

280. O bioma Pantanal nos oferece a possibilidade de contemplação da criação. Se não agirmos, muito em breve não mais poderemos contemplar a vida nesse belíssimo bioma, por isso seguem algumas pistas e ações para nossa conversão quaresmal:
Incentivar políticas públicas de preservação do meio ambiente do Pantanal.
Dar visibilidade às populações pantaneiras, com suas culturas e seus costumes.
Colaborar com à defesa das comunidades tradicionais e ribeirinhas que resistem dentro do Pantanal, a fim de que tenham seus direitos garantidos.
Apoiar os povos indígenas para garantir que suas terras ancestrais lhes sejam demarcadas, afastando os fazendeiros gananciosos da região.
Promover campanhas de conscientização quanto ao descarte adequado dos resíduos sólidos e esgotos sanitários, para preservar os rios, as lagoas e os igarapés.
Promover a integração das lideranças indígenas e das populações tradicionais na luta pelas causas comuns.
Assegurar a presença efetiva da Igreja na assistência espiritual às comunidades católicas indígenas.

7. O agir no bioma Pampa

281. O bioma exibe um imenso patrimônio cultural associado à biodiversidade. A perda de biodiversidade compromete o potencial de desenvolvimento sustentável da região, seja perda de espécies de valor forrageiro, alimentar, ornamental e medicinal, seja pelo comprometimento dos serviços ambientais proporcionados pela vegetação campestre.

282. É notório que o bioma Pampa está sendo ameaçado e tem seus ecossistemas modificados; por esta razão, propomos:
Incentivar ações que promovam o direito à vida e à cultura dos povos tradicionais que habitam o bioma.
Conscientizar da necessidade de se defender a biodiversidade animal e vegetal do bioma.
Propor novos métodos de produção das áreas ocupadas pelo agronegócio, com monoculturas, através da recomposição da vegetação original e de cultivo agroecológico.
Motivar a recuperação das fontes de água potável, rios, lagoas e banhados através de políticas de despoluição, replantio das matas ciliares e redefinição de seu uso.
Exigir políticas públicas para o controle da exploração e comercialização da água, com incentivo ao controle social.

Conclusão Geral

284. A mensagem do Papa Francisco proferida no dia 1° de setembro de 2016 (Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação) ilumina as comunidades para fazerem seu discernimento.

285. Ele convida a renovar o diálogo sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente, com cada pessoa que, no planeta, habita. Ele afirma que Deus nos deu de presente um exuberante jardim, mas estamos a transformá-lo em uma poluída vastidão de ruínas, desertos e lixo. Ele nos alerta para não nos rendermos ou ficarmos indiferentes perante a perda da biodiversidade e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas.

288. Ao salientar a importância da ecologia integral, ele afirma que os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Portanto, quando maltratamos a natureza, maltratamos também a nós, seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Para que possamos garantir uma resposta adequada e célere, ele nos convoca a escutar tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.

Notas de fim
__________
37 São imensas massas de vapor-d’água que, levadas por correntes de ar, veêm pelo céu e respondem por grande parte da chuva que acontece em várias partes do mundo. Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticias/ambiente/são-rios-voadores-imensas-massas-vapor-d-agua-levadas-correntes-ar534365.shtml
I CAMINHA. Pêro Vaz de. Carta de Pêro Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, 1500. Disponível em: http://www.memorialdodescobrimento.com.br/lingua_portuguesa/carta-de-per-vaz-de-caminha-ao-rei-de-portugal/. Acesso em 24/03/2016.

II BIOMA, 2016

III IBGE. Mapa de Biomas e de Vegetação, 2004. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/presidêncianoticias/21052004biomashtml.shtm. Acesso em: 06/04/2016.

IV MALVEZZI. Semiárido: Uma Visão Holística. Brasília: Confea/Crea, 2007.

V Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário Romano Geral, n.27.

VI MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE – MMA. Amazônia. Disponível em http//www.mma.gov.br/biomas/amaz%C3%B4nia. Acesso em: 16/03/2016.

VII FLORESTA AMAZÔNICA. Biodiversidade da Amazônia. Disponível em: http://floresta-amazonica.info/biodiversidade-da-amazonia.html. Acesso em: 17/03/2016.

VIII IBGE. Censo 2010. Disponível em http://censo2010.ibge.gov.br/.

IX 25 Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Sergipe.

X 26 MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Caatinga. Disponível em www.mma.gov.br/biomas/caatinga. Acesso em: 02/05/2016

XI 27 SIQUEIRA FILHO, José Alves (Org.). A flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson, 2012.

XII 29 É um modo tradicional de vida comunitária, cuja gestão da terra e de outros recursos naturais articulam terrenos familiares a áreas de uso comum.

XIII 30 Entre as obras, destacam-se Geografia da Fome, de Josué de Castro; Os Sertões, de Euclides da Cunha; e Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

XIV 31 Disponível em: brasilescola.com.br/brasil/caatinga. Acesso em 04/05/2016

XV Disponível em: http://www.sobiologia.com.br/conteudos/bio_ecologia/ecologia15.php.

XVI Disponível em: http://www.portalbrasil.net/cerrado.html.

XVII BARBOSA, A. S. Andarilhos da Claridade: os Primeiros Habitantes do Cerrado. Goiânia: UCG – Instituto Trópico
Subúmido, 2002.

XVIII São os Geraizeiros (norte de Minas e Bahia), Geraizenses (Gerais de Balsas/MA), Retireiros (áreas alagadas do Araguaia/MT), Barranqueiros e Vazanteiros (da beira e ilhas do Rio São Francisco/MG), Quebradeiras de coco (Zona dos Cocais/MA, PI e TO), Pantaneiros (MT e MS), Camponeses dos vãos (sul do Maranhão), Quilombolas, Posseiros, Varjeiros, Veredeiros e Ribeirinhos (ao longo dos rios São Francisco, Grande e Panamá), Caipiras (no Triângulo Mineiro e São Paulo) e Sertanejos (norte de Minas, Bahia, Maranhão e Piauí).

XIX MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Plano de Ação para a preservação e controle do desmatamento e das queimadas: Cerrado, 2001, p. 45.

XX SOS MATA ATLÂNTICA. A Mata Atlântica. Disponível em: http://www.sosma.org.br/nossa-causa/a-mata-atrantica/. Acesso em: 16/03/2016.

XXI 51 APREMAVI. Moradores da Mata. Disponível em: http://www.apremavi.org.br/mata-atlantica/entrando-na-mata/moradores-da-mata/. Acesso em:15/05/2016.

XXII 52 SOS MATA ATLÂNTICA. A Mata Atlântica. Disponível em: https://WWW.sosma.org.br/nossa-causa/a-mata-atlântica/. Acesso em: 16/03/2016

XXIII ICMBIO. PANTANAL. Disponível em: http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/pantanal.

XXIV 54 As informações técnicas apresentadas sobre o bioma Pantanal, suas características localização, belezas e fragilidades têm por base o Almanaque Socioambiental. Ed. 2008. Disponível em: www.socioambiental.org.

XXV Idem.

XXVI CAMPANILI, Maura e Beto Ricardo. Almanaque Brasil Socioambiental 2008. Editora: Instituto socioambiental. Disponível em: www.socioambiental.org.

XXVII Idem.

XXVIII MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Pampa. Disponível em http://www.mma.gov.br/biomas/pampa.

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