Edição 90

Ambiente-se

TICs: o professor frente à nova era das informações

Julyanne Pereira Neto
Ilvera Nunes Gomes

Os jovens, em sua maioria, são dependentes de algum tipo de aparelho eletrônico, e essa ferramenta está cada vez mais próxima do professor. A facilidade em acessar as redes sociais a qualquer hora e a partir de qualquer lugar é tão comum e simples que, muitas vezes, tornamo-nos vítimas dos aparelhos eletrônicos sem refletir sobre os prejuízos que estes causam sobre nós. As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) correspondem a todas as tecnologias que interferem e medeiam os processos informacionais e comunicativos dos seres. Na sala de aula, isso tem um efeito primordial para quem busca a variedade multidisciplinar com efeitos positivos quando usado de forma pedagógica.

As TICs compõem um fator preponderante para o desenvolvimento, exercem um papel cada vez mais importante na forma de nos comunicarmos, aprendermos e vivermos. O desafio é equipar essas tecnologias efetivamente de forma a atender aos interesses dos aprendizes e da grande comunidade de ensino e aprendizagem. As tecnologias têm possibilitado a utilização das ferramentas de comunicação no segmento educacional. De acordo com Lopes (2009, p. 1.000),

[...] capacidade tecnológica e desenvolvimento regional influenciam-se reciprocamente: a um padrão elevado espacial de adoção de novas tecnologias será de esperar que correspondam novas atividades inovadoras, originando novas estruturas territoriais, através da instalação de empresas mais avançadas ou da reestruturação das existentes, mais eficientes
e competitivas.

As Tecnologias da Informação e Comunicação são o ponto de partida para a construção de uma sociedade da informação. O avanço do acesso a essas tecnologias — sobretudo à Internet, aos dispositivos móveis e a um imenso número de aplicações baseadas nesses dispositivos — traz, ao mesmo tempo, grandes oportunidades e desafios para pais, educadores e gestores das escolas, desde que usadas de forma relevante e que venham proporcionar a mediação de conhecimento junto aos conteúdos acompanhados.

Para Soares-Leite & Nascimento-Ribeiro (2012, p. 3) “A inserção das TICs na educação pode ser uma importante ferramenta para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem”. De modo que as TICs entrem na educação como instrumento importante em seu uso, desde que favoreçam os educadores e educandos e que ambos saibam as utilizar a fim de contemplar o sucesso almejado pelo contexto escolar.

A influência das TICs no processo de alfabetização

O professor estará começando a trabalhar com diferentes situações didáticas. Ele será um profissional multidisciplinar, articulador e estará mais bem preparado em sua atuação, pois, evidentemente, com os avanços na nova era digital, terá passado por várias orientações, capacitações e trabalhos em grupo a fim de haver uma reciprocidade e adaptação às novas exigências do mundo globalizado. Valendo a escrita de Vygotsky (1989): “As crianças não aprendem a ler e escrever, mas, sim, descobrem essas habilidades durante essas situações de brincadeiras nas quais sentem a necessidade de ler e escrever”. Através das ferramentas tecnológicas, começam a despertar as primeiras possibilidades que ajudarão no processo de aprendizagem.

Contudo, os alunos da vida urbana estão prontos para a multimídia, e o processo de ensino nas instituições ainda está ligado aos métodos tradicionais, ou seja, não está preparado para esse novo mundo virtualizado. Os educadores, por sua vez, sentem a necessidade do investimento educacional e do domínio das tecnologias.

lampada_ideia_criativid_optOs professores percebem que precisam mudar, mas não sabem bem como fazê-lo e não estão preparados para experimentar com segurança. Muitas instituições também exigem mudanças dos professores sem dar-lhes condições para que eles as efetuem. Frequentemente algumas organizações introduzem computadores, conectam as escolas com a Internet e esperam que só isso melhore os problemas do ensino (MORAN, 2004).

A inquietação do professor parte por essa nova perspectiva educacional, em que seu desânimo e suas frustrações surgem com a necessidade, vista por si mesmo, de acompanhar essa nova vida virtual, ou seja, do surgimento de inovações em sua própria metodologia; de pensar em refletir novas técnicas e novos métodos em sua prática e, assim, seguir os novos paradigmas da inovação.

Acho importante mostrar para o professor que, para aprender a lidar com o computador, é preciso interagir com pessoas que sejam “fluentes” no uso da máquina, e não só com a máquina. Essas pessoas podem muito bem ser os próprios alunos (BUZATO, 2003).

Diante disso, o professor, nesse novo cenário educacional, ainda continua com sua mesma função de mediar os conhecimentos, porém com novo perfil profissional, porque esse novo profissional da educação só será um bom educador se renovar suas ações, tornando-se pesquisador e assumindo o compromisso de se adequar às novas mudanças. O novo professor deve desenvolver, em sua prática, a busca por uma aprendizagem significativa, que desperte o interesse dos educandos e dê sentido, de fato, ao processo de ensino e aprendizagem na construção da participação ativa dos alunos nessa nova era educacional, o que se conhece como educação democrática e participativa.

O uso das TICs e as novas práticas educativas dos professores atuais

O processo de inclusão das tecnologias na ação dos docentes torna-se, atualmente, essencial em sua prática educacional, na qual há construção do conhecimento através dos avanços, oportunizando uma metodologia avançada que contribua para essa nova era digital. Nesta, os sujeitos tornam-se participativos e responsáveis, deixando de ser passivos para se tornarem pessoas ativas, capazes de construir seu próprio saber vinculado ao saber já existente. A esse respeito, Freire enfatiza:

A educação é uma resposta da finitude.
A educação é possível para o homem,
portanto este é inacabado. Isso leva a sua
perfeição. A educação, portanto, implica
uma busca realizada por um sujeito que
é o homem. O homem deve ser sujeito de
sua própria educação. Não pode ser objeto
dela. Por isso, ninguém educa ninguém
(1979, p. 27-28).

Segundo Xavier (2005), “As novas gerações têm adquirido o letramento digital antes mesmo de ter se apropriado completamente do letramento alfabético ensinado na escola”. Isso nos faz repensar na intensa utilização do computador pelas crianças e adolescentes. Essas novas mudanças tecnológicas incorporam os equipamentos da informática como recursos usuais da metodologia aplicada.

Libâneo (2007, p. 309) afirma que “O grande objetivo das escolas é a aprendizagem dos alunos, e a organização escolar necessária é a que leva a melhorar a qualidade dessa aprendizagem”. Nessa perspectiva, as tecnologias tornam-se ferramentas aliadas e poderosas do professor, capazes de ampliar as chances da aprendizagem do aluno. Envolvê-los nesse processo seria aproximá-los da realidade, facilitando, assim, a internalização dos conteúdos. Pois, como diz Valente:

[...] a implantação da informática como auxiliar do processo de construção do conhecimento implica mudanças na escola que vão além da formação do professor. É necessário que todos os segmentos da escola — alunos, professores, administradores e comunidades de pais — estejam preparados e suportem as mudanças educacionais necessárias para a formação de um novo profissional. Nesse sentido, a informática é um dos elementos que deverão fazer parte da mudança, porém essa mudança é mais profunda do que simplesmente montar laboratórios de computadores na escola e formar professores para a utilização dos mesmos (1999, p. 4).

Contudo, sabe-se que as graduações em licenciatura, nos seus fatores gerais, ainda não contribuem de forma efetiva para essa capacitação de acompanhamento dos elementos que integram o computador em sua prática, e isso ainda se torna obstáculo para muitos profissionais, o que motiva uma falta de interesse e comodismo em sua ação. “Quando o inesperado se manifesta, é preciso ser capaz de rever nossas teorias e ideias, em vez de deixar o fato novo entrar à força na teoria incapaz de recebê-lo” (Morin, 2000, p. 30). Assim, ensinar utilizando as TICs requer uma profunda reflexão acerca da realidade. Dessa forma, o professor atual ganha um novo perfil de professor flexível, detentor do seu próprio conhecimento, inovador, capaz de mediar os conhecimentos através das informações, das tecnologias e dos avanços, desempenhando suas potencialidades e uma nova prática pedagógica.

Considerações finais

Em breve apanhado, nota-se que a relação entre as diversas temáticas inseridas na sociedade da informação mostra que podemos incorporar suas especificidades e sua contribuição nas práticas inovadoras com o uso das tecnologias nas escolas.

Entretanto, faz-se primordial para esta indagação verificar se a incorporação das TICs vem atendendo à demanda escolar e se está sendo implementada na perspectiva da qualidade de ensino, somando-se a novas estratégias e metodologias que tivessem de utilizá-las como suporte pedagógico.

No entanto, é fundamental promover a existência de um ambiente institucional contemplando a demanda escolar. Para isso, deve haver investimentos nos recursos tecnológicos, materiais didáticos específicos e, principalmente, na formação de profissionais. Contudo, depende de políticas públicas que invistam na Educação Digital, e da sociedade, que deve fiscalizar e intervir, buscando
sempre qualidade.

A Educação Digital integrada em todas as escolas brasileiras não é algo que acontece da noite para o dia. Muitas são as possibilidades, e não há alternativa senão pô-las em prática, com seriedade e comprometimento ético.

Julyanne Pereira Neto é Mestra em Ciências da Educação, professora dos cursos de Licenciatura em Pedagogia, Educação Física, Serviço Social, Letras Português e Letras Libras e professora dos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Letras Libras, Gramática e Produção Textual. Orienta monografias e participa de bancas de TCC do Instituto de Educação Superior de Pernambuco.
Contato: julyanne_fashion@hotmail.com

Ilvera Nunes Gomes é Mestra em Educação, professora alfabetizadora da Prefeitura Municipal de Petrolina, coordenadora da Educação do Campo do Estado de Pernambuco, diretora do Centro Educacional Aprendiz, professora de TCC de Pedagogia da Faculdade do Sertão – BA, professora de turmas de pós-graduação das Faculdades Montenegro.
Contato: silvera.sng@hotmail.com

Referências

BUZATO, Marcelo E. K. Letramento digital abre portas para o conhecimento. Educa. Rede. Entrevista por Olivia Rangel Joffily. 23/01/2003 http://www.educacaoliteratura.com/index%2092.htm. acesso em 06/07/2014.

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação — uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979 a.

LIBÂNEO, José Carlos. et al. Educação escolar: políticas, estrutura e organização. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2007.

LOPES, Maria do Céu Baptista. Redes, tecnologia e desenvolvimento territorial. In: CONGRESSO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL DE CABO VERDE: REDES DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, 1., 2009, Cabo Verde. Anais… Cabo Verde: APDR, 2009. p. 995-1015. Acesso em: 13 fev. 2010.

MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, Brasília, Unesco, 2000.

MORAN, José Manuel. Os novos espaços de atuação do professor com as tecnologias. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n. 12, Mai/Ago. 2004. Quadrimestral.

SOARES-LEITE, W. S. & NASCIMENTO-RIBEIRO, C. A. do. A inclusão das TICs na educação brasileira: problemas e desafios. Magis, Revista Internacional de Investigación en Educación, 5 (10), 173-187.2012.

VALENTE, José Armando. O computador na sociedade do conhecimento. São Paulo: Unicamp/Nied, 1999.

VYGOSTSKY, l.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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