Edição 48

Em discussão

Transtorno Bipolar: um abismo no qual respostas nem sempre vêm à tona

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A mente humana é uma máquina em desenvolvimento constante, que trabalha em alta rotatividade para atingir os seus limites. Se for monitorada com maestria para evitar distúrbios, conduzida por um caminho coerente para superar grilos, dificuldades, anormalidades, pode transformar vidas.

Um dos atalhos que pode conduzir o indivíduo ao desvio é o Transtorno Bipolar – TB.

O Transtorno Bipolar, ou Distúrbio Bipolar, é uma forma de transtorno caracterizado pela variação extrema do humor entre uma fase maníaca, ou de hipomania (hiperatividade e grande imaginação), e uma fase de depressão, de inibição (lentidão para conceber e realizar ideias e ansiedade ou tristeza). Juntos, esses sintomas são comumente conhecidos como depressão maníaca.

A vítima do TB vive em permanente estado de inconstância comportamental, oscila entre a extrema alegria — com uma euforia exagerada, humor contagiante (hipomania ou mania) — e a tristeza, o mau humor, desespero, medo (depressão). Depois volta a agir normalmente, como se tais mudanças não transitassem pela sua cabeça.

É fundamental ratificar que nem todas as pessoas que têm altos e baixos no comportamento são vítimas do TB, pois essas oscilações podem ocorrer com qualquer pessoa livre de distúrbios. Da mesma forma, a proporção das crises varia de pessoa para pessoa quanto à intensidade e duração. Ninguém está fora da mira desse distúrbio, nem mesmo as crianças. E, como em muitos casos a vítima não percebe as mudanças de humor, há resistência para se submeter aos tratamentos.

Apesar de desconhecido para uns e um mito para outros, o TB é um martírio para as vítimas, que mergulham em episódios singulares sem que aqueles que as rodeiam entendam tais comportamentos. Devido à inexistência de amparo e apoio da família, que na maioria dos casos desconhece o problema, a situação se agrava. Pois o TB absorve a resistência psicológica, abala a estrutura emocional e afeta o sistema nervoso devido aos conflitos que acontecem num espaço de tempo cada vez menor à medida que a doença avança, fazendo com que o período em crise seja superior ao período normal. A progressão é tamanha que muitos não suportam as alterações de conduta e tentam suicídio.

Segundo a medicina, mais de 90% dos casos de Transtorno Bipolar são manifestados na infância — conforme revela a conceituada revista americana Time, que destacou o TB na infância como matéria de capa na edição do dia 19 de setembro de 2002 —, principalmente em crianças adotadas, mas muitos casos são identificados depois dos 15 anos. Pais e especialistas confundem as mudanças de humor — normal nessa fase de metamorfose física e emocional —, normalmente, com pirraça, fato que dificulta o tratamento, devido ao diagnóstico tardio da doença.

E, como todo problema complexo que envolve o emocional e o psicológico, tudo é delicado: da abordagem ao tratamento, pois uma gama de sinônimos e paralelos é posta em xeque, e o TB apresenta uma longa lista — psicose maníaco-depressiva; transtorno ou doença afetivo-bipolar, incluindo tipos específicos de doenças ou transtornos do humor, como hipomania, que é uma alteração de humor semelhante à mania, porém com menor intensidade; transtorno misto do humor; e ciclotimia, uma forma de temperamento ou oscilações do estado psíquico.

Apesar de ser novidade para muitos, a bipolaridade há séculos ronda a cabeça da humanidade, inclusive a de grandes personalidades do mundo da literatura, como Agatha Christie, Edgar Allan Poe, famosos pelos seus contos de mistérios e terror; Fernando Pessoa, poeta e escritor português que marcou época com suas frases, poesias e poemas; mitos do rock, como Cazuza, e do cinema, como a imortal Elizabeth Taylor; Vincent Van Gogh, mestre das artes plásticas, e até grandes nomes da filosofia e ciência, como Platão e Isaac Newton.

Com tantas cabeças famosas habitadas por essas inquietações, o TB não foi levado a sério. Era encarado como uma psicose maníaco-depressiva sem importância, por não apresentar sintomas psicóticos.

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Mesmo com os avanços da ciência, o TB ainda é um desafio para a medicina moderna, que, apesar de diagnosticar precocemente as formas mais típicas, como a euforia-mania e a depressão, não identifica ou confunde muitos casos de TB com a mania e a hipomania, estas sempre vêm acompanhadas de uma boa dose de irritabilidade.

Segundo Moreno (2004) e Angst et al. (2003),

[...] pelo menos 5% da população geral já apresentou mania ou hipomania. A irritabilidade e os sintomas depressivos durante episódios de hiperatividade breves e a heterogeneidade de sintomas complicam o diagnóstico. Doenças neurológicas, endócrinas, metabólicas e inflamatórias podem causar uma síndrome maníaca. Às vezes, a hipomania ou a mania são diagnosticadas de forma errada como normalidade, depressão maior, esquizofrenia ou transtornos de personalidade ansiosos ou de controle de impulsos.

Mas, para transitar pelos caminhos do cérebro — o ponto mais vulnerável do ser humano —, são necessários cuidados, porque o emaranhado de neurônios, em constante estado de ebulição, atentos a todos os bulícios à nossa volta, altera comportamentos considerados exemplares. Nessa transição entre a manifestação e o início do tratamento, muitos se tornam vítimas de diagnósticos precipitados e simplesmente abandonam tudo.

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Como descreve Soren Kierkegaard, pai do existencialismo, teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX, jovem vítima do TB que enfrentou grandes dificuldades para se adequar na sociedade:

E nenhum grande inquisidor tem prontas tão terríveis torturas como a ansiedade tem; e nenhum espião sabe como atacar mais inteligentemente o homem de quem ele suspeita, escolhendo o instante em que ele está mais fraco, ou sabe onde colocar armadilhas em que ele será pego e enredado como a ansiedade sabe; e nenhum juiz é mais esperto e sabe interrogar melhor, examinar e acusar como a ansiedade sabe, e nunca o deixa (a vítima) escapar, nem através de distrações, nem através de barulhos, nem divertindo, nem brincando, nem de dia, nem de noite… Algum dia até, não somente os meus escritos, mas a minha vida e todo o complicado segredo do seu mecanismo serão minuciosamente estudados.

Como o próprio Soren descreveu, conviver com o TB é um tormento para a vítima e para aqueles que a cercam, suas previsões já são uma realidade, principalmente no ambiente escolar, em que tudo se manifesta. O TB, como outros tantos transtornos vividos no cotidiano de uma sala de aula, exige atenção especial, estudos minuciosos, e é mais um desafio para a Psicopedagogia, que busca identificar os transtornos que abalam o sistema de ensino.

Tais perturbações preocupam especialistas, pois essa inquietação afetiva vem alterando o perfil dos educandos, elevando uma barreira entre as vítimas e o mundo à sua volta, uma vez que as variações temperamentais dificultam os relacionamentos professor-aluno e aluno-aluno, retardando o processo de aprendizagem.

Se “o ser humano é um produto do meio em que ele vive”, por onde iniciar os ajustes para evitar tantos transtornos?

É hora de direcionar a atenção para a base maior do homem: a família. Ressaltando a sua relevância no desenvolvimento, no comportamento do indivíduo. É no seio da família que são gerados valores imprescindíveis à formação e aos hábitos indispensáveis à conduta do cidadão. Valores que o acompanharão por toda a vida e definirão o seu desenvolvimento humano, profissional e pessoal, para que, ao ser inserido no contexto escolar, possa se libertar de transtornos, ampliar os seus horizontes e, ao chegar ao mercado de trabalho, tenha características como adaptação e relacionamento disciplinar.

Na sociedade, mesmo com seus valores mutilados pelos avanços do tempo, a família sempre será a base do indivíduo. A parceria família-escola, mesmo em tempos de guerra, de desamores, ainda é sinônimo de educação de qualidade, pois esses pilares foram e sempre serão os guias que conduzirão o homem pelo sinuoso caminho da realização pessoal e profissional.

É preciso que a escola cumpra o seu papel de integradora da educação, família e sociedade, pois, ao ingressarem na escola, essas pessoas se perdem ao se confrontarem com as perturbações de um sistema de ensino abalado, como os transtornos das salas de aula superlotadas, da violência doméstica e urbana, do descompromisso, dos professores incapacitados, das rixas políticas que fazem da escola uma passarela onde grupos ostentam poder, determinam e impõem, provocando o surgimento de um transtorno maior: o Transtorno do Professor Estressado – TPE. Este converte o ambiente da sala de aula numa atmosfera irrespirável, onde educador e educando não falam a mesma língua, não encaram o mesmo horizonte e, consequentemente, não atingirão a meta da aprendizagem.

É preciso reconhecer que a família é a primeira referência do indivíduo. Um item que deve ser inserido no processo educacional para entendermos comportamentos, pois — mesmo com a sua arcaica organização social sendo alvo das políticas sociais da modernidade, suprimida pela própria evolução humana (a qual instituiu novas formas de família) — ostenta os seus valores através dos tempos. Se a escola não usar essa ferramenta, estará abrindo mão de um instrumento precioso na construção do conhecimento do aluno.

Infelizmente, os valores do homem desagregaram-se dos princípios, especialmente os religiosos. O desamor é voraz, a ambição, insaciável, e o maior desafio da humanidade no século da ciência e da informação será resgatar a essência da família, que se esvaiu dos lares através dos séculos. Somente assim encontraremos as respostas dos porquês de tantos distúrbios que atormentam os homens e a cura de males que desafiam os ases da ciência.

Mas, enquanto os homens continuarem a abrir mão de valores, desfizerem-se de virtudes, mancharem a própria honra para conquistar poder e divisas, a humanidade será ainda mais irracional, pois se distanciará do sonho maior, que é o sonho de ser feliz. Muitos acreditam que chegaram ao ápice apenas por ser um destaque, massacrando valores, tradições e princípios.

E você, educador, que deixa a cada dia a sua parcela para diminuir a ignorância e está fazendo deste país uma grande nação, não desista. Se os transtornos do ofício abalarem a sua estrutura, roubarem a sua tranquilidade, não perca a ética. Use a sua força para abrir caminhos, transformar vidas e contorne esses transtornos. Se novos obstáculos fragilizarem seu otimismo, levarem os seus sonhos, pare, olhe à sua volta e observe o TB, o qual pode levar a um transtorno maior, que é o do analfabetismo.

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