Edição 48

A fala do mestre...

Uma conversa com o acadêmico Evanildo Bechara

Lécio Cordeiro

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De maneira simples, ortografia significa escrita correta, o ramo de estudo da língua que, obedecendo a uma série de preceitos e sistematizações, inclusive da oralidade, padroniza a grafia das palavras. Grosso modo, é ela que estabelece, por exemplo, a forma casa (com s) como certa, e não caza, em todos os países lusófonos — nações que têm o português como língua oficial.

O exemplo acima esclarece bem a necessidade de se obedecer a um padrão de escrita, mas é um exemplo isolado. O problema aparece quando uma língua falada em diferentes nações dispõe de formas diferentes de grafar uma mesma palavra. Pense, por exemplo, no prejuízo editorial que essa variedade causa. Como ilustração do problema, até pouco tempo, para um livro brasileiro ser publicado em Portugal, ele precisava ser “traduzido” para o português dos irmãos lusitanos.

Foram problemas como esse que levaram os países lusófonos a assinarem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Em vigor desde 1º de janeiro deste ano e com prazo de adaptação até 31 de dezembro de 2012, a nova ortografia tem deixado muita gente desconfiada. Opiniões alarmantes sobre o tema são comuns, sobretudo quanto à impressão de que ficou mais difícil escrever. Mas não é bem assim.

Para falar sobre o assunto, entrevistamos o maior gramático e lexicógrafo vivo e atuante no Brasil, o professor Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da instituição. Com 81 anos, mais de 50 deles dedicados ao magistério, o professor Bechara é o único brasileiro na Comissão do Acordo Ortográfico, responsável por bater o martelo sobre alguns problemas deixados sem solução no novo Acordo, firmado em 1990 entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Com solicitude e simplicidade incomuns, o imortal falou seriamente sobre as críticas que a ABL tem recebido nesta época de transição para a nova ortografia e a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), além de ter esclarecido várias dúvidas. Mas, feita a entrevista, ao se lembrar de sua terra natal, o Recife, deixou a seriedade de lado. Reviveu várias lembranças e concluiu com um pedido simples: “Quando você ouvir aquele apito do vendedor de cuscuz com leite de coco, coma um lembrando de mim”.

Construir Notícias: A mídia tem apresentado o novo Acordo Ortográfico como uma unificação da língua. Não seria equivocada essa visão, uma vez que ela nos leva a pensar que a língua pode ser mudada por uma lei?

Evanildo Bechara: Apesar de tratar o tema com a mais pura das intenções, a mídia — e não só ela, mas ainda escritores e jornalistas — muitas vezes tem se manifestado sobre a ortografia e a recente aprovação do Acordo de modo impróprio. Começam, esses comentaristas, cometendo o engano de confundir reforma ortográfica com reforma da língua portuguesa. O Acordo só diz respeito ao modo de grafar as palavras, sem imiscuir-se na língua e em suas variedades geográficas, sociais e individuais. A unidade ortográfica que o Acordo pretende alcançar, na medida do possível, nada tem de ver com a unidade da língua que se pratica pelos seus usuários nos países lusófonos. É impossível a tarefa de se unificar uma língua viva nos seus aspectos fonéticos, mórficos, sintáticos, léxicos, semânticos e estilísticos; mas, dentro da diversidade ortográfica hoje reinante na língua portuguesa, com dois sistemas oficiais, é possível se chegar a um acordo razoável de unificação e simplificação gráfica, nos moldes da unificação e simplificação razoáveis a que já chegaram várias línguas de cultura, também praticadas em diferentes países e em largas extensões geográficas, como o espanhol e o francês.

“É impossível a tarefa de se unificar uma língua viva nos seus aspectos fonéticos, mórficos, sintáticos, léxicos, semânticos e estilísticos.”

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CN: Muitas pessoas estão assombradas com o Acordo. É comum ouvir opiniões alarmantes sobre a nova ortografia, como a impressão de que ficou muito mais difícil escrever, principalmente com relação ao uso do hífen e à abolição de alguns acentos. O que o senhor acha disso?

EB: Não há razão para pânico em relação ao Acordo. Ele propõe reformas simplificadoras no campo da acentuação e do emprego do hífen; são mínimas as mudanças na acentuação e muito bem-vindas as normas para o emprego do hífen, velho quebra-cabeça do nosso sistema gráfico. No geral, as mudanças de hábitos serão mínimas.

CN: Estamos vivendo uma época de transição, em que a nova e a velha ortografias convivem. Para os professores de língua portuguesa, o senhor poderia apontar qual seria a melhor forma de trabalhar essa dualidade nas escolas até 2012?

EB: O governo brasileiro fixou o prazo de 4 anos para a adoção definitiva do Acordo; o governo português preferiu propor 6 anos. Como, no que diz respeito à ortografia, o grande público recorre mais à memória visual, a adoção das novas regras nos jornais, nas revistas e na televisão é fundamental e acelerará sua implantação. O melhor conselho é pôr logo em prática as normas do Acordo. A repetição leva à aprendizagem.

“O melhor conselho é pôr logo em prática as normas do Acordo. A repetição leva à aprendizagem.”

CN: Na intenção de facilitar a assimilação das novas regras ortográficas, algumas publicações estão adotando uma postura inovadora: as palavras cuja grafia foi modificada são grafadas nos textos com boxes explicativos e destaques que ressaltam a mudança. Como o senhor vê medidas como essa?

EB: Esse procedimento é válido. A Editora Nova Fronteira fez uso dele no meu Minidicionário e no Infantil, que sairão nestes próximos dias.

CN: A assinatura do Acordo desencadeou, ao menos no Brasil, uma verdadeira corrida editorial focada na publicação de manuais práticos e dicionários voltados para a nova ortografia, o que, por sua vez, levou à publicação de conteúdos contraditórios e pouco esclarecedores. Esse desencontro foi finalmente resolvido com a publicação do Volp?

EB: Lacunas e pontos sujeitos a interpretações diferentes foram responsáveis por contradições, que agora já estão sendo corrigidas.

CN: Alguns críticos lusitanos ao Acordo desconsideram a validade do Volp, alegando que foi um trabalho feito unilateralmente pelo Brasil, sem diálogo, portanto, com os outros países lusófonos signatários do Acordo. O argumento é o de que houve um desrespeito ao Artigo 2º do documento oficial. Isso é verdade?

EB: Outro ponto que precisa ser esclarecido é a condenação peremptória ao Brasil, especialmente à Academia Brasileira de Letras, por ter preparado a 5a edição do Volp sem anuência prévia dos seis países signatários do Acordo de 1990 (Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Ora, desde 1911, Portugal, pelos seus ortógrafos mais eminentes (Gonçalves Viana e Rebelo Gonçalves, entre outros) ou pela Academia das Ciências de Lisboa, sempre publicou seus vocabulários ortográficos sem precisar da anuência do Brasil, assim como o Brasil, também pelos seus ortógrafos mais respeitados e pela ABL, sempre publicou seus vocabulários ortográficos sem precisar da anuência do país irmão. E isso por uma razão muito simples: quando as duas Academias, depois de 1911, passaram a entrar em entendimentos para chegarem a uma possível unidade ortográfica, produziram formulários segundo os quais foram redigidos seus vocabulários ortográficos, com maior ou menor dose de unificação. Esgotada a 4a edição do Volp, saída em 2004, a ABL tratou de preparar a 5a edição, que sairia no início de 2008. Como, no correr desse ano, se intensificaram os propósitos de uma aprovação iminente do Acordo de 1990, que, desde essa data, havia permanecido à espera de uma decisão final dos governos, a academia optou por implantar o Acordo, enfrentando o pouco tempo de que dispunha para sua confecção, bem como alguns problemas técnicos existentes no texto oficial e nas lacunas que deveriam ser resolvidas pelos integrantes da sua Comissão de Lexicologia e Lexicografia. Nesse sentido, foram elaborados procedimentos metodológicos para a implantação das Bases num universo lexical de mais de 370 mil vocábulos consubstanciados em quatro princípios norteadores, considerados fiéis aos propósitos dos representantes oficiais dos países signatários: a) respeitar a lição do texto do Acordo; b) estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo; c) acompanhar o espírito simplificador do texto do Acordo; d) preservar a tradição ortográfica refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das omissões existentes no texto do Acordo. Vêm-nos da imprensa portuguesa notícias de que a Academia das Ciências de Lisboa prepara seu Vocabulário Ortográfico para sair entre novembro e dezembro deste ano. Será o momento de confrontar, nos casos de omissões e lacunas do texto oficial de 1990, como se houveram os ilustres técnicos integrantes de sua Comissão de Lexicologia e Lexicografia em relação às soluções que deu a ABL nesses mesmos pontos. Mas ainda lemos, aqui e ali, críticas à ABL porque não atendera ao que preceitua o art. 2o do Acordo de 1990, que é, segundo eles: “Os Estados signatários tomarão as providências necessárias para a elaboração de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa”. Assim sendo, em vez da 5a edição, a instituição brasileira deveria colaborar antes com seus parceiros na execução desse vocabulário comum. Uns críticos insistiram nesse ponto ou por não terem lido o art. 2o ou, se o fizeram, não souberam lê-lo, treslendo-o. Outros conheciam o pleno teor do texto, mas não o citaram integralmente, para captar, mentindo, a adesão dos seus leitores. Chega o momento de esclarecer essa questão que explicita o propósito dos estados signatários. Leiamos o que reza o art. 2o como está publicado no texto de 1990:

“art. 20. Os Estados signatários tomarão, através das instituições e dos órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1o de janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas”.

Ora, isso quer dizer que o propósito dos Estados signatários não se limitaria à simples uniformização da grafia das palavras correntes na língua comum, mas que essa unificação “tão completa quanto desejável e tão normalizadora quanto possível” deveria chegar às terminologias científicas e técnicas. Em outras palavras, que as denominações geográficas, especialmente na toponímia, as da Medicina, da Química, da Física, da Botânica, da Zoologia, da Eletrônica, etc., na medida do possível, também se hão de normalizar. É um projeto inovador no mundo da lusofonia, altamente louvável no plano cultural, científico e político, para o qual instituições e órgãos competentes têm muito com o que colaborar. Pensa-se em procedimentos normalizadores nos dicionários e vocabulários técnicos e científicos, projetos da máxima importância, mas de elaboração demorada. No terreno puramente ortográfico dessa nomenclatura, o Acordo já propôs disciplina no emprego do hífen nas denominações botânicas e zoológicas (na Base XV) e em aspectos de termos técnicos e científicos formados com prefixos ou pseudoprefixos (na Base XVI).

CN: Em sua opinião, de que forma a fase de transição — e a inevitável coexistência de duas ortografias — poderá impactar na desenvoltura da escrita dos alunos recém-alfabetizados?

“A característica básica do jovem é aceitar a novidade. E essa aceitação é tão rápida quanto mínimas são as mudanças.”

“Não apoiar o Acordo de 1990 é negar ao idioma, pelos seus falantes, a certeza de atingir a maturidade cultural e política.”

EB: É claro que, no primeiro momento, haverá certo desconforto por parte de quem pratica o sistema ortográfico anterior. Mas a característica básica do jovem é aceitar a novidade. E essa aceitação é tão rápida quanto mínimas são as mudanças. Quer uma prova? Nós ambos redigimos as perguntas e as respostas deste texto sem nenhuma segunda intenção, isto é, sem selecionar palavras. O presente texto encerra centenas de palavras diferentes, e não há nenhuma em cuja grafia tivemos de mexer! Por que, então, a celeuma de tanta gente? Não apoiar o Acordo de 1990 — deficiente e insatisfatório como todas as reformas em matéria de ortografia — é negar ao idioma, pelos seus falantes, a certeza de atingir a maturidade cultural e política.

Com um currículo irreparável, o acadêmico Evanildo Bechara é autor de mais de uma dezena de livros, obras de referência para todos que têm interesse em conhecer melhor a língua portuguesa. Pensando nisso, apresentamos algumas sugestões para você que tem interesse de conhecer melhor o novo Acordo Ortográfico ou que deseja aprofundar seus estudos.

Minidicionário da Língua Portuguesa

Além de trazer uma minigramática voltada para o ensino e domínio inicial da língua, esse minidicionário reúne mais de 30 mil verbetes e destaca, com um símbolo de rápida identificação, todas as palavras que foram alteradas pelo Acordo. O Minidicionário da Língua Portuguesa, de Bechara, é o único que ainda traz uma lista, em ordem alfabética, com as palavras que mudaram depois do novo Acordo Ortográfico (Editora Nova Fronteira).

O Que Muda com o Novo Acordo Ortográfico

Esse manual é um guia bastante claro e didático que abrange todas as mudanças estabelecidas pelo novo Acordo, sendo um guia completo e fácil de ser consultado na hora de escrever (Editora Nova Fronteira).

Moderna Gramática Portuguesa

Considerada a mais completa gramática da língua portuguesa, essa obra, agora na 37ª edição, está atualizada conforme o novo Acordo. É a gramática mais indicada para estudantes a partir do Ensino Médio e para quem vai prestar concursos. (Editora Nova Fronteira).

Entendendo melhor a ortografia

Até o século XVI, não existia uma padronização ortográfica. Como a escrita seguia a pronúncia, era muito comum encontrar num texto uma mesma palavra grafada de formas variadas. Entre o século XVI e o começo do século XX, houve uma crescente busca de uniformização da escrita: passou-se a escrever respeitando a origem das palavras. Datam dessa época palavras como philosophia, pharmacia, chimica.

Somente no século XX se iniciaram os esforços para se alcançar um sistema ortográfico que abrangesse Brasil e Portugal. Depois de muitos anos de discussão, surgiu o Acordo Ortográfico de 1945, que, apesar de insatisfatório, passou a vigorar a partir de 1955. Com poucas alterações, esse Acordo foi seguido, precisamente, até o dia 31 de dezembro de 2008. No dia seguinte, entrou em vigor o novo Acordo, assinado em 1990. Basicamente, esse novo sistema ortográfico procura simplificar o anterior, uniformizando uma série de contradições, sobretudo com relação ao uso do hífen.

Apesar de a novidade parecer complexa, na prática não é. As dificuldades que muitas pessoas têm na hora de escrever certas palavras podem ser facilmente superadas, mesmo com as novas regras.

O passo fundamental para dominar a ortografia de uma língua é a alfabetização. Nesse processo, o indivíduo aprende muitas das convenções estabelecidas entre letras e sons. Depois, na fase seguinte da escolarização, aprende as relações entre ortografia e morfologia, a parte da língua que estuda a formação das palavras. Escrevemos laranjeira com j, e não com g, porque sabemos que ela se formou a partir de laranja.

Agora, você certamente está se perguntando por que, mesmo tendo terminado todo o processo de escolarização, ainda temos dificuldade de escrever algumas palavras. Bem, a explicação é fácil: você conhece alguém que aprendeu a dirigir olhando o motorista do ônibus? Pois, então, com a aprendizagem da ortografia é o mesmo. A leitura e a escrita constante nos levam a fixar, pelo olho, a grafia das palavras mais comuns. É uma questão de hábito. Com relação ao novo Acordo, uma boa forma de as publicações impressas, como livros e revistas, favorecerem a mudança é imprimir certo destaque às palavras cuja grafia mudou. A medida, adotada pioneiramente pela Editora Construir, tem sido louvada por muitos professores e alunos. O procedimento é interessante porque ajuda as pessoas a fixarem a nova forma. Durante a leitura, ao perceber as palavras destacadas, o leitor tem facilitada a percepção da mudança, e isso certamente apressará o domínio da nova ortografia. É um “empurrão” que ajuda a memória visual.

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