Edição 39

Matérias Especiais

Uma professora muito maluquinha

Com 75 anos recém-completados — 75 anos de muita dedicação à Literatura e à Educação —, o cartunista e autor de histórias infantis Ziraldo é famoso por ser o criador de O Menino Maluquinho. Outra obra similar, também do escritor, é Uma Professora Muito Maluquinha. Ambas viraram filmes. E é sobre a segunda que vamos falar.

Editada pela primeira vez em 1995, Uma Professora Muito Maluquinha conta a história de uma professora que, a princípio, parece meio doidinha, mas que, na verdade, é uma pessoa apaixonante e criativa, que se torna fundamental na vida de seus alunos.

Linda, amável e cheia de idéias novas para manter a classe animada, a professora do interior é protagonista de uma história divertida e sensível. Entre as “maluquices” da professora, vamos citar dois exemplos. Ela escrevia na lousa bilhetes, e quem lesse mais rápido ganhava um brinde. Ou então lia, cada dia, um capítulo de Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, seu livro preferido. Um dia, ela decidiu que cada capítulo tinha que ser lido por um aluno da classe. Foi quando ela inventou a máquina de ler, em que se lia de baixo para cima.

A professora devolve aos alunos o entusiasmo, que geralmente não existe, uma vez que eles são expostos a aulas mecânicas e exaustivas, que cobram do aluno a famosa “decoreba”, e não a compreensão e o discernimento. Ser criativo é mais difícil, e geralmente não escolhemos o caminho mais difícil. E, por isso, ela é objeto de fantasia por parte dos alunos: “Na nossa imaginação, ela entrava voando pela sala (como um anjo) e tinha estrelas no lugar do olhar. Tinha voz e gesto de sereia e vento o tempo todo nos cabelos”.

A história é narrada por cinco colegas de classe, que rememoram o tempo de infância deles na escola, com “uma professora inesquecível” (p. 115). São quatro meninos, com nome dos mosqueteiros — Athos, Porthos, Aramis, d’Artagnan —, e uma menina muito esperta, Ana Maria, a chefa. Para os meninos, uma forma diferente de narrar: “E acabamos de descobrir que este é o primeiro livro que conhecemos escrito no plural. No plural da primeira pessoa” (p. 113).

As ilustrações, também feitas por Ziraldo, ajudam na compreensão do texto. Nas gravuras, reprodução de anúncios antigos de jornais, fotografias, recortes de revistas (como O Cruzeiro), cartas e músicas nos levam a conhecer um pouco de como eram os costumes da época em que se passa a história, na década de 1940. Ao final do livro, inclusive, Ziraldo explica aos leitores “A História da História” em que ele se inspirou para criar a protagonista de Uma Professora Muito Maluquinha. As ilustrações são de Alceu Penna, que pintou as mais bonitas ou mais parecidas com a mulher que nós sonhamos que as brasileiras são: as mais leves, as mais brejeiras, as mais doces, as mais sensuais, as mais graciosas do mundo. A minha Professora Maluquinha era, sem sombra de dúvida, uma garota do Alceu (p. 118).

Essa professora é também ousada e acredita realmente na função de um professor completar o homem, dando-lhe a capacidade de ler e escrever. Mas, como todo ser humano, ela não é perfeita. Às vezes, chega à classe com ar triste e com problemas. Ao longo do livro, Ziraldo desperta o leitor para o destino da professora, que vai surpreender. Mesmo sendo uma mestra do interior na década de 1940, ela não segue os preceitos da maioria das mulheres, que casam de véu e grinalda, na igreja. Ela prefere fugir com o namorado.

Os alunos aprendem por meio de filmes, desenhos, poesias, visitas a outros professores, menos pelo livro escolar: “Com um desenho e um filme, já estávamos conhecendo mais História Universal do que com todas as coisas escritas no livro adotado pela escola. E que ainda não tinha sido aberto por nós. Nem por ela”. Essa frase é meu único “se” ao livro. Considero que um professor não deve realmente restringir sua aula a um livro, muito menos acompanhá-lo linearmente, o que torna a aula maçante. O mundo das descobertas está muito além de um livro e de uma sala de aula, mas o livro também é importante para o aprendizado. A professora sabia bem como instigar seus alunos, mas não custava a ela, ao menos, ler o livro, para saber como usá-lo sem oferecer uma aula chata. O próprio livro poderia ser alvo de sua criatividade.

Na verdade, a maluquice da professora é uma paixão pelo que se faz. Uma vontade de mudar a Educação e despertar o interesse dos alunos, de maneira que eles também se apaixonem pelo aprendizado. Ela ensina que é possível aprender com alegria, o que provoca estranheza aos colegas professores e à direção da escola: “Vamos parar com essa felicidade aí!” (p. 75). Deveria ser normal a felicidade de crianças em uma escola primária, mas sabemos que não é essa a realidade de nossas escolas. O que reina, geralmente, é uma sujeição à disciplina rigorosa, que castra a expressão e o desenvolvimento dos alunos. Alegria numa escola é fundamental, pois ela ajuda a estarmos lá, nos incentiva a gostar de ir para lá e a aprender. O próprio Ziraldo costuma dizer, em suas entrevistas, que “ler é mais importante que estudar”, porque a criança está em constante aprendizado, mesmo quando está brincando.

Referência Bibliográfica

pinto, ziraldo alves. uma professora muito maluquinha. 20. ed. são paulo: melhoramentos, 2002.
letícia garcia é jornalista, especialista em literatura brasileira (pela faculdade frassinetti do recife – fafire), e estudante de letras (fafire).

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