Edição 66

Projeto Didático

Vila Sézamo – De “seu mestre mandou” para “seu Mestre mandou”

Escola Vila Sézamo – Recife – PE

vila_sezamoHá 16 anos a Escola Vila Sézamo movimenta as ruas do Recife com a sua tradicional Gincana Peda-gógica. Geralmente o evento ocorre no mês de maio e abre o ciclo de atividades lúdico-pedagógicas que se seguem durante todo o ano (Olimpíadas de Ciências Exatas e da Natureza; Maratona de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Literart; e o Expovila). A Gincana Pedagógica tem como função a interação entre os corpos discente e docente, além de fomentar noções de cidadania entre o alunado.

Neste ano, trabalhando com o tema gerador Brasilidade: Faces e Fases — que norteará todas as suas atividades durante o ano —, a instituição buscou inovar dando uma nova roupagem à Gincana: a competição recreativa de características extravagantes, como corrida de saco ou torta na cara, avançou para atividades pedagógicas pensadas de forma que a aprendizagem fosse potencializada através da recreação. “Seu mestre mandou” deu lugar a “seu Mestre mandou”, pondo em evidência as habilidades e competências estabelecidas nos PCN, como também a história e a cultura brasileira distribuídas em diversas atividades pedagógicas, lúdicas e esportivas.

As equipes, batizadas com nomes que remetiam à nossa história e cultura (Tupi-Guarani, Caras Pintadas, Bando de Lampião, Os Mascates, Veneza Brasileira, etc.), do Ensino Fundamental II foram reunidas a partir de dois agrupamentos. O primeiro formado pelos 6os e 7os anos, e o segundo com alunos dos 8os e 9os anos. Para dar um maior dinamismo, interação e interdependência entre o alunado, as equipes dos dois agrupamentos foram unidas em parcerias a partir das cores que as identificaram. Por fim, o Ensino Médio fez uma competição paralela onde todos disputaram contra todos.

As competições e tarefas foram pensadas a partir de uma descentralização de espaços — quadra, laboratórios de Informática e Matemática e salas de aula da escola; clube de futebol no Recife; campo de futebol society; e espaço de lazer em Aldeia — e também para serem o mais pedagógicas possível — envolvendo as competências e habilidades tanto de Educação Física como das demais disciplinas escolares, além de encerrarem dentro de si o tema gerador Brasilidade: Faces e Fases.

Já na abertura do evento, um momento de interação entre escola e família nas dependências de um clube de futebol do Recife, algumas das muitas “faces” do Brasil foram mostradas quando os pais puderam prestigiar seus filhos, que apresentaram um festival de dança dos principais ritmos brasileiros (forró, carrapicho, swingueira, etc.).

Segundo Lovisolo1, “o papel do pedagogo é o de um facilitador, um oportunizador, criador de situações educativas [...] o educador seria muito mais um criador de condições para o aprendizado ativo da criança”. Então a maior preocupação do corpo docente era oportunizar o aprendizado: todas as competições foram geridas e guiadas pelo corpo docente e por coordenadores da escola, todas as atividades tinham como instrutor o professor da disciplina que a inseria, sempre precedidas de pequenas palestras que relacionavam a tarefa com os conteúdos vivenciados em sala de aula. O laboratório de Matemática foi utilizado como espaço de competição para que os alunos, usando a lógica, pudessem, sob a orientação de instrutores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e de seus próprios professores, competir com o NINs, Torre de Hanói, Quebra-Cabeças Espaciais, Hex, Peão à Frente, Carrossel das Cores, Links, Quadrados Mágicos e, é claro, os famosos Tangrans. A Lógica e a Matemática também foram exploradas nas salas de jogos de mesa e tabuleiro com os dominós, damas, cartas, etc., na construção de poliedros ou na construção de um invento útil a partir de recicláveis.

As competências e habilidades de Língua Portuguesa e Literatura foram trabalhadas através da soletração, na encenação de trechos de obras clássicas de nossa literatura ou na construção de paródias e letras de músicas. A Arte e a História da Arte foram abordadas na reprodução de telas famosas — como O Grito, de Edvard Münch, ou Os Girassóis e A Noite, de Van Gogh — e também quando os alunos, a partir das cores primárias, tiveram de reproduzir um modelo de cores quaternárias. Para a Música, foi aberta uma competição onde, além de aprender teoria musical, os participantes, escolhendo o teclado, violão ou contrabaixo vertical, tinham de, aguçando seus ouvidos, indicar qual o acorde executado pelo instrutor. A História e a Geografia foram abordadas quando os competidores tinham de pôr em ordem os eventos históricos numa linha do tempo a partir de imagens, citações e datas comemorativas ou fixar cidades, pontos turísticos e acidentes geográficos em um grande mapa do Brasil.

As competências da Biologia foram esboçadas no Parque Ecológico de Dois Irmãos. No zoológico, atados em uma corrente humana, as equipes, correndo contra o tempo, seguiam pistas — verdadeiras ou falsas — deixadas próximo das jaulas dos animais, discerniam a espécie, a região originária do planeta, principal alimentação, predador natural, etc. até encontrarem o animal que tinham de salvar da extinção. Nessa divertida competição, também tiveram de se orientar cartograficamente dentro do parque.

Mas os ganhos pedagógicos que essa competição deixou entre seus alunos parecem não ter sido maiores que os ganhos que a solidariedade poderia gerar. Uma das atividades propostas às equipes foi amontoar o maior número possível de cestas básicas que foram doadas ao Centro de Reabilitação e Valorização da Criança (Cervac). Essa foi a maior lição.

Ah! É claro que não ficaram de fora as tradicionais escolhas da Garota e Musa Vila Sézamo, os torneios de futebol e o confronto alunos campeões versus professores.

1. LOVISOLO, H. Estética, Esporte e Educação
Física. Rio de Janeiro: Sprint Editora. 1997. p. 32.
Coordenador do projeto: André Carlos

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