Edição 46

Matérias Especiais

Vivendo a Filosofia

Gabriel Chalita

Parece impossível ao ser humano viver sem se perguntar, em algum momento, sobre o sentido da vida. Essas interrogações estão na origem do pensamento filosófico. Mas o que vem a ser a Filosofia? Para entendermos um pouco o que é essa ciência, vamos, primeiro, conhecer o significado da palavra, aparentemente tão abstrata, que lhe dá nome, investigando sua etimologia, quer dizer, a origem desse vocábulo.

A palavra filosofia deriva de dois termos gregos: Filo (Philía): amizade, e Sofia (Sophia): sabedoria. Portanto, originalmente, a palavra filosofia significa “amizade pela sabedoria” ou “amor ao saber” e divide-se em cinco campos de estudo:

• A lógica – Estudo da forma, da estrutura do próprio pensamento. Procura o método ideal de raciocínio, análise e pesquisa.
• A ética – Estudo de valores e atos humanos. Busca estabelecer os princípios e a conduta justos.
• A estética – Estudo das formas de representação e das considerações sobre o belo, sobre as artes e demais formas de expressão de cultura.
• A política – Estudo das formas como o homem se organiza no espaço público. Busca a organização social ideal.
• A metafísica – O campo mais complexo da Filosofia. O estudo da realidade última das coisas, da natureza do ser (em outras palavras, a ontologia), da mente humana, do conhecimento, dos sentidos, das relações entre o homem e a matéria.

filosofia02

Contudo, a Filosofia assim dividida perde muito de sua força. Quanto mais se relacionam os seus diferentes campos, mais completa ela se mostra na busca da sabedoria.

Todo aquele que trabalha para desenvolver sua própria inteligência adota, de alguma maneira, uma atitude filosófica, o que o torna apto a colaborar para a evolução da humanidade. Outros, de maneira inversa, conformam-se como passivos espectadores da grandiosa conquista do pensamento e da ação. Amigo da sabedoria é aquele que usa o saber em proveito do homem, dando sua parcela de contribuição, sua cota de trabalho para a melhoria do mundo. Muitos homens e mulheres, através dos tempos, assim procederam. Vamos nos lembrar de alguns exemplos, em diferentes campos de atividades:

• Nicolau Copérnico (1473–1543), fundador da Astronomia moderna, demonstrou que a Terra e os outros planetas giram ao redor do Sol.
• Marie Curie (1867–1934), ao lado do marido, Pierre Curie (1859–1906), desenvolveu importantes pesquisas sobre a radioatividade.
• Mohandas Karamchand Gandhi (1869–1948), líder indiano, lutou pela independência de seu país sem jamais recorrer à violência.
• Martin Luther King Jr. (1929–1968), líder negro norte-americano, lutou contra o racismo.
• Pablo Picasso (1881–1973), pintor, desenhista e escultor espanhol, revolucionou a arte no século XX, influenciado pela arte dita “primitiva” da África.

Filosofar envolve, fundamentalmente, uma mudança de postura diante da vida, descartando as explicações que nos foram impostas como verdadeiras e estabelecendo novas regras ao jogo. Passamos a ver o mundo de maneira diferente, com um olhar mais atento e certeiro. Conhecendo além dos aspectos superficiais das coisas, principalmente sua razão de ser, com certeza estaremos mais próximos de uma condição de vida mais livre. De posse dessa condição, podemos lutar pela dignidade humana ou nos tornarmos criaturas passivas, omissas, indiferentes (até isso a liberdade nos permite!). Todas essas possibilidades dependem, em última análise, do amor que temos pela vida e do respeito que nutrimos por nós mesmos.

Gabriel Chalita é Doutor em Comunicação e Semiótica e em Direito, Mestre em Ciências Sociais e em Direito, bacharel em Direito e em Filosofia, professor dos programas de graduação e pós-graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2002.

cubos