Edição 62

Como mãe, como educadora, como cidadã

Voz de prisão

Zeneide Silva

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Querido Leitor/Querida Leitora,

Lendo o texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, que trata da situação do SUS, recordei um caso que aconteceu comigo.

Quem já brincou o Carnaval de Olinda sabe a dificuldade de sair da cidade numa situação emergencial. Foi o que aconteceu em um dos carnavais com meus filhos e meu sobrinho Renan.

Renan, quando criança, tinha muito cansaço e, naquele Carnaval, numa terça-feira, em plena folia, começou a sentir cansaço. Mediquei-o com os remédios de costume, fiz nebulização, mas mesmo assim não via melhora. Resolvi então levá-lo ao único pronto-socorro existente em Olinda e que fica localizado na Praia dos Milagres, dentro do foco do Carnaval. Imaginem vocês a quantidade de gente atendida naquele pronto-socorro; era uma verdadeira confusão.

Chegamos ao pronto-socorro e fomos atendidos. Renan precisou fazer nebulização, fiquei do seu lado, estávamos numa mesma sala com outros pacientes.

Naquele momento, vi uma senhora que estava com muito frio, me aproximei dela e disse-lhe que iria providenciar com as enfermeiras um cobertor para agasalhá-la. Saí e voltei sem nada. A enfermeira friamente respondeu que não tinha e que era normal o frio da senhora.

Disse a Dona Joana que não havia conseguido o cobertor, mas que poderia colocá-la num canto da sala para que não pegasse muita frieza, já que existia cobogó e a maresia trazia mais frio. Ela aceitou, e achamos um local que aliviou um pouco seu frio.

Voltei novamente para junto de Renan. Nesse momento, escutei um barulho no corredor, corri e vi um homem que havia caído da cama. Fui correndo pedir ajuda aos enfermeiros, e eles, mais uma vez, não me deram atenção, disseram que depois passariam por lá, já que no hospital havia muita gente, e que ele caiu por estar bêbado e que já havia sido medicado. Não me conformei com a resposta e fui procurar o segurança, pedindo que permitisse que dois homens que estavam fora pudessem entrar para colocar o homem de volta na cama. Enfim, conseguimos. Voltei para junto de Renan e, pouco tempo depois, já estava novamente envolvida com outro problema. Dessa vez, uma adolescente que chegou com um corte na cabeça, pois se afastou de um rapaz que tentava forçosamente beijá-la; como ela não tinha aceitado, ele a empurrou, e ela acabou batendo sua cabeça no meio-fio. Tentei conversar com ela, explicando quais seriam os procedimentos necessários para fazer o curativo, mas precisaria que ela ficasse calma. Percebi que o seu choro não era de dor, mas de revolta, de indignação por ser mulher, por não ser respeitada, por ser agredida por não aceitar ser beijada por um desconhecido.

Deixei que ela falasse para aliviar sua dor, porém não tive tempo de dizer algumas palavras, pois, nesse momento, chegou um policial me convidando para deixar o hospital, dizendo que em pouco tempo eu havia criado muitos transtornos e que estava atrapalhando o quadro dos enfermeiros.

Aleguei que estava tentando ajudar e que não poderia sair, já que era acompanhante de meu sobrinho menor de idade. Não houve acordo, tive que chamar um parente para ficar no meu lugar e fui obrigada a sair.

img-1789-2Enquanto fiquei lá fora esperando Renan, refleti e pedi a Deus que olhasse por todas aquelas pessoas que sofrem um verdadeiro calvário ao entrar nos hospitais públicos. A falta de recursos é um fato, mas a falta de HUMANIDADE é que é cruel. Não estou generalizando e sei que ainda existem alguns profissionais que ficam sensibilizados com a dor do outro, mas que não podem fazer grandes coisas.

É preciso que o outro sinta a dor do mais necessitado, que possa escutá-lo, que possa tocá-lo, que possa dizer-lhe “Conte comigo”.

É preciso que nossos governantes, com nosso voto, façam mudanças no SUS e que a dignidade humana seja valorizada e respeitada.

Como educadores, temos o dever de conscientizar nossos alunos, pois nossa vida foi dada pelo Senhor Deus, e temos a obrigação de cuidar dela e, acima de tudo, de amar nossos irmãos.

Enfim, Renan recebeu alta, dei-lhe um abraço na porta do hospital e perguntei: “E aí, tudo bem?”. Ele me olhou e disse: “Tu gosta de uma confusão, né, Titão?” (Titão é como ele me chama).

Sorri! “Vamos para casa, Renan.”

Vamos à luta, Educadores e Educadoras!

Um grande abraço fraterno!
Zeneide Silva

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