Edição 137

Mulher

A cicatriz

Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Jennifer Read

Ele passou o dedo polegar suavemente sobre a pele da minha face. O cirurgião plástico, uns quinze anos mais velho do que eu, era bastante atraente. Um homem viril, de olhar intenso, quase irresistível.

— Hum — o médico fez calmamente. — Você é modelo?

“Isso só pode ser uma piada. Ele está de brincadeira?”, pensei, procurando, em seu rosto bonito, sinais de zombaria. Não tinha como alguém jamais me confundir com uma modelo. Eu era feia. Minha mãe costumava casualmente se referir à minha irmã como “minha filha bonita”. Qualquer um podia ver que eu era feia. Afinal, eu tinha a cicatriz para provar.

O acidente tinha acontecido quando eu estava no 5o ano. Um menino da vizinhança lançou um pedaço de concreto que bateu na lateral do meu rosto. Um médico do pronto-socorro juntou com pontos os fragmentos da pele machucada da face e suturou a carne em pedaços do lado de dentro da boca. Pelo resto do ano, usei um enorme curativo da maçã do rosto ao queixo, cobrindo a feia cicatriz.

Algumas semanas após o acidente, um exame de vista revelou que eu era míope. Acima do desajeitado curativo, havia, agora, um grande e pesado par de óculos. À volta da cabeça, um monte de cachos crespos, que parecia bolor crescendo num pão velho. Para economizar, mamãe me levara a um salão de beleza-escola, onde uma aprendiz cortara meu cabelo. A moça, supercuidadosa, usou alegremente a tesoura, fazendo empilharem tufos de cabelo no chão. Quando o instrutor veio conferir, o mal estava feito. Seguiu-se uma rápida conferência, e acabamos ganhando um vale para um penteado grátis na próxima visita.

Qualquer um podia ver que eu era feia. Afinal, eu tinha a cicatriz para provar.

— Bem — meu pai suspirou —, você sempre será bonita para mim. — E, hesitando, acrescentou: — Mesmo que não seja para o resto do mundo.

Tudo bem. Obrigada. Como se eu não pudesse ouvir as brincadeiras das outras crianças na escola. Como se não pudesse ver como era diferente das outras meninas que as professoras paparicavam. Como se eu, às vezes, não desse uma olhada em mim mesma no espelho do banheiro. Numa cultura que valoriza a beleza, uma menina feia se sente exilada. Minha aparência me causava uma dor sem fim. Eu me sentava no quarto e chorava toda vez que a família via na tevê um concurso de beleza ou um show “caça-talentos”.

Finalmente, decidi que, se não podia ser bonita, seria, pelo menos, bem-arrumada. Os anos foram se passando, e aprendi a pentear o cabelo, a usar lentes de contato e a tirar proveito da maquiagem. Observando o que funcionava para as outras mulheres, aprendi a me vestir valorizando meu tipo. E agora eu estava noiva para casar. A cicatriz, que ficou menor e esmaecida com a idade, interpunha-se entre mim e uma vida nova.

— Claro que não sou uma modelo — respondi com uma certa dose de indignação.
O cirurgião plástico cruzou os braços sobre o peito e me olhou, como se estivesse me avaliando.

— Então por que você está preocupada com a cicatriz? Se não há uma razão profissional para removê-la, o que a trouxe aqui hoje?

De repente, ele representava todos os homens que eu já conhecera. Os oito garotos que, na adolescência, recusaram meu convite para uma festa onde as meninas é que tinham de chamar os meninos. Os poucos rapazes com quem saí quando estava na faculdade. Os vários homens que me ignoraram desde então. O homem cujo anel eu usava na mão esquerda. Toquei meu rosto. A cicatriz confirmava: eu era feia. A sala parecia girar, e meus olhos se encheram de lágrimas.

O médico puxou uma banqueta para perto de mim e se sentou. Seus joelhos quase tocavam os meus. Sua voz era baixa e suave.

— Deixe-me dizer o que eu vejo. Vejo uma bela mulher. Não uma mulher perfeita, mas uma mulher bonita. Lauren Hutton tem os dentes da frente separados. Elizabeth Taylor tem uma cicatriz bem pequena na testa — ele disse, quase sussurrando.

O cirurgião parou de falar e me estendeu um espelho.

— Tenho para mim que toda mulher notável tem uma imperfeição e acredito que esta imperfeição faz sua beleza mais notável, porque isso nos garante que ela é humana.

Ele empurrou a banqueta e se levantou:

— Eu não vou tocar na cicatriz. Não deixe ninguém fazer brincadeiras sobre seu rosto. Você é encantadora do jeito que é. A beleza, na verdade, vem de dentro da mulher. Acredite. Saber isso faz parte da minha especialidade.

E ele saiu.

Eu me olhei no espelho. Ele tinha razão. De alguma maneira, através dos anos, aquela criança feia se tornara uma mulher bonita. Desde aquele dia no consultório do médico, já ouvi muitas vezes, dito por homens e mulheres, que sou bonita. E sei que sou.

Quando mudei minha maneira de me ver, os outros foram forçados a mudar o modo como me viam. O médico não removeu a cicatriz do meu rosto, ele removeu a cicatriz da minha alma.


CANFIELD, Jack; HANSEN, Mark Victor; REA, Jennifer. Marilena Moraes e Denise Rocha (Trad.). História para aquecer o coração das mulheres. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

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