Edição 116

Espaço pedagógico

A música em sala de aula: saberes e aprendizagens

Kelly Cartaxo

É bem verdade que vivemos um momento bastante complexo no processo educacional de crianças e jovens, pois, com o avanço da tecnologia e a rapidez das informações, está cada vez mais difícil, para os docentes que ainda não se engajaram nessa área, despertar o interesse dos estudantes no cotidiano das salas de aula, principalmente neste novo contexto de aulas remotas, já que acompanhar os estudantes a distância não é uma tarefa fácil; é preciso ter jogo de cintura e criatividade para manter o foco dos alunos. Mas nós, educadores, jamais podemos desistir, e, como diz Paulo Freire (2002, p. 16): “A nossa responsabilidade ética está no exercício de nossa tarefa docente”.

É preciso quebrar as barreiras que separam o educador do educando, é necessário que nós, professores, aprendamos a ser como o Pequeno Príncipe, a “enxergar com o coração”. O verdadeiro educador é uma pessoa sensível, ética, crítica, alegre, criativa, otimista e, acima de tudo, amiga. Você consegue ser assim? Então, não espere o melhor momento para mudar, comece agora, já!

Diante dos altos e baixos de uma sala de aula, pude descobrir uma maneira sensível e eficaz de promover a aprendizagem. Técnica esta, posso dizer, mágica e contagiante, mas que, antes de tudo, é preciso haver paixão e encantamento do educador por ela. O recurso pedagógico a que me refiro é a música, que é citada no RCNEI (1998) como “[...] a linguagem que se traduz em formas sonoras, capaz de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos por meio da organização e do relacionamento expressivo entre o som e o silêncio”.

A música em sala de aula:

O RCNEI (1998) descreve ainda que “A música faz parte da educação desde muito tempo, sendo, na Grécia Antiga, considerada como fundamental para a formação dos futuros cidadãos, ao lado da Matemática e da Filosofia”.

A música é uma das formas de comunicação entre os indivíduos que perpassa ao longo dos séculos, e alguns estudiosos chegam a afirmar que a evolução do ser humano tem sido acompanhada pela música, pois ela é o veículo ideal para a manifestação dos sentimentos. Pode-se dizer ainda que o ser humano se expressa musicalmente por meio da fala e dos movimentos, exprimindo suas emoções através de sons, gestos e ritmos.

É notório que a maioria das pessoas gosta de música e, por isso, logo que nasce, reage a ela de modo muito particular; seja acompanhando o ritmo com a cabeça, com as mãos, com o corpo ou apenas quieto a ouvi-la.

Sabemos que a música está presente em inúmeras situações do cotidiano, para dormir, dançar, lembrar os mortos, despertar a população para a injustiça ou até mesmo para fazer palpitar um coração apaixonado. A música é tão importante na nossa vida que é utilizada para glorificar a Deus. O louvor significa orar a Deus duas vezes.

É fulcral destacar que o trabalho musical proporciona o desenvolvimento da autoestima, do autoconhecimento, da concentração, das relações interpessoais e do prazer em aprender. Para Weigel (1988, p. 15), “O trabalho com a música pode proporcionar essa integração social, já que as atividades geralmente são coletivas, e o trabalho em grupo produz compreensão, cooperação e participação”.

O educador que utiliza a música como instrumento pedagógico de suas aulas, presenciais ou remotas, consegue uma participação mais efetiva dos seus alunos e, consequentemente, uma melhor aprendizagem dos conteúdos, sejam estes voltados para o Português, a Matemática, a Física, a Química [...] ou para uma língua estrangeira. É importante frisar que, para a efetiva aquisição de uma língua estrangeira, a música é uma das técnicas mais indicadas. Em outras palavras, a música “[...] é considerada ciência e arte, na medida em que as relações entre os elementos musicais são relações matemáticas e físicas; a arte manifesta-se pela escolha dos arranjos e das combinações” (PENNA, 1990, p. 22).

A prática musical favorece o desenvolvimento da percepção e da atenção, bem como da interação social, pois desempenha um papel essencial na formação do ser humano como sujeito histórico e social. Muitos estudiosos acreditam que uma pessoa que tem o privilégio de ter uma educação moldada em aspectos musicais será muito mais equilibrada e feliz tanto no âmbito pessoal como no profissional, uma vez que aprende a amar, a desenvolver a sensibilidade e a viver mais harmoniosamente consigo e com o outro. Ferreira (2010) caracteriza a música como, “[...] além da arte de combinar sons, uma maneira de exprimir-se e interagir com o outro”.

Cury (2005), em sua sábia lucidez, defende o uso da música ambiente em sala de aula, pois acredita que “A utilização desta técnica desacelera o pensamento, alivia a ansiedade, melhora a concentração, desenvolve o prazer de aprender e educa a emoção”.

Torna-se óbvio, portanto, que fazer uso dessa prática é de grande relevância, uma vez que beneficia a aprendizagem em detrimento da estimulação das emoções, desenvolvendo a expressão verbal e corporal, de forma a contribuir para a formação integral do ser. Mas o que é música? A música é sentimento e emoção, é sensibilidade para criar e se relacionar, é respeito e compreensão, é cultura e coração.

A música é um instrumento facilitador no processo de aprendizagem, pois o aluno aprende a ouvir de maneira ativa e refletida, já que, quando for o exercício de sensibilidade para os sons, maior será a capacidade para o aluno desenvolver sua atenção e memória (PENNA,1990, p. 107).

Na Educação Infantil, a atividade musical é essencial, já que promove o desenvolvimento dos aspectos cognitivo, socioafetivo e psicomotor. A música é uma forma de comunicação e deve ser internalizada desde a infância, uma vez que desenvolve a criatividade e a imaginação, contribuindo para o enriquecimento cultural da criança e para o pleno exercício dos sentimentos e das emoções.

Góes (2009) sabiamente nos afirma que,

A criança é um espectador do mundo dos adultos e o resultado das relações sociais que vê à sua volta. Primeiro, ela é espectadora e só posteriormente é que se transforma em ator, como, por exemplo, quando imita um adulto. A imitação é um aspecto importante no desenvolvimento intelectual e afetivo da criança. A linguagem musical é um excelente meio para o desenvolvimento da expressão, do equilíbrio, da autoestima e do autoconhecimento, além de um poderoso meio de interação social (GÓES, 2009, p. 5).

Rizzo (1989), em sua obra Educação Pré-escolar, descreve que a música não deve ter um fim em si mesma, mas deve ser utilizada como um meio para alcançar os seguintes objetivos da educação:

1. Sensibilização do ouvido.

2. Socialização.

3. Expressão corporal.

4. Ampliação do vocabulário.

5. Desenvolvimento do ritmo.

6. Autodisciplina.

7. Retenção de conhecimentos.

8. Desenvolvimento do gosto pela música.

9. Aquisição de cultura.

10. Aquisição de formas de lazer.

Em se tratando da música na Educação Infantil, é relevante que o educador promova um contínuo aperfeiçoamento pessoal para melhor trabalhar com os seus discentes, tais como:

• Ser um apaixonado pela música.

• Conhecer os mais diversos estilos musicais.

• Ouvir e cantar frequentemente músicas.

• Criar novas letras a partir de ritmos já conhecidos.

Todavia, é imprescindível lembrar, citando o RCNEI (1998), que:

Há que se tomar cuidado para não limitar o contato das crianças com o repertório dito “infantil”, que é, muitas vezes, estereotipado e, não raro, o mais inadequado. As canções infantis veiculadas pela mídia, produzidas pela indústria cultural, pouco enriquecem o conhecimento das crianças. Com arranjos padronizados, geralmente executados por instrumentos eletrônicos, limitam o acesso a um universo musical mais rico e abrangente.

No que tange aos jovens e adultos, também se faz necessário selecionar e organizar um repertório significativo, sem descartar o que eles mais gostam de ouvir, utilizando o gosto musical deles com o intuito de melhor conscientizá-los acerca da sociedade na qual estão inseridos, bem como de desenvolver o gosto e o senso musical. Snyders (1994, p. 85) afirma que:

A experiência mais familiar aos jovens é a da música que toma conta deles: saber bem que a música não os prende num determinado lado, não os atinge só em um determinado aspecto deles mesmos, mas toca o centro de sua existência, atinge o conjunto de sua pessoa, coração, espírito, corpo.

Considerando o que foi posto por Snyders (1994), bem como a diversidade musical existente em nosso país, há de se convir que relacionar a música com as disciplinas em sala de aula é de suma importância, uma vez que desperta o interesse dos estudantes, torna a aprendizagem mais lúdica e prazerosa, estimula e amplia o conhecimento cultural, melhora o relacionamento intra e interpessoal, dentre muitos outros benefícios. Por isso, professor, se você ainda não fez uso dessa técnica, está na hora de começar a pensar em incluí-la no seu cotidiano, seja nas aulas remotas ou presenciais; pois só assim poderá sentir o prazer de ter alunos mais participativos e concentrados e de perceber a vivência in loco dos quatro pilares da educação: aprender a aprender, aprender a ser, aprender a fazer e aprender a conviver.

Sabe-se o quão a música é importante nas escolas de países como a Noruega, a Finlândia, a Dinamarca, a Holanda, a Islândia e muitos outros em que a maior preocupação é a felicidade das pessoas. Durante a formação docente nas universidades, os professores aprendem a tocar instrumentos musicais e a exercitar a sua sensibilidade para a música, a fim de “tocar” os educandos, pois acreditam que assim os alunos serão pessoas mais felizes e profissionais mais comprometidos com o outro e com o planeta. Mas como conseguir tamanho feito em um mundo tão insensível e individualista como o que vivemos hoje?

É público e notório que a maioria dos homens e das mulheres do mundo contemporâneo ainda não consegue fazer uso significativo do seu ócio, uma vez que estes estão habituados a horas exaustivas de trabalho, demonstrando inquietação quando não estão no dia a dia dele. Sabe-se que hoje o ser humano necessita sistematizar o seu tempo ocioso, no intuito, principalmente, de melhorar a qualidade de vida. Assim sendo, a apreciação musical estará cada vez mais presente em nosso cotidiano.

Snyders (1994, p. 85) afirma que:

A influência que a música exerce sobre nós remete-nos evidentemente a seu poder sobre o corpo; ela coloca o corpo em movimento, faz com que ele vibre de forma não comparável às outras artes; e é o fato de estarem escritas em nosso corpo que dá tanta acuidade às emoções musicais; por seu enraizamento psicológico, a própria música atinge uma espécie de existência corporal.

Diante de tantos feitos positivos descritos até aqui, fica evidente a necessidade da música no cotidiano das escolas, não só na Educação Infantil e no Ensino Fundamental – Anos Iniciais, segmentos que mais utilizam a música no seu dia a dia, mas em todos os segmentos da Educação Básica e no Ensino Superior. Porém ainda há muito o que se fazer, uma vez que a música precisa transcender o mero objetivo de ser utilizada como apoio para aquisição do conhecimento. Música é cultura, é prazer, é conhecimento, é transversalidade e é aprendizagem.

Carvalho et al. (2017, p. 5) acrescenta que:

[...] o Homem é capaz de se expressar através da música agindo de forma interligada nas dimensões ética, estética, cognitiva e social da vida. [...] a música é uma linguagem e pode ser utilizada como um instrumento de diálogo e aprendizado, ou seja, através dela podemos aprender sobre nós mesmos e sobre o mundo. Conhecer a música ajuda a compreender o mundo de forma mais sensível, sobretudo se é utilizada como recurso para isso, além de completar, assim, o arco de conhecimento humano.

Diante do exposto, pode-se afirmar que a música é um elemento necessário no processo de ensino-aprendizagem e, por isso, precisa fazer parte do currículo das escolas, principalmente por ser um eixo norteador na interação, no diálogo, na psicomotricidade, na sociabilidade e na comunicação emocional. De acordo com Bastian (2009, p. 08), “Os estudantes que se submetem a experiências musicais alcançam níveis mais elevados de sociabilidade, sentindo-se emocionalmente mais seguros, menos agressivos e mais integrados em sala de aula”. A música em sala de aula é fundamental para nos tornarmos mais humanos, mais sensíveis, criativos e críticos.
Ela é a simbologia de uma aprendizagem ativa que desperta saberes e sabores tanto na pessoa que ensina como na que aprende.

Kelly Cartaxo é pedagoga; Especialista em Ciências da Educação, Psicopedagogia e Tecnologia Educacional; e Mestre em Ciências da Educação.

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