Edição 119

Espaço pedagógico

A relação professor-aluno e o processo avaliativo: reflexões necessárias

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

Nos últimos tempos, têm-se visto grandes mudanças no que tange às relações entre professores e alunos no contexto escolar. A falta de respeito e tolerância dentro das salas de aula são atitudes corriqueiras nas instituições educacionais nos dias de hoje. Por que as crianças e os jovens estão tão impacientes e inquietos? Por que eles não compreendem a importância de respeitar colegas e professores?

Os papessoas_trabalhando_computador_ideia_AdobeStock_352620819_Prostock-studio_[Convertido]is estão sabendo ensinar o que é respeito aos seus filhos? Eles se respeitam no dia a dia em casa? Sabem conversar entre si e com os filhos? Demonstram atenção, paciência e tolerância uns com os outros? Será que nós, professores, estamos preparados emocionalmente para essa nova geração?

Será que termos inteligência emocional faz a diferença nesse processo? Estamos sabendo dialogar com os nossos pares? Temos empatia com o que fazemos e com quem atuamos? Como estão nossos sentimentos e emoções?

Freire (2005, p. 91) nos alerta dizendo:

[…] diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes.

O mesmo mestre Freire (1996, p. 146) complementa fazendo-nos refletir que,

Como prática estritamente humana, jamais pude entender a educação como experiência fria, sem alma, em que os sentimentos, as emoções, os desejos e os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura racionalista. Nem tampouco jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual.

Sabe-se que hoje há inversão de valores nas famílias, e, obviamente, isso contribui para o caos vivenciado nas escolas, mas nós, professores, não podemos ficar de braços cruzados à espera de que tudo melhore, pois certamente não irá melhorar.

Temos que nos preocupar, sem fazer o que é de responsabilidade de fato e de direito dos pais, com as crianças e jovens que nos são apresentados cotidianamente em nossas salas de aula e pensar que dentro em breve eles irão compor o novo cenário de famílias e sociedade.pessoas_segurando_quebra_cabecas_AdobeStock_356620756_Prostock-studio

Nesse sentido, precisamos internalizar e viver verdadeiramente o que nos disse Freire acerca do diálogo e da prática estritamente humana, ou seja, precisamos aprender e ensinar, por meio do diálogo, das emoções e dos sentimentos, a importância das relações interpessoais, garantindo a construção de diferentes saberes e a melhoria do processo de ensino-aprendizagem.

Para tanto, é imprescindível destacar o que nos afirma Libâneo (2005, p. 76):,

A reflexão sobre a prática não resolve tudo, a experiência refletida não resolve tudo. São necessários estratégias, procedimentos, modos de fazer, além de uma sólida cultura geral, que ajudam a melhor realizar o trabalho e melhorar a capacidade reflexiva sobre o que e como mudar.

Se o desejo docente é melhorar seu modo de ser e fazer numa intrínseca relação com o aprender e o conviver, é preciso compreender a ação docente como uma ação inacabada, num permanente ciclo de ação-reflexão-ação. Somente assim será possível promover a melhoria do processo de ensino-aprendizagem, considerando a boa relação entre professor e aluno como essencial e intimamente ligada à avaliação numa perspectiva de acolhimento dialógico.

Sobre isso, Hoffmann (1996, p. 148) afirma que:

A avaliação enquanto relação dialógica vai conceber o conhecimento como apropriação do saber pelo aluno e pelo professor, como ação-reflexão-ação que se passa na sala de aula em direção a um saber aprimorado, enriquecido, carregado de significados, de compreensão.

pessoas_segurando_quebra_cabecas_AdobeStock_356620756_Prostock-studioInfelizmente, a avaliação desenvolvida hoje na maioria das escolas ainda não chegou ao patamar definido acima, pois permanece fortemente arraigada a ideia de nota, de mensuração do conhecimento, fortalecendo com isso o aspecto quantitativo ao invés de auxiliar a aprendizagem, que é o verdadeiro e essencial significado da educação, ou seja, “A avaliação educacional serve como um mecanismo de diagnóstico da situação visando o avanço e o crescimento e possibilita ao aluno condições de emancipação humana” (LUCKESI, 2010, p. 31).

Para compreensão do descrito, faz-se necessário diferenciar nota e avaliação:

Avaliação é um processo abrangente da existência humana, que implica uma reflexão crítica sobre a prática, no sentido de captar seus avanços, suas resistências, suas dificuldades e possibilitar uma tomada de decisão sobre o que fazer para superar os obstáculos. A nota, seja na forma de número, conceito ou menção, é uma exigência formal do sistema educacional. Podemos imaginar um dia em que não haja mais nota na escola — ou qualquer tipo de reprovação —, mas certamente haverá necessidade de continuar existindo avaliação para poder se acompanhar o desenvolvimento dos educandos e ajudá-los em suas eventuais dificuldades (VASCONCELLOS, 1994, p. 43).

Considerando a diferenciação entre nota e avaliação descrita por Vasconcellos, fica claro que, no meio escolar, as formas ditas de avaliação utilizadas pelos professores distorcem o que realmente seja avaliação, pois, na prática, aquilo que expressam ser avaliação nada mais é do que verificação da aprendizagem. Mas, então, qual a diferença entre avaliação e verificação?

Segundo Luckesi (2010, p. 75),

verificar se configura pela observação, obtenção, análise e síntese dos dados ou informações que delimitam o objeto ou ato com o qual se está trabalhando. A verificação se encerra no momento em que o objeto ou ato de investigação chega a ser configurado, sinteticamente, no pensamento abstrato, isto é, no momento em que se chega à conclusão de que tal objeto ou ato possui determinada configuração. A dinâmica do ato de verificar se encerra com a obtenção do dado ou informação que se busca, isto é, “vê-se” ou “não se vê” alguma coisa. E… pronto! Por si, a verificação não implica que o sujeito retire dela consequências novas e significativas.

Ainda para o mesmo autor, o ato de avaliar significa:

coleta, análise e síntese dos dados que configuram o objeto da avaliação, acrescido de uma atribuição de valor ou qualidade, que se processa a partir da comparação da configuração do objeto avaliado com um determinado padrão de qualidade previamente estabelecido para aquele tipo de objeto. O valor ou qualidade atribuídos ao objeto conduzem a uma tomada de posição a seu favor ou contra ele. E o posicionamento a favor ou contra o objeto, ato ou curso de ação, a partir do valor ou a qualidade atribuídos, conduz a uma decisão nova, a uma ação nova: manter o objeto como está ou atuar sobre ele (LUCKESI, 2010, p. 76).pessoas_ideia_criatividade_AdobeStock_361307026_Prostock-studio_[Convertido]

Constata-se portanto que a verificação da aprendizagem é uma ação que se completa com a coleta dos dados sem nenhum outro direcionamento, ela tem um fim quando se concebe um resultado, já a avaliação transcende ao mero ato de atribuir notas, uma vez que exige uma atitude docente frente aos resultados, pois é dinâmica e, por natureza, requer mudanças e um redirecionamento em busca de alcançar os seus objetivos.

Se considerarmos a avaliação da aprendizagem conforme define:

Luckesi, todo o contexto escolar deve ser repensado, pois, inacreditavelmente, ainda existem, na sua maioria, professores que acham que são os “detentores do saber”, aqueles que transmitem seus conteúdos sem se preocupar em como seus alunos aprendem ou como não aprendem. Esses profissionais acreditam que, se ministrou o conteúdo, cumpriu sua tarefa, e o resultado negativo quanto às notas fica sendo reflexo apenas do desinteresse dos alunos que nada querem. Diante da ilustração desse quadro, Luckesi (2010, p. 150) contrasta a situação, afirmando que:

Avaliação é um instrumento que auxilia o professor a verificar os resultados que estão sendo obtidos, assim como fundamentar as decisões que devem ser tomadas para que os resultados sejam construídos. Quando isso não acontece, ou seja, quando a avaliação é executada fora do processo de ensino e com objetivo, exclusivamente, de atribuição de notas e conceitos, pode-se dizer que os alunos inseridos nesse contexto muito provavelmente podem acabar fracassados no âmbito escolar. Se a avaliação não for diagnóstica, ela não terá como objetivos a aprendizagem e o desenvolvimento do aluno e não o auxiliará em seu crescimento.

Em se tratando de avaliação da aprendizagem, há que se considerar como apoio para o efetivo sucesso desse processo a relação entre professor e aluno. Existem pesquisas que reforçam essa afirmação ao explicitarem que a empatia e o bom relacionamento entre docentes e discentes são essenciais para que haja aprendizagem, ou seja, frutos satisfatórios quanto à forma de se fazer avaliação. A nota deixa de ser o foco principal para dar espaço ao ato de aprender e incluir, pois “A avaliação da aprendizagem é um ato amoroso, no sentido de que a avaliação, por si, é um ato acolhedor, integrativo e inclusivo” (LUCKESI, 2010, p. 172).

A avaliação da aprendizagem é um ato afetivo, já que tem por função a tarefa contínua e permanente de acompanhar o processo de ensino-aprendizagem, e esse acompanhamento implica rigorosamente num elo afetivo entre docente e discente, uma vez que todos que fazem parte do processo são seres humanos e, como tal, são seres dotados de sentimentos, pois, segundo Schettini Filho (2010), “Educar sem afeto é esculpir uma face sem olhos nem ouvidos, sem paladar e sem sensibilidades de tato… é uma educação que não propicia a preparação da pessoa para o mundo”. Gadotti (1995, p. 93) acrescenta dizendo que “Amor e amizade têm, pois, um valor educativo muito grande. Deles dependem, muitas vezes, o êxito ou fracasso escolar. O aluno se esforça por atrair a atenção, conquistar sua amizade”.

Aluno é feliz e aprende melhor quando o professor olha para ele, conversa com ele, preocupa-se com a sua aprendizagem e o valoriza. A recíproca se torna verdadeira, e o processo de ensino-aprendizagem passa a ter resultados positivos na construção dos saberes, pois “Não há docência sem discência, as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro” (FREIRE, 2007, p. 23).

Sobre isso, Cunha (1991, p. 158) nos diz que Recuperar no professor a qualidade da relação com o aluno é fundamental. É provável que a produção do conhecimento com o professor, sobre sua própria condição e realidade, nos auxilie a esclarecer os rumos da definição de uma nova ordem pedagógica.mulheres_costas_felizes_grupo_AdobeStock_272154075__Evgeniia_Andronova_[Convertido]

Cunha (1991, p. 158) reforça ainda que:

A relação professor-aluno é de capital importância no processo pedagógico. Ideias como honestidade, coragem, compromisso, responsabilidade e tantas outras importantes na educação se passam no cotidiano da instituição escolar. E quanto mais o professor é próximo do aluno, mais influência ele tem sobre seu comportamento.

A ação educativa precisa ser muito mais que uma ação técnica e mecânica de ministrar conteúdos. É necessário ter paixão pelo que se faz, é preciso ter sentimentos e emoções, desejos e convicções; é preciso querer e saber gostar de gente, ou seja, é preciso compreender e internalizar as palavras de Freire (1996, p. 144) ao dizer:

Lido com gente, e não com coisas. E, porque lido com gente, não posso, por mais que, inclusive, me dê prazer, entregar-me à reflexão teórica e crítica em torno da própria prática docente e discente, recusar a minha atenção dedicada e amorosa à problemática mais pessoal desse ou daquele aluno ou aluna.

Analisando o que está posto até aqui, constata-se a importância e o valor da relação entre professor e aluno para a produtividade e construção de saberes, num processo de encantamento indissociável com a avaliação da aprendizagem. “Quando se ensina não se pode deixar sua personalidade no vestuário, nem o espírito no escritório, nem sua afetividade em casa. Pelo contrário, esses fenômenos são elementos intrínsecos ao processo do trabalho” (TARDIF; LESSARD, 2007, p. 267, 268).

É mister destacar que o processo avaliativo “[...] é uma reflexão transformada em ação…” (Hoffmann, 2000, p. 17) que se constrói na relação do docente consigo mesmo e com o outro, tendo a convicção de ensinar e aprender, mediados pelo diálogo, pela gestão das emoções e por uma consciência pedagógica, humana, política e social. Uma vez que:

Escola é…

 

o lugar onde se faz amigos,

não se trata só de prédios, salas, quadros,

programas, horários, conceitos…

Escola é, sobretudo, gente; gente que trabalha, que estuda.

O coordenador é gente, o professor é gente,

o aluno é gente, que se alegra, se conhece, se estima.

O diretor é gente, cada funcionário é gente.

E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um

se comporte como colega, amigo, irmão.

Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”.

Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir que

não tem amizade a ninguém, nada de ser como o

tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.

Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,

é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem,

é conviver, é se “amarrar nela”!

Ora, é lógico… numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer,

fazer amigos, educar-se, ser feliz!

Paulo Freire

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

________. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

________. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.

HOFFMANN, J. Avaliação mediadora: uma prática da construção da pré-escola à universidade. 17. ed. Porto Alegre: Mediação, 2000.

__________________. Avaliação mediadora. Porto Alegre: Mediação, 1996.

LIBÂNEO, J. C. Educação escolar: políticas, estrutura e organização. São Paulo: Cortez, 2005.

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2010.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Pedagogia da ternura. Petrópolis: Vozes, 2010.

TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Tradução de João Batista Kreuch. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.

VASCONCELLOS, Celso dos S. Avaliação: concepção dialética-libertadora do processo de avaliação escolar. 4. ed. São Paulo: Libertad, 1994.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Org.) Repensando a didática. Campinas: Papirus, 1991.

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, Especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional e Mestre em Ciências da Educação.

E-mail: kelycartaxo@hotmail.com

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