Edição 149

Construindo mais conhecimento

APRENDEMOS COM A EXPERIÊNCIA

Marcus Weeks

Enquanto vários filósofos na História achavam que o raciocínio era a principal fonte de nosso conhecimento, outros defendiam que o que conhecemos do mundo vinha, principalmente, da experiência. Nascemos sem saber nada e adquirimos o conhecimento por meio do uso de nossos sentidos.

A tábula rasa 

Desde o seu surgimento, na Grécia Antiga, a filosofia se baseava no pensamento racional para oferecer respostas e explicações. O raciocínio era considerado tão importante — até mais que a experiência, através de nossos sentidos imperfeitos — que Platão achava que todo o nosso conhecimento vinha da razão. Outros filósofos, no entanto, discordavam e achavam que nossa experiência no mundo também era importante no estabelecimento da verdade e na aquisição do conhecimento. Aristóteles, então, assumiu uma visão quase totalmente oposta à de Platão. Quando nascemos, afirmava ele, nossa mente é como uma tábula rasa, com nada escrito, assim construímos nosso conhecimento do mundo em que vivemos a partir de nossa experiência — o que vemos, ouvimos, tocamos, saboreamos e cheiramos.

Rama – stock.adobe.com

A essência das coisas 

Aristóteles argumentava que aquilo que experimentamos no mundo em que vivemos não era, como achava Platão, versões imperfeitas das formas ideais que existem num outro mundo. Em vez de termos uma ideia inata da forma perfeita de alguma coisa e, depois, reconhecermos exemplos imperfeitos dela, construímos uma ideia daquilo que a faz do jeito que é a partir de nossas experiências com vários exemplos dela. Por exemplo, ao ver muitos cachorros, aprendemos várias coisas que todos os cachorros têm em comum. Essas coisas formam aquilo que Aristóteles chamava de “forma” de um cachorro, sua essência, que não existe num outro mundo, mas que está presente em cada exemplo de cachorro. É a nossa experiência com exemplos particulares de coisas que nos dá o conhecimento de sua natureza essencial — não apenas os objetos no mundo natural, mas também os conceitos como justiça e virtude. Ao nascermos, não temos nenhuma ideia inata do certo e do errado, porém aprendemos a reconhecer as qualidades que seus exemplos têm em comum e construímos um entendimento do que eles são em essência.

Com a experiência vem o conhecimento 

stockakia-stock.adobe.com

A noção de Aristóteles de que a experiência é a principal fonte de nosso conhecimento influenciou o desenvolvimento da ciência, sobretudo no final da Idade Média, quando as maiores descobertas científicas eram feitas por meio de observação e experimento. Enquanto filósofos racionalistas, como René Descartes, eram inspirados pelo raciocínio abstrato da matemática, outros atribuíam a expressão do conhecimento sobre ciências naturais à experiência. Tal visão, conhecida como empirismo, era popular entre os filósofos britânicos, como John Locke. Assim como Aristóteles, ele acreditava que nascemos sem nenhum conhecimento e que tudo o que conhecemos vem da informação coletada por nossos sentidos. Gradualmente, organizamos a informação para formar uma visão geral do mundo ao associar coisas para formar ideias complexas e desenvolver nossa habilidade em aplicar a razão àquilo que experimentamos.

 

Juntando as peças 

A partir de nossa experiência com muitos cachorros, podemos reconhecer as características que lhes dão sua “cachorrice”, tais como o pelo e a cauda. Essa “forma” é comum a todos os cachorros e nos ajuda a identificar um, mesmo quando vemos apenas uma parte dele.

WEEKS, Marcus. Se liga na filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Globo, 2018.

cubos