Edição 136

Matéria Âncora

Aprender felicidade?

Entrevista de Christianne Galdino com Bruno Severo Gomes, o doutor Felicidade

Mesmo quem não é da área acadêmica sabe que a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, é uma das mais importantes do mundo, uma referência incontestável. O que muita gente não sabe é que, nos últimos anos, nem Medicina nem Direito ou Computação ganharam a predileção dos estudantes de lá; mais de mil alunos se inscreveram para as aulas de Tal Ben-Shahar, que ensina “felicidade”. Esta notícia foi o impulso que faltava para encorajar o professor Bruno Severo Gomes, do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a abrir também a disciplina Felicidade para oferecer como eletiva no currículo de Medicina. Antes dele, só duas universidades brasileiras tinham criado essas turmas: a UnB, em Brasília, e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Desde então, a procura pelas aulas só aumenta, tanto que o professor Bruno, que é da área de Medicina Tropical, setor de Microbiologia e Imunologia, acabou ficando conhecido como Dr. Felicidade, apelido que ele aceitou de bom grado.

Em conversa com a Construir Notícias, ele nos conta como tudo começou, quais são as bases e os conceitos norteadores da disciplina e como estudar e praticar “essa tal felicidade” pode e tem transformado a vida de tanta gente.

Construir Notícias – Como é que começou o seu interesse pelo tema da felicidade e a ligação dele com sua atuação profissional?

Bruno Severo Gomes – Desde a época em que cursava a graduação, eu observava e me incomodava muito com a falta de humanização no ensino. E, então, na tentativa de contribuir para mudar esse cenário, no ano 2000, já vinculado à área de Saúde, comecei a atuar como palhaço no hospital. E essa experiência foi me mostrando o poder — no bom sentido da palavra — das emoções positivas, do sorriso, do afeto no processo de tratamento de quem está internado. Aí, depois de um tempo, fiquei sabendo que foi lançada em Harvard a disciplina Felicidade, que rapidamente se tornou uma das mais concorridas. E eu pensei: “Que bom que essa temática está chegando nas universidades, inclusive abrindo campo para pesquisas na área”. Então, eu já como docente da UFPE, abracei a iniciativa de também oferecer a disciplina. Até 2019, eu ministrava muitas disciplinas, mas a maioria era voltada para a doença; quando comecei a dar as “aulas de felicidade”, o foco se tornou a saúde integral.

CN – Como você definiria felicidade? Quais são as referências ou inspirações que você utiliza nas aulas dessa disciplina?

BSG – Não seguimos um autor específico, pois acredito que não exista nenhum teórico que defina totalmente o significado de felicidade. Existe uma citação de Freud que diz que a felicidade é um desafio individual e cada um deve buscar a sua, porque o que é felicidade para uma pessoa pode não ser para outra. Então, como existem definições vinculadas a várias áreas, estudamos algumas, mas a proposta é que cada aluno encontre o seu caminho. No budismo, por exemplo, há uma definição tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda que associa o ser feliz, esse bem-estar subjetivo, com o viver no tempo presente, sem excesso de apego ao que passou nem excesso de ansiedade com o futuro. As crianças são mestras nisso e, por isso, são, de uma maneira geral, felizes.

“Vivenciar todas as emoções, e não só as ditas emoções positivas,
faz parte da nossa condição humana, porque ninguém é feliz o tempo inteiro.”

CN – Na prática, como funcionam as aulas? Que tipo de conteúdo é trabalhado?

BSG – Hoje eu ministro a disciplina Felicidade no Centro de Ciências Médicas, mas é uma eletiva que está aberta à participação de qualquer aluno da Universidade. Já consegui ampliar o número de vagas para 130 por semestre, porém ainda não é suficiente, porque é uma das disciplinas mais concorridas de toda a UFPE. Essa procura me deixou feliz, mas me assustou um pouco, e comecei a refletir por que as pessoas estão procurando entender tanto sobre felicidade. A partir daí, surgiram convites, e comecei a ampliar o alcance, dando palestras e formações pontuais sobre esta temática. Em relação aos conteúdos, trabalhamos vários aspectos socioemocionais, como o autoconhecimento, a autoanálise, formas de conexão consigo mesmo, a respiração consciente, os conhecimentos filosóficos e psicológicos, as pesquisas das neurociências, o sorriso, o abraço, a espiritualidade, enquanto relação com o que transcende… É um campo muito diverso e dinâmico, que, na prática, percebemos que é possível, sim, aplicar no dia a dia, mas cada um da sua forma, sem imposições.

CN – Em uma época dominada pela superexposição das pessoas nas redes sociais, de fake news e disseminação de padrões ideais de vida, são maiores os desafios em entender o real significado de felicidade? Está mais difícil ser feliz atualmente?

BSG – Sim, estamos vivendo um fenômeno de positividade tóxica, em que, nas redes sociais, as pessoas têm (ou acham que têm) a obrigação de demonstrar que estão sempre felizes. Na Internet, ninguém é triste, ninguém é feio, ninguém é pobre. As pessoas postam uma ilusão de vida perfeita. Isso provoca nessa geração uma priorização de registrar/gravar os momentos para postar, em detrimento, muitas vezes, de viver aquela experiência de fato. Outro efeito é o julgamento excessivo e a busca por uma aceitação, intrinsecamente ligada às redes sociais. Então, se uma postagem não recebe curtidas e comentários, o indivíduo não se sente aceito. E já há várias pesquisas que comprovam que essa “felicidade ilusória”, propagada nas redes sociais, é responsável pelo adoecimento mental e pela superficialidade nos relacionamentos, por negarem as outras emoções, como a tristeza, o medo, a raiva. Vivenciar todas as emoções, e não só as ditas emoções positivas, faz parte da nossa condição humana, porque ninguém é feliz o tempo inteiro.

“Sim, estamos vivendo um fenômeno de positividade tóxica, em que, nas redes sociais,
as pessoas têm (ou acham que têm) a obrigação de demonstrar que estão sempre felizes.”

CN – Aprender sobre felicidade pode contribuir com a saúde de que maneira?

BSG – As pessoas costumam colocar condicionantes para ser feliz, acreditando, por exemplo, que só chegarão à felicidade quando comprarem uma casa ou encontrarem o par ideal, o amor da sua vida. Mas, na realidade, a felicidade não é o ponto-final, o destino, e sim o próprio caminhar. Perceber essa diferença é o primeiro passo para nos dar força e motivação para continuarmos. Porque a vida não é uma linha reta, está mais para uma montanha-russa, e isso é natural. Aceitar essa dinâmica comum de altos e baixos do viver é fundamental. Dentro do ambiente hospitalar, o poder do riso e do afeto ficam evidentes. O poder da gratidão e de focar no que temos, e não no que está faltando, também. As pesquisas em neurociências já demonstraram que essas emoções positivas e relações afetuosas e saudáveis trazem em si um imenso potencial de cura e promoção à saúde.

“[…] todos correm para todos os lados, menos ao encontro de si mesmos,
e onde a tecnologia, criada para aproximar as pessoas, está cada vez mais as afastando.”

CN – O que você indica como práticas que podem favorecer uma educação voltada para a felicidade?

BSG – Sou fã e acredito que a gente precisa trabalhar a pedagogia da afetividade em tudo, estimular o desenvolvimento da inteligência socioemocional, porque hoje temos muitos julgadores e poucos acolhedores no sistema educacional e na vida. Então, adotar práticas que ajudem os alunos a fazerem uma boa gestão das emoções, e não o controle ou a repressão delas, é fundamental para a criação de adultos mais saudáveis. E, também, desacelerar um pouco, porque a gente vive num mundo onde todos correm para todos os lados, menos ao encontro de si mesmos, e onde a tecnologia, criada para aproximar as pessoas, está cada vez mais as afastando. Então, essa direção da felicidade nos pede presença, calma e escuta empática. E uma certeza que tenho é de que temos que estudar a felicidade, investindo na formação socioemocional desde a infância.

CN – Na sua avaliação, por que os jovens desta geração estão tão vulneráveis ao adoecimento mental?

BSG – A autocobrança está cada vez mais alta entre eles (e não só) por causa também dessa questão das redes sociais e da positividade tóxica, que pressiona todos a serem perfeitos. Então, temos uma geração que não aceita errar, que não sabe lidar com frustração; fruto também de pais que não permitem que os filhos sofram, chorem ou expressem suas fragilidades. Então, a gente precisa potencializar, sim, as emoções positivas, mas sem querer eliminar as negativas, que fazem parte da vida e são muito importantes.

 

Christianne Galdino é escritora, jornalista e Doutora em Antropologia.


Bruno Severo Gomes é microbiologista e psicanalista; graduado em Biomedicina, Educação Física, Ciências Biológicas, Filosofia, Teologia, Artes Visuais, História e Pedagogia; Especialista em Análises Clínicas, Psicopedagogia, Inteligência Emocional, Sexualidade Humana e Psicologia do Esporte; Mestre em Micologia; Doutor em Microbiologia; Pós-doutor em Medicina Tropical; coordenador da Palhaçoterapia do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); membro do Núcleo de Humanização do Hospital das Clínicas. Faz parte do Conselho Social da UFPE, docente de várias disciplinas de cursos na UFPE, entre elas: Felicidade, Humanização em Saúde. Assessor da pastoral da saúde na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para a área de Humanização. Atualmente, atua na área acadêmica de Medicina Tropical, no Centro de Ciências Médicas da UFPE; na área de Micologia Médica, Leveduroses Vaginais, Atividade Antifúngica e Educação em Saúde.
Instagram: @bseverogomes
E-mail: bruno.severo@ufpe.br

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