Edição 140
Matéria Âncora
Campanha da fraternidade 2025
Fraternidade e ecologia integral
Capítulo 1
VER/OUVIR
Deus viu que tudo era muito bom!
(Gn 1,31)
“²⁶Deus disse: ‘Façamos um ser humano, à nossa imagem e segundo a nossa semelhança. Que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais na terra e tudo o que rasteja pela terra’. ²⁷E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou. ²⁸E Deus os abençoou e disse-lhes: ‘Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo ser vivo que rasteja pela terra’. ²⁹E Deus disse: ‘Eu vos dou, sobre a terra inteira, toda a erva que dá semente e todas as árvores que produzem fruto com sua semente, para que vos sirvam de alimento. ³⁰E a todos os animais selvagens, a todas as aves do céu e a tudo que rasteja pela terra, a tudo que tem sopro de vida dou toda a erva verde como alimento’. E assim foi. ³¹Então, Deus viu que tudo era muito bom”
(Gn 1,26-31).
Resumindo:
➜ Somos chamados a acolher tudo como dom, a reconhecer com gratidão a generosidade de Deus para conosco, a louvar o Criador e cuidar da criação.
➜ Em nossa realidade brasileira, temos a graça de contar com a fertilidade da terra, a abundância das águas, a diversidade da fauna e da flora e a pluralidade de povos e culturas.
➜ Vivemos uma crise que envolve tanto a vida social como o meio ambiente. Ela tem raízes históricas. As comunidades tradicionais são as que mais sofrem com essa crise, mas também são as que mais têm a nos ensinar.
➜ Há que se lembrar que existem importantes acordos internacionais que precisam ser cumpridos. O mesmo acontece com a legislação nacional e com as políticas públicas que podem e devem avançar ainda mais.
➜ Eventos e mudanças climáticas são uma realidade a ser enfrentada com seriedade. Uma autêntica educação ambiental precisa ser incentivada a fim de fomentar novos hábitos e assegurar o cuidado com a Casa Comum e seus habitantes.
➜ Entretanto, existem pessoas que insistem em negar a existência dessa crise, dificultando, assim, a sua superação. Devemos acreditar na força transformadora das pequenas ações cotidianas.
➜ Diante do visível aumento da proliferação de doenças e da exploração que gera escassez de recursos, o modelo econômico-social que valoriza apenas a técnica e o lucro se revela cruel e excludente.
➜ A Ecologia Integral nos convida a olhar de forma nova para o meio ambiente, para o ser humano e para Deus Criador e a viver relações justas com o outro, conosco mesmos e com Ele.
➜ Também nesse campo, a Igreja possui uma postura profética. Recorda-nos que o ambiente não é um simples recurso, mas, sim, a nossa Casa Comum. De modo que não há como separar as questões ambientais, sociais e antropológicas da fé que professamos.
➜ Por isso, o Papa Francisco nos alerta quanto ao risco de cairmos no pecado ecológico, que são ações ou omissões contra Deus, contra o próximo e contra o meio ambiente. Pecado que fere a vida.
➜ A CF, vivida nesse tempo quaresmal, chama-nos à conversão nesse aspecto. Uma conversão ecológica que leve à mudança do nosso modo de ser, pensar e agir, como pessoas e comunidades de fé.
➜ Neste Jubileu, somos convidados a nos colocar no caminho de conversão, como “Peregrinos da Esperança”, na confiança de que somos capazes de, seguindo a Jesus Cristo, transformar a realidade e reproduzir gestos fraternos e solidários em defesa da Casa Comum.
Capítulo 2
Iluminar/Discernir
Este é o sinal da aliança
que faço entre mim e
toda a carne sobre a terra.
(Gn 9,17)
“¹²E Deus disse: ‘Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e vós e todo ser vivo que está convosco, pelas gerações para sempre: ¹³ponho nas nuvens meu arco, como sinal de aliança entre mim e a terra. ¹⁴Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o meu arco nas nuvens, ¹⁵e me lembrarei da aliança que firmei entre mim e vós e todo ser vivo de toda a carne; e as águas não mais se transformarão em dilúvio para destruir toda a carne. ¹⁶Quando o arco estiver nas nuvens, eu o contemplarei, e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todo ser vivo de toda a carne sobre a terra’. ¹⁷E Deus disse a Noé: ‘Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda a carne sobre a terra’”
(cf. Gn 9,12-17).
Resumindo:
➜ As narrativas da criação, no livro do Gênesis, levam-nos a compreender que a bênção e a Aliança não são apenas para o ser humano, mas para toda criatura. Todos os seres criados gozam de uma dignidade inegável por causa de sua origem divina.
➜ Deus dá ao ser humano uma tarefa especial: “cultivar e guardar” a Terra, para que ela seja sempre um jardim, e tudo o que nela habita. Não se trata de exercer poder sem limites sobre os demais seres, pois não faria sentido destruir o que Deus, repetidamente, avaliou como “bom”.
➜ O Livro Sagrado também nos alerta para os riscos da maldade do ser humano que resultam no pecado. Mas mantém viva a Esperança na Aliança que Deus estabeleceu com seu povo.
➜ Aprendemos da Escritura a existência de políticas opressivas, violentas e contraditórias, que resultam em catástrofes ambientais, como na relação de escravidão do povo hebreu nas mãos do faraó do Egito. Porém, na travessia libertadora pelo deserto, a natureza favorece a sobrevivência do ser humano: a água, o maná, as codornizes — obras de Deus Criador.
➜ No Pentateuco, a partir do Decálogo, encontramos “leis ambientais”, recomendações que unem a fé ao cuidado com a fauna e a flora. Um destaque, pode ser dado ao descanso sabático, previsto não apenas para o ser humano, mas também para os animais.
➜ O ano sabático e o ano jubilar, presentes na Bíblia, preveem o repouso também da terra, para que assim ela continue a ser generosa, o perdão das dívidas e a libertação dos escravos. É um “não” dito à exploração sem limites. O Jubileu de 2025 é uma oportunidade para vivermos essa experiência.
➜ Em Jesus e em sua forma de anunciar, a Boa-nova do Reino de Deus traz consigo várias conotações socioambientais. Isso se expressa nas parábolas, com sementes, árvores e seus frutos, como imagem do Reino.
➜ Os pães ázimos da Última Ceia, frutos da terra e do trabalho humano, expressão ao mesmo tempo do uso moderado dos bens da terra e da opressão e miséria sofrida por aqueles que são escravizados, são tomados por Jesus, consagrados ao Pai e entregues aos seus discípulos. Assim, somos convidados a deixar de lado todo fermento, ou seja, tudo o que é excesso, e abraçar a simplicidade do necessário.
➜ Ao longo das Escrituras Sagradas, vemos que a ação do Espírito é sopro que dá vida a toda criatura. É Deus que cria, dá a vida e a renova constantemente, recordando-nos de que sua força tudo abraça e transforma.
➜ A Igreja, a cada Quaresma, reafirma o convite à única conversão ao Evangelho vivo, que é Jesus Cristo. Essa mudança de vida deve se desenvolver em diversos setores da nossa vida pessoal e eclesial, abarcando o cuidado com a Casa Comum em que habitamos.
➜ Os Padres da Igreja, vivendo as necessidades de seu tempo, tomam a natureza, o cosmos, com seus ciclos e sua organização, como uma referência para o ser humano olhar para si e rever suas relações sociais. Utilizando exemplos das relações entre os seres vivos, eles nos apresentam as lições do equilíbrio e do limite. É o que se pode chamar de função pedagógica do cosmos.
➜ O Magistério dos Papas, que formam o tesouro que é a Doutrina Social da Igreja, tem nos ensinado muito sobre o tema. Desde Leão XIII, passando por São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI, tal Magistério nos chama a atenção para o princípio da destinação universal dos bens da terra, o desenvolvimento dos povos, os perigos da exploração e da crescente ruptura entre sociedade e natureza, princípios da ética ambiental, a urgência de se educar para a responsabilidade ecológica, a interligação entre o zelo pelo ser humano e pela natureza. Tudo isso como expressão de uma ampla tarefa eclesial que decorre da fé.
➜ No pontificado do Papa Francisco, recebemos a Carta Encíclica Laudato Si’, primeiro documento do Magistério da Igreja plenamente dedicado ao tema socioambiental. Seu ponto de partida é a “convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo” (LS, n. 16). Nós e nosso planeta existimos em comunhão.
➜ O pecado mais perigoso de nosso tempo talvez seja a ruptura que estabelecemos entre humanidade e natureza, como se fôssemos superiores às demais criaturas, como se cada uma delas não tivesse valor intrínseco e não fosse capaz por si mesma de louvar a Deus!
➜ Não podemos nos deixar levar pelas falsas promessas do paradigma tecnocrático, pois nem sempre o que parece progresso representa as melhores condições de vida para todos. Por isso, a atuação social e política dos cristãos é essencial.
➜ As ciências da Terra têm muito a nos ensinar sobre o que está acontecendo ao nosso planeta. Estudos apontam, desde o final dos anos 1980, que nosso planeta vem se aquecendo cada vez mais, como resultado do nosso modo de vida. A Terra passa por uma mudança e os seus efeitos afetam todas as formas de vida de maneira imprevisível.
➜ A sabedoria ancestral dos povos originários também tem muito a nos ensinar: “Ensinai [a seus filhos] o que ensinamos aos nossos: que a terra é a nossa mãe. […] Tudo está associado. O que fere a terra fere também aos filhos da terra. O homem não tece a teia da vida: é antes um dos seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio” (Cacique Seattle, Estados Unidos, 1855).
➜ Não podemos ficar paralisados! E isso nos compromete no seguimento de Jesus de Nazaré, neste tempo quaresmal, a aprofundar o percurso de penitência e conversão integral.
O tempo de agir é agora.
Como filhos e filhas de Deus, somos responsáveis
por proteger e preservar a obra de suas mãos.
Capítulo 3
Agir/Propor
Para cultivá-lo e guardá-lo.
(Gn 2,15)
“⁸O Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no oriente, e pôs ali o homem que havia formado. ⁹E o Senhor Deus fez brotar do solo toda sorte de árvores agradáveis de aspecto e boas para delas comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal. ¹⁵ O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para cultivá-lo e guardá-lo” (Gn 2,8-9.15).
Resumindo:
➜ O agir é consequência do ver e ouvir a realidade e de processos de discernimento espiritual, debate coletivo, planejamento comunitário e decisões conjuntas que fazem parte de instâncias maiores de participação e transformação social.
➜ É preciso alimentar um olhar otimista e realista, convicto de que ainda podemos evitar os piores impactos das mudanças climáticas. A Esperança nos move a unir os esforços das ciências ao profetismo da fé, para superar a crise que vivemos.
➜ Olhando a realidade, vemos que a alternativa mais econômica e eficaz consiste em reduzir em curto prazo as emissões de gases poluentes, fazendo a transição energética e apoiando formas limpas de energia.
➜ Como Igreja, “perita em humanidade” (PP, n. 13), não podemos deixar de propor que “chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo” (LS, n. 193). É preciso redescobrir a dimensão transcendente da vida, a capacidade humana de contemplação.
➜ É preciso reafirmar a dimensão profunda do repouso considerando formas menos produtivistas de organização do trabalho e do seu tempo, com uma remuneração digna e justa e condições de trabalho e previdenciárias cada vez mais humanizadas.
➜ É importante conhecer as várias iniciativas de cuidado com a Casa Comum na Igreja no Brasil e buscar nelas inspiração para transformar nossas realidades locais. Unidos em nossa fé e comprometidos com a missão de cuidar da nossa Casa Comum, somos chamados a reconhecer a urgência da grave crise socioambiental que assola nosso país e o mundo.

O amor, cheio de pequenos gestos
de cuidado mútuo, é também civil
e político, manifestando-se em
todas as ações que procuram construir um mundo melhor
(LS, N. 231).
➜ O tempo de agir é agora. Como filhos e filhas de Deus, somos responsáveis por proteger e preservar a obra de suas mãos. Este é o nosso chamado, este é o nosso dever como discípulos de Cristo.
➜ Cada um pode colaborar. As pequenas, mas consistentes, ações de cada pessoa têm uma grande importância e força de desencadear processos transformadores em níveis maiores, “que agem a partir do nível profundo da sociedade” (LD, n. 71).
➜ Mas não basta que cada um faça sua parte. É preciso também agir coletivamente, em comunidade, orientados pelo Evangelho e pela Doutrina Social da Igreja. Um apelo especial é feito às comunidades religiosas e instituições educativas católicas para despertar a sensibilidade e formar hábitos sustentáveis nas futuras gerações.
➜ Atitudes e iniciativas sociais e no âmbito da boa política também precisam ser desenvolvidas. “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor” (LS, n. 231).
➜ O universo da arte, da cultura e da mídia alcança as pessoas no seu cotidiano e é chamado a colaborar efetivamente na promoção e animação da CF, no louvor a Deus pela criação e na vivência da Ecologia Integral.
➜ Existem tempos especiais de mobilização que são iniciativas mundiais e que podem ser incluídos nos calendários de nossas comunidades, pastorais e movimentos, paróquias, Dioceses e regionais. A promoção de ocasiões de reflexão, vigílias de oração, preces nas celebrações Eucarísticas, publicações nas redes sociais e cobertura nos meios de comunicação será uma valiosa contribuição.
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2025: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2024.

