Edição 133

Socioemocional

Crianças e emoções: O que está realmente acontecendo?

Steve Biddulph

No mundo adulto, ninguém é feliz o tempo todo nem gostaria de ser. Então, para nossas crianças, tal meta, na verdade, seria errada. Se você tentar fazê-las felizes o tempo todo, na realidade as fará bastante infelizes, e a você também! O que realmente queremos é uma criança que possa lidar com os muitos sentimentos que a vida traz… Alegria é o objetivo, mas estar confortável e experimentar todas as emoções que a vida proporciona é a forma de chegar lá com mais frequência.

Até recentemente, não existia um entendimento mais apropriado das emoções em nossa cultura. Acabamos de sair da era do “Homem não chora” e “Uma dama não fica brava”. Poucas áreas da compreensão são tão necessárias e úteis agora quanto entender como os sentimentos funcionam. Por sorte,
os “fatos sobre os sentimentos” estão disponíveis agora para ajudar a nós e às nossas crianças a achar a paz interior e a vitalidade que mantêm
a saúde emocional.

O que queremos dizer através das emoções?

Emoções são tipos distintos de sensação corporal que experimentamos diante de situações específicas. Essas sensações variam em intensidade, de sutis a incrivelmente fortes. Estão constantemente conosco — surgindo e se combinando enquanto resolvemos cada evento em nossa vida e seguimos adiante. Nós estamos sempre sentindo algo — emoções são um sintoma
de estar vivo!

Existem quatro emoções básicas: raiva, medo, tristeza e alegria. Todas as outras formas de sentimentos são misturas dessas — como cores derivadas das cores primárias, vermelho, amarelo e azul. Existem milhares de combinações possíveis — como inveja, uma mistura de raiva e medo; ou nostalgia, uma mistura de tristeza e alegria! Como somos criaturas interessantes!

Quando nossas crianças são recém-nascidas, suas emoções estão somente começando a tomar forma. Pais observadores podem ver seus bebês, nos primeiros meses, desenvolvendo expressões distintas de como estão se sentindo — o grito de medo, as lágrimas de tristeza, a face vermelha de ira e o riso de contentamento.

Bebês não são inibidos — eles expressam seus sentimentos natural e facilmente, e, como resultado, as emoções negativas logo passam. No entanto, uma criança em crescimento tem de aprender a como lidar com os sentimentos em sociedade e encontrar saídas construtivas para a poderosa energia que eles criam. Uma criança depende de nós, pais, para essa informação — por sorte, não é muito difícil fazer isso direito, como vamos mostrar.

Entender as emoções — por que as temos, como podem ser mais bem expressadas, o que evitar —, essa é a chave para uma vida mais feliz com crianças.

Nós estamos sempre sentindo algo — emoções são um sintoma de estar vivo!”

Por que temos emoções?

Algumas vezes, quase desejamos não ter sentimentos. Especialmente os negativos, como raiva ou tristeza, que causam tanta dor. Por que então a natureza nos equipou com esses estados de espírito altamente carregados? Cada um deles tem um grande papel a desempenhar, como você vai ver.

Pegue a raiva primeiro. Imagine uma pessoa que nunca sente raiva, sem sangue nas veias, como se diz. Ela está parada no estacionamento do shopping. Um carro avança e estaciona em cima do pé dela! Nossa supertolerante pessoa ficaria ali esperando até que o motorista fizesse suas compras e voltasse!

Raiva é o que faz com que defendamos a nós mesmos. Sem isso, seríamos escravos, capachos, ratos! A raiva é nosso instinto de liberdade e autopreservação.

O medo definitivamente também tem seu valor. Por que outro motivo você dirige do lado certo da rua? O medo evita que você corra grandes riscos. Se você não acredita que o medo é útil, lembre-se das vezes em que esteve em um carro cujo motorista parecia não ter nenhum medo! O medo nos desacelera, força-nos a parar, pensar e evitar o perigo — mesmo quando nosso cérebro não tem certeza de qual seria esse perigo.

Tristeza é a emoção que nos ajuda a sofrer: ela literalmente lava e limpa a dor de perder alguma coisa ou alguém em nossa vida. As mudanças químicas que ocorrem com a tristeza ajudam nosso cérebro a liberar a dor e, então, seguir em frente. Somente ficando tristes podemos “deixar pra lá” e fazer novos contatos com pessoas e com a vida.

Todas essas três consequências são centrais para a nossa felicidade.

Alegria, a quarta emoção, é o que experimentamos quando essas necessidades (liberdade, segurança e contato) estão satisfeitas.

Ensinando as crianças sobre a raiva

Você pode ensinar suas crianças especificamente a entender e lidar com cada uma das três emoções negativas. Vamos começar com a raiva.

O primeiro impulso que as crianças têm quando estão com raiva é bater. Isso tem uma razão natural, mas deve ser modificado de alguma forma se quisermos nos dar bem no mundo.

Sempre que interviermos no comportamento da criança, nosso objetivo deve ser ajudá-la a entender o que vai funcionar e servir-lhe bem como adulta. Pense por um momento: qual é a forma ideal de um adulto lidar com a raiva? É necessário um equilíbrio. Uma pessoa que esteja sendo maltratada de alguma forma precisa ser capaz de dizê-lo alto e com convicção e fazê-lo o mais cedo possível (antes que sinta ou aja violentamente). Raiva e violência não são a mesma coisa. Violência é a raiva que saiu errado.

Um adulto aprende a moderar sua raiva para que ela tenha impacto, mas não cause dano ou se torne abusiva. Se nossas crianças mostrarem pouca raiva, podem ser vistas como covardes, e as outras crianças podem provocá-las ou maltratá-las. Muita raiva pode transformá-las em impopulares ou briguentas. Acertar esse equilíbrio é o que nossas crianças precisam aprender — e são necessários alguns anos de prática, começando bem cedo.

Se você puder ver onde sua criança está
tendo problema, pode encorajá-la a
discutir o que está realmente sentindo e por quê.”

Pesquisa — Acessando a capacidade emocional da sua criança

Nome da criança:                                                                                                                              

Posição na família:                                                                                                                              

 

 

Se você quiser, pode somar os resultados para ter a capacidade emocional em um máximo de 8. Se o resultado for 6 ou menos, a criança precisa de ajuda!

Se você puder ver onde sua criança está tendo problema, pode encorajá-la a discutir o que está realmente sentindo e por quê. Ela pode desenhar se for muito nova. Crianças pequenas podem apontar para desenhos de rostos para dizer o que estão sentindo. Isso requer bastante delicadeza e cuidado. Talvez, você também possa trabalhar em expressar sentimentos
e mostrar para a sua criança, pelo seu próprio exemplo, como ser emocionalmente honesto e expressivo de forma segura.

Para ajudar as crianças a estarem confortáveis com a raiva:

• Insista em que elas usem palavras em vez de ações para expressar raiva. Elas devem dizer em voz alta que estão com raiva e, se possível, por quê.
• Ajude-as a ligarem seus sentimentos com os motivos. Fale com elas para descobrir o que está por trás de suas explosões. Crianças pequenas vão sempre precisar de ajuda para lembrar o que deu errado: “Você está bravo com Josh porque ele pegou seu caminhão?”, “Você ficou cheio de esperar que eu terminasse de falar?”. Logo, elas serão capazes de dizer o que está errado e por quê, em vez de ir direto para ações impulsivas.
• Faça com que saibam que os sentimentos são ouvidos e aceitos (mas nem sempre mudam as coisas). “Você tem o direito de estar bravo comigo. Eu não estava ouvindo. Estou ouvindo agora” ou “Eu sei que você está cansado de esperar nesta loja, eu também estou, mas é assim que as coisas são. O que você pode fazer para se sentir melhor em vez de provocar seu irmão?”.
• Ensine diretamente que bater não é uma forma adequada de lidar com a raiva. Confronte isso diretamente, dê uma consequência negativa para cada vez que a criança bater e insista que ela faça aquilo que deveria ter feito em primeiro lugar (geralmente usar palavras!).
• Ajude a criança a dizer o que ela QUER na verdade. Geralmente, ela chora e reclama do que não quer. Ela precisa de sua ajuda para ser mais positiva:
— Ele me bateu.
— Diga-lhe bem alto para não fazer isso.
— Myra pegou minha bicicleta.
— Vá e peça para ela devolver. Fale para ela que é sua e que
  você a quer de volta.
• Dê o exemplo. Quando tudo está confuso, é mais provável que elas façam aquilo que você faz do que o que você diz. Então, tenha certeza de dar o exemplo que você quer. Quando você está bravo, diga, em voz alta. Fique bravo e fale alto logo, antes que você realmente estoure. Uma vez que você tenha lidado com isso, deixe passar, para que elas aprendam que a raiva pode ser expressada e que, então, passa. Diga simplesmente:
— Estou bravo.
— Você está me enchendo.
— Pare de interromper.
— Estou aborrecido que você não tenha cumprido nosso acordo.
O que está acontecendo?
Crianças aprendem muito mais sobre a raiva com pais moderadamente expressivos do que com alguém sempre doce, razoável e contido. As crianças precisam ver que seus pais também são humanos.
Você pode ficar bem bravo com as crianças sem nunca as maltratar nem as insultar. Mantenha-se firme na expressão dos sentimentos e das razões. Para as crianças, ficar bravo corretamente demora um pouco. Fique feliz se suas crianças estão demonstrando algum sinal de contenção — você vai vê-las deixando de bater em outra criança ou em você ou dizendo em voz alta “Eu estou bravo”. Muitos adultos ainda não aprenderam essas lições, então você está fazendo um bom progresso.
BIDDULPH, Steve. O segredo das crianças felizes. São Paulo: Fundamento Educacional, 2003.
cubos