Edição 133

Em discussão

Deficiência intelectual: o que é importante saber para identificar?

Wilson Candido Braga

A deficiência intelectual (ou transtorno do desenvolvimento intelectual, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5a edição, ou DSM – 5 (APA, 2014)) caracteriza-se por déficits acentuados nas capacidades mentais genéricas, como raciocínio, solução de problemas, planejamento, pensamento abstrato, juízo, aprendizagem acadêmica e aprendizagem pela experiência.

Os déficits resultam em prejuízos no funcionamento adaptativo, de modo que o indivíduo não consegue atingir padrões de independência pessoal e responsabilidade social em um ou mais aspectos da vida diária, em casa ou na comunidade, incluindo comunicação, participação social e funcionamento acadêmico ou profissional (APA, 2014).

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), é possível que exista, em todo o mundo, grande número de pessoas com algum tipo de deficiência intelectual: cerca de 10% da população de países desenvolvidos. No Brasil, estima-se que 0,8% da população tenha prejuízos intelectuais, e só 30% desse total se encontra em algum tipo de serviço de suporte (segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)).

Diante da definição do quadro diagnóstico acima apresentado, faz-se importante responder a uma indagação muito comum por parte de pais e cuidadores para a identificação de sinais que apontem a deficiência intelectual: quais são as principais dificuldades que uma pessoa com deficiência intelectual pode apresentar desde a tenra idade e que sejam consideradas sinais de alerta para essa condição?

• Alguns bebês com deficiência intelectual apresentam, desde o início do seu desenvolvimento, atrasos globais no desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM), o que já foi classificado como retardo do desenvolvimento neuropsicomotor (RDNPM) — demora na aquisição do controle cervical (segurar a cabeça em linha reta), que é fundamental para a sustentação da cabeça (o natural é que esse controle aconteça por volta de 3/4 meses de vida), dentre tantas aquisições que se fazem necessárias já em tenra idade e que, por sua vez, podem acontecer de forma tardia ou ainda nem acontecer como se espera (SERRANO, 2015).

• Alguns bebês com deficiência intelectual podem demorar a andar e a falar (o normal é começar a andar e a falar por volta de 1 ano, 1 ano e 2 meses).

No Brasil,
estima-se que 0,8% da população
tenha prejuízos intelectuais, e só 30% desse total
se encontra em algum tipo de
serviço de suporte (segundo dados da Pesquisa
Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2013 pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE)).”

• Algumas crianças com deficiência intelectual podem apresentar evidente dificuldade no desenvolvimento da coordenação motora ampla (arrastar-se, ficar na posição de gatas, ficar de pé com apoio, ficar de pé sem apoio, andar com apoio, andar sem apoio, correr, pular, saltar, subir, descer…) e da coordenação motora fina (desenvoltura para a execução de movimentos mais precisos e coordenados, como as preensões em geral e pinças finas, pegar e soltar voluntariamente, realizar movimentos manuais mais elaborados e precisos) (SERRANO, 2015).

• É comum se observar, em crianças com deficiência intelectual, maior dificuldade para a compreensão de comandos simples do dia a dia; por exemplo, não conseguem entender o que é pedido, mesmo que de forma muito simples e clara, podendo ainda não com preender regras de jogos e brincadeiras, por mais claras e simples que essas regras sejam; podem não saber brincar fazendo uso funcional do brinquedo, que é a representação social pela imitação (BRAGA, 2018).

 

É comum se observar, em crianças com deficiência intelectual,
maior dificuldade para a compreensão de comandos simples do dia a dia;
por exemplo, não conseguem entender o que é pedido,
mesmo que de forma muito simples e clara […]”

• Dificuldades no processo de interação e socialização e principalmente dificuldades de relacionamento social também podem estar presentes desde cedo e são mais bem percebidas nos contextos socioeducacionais, especialmente quando se observa que a criança não interage ou não busca pela interação ou socialização adequadamente, podendo preferir brincar com crianças mais novas, demonstrando imaturidade ou tendo dificuldades em interagir funcionalmente com seus pares.

• Problemas significativos de aprendizagem na escola já podem ser percebidos desde cedo. A criança pode ter muita dificuldade para acompanhar o que é ensinado, especialmente no modelo educacional vigente; para o processo de discriminação das letras; para associação, classificação e ordenação do alfabeto; e para o processo de alfabetização, com prejuízos significativos na aquisição e no domínio da leitura e escrita — alfabetização e letramento.

• No convívio social, as crianças com deficiência intelectual podem não se comportar adequadamente, especialmente pelas atitudes imaturas ou por não compreenderem como funcionam as regras de convívio grupal ou de um dado ambiente social, o que as deixa em condições de inadequação social (BRAGA, 2018).

• Podem apresentar dificuldades no raciocínio lógico, na organização lógica das ideias e na capacidade de resolução de problemas (flexibilidade e planejamento mental — prejuízos no funcionamento executivo) (BRAGA, 2018), que podem ser justificadas por prejuízos de funcionamento cerebral específico, especialmente do córtex pré-frontal (capacidade de controle atencional; uso da memória de trabalho, ou memória operacional; organização e flexibilidade mental; planejamento; e capacidade de controle inibitório) (FITÓ, 2012).

• Podem ser percebidas dificuldades na capacidade de abstração e no pensamento abstrato, na capacidade de compreender ideias complexas, em aprender rapidamente ou em aprender com a experiência.

• São comuns, em crianças com deficiência intelectual, dificuldades para realizar, de forma autônoma e independente, as atividades do dia a dia, tão bem trabalhadas pelas abordagens terapêuticas ocupacionais clínica ou institucional, como tomar banho; vestir-se; alimentar-se; cuidar da higiene pessoal, como escovar os dentes, pentear os cabelos, fechar o zíper ou abotoar as roupas; e fazer pequenas compras.

• Podem ter dificuldades para o uso simples dos recursos comunitários — para andar de ônibus e identificar itinerários, para se locomover sem outra pessoa e com boa orientação espacial e temporal e para orientação para direcionalidade.

• Em geral, quando o quadro aponta para a deficiência intelectual, os indivíduos se comportam de forma muita imatura e, em alguns casos, também bastante insegura frente aos desafios e às demandas do meio, como se tivessem menos idade do que realmente têm; são infantilizados, com severos prejuízos de leitura social.

O quadro diagnóstico para o transtorno do desenvolvimento intelectual/deficiência intelectual pode estar associado a diversas causas, que podem ser entendidas como (HONORA & FRIZANCO, 2008):

Causas pré-natais – fatores socioeconômicos podem ter grande contribuição para inúmeros quadros diagnósticos, especialmente quando a gestante é privada de algumas necessidades básicas e há pobreza alimentar ou desnutrição materna durante o período gestacional; falta ou precária assistência à gestante durante os acompanhamentos pré-natais; doenças infecciosas que possam ser adquiridas pela mãe, especialmente no primeiro trimestre gestacional; bem como outras condições de saúde materna, como a exposição à radiação e a ambientes com poluição e o uso abusivo de substâncias entorpecentes, além de diversas causas genéticas.

Causas perinatais – vão desde o início do trabalho de parto até o 30 o dia de vida do bebê. Destacam-se aqui a falta de assistência ou assistência inadequada, traumas vivenciados pelo bebê durante o trabalho de parto, prejuízos de oxigenação cerebral (anóxia — ausência do fornecimento de oxigênio para o cérebro — ou ainda hipóxia — diminuição do fornecimento de oxigênio para o cérebro do bebê), além de prematuridade, baixo peso ao nascer e icterícia grave.

Causas pós-natais – estendem-se do 30o dia de vida do bebê até o período da adolescência. Nessas situações, é importante destacar quadros de desnutrição ou prejuízos nutricionais sofridos pelo bebê; desidratação grave; infecções; intoxicações por remédios, inseticidas ou produtos químicos em geral; acidentes de trânsito; afogamentos; choques; quedas; maus-tratos; etc.

 

Além das possíveis causas ou dos fatores de risco acima registrados, a deficiência intelectual pode ter, ainda, como possível causa alguma lesão adquirida no período do desenvolvimento, podendo estar associada a traumas ou lesões diversas, como traumatismo craniano grave, situação na qual se pode considerar a sequela desse evento como a causadora de uma das manifestações para o transtorno neurocognitivo (APA, 2014), que se apresenta como prejuízo intelectual a partir de perdas previamente adquiridas, ou seja, posteriores ao período de formação embrionário e ao período de desenvolvimento considerado normal.

[…] a deficiência intelectual pode ter, ainda, como possível causa alguma
lesão adquirida no período do desenvolvimento, podendo estar associada
a traumas ou lesões diversas, como traumatismo craniano grave […]”

Em síntese, podemos caracterizar a deficiência intelectual como o comprometimento significativo do funcionamento intelectual, especialmente quando comparado com a média em geral, tendo ela manifestação antes dos 18 anos de idade, com demonstração de imaturidade em ações comportamentais e problemas na capacidade de interpretação e compreensão dos contextos sociais — prejuízos de metacognição, com idade mental muito abaixo da idade cronológica (comportamento imaturo e infantilizado para a idade). Tais prejuízos são associados ao comprometimento em duas ou mais áreas das condutas ou habilidades adaptativas, que são responsáveis por nos favorecer na capacidade para uma vida autônoma e independente (capacidade funcional para a comunicação social; independência nos cuidados pessoais, ou autocuidado; autonomia para o desempenho das habilidades nos contextos familiares e sociais; uso funcional e autônomo dos serviços disponíveis na comunidade, como saúde e segurança; desenvoltura no domínio das habilidades acadêmicas, no lazer e no trabalho).

Para que não haja equívocos quanto ao entendimento da deficiência intelectual, faz-se importante não confundir essa condição médica com os transtornos específicos da aprendizagem, que, como o próprio nome implica, são diagnosticados diante de déficits específicos na capacidade individual para perceber ou processar informações com eficiência e precisão. Esse transtorno do neurodesenvolvimento se manifesta, inicialmente, durante os anos de escolaridade formal, caracterizando-se por dificuldades persistentes e prejudiciais nas habilidades básicas acadêmicas de leitura, escrita e/ou matemática. O desempenho individual nas habilidades acadêmicas afetadas está bastante abaixo da média para a idade ou os níveis de desempenho aceitáveis são atingidos somente com esforço extraordinário (APA, 2014).

Wilson Candido Braga é terapeuta ocupacional, professor, escritor e consultor em Educação Inclusiva.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtorno – 5 – DSM – 5. Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento et al. Porto Alegre: Artmed, 2014.

_______________________________________. Referência rápida aos critérios diagnósticos do DSM – 5. Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BRAGA, Wilson Candido. Autismo: azul e de todas as cores: guia básico para pais e profissionais. São Paulo: Paulinas, 2018.

______________________. Deficiência intelectual e síndromes infantis: caracterização e orientações. São Paulo: Paulinas, 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Deficiência múltipla. Brasília, 2000.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DUMAS, Jean E. Psicopatologia da infância e da adolescência. Tradução: Fátima Murad. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

FITÓ, Anna Sans. Por que é tão difícil aprender: o que são e como lidar com os transtornos da aprendizagem. Tradução: Maria Luisa Garcia Prada. São Paulo: Paulinas, 2012.

HEBER, Maia. Neurociências e desenvolvimento cognitivo. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2011.

____________. Neuroeducação e ações pedagógicas. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2014.

____________ (Org.). Necessidades educacionais especiais. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2016.

HONORA M.; FRIZANCO M. L. Esclarecendo as deficiências: aspectos teóricos e práticos para contribuir com uma sociedade inclusiva.
São Paulo: Ciranda Cultural, 2008.

LIMA, Cláudia Bandeira de (coord.). Perturbações do neurodesenvolvimento: manual de orientações diagnósticas e estratégias de intervenção. Lisboa: Lidel, 2015.

PRUETT, K. D. Família. In: LEWIS, M. Tratado de psiquiatria da infância e da adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

PUESCHEL, M. (Org.). Síndrome de Down: guia para educadores. Campinas: Papirus, 1998.

RELVAS, Marta Pires (Org.). Que cérebro é esse que chegou à escola?
As bases neurocientíficas da aprendizagem. Rio de Janeiro:
Wak, 2012.

SERRANO, Paula; LUQUE, Cira de. A criança e a motricidade fina:
desenvolvimento, problemas e estratégias. Lisboa: Papa-letras, 2015.

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