Edição 145
Refletindo
Deixei meu coração em modo avião. Priorizar é reconhecer aquilo que é essencial
Fabíola Simões

A música Trem-bala, de Ana Vilela, quando lançada, tomou conta das redes sociais. A melodia é doce, e a letra fala do essencial. Do tempo que corre apressado, da necessidade de cuidarmos bem uns dos outros, da busca pelo que é realmente importante.
Não por acaso, a estrofe que diz “Segura teu filho no colo / sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui” é o trecho que mais me comove, justamente por validar aquilo em que acredito.
A vida passa num segundo. Num instante, estamos vivendo as primeiras histórias e, no seguinte, estamos nos despedindo de quem amamos.
É preciso não adiar os abraços que temos a oferecer, os colos que podemos proporcionar, os sorrisos que há para distribuir, os beijos que queremos dar.
A vida não espera que tenhamos maturidade suficiente até que possamos valorizar um terno abraço em nossos pais ou um colo de urso para nossos filhos.
É preciso sugar o tempo com sabedoria. Entender que trabalho, compromissos e obrigações são importantes, mas jamais poderão ser tratados como prioridade.
Priorizar é reconhecer aquilo que é essencial, o que tem valor, o que deve vir em primeiro lugar. É autorizar a presença de alguém em nossa vida e, ao perceber que esse alguém tem importância, zelar pela relação com respeito, cuidado e carinho. É entender que o tempo leva embora pessoas que nos são caras, e, por isso, não devemos atrasar nossas demonstrações de afeto, nosso querer bem, nosso “Eu te amo” sincero.
Abrace seus pais enquanto eles estão aqui. Aproveite a companhia dos “velhos” ouvindo com atenção as histórias que carregam dentro de si; o jeito como nos olham revelando que ainda somos “suas crianças”; a maneira como se alegram quando nos mostramos receptivos ao seu amor.
A vida nos cobra muito. É lição do filho para ajudar a resolver, prazos apertados no trabalho, ginástica para emagrecer, roupa pra passar, chão pra limpar, check-up anual, faculdade, pós-graduação, trânsito e pele boa. Nesse frenesi, encontramos poucas brechas para o essencial. Pouco espaço para um café com bolinhos ao lado da mãe ou filme na Netflix com o pai. Faltam pausas amorosas no nosso dia. Momentos em que é preciso brecar o ritmo abusivo da rotina e abraçar a doce calmaria do encontro.
Outro dia minha mãe me esperou na casa dela, e eu não fui. Apressada com as lições do filhote e prazos do blog para resolver, eu disse que não poderia comparecer naquela tarde. Dias depois, ela me contou que tinha colocado a mesa para um café com porcelana especial para mim e mimos para meu filho. Me despedacei. Pedi perdão, é claro, mas meu interior ainda se ressente.
Entre a infância e a velhice, há um sopro de vida que deve ser valorizado antes que o tempo transforme promessas em arrependimento. Um instante que deve ser preenchido com saudades não consumadas, abraço aguardado, coragens necessárias, afetos declarados, gentilezas insistentes e acenos temporários.
Sempre me pergunto quanto tempo dura uma vida inteira. Talvez menos do que a gente gostaria e nunca o suficiente para termos realizado tudo. Por isso, torna-se primordial não adiar o essencial: café na caneca de ágata, menino na cadeira espiando a mãe fazendo bolacha de nata, sensibilidade revelada durante música antiga, amor vivido, arrependimento esquecido, saudade dizimada, mágoa dissipada, perdão concedido e, principalmente, abraço apertado em nossos pais…
Para Jarbas e Clau, com amor.
A autora
SIMÕES, Fabíola. Deixei meu coração em modo avião. São Paulo: Faro, 2020. p. 188-189.
