Edição 135

Matéria Âncora

Desenvolver o potencial de todas as crianças: Entrevista com Luciana Brites

Christianne Galdino

O trabalho precisa ser integrado, porque não adianta os profissionais de Saúde e os professores tratarem adequadamente se os familiares continuarem com práticas equivocadas.”

Muito antes de se tornar uma escritora consagrada, com mais de 40 livros publicados e mais de 200 mil exemplares vendidos, Luciana Brites já era uma educadora apaixonada por tudo o que tivesse a ver com o desenvolvimento infantil. É uma mãe dedicada de três filhos que teve que aprender, na prática, a lidar com os desafios das diferenças. Paulista de nascimento, Luciana foi, ainda criança, morar em Londrina, no Paraná, e lá fundou, junto com o esposo, o neuropediatra Dr. Clay Brites, o que hoje é a sede de todos os seus projetos, o Instituto Neurosaber. Sua jornada segue se multiplicando em propostas e serviços variados, todos vinculados ao que considera sua missão: “Evoluir a sociedade por meio da educação baseada em evidências da neurociência, impactando as crianças a partir da Educação Infantil”. Em conversa com a Construir Notícias, Luciana Brites conta os passos que a levaram a trilhar esse caminho, fala como funcionam os projetos do Instituto Neurosaber, além de colocar alguns pontos importantes sobre alguns dos transtornos de desenvolvimento mais comuns da atualidade.

Christianne Galdino – Como foi sua trajetória até chegar à fundação do Neurosaber e se tornar uma das principais referências do segmento?

Luciana Brites – Sou a caçula de três irmãos de uma família de origem simples. Nasci em São Paulo, mas vim com apenas dois anos aqui para Londrina. Estudei sempre em escola pública e, desde os tempos de colégio, quando cursei o Magistério, interesso-me pelos processos de aprendizagem, em saber como os indivíduos aprendem e o que faz com que tenham dificuldade em aprender. Por isso, segui o caminho da pedagogia, especializando-me, depois, em Psicopedagogia Clínica e Institucional e em Educação Especial, na área da deficiência intelectual. Cheguei a atuar como professora na rede municipal de Londrina por um tempo. Em paralelo, incentivei meu marido, que era médico neurologista, a se especializar no atendimento às crianças. E, em 2014, criamos, primeiro, uma página nas redes sociais para divulgar informações sobre o neurodesenvolvimento infantil. Os retornos foram tantos e tão significativos que decidimos abrir um canal no YouTube e começamos a dar palestras sobre temas dessa área. Logo na sequência, realizamos um congresso online sobre o autismo. Mais uma vez, fomos surpreendidos: o número de visualizações e inscritos no nosso canal cresceu muito, e decidimos, então, fundar o Instituto Neurosaber, lançando, de uma vez, quatro formações.

[…] buscamos compartilhar conhecimento fundamentado teoricamente sobre aprendizagem, desenvolvimento e comportamento da infância e da adolescência; tudo com uma linguagem simples e aplicabilidade prática.”

CG – Então, vocês começaram atuando no ambiente virtual. E permanecem assim até hoje?

LB – Sim, o nosso foco são os cursos e as palestras digitais. Já prestamos algumas consultorias presenciais em redes de ensino de alguns municípios, mas a maior parte dos nossos serviços é oferecida online mesmo. Somos uma equipe que reúne grandes especialistas para gerar o melhor conteúdo sobre comportamento e neurodesenvolvimento da infância e adolescência, buscando capacitar pais, professores e profissionais de Saúde para desenvolver e otimizar o potencial de cada criança. Para isso, buscamos compartilhar conhecimento fundamentado teoricamente sobre aprendizagem, desenvolvimento e comportamento da infância e da adolescência; tudo com uma linguagem simples e aplicabilidade prática. Essa forma acessível de se comunicar era uma marca do meu marido, Clay, que, apesar de ser médico, sabia passar os conteúdos de uma maneira bem simplificada. Acredito que isso é o grande diferencial das formações do Neurosaber. E ainda bem que, mesmo depois da partida de Clay, em março de 2023, continuamos trabalhando com seus conteúdos, e nossos cursos são todos gravados previamente. Em 2024, pretendemos lançar uma graduação em Pedagogia e também um programa de pós-graduação na área de neurodesenvolvimento infantil no formato EaD (Educação a distância).

[…] hoje há um maior conhecimento, mais acesso às informações sobre esses transtornos, e, por isso, há uma busca maior pelos diagnósticos.”

CG – Atualmente, vemos se multiplicarem os casos de crianças diagnosticadas com autismo, TDAH e outro transtornos do desenvolvimento, logo nos primeiros anos de vida. Como você analisa esse cenário?

LB – Na verdade, acredito que hoje há um maior conhecimento, mais acesso às informações sobre esses transtornos, e, por isso, há uma busca maior pelos diagnósticos. Mas há também evidências científicas da relação do autismo com o ambiente e as questões ligadas à prematuridade ou a problemas no parto. Nesse sentido, o aumento de casos pode ser reflexo também do contexto social desta época em que estamos vivendo. Porém, temos que ser muito criteriosos para não fazer diagnósticos precipitados e acabar por prejudicar ainda mais as crianças e os adolescentes.

CG – Na sua opinião, o que é fundamental para lidar e tratar adequadamente crianças e adolescentes com TEA e outros transtornos?

LB – Em primeiro lugar, o trabalho precisa ser integrado, porque não adianta os profissionais de Saúde e os professores tratarem adequadamente se os familiares continuarem com práticas equivocadas. Por isso, o treino parental é tão importante, e tudo, claro, baseado em evidências científicas. Depois, é preciso que haja uma observação constante por um período de, pelo menos, seis meses para se fechar um diagnóstico, seguindo os critérios estabelecidos no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), e sabendo-se que é comum um transtorno vir associado a outro, como uma comorbidade. Nem toda criança teimosa, por exemplo, vai ter transtorno opositivo desafiador (TOD).

CG – E, por falar no TOD, para quem é e como funciona a formação que vocês lançaram sobre esse transtorno tão atual?

LB – Eu e Clay também dedicamos um livro a essa temática, chamado Crianças desafiadoras, que é voltado para pais e professores. Na verdade, todos que convivem e trabalham com crianças e adolescentes podem participar da formação. É fundamental conhecer para saber diferenciar um comportamento agressivo e desobediente pontual dos sintomas que caracterizam o TOD, que perduram e se repetem em todos os ambientes e com todas as figuras de autoridade do convívio da criança, trazendo prejuízos reais, sob vários aspectos, inclusive ao processo de integração social, o que pode desencadear quadros depressivos ou outras doenças e transtornos. O curso, assim como o livro, nasceu também da nossa experiência de vida como pais de uma criança com TOD, por isso disponibilizamos todo o nosso conhecimento teórico com base na neurociência de uma forma simples, direta e com proposições muito práticas de como cuidar disso no dia a dia mesmo. Assim, oferecemos ferramentas para que todos saibam como lidar com os desafios e proporcionar o desenvolvimento pleno dessas crianças.

 


Christianne Galdino é escritora, jornalista, artista da cena e Doutora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Luciana Brites é uma renomada especialista em neurodesenvolvimento, comportamento e aprendizagem infantil. Com formação em Pedagogia, Psicopedagogia e Psicomotricidade, é Doutoranda e Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Mackenzie e pesquisadora sobre transtornos e comorbidades de aprendizagem em crianças e adolescentes.
Como autora de livros, programas educacionais e artigos científi­cos, Luciana se dedica a compartilhar seu conhecimento de forma acessível para pais, professores e pro­fissionais de saúde e da educação, levando sua abordagem inovadora como divulgadora cientí­fica e desempenhando um importante papel no cenário educacional, o que levou a ser reconhecida especialmente por sua contribuição na alfabetização e no atendimento clínico de crianças e adolescentes atípicos.

Instituto NeuroSaber


@neurosaberoficial

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