Edição 144
Fique por dentro
Do chão da escola ao palco principal da educação
Sergio Marcelo Salvino Bezerra
Esse chão é onde se pisa,
se vive, se enfrenta, se sonha — mas também, muitas vezes, onde se sofre e se sangra.

Sergey Nivens – stock.adobe.com
O termo chão da escola é frequentemente usado para se referir ao ambiente escolar, real e desafiador, onde a educação acontece de fato. Mais do que uma simples expressão, ele representa o espaço físico, regado de um tom simbólico onde educadores, gestores, estudantes e demais profissionais constroem, diariamente, a base do saber (Freire, 1996). Esse chão é onde se pisa, se vive, se enfrenta, se sonha — mas também, muitas vezes, onde se sofre e se sangra. No entanto, é preciso refletir: será que a escola deve permanecer apenas como “chão”, como sinônimo de base e suporte? Ou está na hora de compreendê-la como palco principal da educação, um lugar de protagonismo, visibilidade e transformação efetiva da sociedade?
É a partir dessa percepção que proponho uma pequena reflexão sobre a distância do chão da escola ao palco principal da educação.
Compreender a escola como o palco principal da educação exige uma mudança de olhar, uma verdadeira virada de chave. Não se trata apenas de dar visibilidade à estrutura física ou aos discursos institucionais, mas de reconhecer e fortalecer a funcionalidade da escola na formação de sujeitos críticos, criativos e preparados para os desafios da vida cotidiana (Nóvoa, 1992; Saviani, 2009). Esse palco não pode continuar nos bastidores das decisões políticas e econômicas — ele precisa estar no centro das prioridades nacionais, com a visibilidade devida e como pauta primeira do debate político (Brasil, 2014).
Em meio ao abismo que há entre esse “chão” e o “palco principal da educação”, encontram-se os desafios da gestão escolar, que, nesse cenário, são muitos: falta de recursos, políticas públicas instáveis, desvalorização social do magistério, ausência de formação continuada adequada, violência nas comunidades e demandas sociais que extrapolam o papel da escola. O gestor precisa ser mais que um administrador — precisa ser líder, articulador, mediador e visionário.
E onde estamos no cenário mundial? Infelizmente, os indicadores mostram que a educação brasileira ainda ocupa posições preocupantes nos rankings globais, enfrentando dificuldades históricas de equidade, infraestrutura e aprendizagem (OCDE, 2023). Mas não podemos permitir que o chão onde construímos conhecimento continue sendo o mesmo onde sofremos e nos deixamos ser pisados.
A valorização do professor precisa sair do discurso e se tornar prática. É urgente garantir formação, reconhecimento e condições de trabalho dignas, mas também é necessário exigir resultados concretos, engajamento e responsabilidade (Tardif, 2014). Valorização não pode ser confundida com complacência. É necessária uma política real de valorização profissional, o que passa, além de outros importantes fatores, pelo aumento salarial significativo.
Para sair da condição de “chão” e nos colocarmos, de fato, no “palco principal da educação”, algumas alternativas se apresentam:
» Investimento sério e contínuo em políticas públicas educacionais.
» Fortalecimento da formação docente inicial e continuada.
» Participação ativa da comunidade escolar nas decisões.
» Apoio psicológico e emocional a profissionais da educação (Nunes; Góis, 2020).
» Uso inteligente da tecnologia como ferramenta pedagógica (Moran, 2013).
» Gestão escolar mais autônoma, humanizada e inovadora.
A escola não é coadjuvante na sociedade. Ela é o palco onde a cidadania se constrói, onde o futuro é ensaiado todos os dias. E, nesse palco, cada educador, cada aluno e cada gestor precisam ocupar seu lugar de fala e de ação.
Se somos chamados de “chão”, que não sejamos o chão em que se pisa — sejamos o chão que sustenta, que levanta, que impulsiona. Mas também podemos e devemos ser o “palco”, onde os sonhos ganham luz e voz. Ser o palco principal da educação nada mais é do que ser posicionado no lugar adequado e com a visibilidade que toda a sociedade precisa para, no mínimo, avançar com seriedade e perspectiva de dias melhores em um país que ainda precisa avançar nessa área tão importante e que vem pedindo socorro.
Subamos nesse palco…
[…] podemos e devemos ser o ‘palco’, onde os sonhos ganham luz e voz.
Referências
BRASIL. Plano Nacional de Educação – PNE (2014-2024). Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Brasília: MEC, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Campinas: Papirus, 2013.
NÓVOA, António (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992.
NUNES, Maria; GÓIS, Ana. A saúde mental dos professores no Brasil. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 23, n. 1, 2020.
OCDE. Education at a Glance 2023: OECD Indicators. Paris: OECD Publishing, 2023.
SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2009.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.
O Autor
Sergio Marcelo Salvino Bezerra é professor da Rede Estadual de Pernambuco, atuando como Gestor Escolar há mais de 12 anos; psicanalista clínico; palestrante; e escritor de literatura infantil e de livros de prevenção ao suicídio.
E-mail: sergiobezerra.prof@gmail.com
