Edição 144
Matéria Âncora
Entrevista com Hugo Monteiro Ferreira
Christianne Galdino

Foto: arquivo pessoal
O universo da criança sempre esteve no foco da sua atenção e curiosidade, tanto que, de um jeito ou de outro, acabou por se tornar sua motivação profissional e fonte de estudos permanente, ponto de saída e chegada de todas as suas produções. Natural de Campina Grande, na Paraíba, o professor e escritor Hugo Monteiro Ferreira, Pós-doutor em Estudos da Criança, construiu sua carreira de maneira transdisciplinar, mas, em todos os espaços que ocupou e nas propostas que criou, existe um ponto em comum: o desejo de entender melhor a mente da criança e poder colaborar de alguma forma com o processo de desenvolvimento infantil.
Radicado em Pernambuco e vinculado ao Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) desde 2010, Hugo tem uma trajetória marcada pelo pioneirismo, tendo sido responsável por idealizar e implementar diversas ações inovadoras, ao longo dos anos, como é o caso do Núcleo do Cuidado Humano, setor de prevenção ao adoecimento psíquico e promoção da saúde mental, fundado por ele na universidade.
Da graduação em Letras às oito obras de literatura infantil publicadas, passando pela vasta experiência como professor e pesquisador e pelas tantas consultorias e palestras por ele ministradas, a verdade é que Hugo Monteiro Ferreira se tornou referência quando o assunto é a violência sofrida por crianças e adolescentes. Em conversa com a Construir Notícias, ele detalhou o processo de pesquisa que resultou no livro A geração do quarto (2022), que, em menos de três anos de lançado, já entrou na 9ª edição; e revisitou seu percurso profissional, compartilhando páginas importantes do seu passado, mas também seus planos para o futuro, que incluem o lançamento de dois novos livros.
Hugo Monteiro Ferreira – Tenho uma formação inicial na área de linguagem, fiz graduação e mestrado em Letras e comecei a estudar literatura infantojuvenil desde então. Na minha dissertação, pesquisei como a leitura de literatura mudava os conceitos na mente da criança em um projeto que tinha uma interlocução entre literatura e educação, em que eu já trabalhava também com bases teóricas da psicologia do desenvolvimento. Depois fiquei um longo período estudando literatura infantil e escrevendo obras de ficção para esse público, porque sempre quis estar próximo das crianças para buscar compreender o universo delas. Na época do mestrado, eu já havia entendido que a área de Letras seria uma atividade transitória na minha trajetória, o que se confirmaria mais tarde, quando, após passar alguns anos dando aula de Português em escolas, ministrei Filosofia em faculdades e acabei optando por fazer o doutorado em Educação, deixando a rotina de sala de aula, mas me mantendo próximo das crianças, que continuaram sendo o centro das minhas pesquisas.
CN – Os seus livros de literatura infantil publicados são direcionados a alguma faixa etária específica?
HMF – Quando comecei a escrita dos livros, percebi que eu tinha uma literatura que criança muito pequena iria ter dificuldade de compreender, e a interlocução seria mais fácil a partir dos 9 anos de idade. Hoje, olhando para os meus oito títulos publicados, vejo que somente uma das obras se enquadra em literatura infantil: Antônio. Esse livro, que ficou conhecido no Brasil inteiro, traz um tema delicado e complexo, tendo como personagem principal um menino que sofreu abuso sexual. Quando cheguei na faculdade para cursar a graduação em Psicologia, verifiquei que Antônio era utilizado não só como bibliografia em algumas disciplinas, como também na prática clínica. Em suas análises, os críticos literários disseram que consegui trabalhar um tema denso de forma lúdica e leve e, por isso, o consideram uma pequena obra-prima. Depois escrevi Emílio — ou quando se nasce com um vulcão ao lado, e, com ele, fui um dos finalistas do Prêmio Jabuti (2014), mas já dentro da categoria Literatura Juvenil.
CN – Quando ingressa no corpo docente do Departamento de Educação da UFRPE, você se aproxima de um campo de discussão que lá existia sobre direitos humanos das crianças e dos adolescentes. Como sua participação nesse grupo contribuiu e/ou modificou seu percurso profissional?
HMF – Quando eu encontrei esse grupo, comecei a ver que eu me interessava muito por aquelas discussões, sobretudo pelas situações de sofrimento que crianças e adolescentes enfrentavam. Eu queria entender o que acontecia quando a criança sofria, então me dei conta de que estava no campo dos estudos da violência que provocava o sofrimento delas. A partir daí me aprofundei nas pesquisas sobre bullying e cyberbullying e comecei a orientar trabalhos acadêmicos sobre essa temática. Com esse aprofundamento, percebi que estava ingressando cada vez mais no campo da saúde mental, de crianças e adolescentes especificamente. E decidi estudar mais ainda a área, fazendo especializações em neuropsicologia e psicologia cognitivo-comportamental, sempre trazendo uma dimensão transdisciplinar para as discussões. Foi nesse contexto que fundei, na universidade, o Núcleo do Cuidado Humano, que é um setor de prevenção ao adoecimento psíquico e de promoção da saúde mental; e comecei a realizar muitas pesquisas, que, pela maneira transdisciplinar como eu abordava, acabaram atraindo e servindo de fonte de consulta para pesquisadores das mais diversas áreas.
Eu queria entender o que acontecia quando a criança sofria,
então me dei conta de que estava no campo dos estudos da violência que provocava o sofrimento delas.

Foto: arquivo pessoal
CN – Você se tornou uma referência obrigatória nos estudos sobre violência contra crianças e adolescentes. Olhando para a sua história como estudante da Educação Básica, você considera que foi vítima de algum tipo de agressão no ambiente escolar?
HMF – Sim, eu fui vítima de bullying. Tem um psiquiatra francês chamado Boris Cyrulnik que estuda resiliência e defende que toda pesquisa que realizamos é originada de algum traço biográfico do pesquisador. No meu caso específico, quando eu me preocupo com o sofrimento, parto também do ponto de vista biográfico. O bullying me fez sofrer e me trouxe traumas psíquicos que geraram consequências que eu carrego até hoje, foi a pior experiência que eu já vivi. A partir dessa perspectiva, eu compreendi melhor o meu objeto de pesquisa e fui me aprofundando cada vez mais nesses estudos.
CN – Durante suas atividades como pesquisador e palestrante, abordando assuntos relacionados à violência e ao sofrimento psíquico de crianças e adolescentes, surgiu uma questão recorrente por parte de pais, mães, professores e terapeutas sobre a permanência prolongada dos filhos no quarto. E é assim que você decide empreender uma pesquisa já com a intenção de publicar os resultados no livro A geração do quarto. Conta como foi esse processo.
HMF – Aquela questão constantemente reiterada no âmbito das palestras que eu ministrava virou meu objeto de pesquisa, e fui em busca de ouvir, em primeiro lugar, os que “estavam dentro do quarto”. Para isso, inicialmente, lá em 2014, elaborei um questionário com setenta perguntas divididas em blocos temáticos e, através de escolas públicas e particulares, consegui aplicar em cinco capitais brasileiras: Recife, Maceió, Natal, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No total, foram 3.115 participantes, entre 11 e 18 anos, nesta primeira etapa da pesquisa. Então, à medida que as respostas foram chegando, eu comecei a analisar e a ficar muito preocupado, porque me deparei com depoimentos que eram pedidos de ajuda, de socorro. Identifiquei que boa parte da coleta trazia relatos de comportamentos autodestrutivos, que, para efeitos do estudo, subdividi em três tipos: ideação suicida, tentativa de suicídio e automutilação. E constatei também traços psicopatológicos evidentes, principalmente de depressão ou síndromes ansiosas, nos respondentes. Então, seguiu-se a segunda fase da pesquisa, em que selecionei 238 participantes para eu ir entrevistar in loco. Mas, quando terminei a coleta, continuava muito inquieto e decidi implementar uma terceira etapa na pesquisa, que foram as Rodas de Discussão, direcionadas aos pais, familiares, professores e outros adultos que se relacionavam com os entrevistados. Em 2019, após cinco anos do início do processo, eu concluí a pesquisa de campo e a análise de dados. Porém, quando eu estava com o livro pronto, a editora que iria publicar a obra teve um problema financeiro grave e pediu que eu aguardasse. Mas como estava com tudo finalizado, preferi fazer o distrato e buscar uma nova editora.
CN – A geração do quarto foi lançado, então, pela Editora Record, em 2022, e, desde antes de chegar ao público, já encabeçava os rankings de livros da categoria Psicologia de Adolescentes. A publicação está na 9a edição e nunca saiu do topo das listas de mais vendidos do segmento. Apesar de ter sido um livro aguardado e de ter uma expectativa boa de adesão, alguma coisa nesse processo superou suas expectativas?
HMF – O livro superou todas as minhas expectativas, mesmo eu sabendo que já havia um público esperando. Agora, por exemplo, ele vai ganhar uma versão em espanhol. Acho que é um livro muito verdadeiro e que, de alguma forma, relaciona-se com a vida de todo mundo, por isso esse sucesso.
CN – Nas suas redes sociais, você anunciou que, em breve, vai lançar um novo livro, intitulado Agora o meu chão são as nuvens. Ele pode ser considerado uma continuação de A geração do quarto?

Reprodução
HMF – A temática tem ligação, o público é o mesmo, mas é outra pegada. Nele, eu enfrento questões diferentes e me aprofundo muito na família e na relação com o uso (e a dependência) de smartphones e redes sociais. Trago também análises sobre a conexão entre o patriarcado e os ataques às escolas, investigando aspectos da educação dos meninos, especialmente porque identifiquei que são eles que lideram os movimentos de disseminação de ódio ou ação violenta. Nesse projeto, eu estudo o masculinismo, o vício em Internet, os movimentos no Discord (uma plataforma virtual de comunicação em que as pessoas podem se comunicar de forma privada ou participar de grupos que são chamados de servidores, em que podem trocar mensagens de texto, de áudio e de vídeo, e participar de transmissões ao vivo), entre outros.
CN – Este novo livro também surge de uma pesquisa de campo?
HMF – Sim. Em 2020, quando o confinamento da pandemia da covid-19 foi anunciado, me senti realmente sem chão, pisando em nuvens, diante de tanta incerteza. As nuvens do título para mim têm dois sentidos: nuvem por não pisarmos mais em chão firme e nuvem fazendo uma referência ao ambiente virtual onde os dados são armazenados. Então, resolvi elaborar uma pesquisa chamada Como você está?, em que ouvi 1.684 meninos e meninas entre 11 e 18 anos. Parte dos dados que coletei estarão em Agora meu chão são as nuvens, e outra parte estará no próximo livro, que também estou finalizando, e vai se chamar Como você está?, que tem lançamento previsto para o próximo ano.
CN – Além dos títulos voltados à sua pesquisa, tem planos de voltar a publicar ficção?
HMF – Eu ainda tenho um livro em mente, inclusive há uma editora muito interessada em publicar, que vai se chamar 1982, para falar sobre bullying, e o título faz referência ao ano em que sofri essa experiência violenta. Tenho também uma ideia para um livro de ficção, que vai se chamar Os filhos nunca morrem. Muitas editoras me fazem convites nesse sentido, o problema é que ficção, para mim, é como se fosse um parto, precisa esperar o tempo certo de gestar e nascer. Eu sei que, no dia que eu decidir, a escrita dele vai fluir, mas, no momento, não é prioridade para mim. É como se, antes, eu precisasse exaurir a discussão dessa pesquisa e ainda tenho outro livro em torno de crianças e adolescentes que vou escrever, Nada sobre nós sem nós, com relatos da minha experiência no projeto em parceria com a Unicef, Pode falar, que é uma rede de escuta ativa, inspirada na metodologia do Centro de Valorização da Vida (CVV). Ao mesmo tempo, o título desse livro explica minha metodologia de trabalho e expressa o que acredito: que, para falar de crianças e adolescentes, na nossa condição de adultos que os observam, precisamos, antes de qualquer coisa, ouvi-los.
@hmonteiroferreira
