Edição 125

Em discussão

Era uma vez um menino que amava os livros…

Por Christianne Galdino
Instagram: @chrissgaldino

Entrevista com o escritor Jonas Ribeiro

amava-livrosEra uma vez um menino que, aos 10 anos de idade, mudou-se para Vila Ipojuca, um bairro em São Paulo, onde havia duas bibliotecas públicas infantojuvenis: o Espaço de Leitura Cecília Meireles e a Biblioteca Pública Clarice Lispector. Para as duas, ele ia caminhando e tratou logo de se cadastrar em ambas para poder pegar uma quantidade maior de livros para ler. E ali, cultivando diariamente sua paixão pela leitura, ele decidiu seu caminho profissional: “Queria viver para o livro, dos livros, entre os livros”. Os obstáculos surgiram, mas nenhum tipo de oposição foi capaz de afastar o determinado Jonas Ribeiro do seu propósito de vida.

Formado em Língua e Literatura Portuguesas pela PUC-SP, esse paulista de natureza organizada e disciplinada já se dedicava à escrita regularmente bem antes disso, desde os seus 16 anos de idade. Foram dez anos de produção e persistência até que Jonas conseguisse chegar à publicação dos primeiros livros. A partir daí, engrenou em um processo crescente contínuo, e hoje já tem mais de 160 títulos publicados, alguns traduzidos e lançados em outros países, prêmios conquistados, além de desenvolver muitos projetos de incentivo à leitura nos mais variados contextos.

jonasA grande maioria da sua produção é voltada para as crianças, de todas as faixas etárias. Os assuntos são os mais diversos, com múltiplos personagens e dezenas de histórias, mas tudo sempre tecido com humor e poesia. O escritor Jonas Ribeiro ultrapassou todos os obstáculos e se tornou uma referência na literatura infantil. Na sua biblioteca/oficina da palavra, coração do seu processo criativo na casa em Embu-Guaçu, cercado de livros por todos os lados, o autor falou de sua produtiva jornada no mundo da literatura à revista Construir Notícias. Ribeiro não teve filhos, mas trata com amor de pai todos os personagens e as histórias que criou, falando de cada um com um entusiasmo contagiante. Da sua extensa obra, recomendou dois títulos recentes que têm tido bastante repercussão: E a terra escreveu uma carta…; e As sutis camadas dos pensamentos de Nestor, que recebeu o Selo Cátedra 10-2020, numa seleção realizada pela Cátedra Unesco de Leitura e pelo Instituto Interdisciplinar de Leitura, da PUC- Rio.

Conheça, agora, os detalhes da jornada de um menino apaixonado pelos livros que se tornou o “pai de muitas histórias”.palavra-filho

Construir Notícias – De onde vem sua paixão pelos livros? Há algum leitor voraz ou escritor na família?

Jonas Ribeiro – Primeiramente, agradeço por este espaço remoto, que eu agora entendi que também é feito de afetos. Tinha um certo preconceito com as formas de interação virtuais, mas nessa pandemia aprendi que esse espaço online também pode ter uma troca acolhedora e verdadeira. Bem, alguns escritores na família vieram depois de mim, antes não havia nenhum. A paixão pelos livros foi acentuada quando comecei a frequentar essas duas bibliotecas públicas e criei uma cumplicidade com as bibliotecárias; eu elegia as minhas editoras, meus autores e ilustradores preferidos também. Então, ali, com apenas dez anos de idade, de certa forma eu já estava fazendo literatura comparada.

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CN – Naquela época, você já sabia que queria ser escritor?

JR – Sim, especificamente quando conheci uma autora em especial, a Lygia Bojunga, que depois se tornou uma grande amiga. Foi como atravessar um portal. Ela me fazia chorar, gargalhar… Gosto de todos os livros dela. Ela me fez enxergar que dentro de um livro cabe um universo, me mostrou o potencial terapêutico da literatura também. Quando li a obra integral dela, eu já sabia o que queria fazer. Nem pensava em cursar uma faculdade, queria acabar o Ensino Médio e já começar a minha vida de escritor.

CN – E você seguiu esse plano ou houve alguma mudança de rota?

JR – Algumas adaptações foram necessárias. Meu pai já era um empresário bem-sucedido, produzia palmito e açaí e tinha expectativa de que eu fosse trabalhar com ele. Ao mesmo tempo, ele conhecia alguns familiares que optaram por ser artista e eram sustentados pelos pais, mesmo na idade adulta. Então, quando lhe falei do desejo de me tornar escritor, ele teve medo de que eu repetisse aquele padrão, porque, no seu entendimento, era impossível alguém viver de arte. Naquela época, tivemos brigas muito pesadas, porque eu não consegui ter empatia com meu pai, entender suas razões, tão determinado que eu estava em me tornar escritor.familia-mundo

CN – Naquela época, você já tinha um gênero literário preferido?

JR – Sim, e se mantém até hoje. Gosto de comédia, sempre trago humor para as minhas obras. E tenho também uma espécie de marca: eu nunca deixo meus personagens com fome! Fico irritado quando leio alguma história na qual os personagens sequer mencionam uma refeição (risos). Sim, e por ter uma relação tão ampla e profunda com as bibliotecas infantojuvenis, sabia que queria escrever para crianças.

CN – Como você conseguiu lidar com a oposição do seu pai e se tornar efetivamente um escritor?

JR – Ele estava realmente muito indignado, mas, como eu não cedia, um dia ele me propôs uma espécie de “prova”. Me deu o prazo de cinco anos para que “algo acontecesse”; caso contrário, eu teria que ir trabalhar na empresa ao seu lado. Naquela época, eu já era disciplinado, escrevia de segunda a segunda, produzia livros mesmo. A minha organização e o jeito até metódico de trabalhar foram libertadores para mim. Tanto que, antes do prazo estipulado, eu já estava com meu primeiro contrato assinado com a editora Dimensão, de Belo Horizonte. Só que demorou dois anos até a publicação. Mas, enquanto esperava, continuava produzindo e tive um segundo livro aprovado por eles. Então, meus dois primeiros livros foram lançados juntos: O funil encantado e Em nome da paz. As ilustrações também foram feitas por mim.

bicicleta-voadoraCN – Todos costumam falar que é muito difícil se inserir e se consolidar no mercado literário, mas, olhando sua trajetória e o volume da sua produção, parece que com você foi diferente. Conta para nós qual o segredo.

JR – Ah, o contrato com a editora só veio depois de 17 negativas, mas eu não desisti, continuava produzindo e enviando os originais para as mais diversas casas editoriais até conseguir o “sim” da Dimensão. No primeiro ano, consegui vender 400 exemplares, mas no segundo alcancei a marca de 6 mil exemplares. Como? Eu descobri que podia visitar as escolas. E eu não ia simplesmente levar meus livros e conversar, eu levava um baú, no qual pedi para escrever “capitão Jonas, funcionário da fantasia pública” (risos). De dentro do baú, tirava bonecos, marionetes, acessórios, vários elementos para dinamizar a contação de história que eu promovia em cada escola. Essas visitas me acompanham até hoje, e tenho orgulho de já ter chegado a mais de 1.500 escolas.

CN – Por que você decidiu cursar faculdade?

JR – Nunca fui daqueles alunos nota dez, mas sempre gostei de estudar. Então, quando prestei vestibular, optei por um curso que pudesse acrescentar no meu percurso de escritor. A faculdade de Letras ampliou meu repertório de leituras e foi importante, especialmente para o meu trabalho junto às escolas, porque ficava mais fácil de ser recebido pelas professoras e coordenadoras com uma formação universitária.mais-rico

CN – Desde 2006, você publica alguns livros na área de educação financeira, mas curiosamente as obras não tratam da necessidade de guardar ou investir dinheiro. Conta para gente como foi o processo.

JR – Deixa eu voltar um pouco para te dizer que já fui muito “gastadeiro”, gastava mais do que ganhava. E, quando ia receber algum pagamento, o valor já estava todo comprometido antecipadamente. Mas, já que eu queria viver dos meus livros, da minha arte e também provar ao meu pai que era capaz disso, decidi me organizar e criar condições de ter uma rotina arejada e poder ter tempo livre. Pedi ao universo que minha renda viesse da venda dos livros, e não das palestras e ações nas escolas. E assim aconteceu. Agora, respondendo à sua pergunta sobre os livros de educação financeira, tudo começou com A bicicleta voadora (2006), lançado pela Editora Elementar. Nele, de forma lírica, são questionados os valores da sociedade de consumo e é feito o apelo para que crianças consumam sem nenhum critério. Na verdade, eu não queria escrever um livro com esse tipo de temática, mas a dona da editora insistiu tanto e me deu carta branca para eu fazer do meu jeito que tive que topar. O sucesso foi tão grande que chamou a atenção do dono de uma editora especializada em educação financeira, a Mais Ativos, que queria publicar a obra. Em vez disso, eu propus ao editor Álvaro Modernell criar um livro para ele com a mesma “pegada”. E, assim, surgiram O homem mais rico do mundo, depois O que não tem preço e A família mais rica do mundo. Todos falando sobre dinheiro, mas também daquilo que não tem preço, do valor do que realmente importa.

CN – Com uma carreira consolidada, você pensa em aposentadoria ou ainda tem sonhos a realizar? O que te motiva a continuar produzindo?

JR – Se a gente “senta” sobre o sucesso anterior, a gente para, porque deixa de existir desafio. Então, na pandemia, eu fiquei muito preocupado com o enfraquecimento do meu “músculo da vivacidade”, por isso continuei criando bastante. Aproveitei para renovar meu material de divulgação e estou com três novos baús de contação de história prontos para estrear nas escolas, agora voltando ao modo presencial. Então, eu não cansei de mim mesmo durante a fase de isolamento social. Foi um período interessante, rico, acolhedor, em que produzi absurdamente. E tudo que escrevi nesse período foi aprovado. Essa renovação constante sempre fez parte do meu processo; a cada ano eu podia voltar às mesmas escolas, pois sempre tinha novidades para apresentar. O que me move é poder proporcionar no leitor esse “riacho” de pensamentos e sentimentos lá no centro, no íntimo dele. À s vezes um afluente, um rio principal ou um olho-d’água… Não importa o tamanho, a espessura do livro, mas, sim, se aconteceu o encontro genuíno entre o livro e o leitor. Quando vou às escolas, deixo meu legado lá, e isso fica reverberando naqueles leitores por muito tempo. Meu desejo maior, meu grande sonho é contribuir para o Brasil se tornar um país com um número considerável de leitores apaixonados pelo conhecimento, pela arte, pelos livros!

 

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Instagram: @oficialjonasribeiro

 

 

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