Edição 143
Espaço pedagógico
Inteligência artificial na educação: o despertar do professor conectado
Adriana Bastos
Jouberte Santos

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A inteligência artificial (IA) já não é mais uma promessa distante: ela está aqui, presente nas escolas, universidades e, principalmente, na palma da mão dos educadores e estudantes. Em um cenário de transformação digital acelerada, a IA emerge como uma aliada poderosa na reinvenção do ensino, mas também nos convida a refletir sobre seus limites, desafios e possibilidades éticas.
Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito técnico reservado à ciência da computação e passou também a fazer parte do vocabulário de professores, estudantes e gestores educacionais. Um de seus braços mais inovadores e instigantes é a Inteligência Artificial Generativa, ou, simplesmente, IAGen. Mas, afinal, o que é isso? E como ela está sendo aplicada na educação?
A IA Generativa é um tipo de inteligência artificial capaz de criar conteúdos originais com base em grandes volumes de dados. Diferentemente de sistemas tradicionais de IA, que apenas analisam e classificam informações, os modelos generativos podem produzir textos, imagens, músicas, códigos, vídeos, podcasts e até vozes humanas. Ferramentas como o ChatGPT (da OpenAI) e o Gemini (do Google) são exemplos desse tipo de IA. Elas funcionam a partir de comandos dados pelo usuário, os chamados prompts, e respondem com conteúdos que simulam a produção humana, com coerência e criatividade surpreendentes.
Em 2016, o cientista da computação Andrew Ng, um dos principais nomes da inteligência artificial no mundo, afirmou: “A IA é a nova eletricidade”. Com essa analogia, Ng comparou o potencial transformador da inteligência artificial ao impacto que a eletricidade teve no século XX: uma força invisível, porém essencial, que revolucionou todas as indústrias e alterou radicalmente a forma como vivemos e trabalhamos. Parece até exagero pensar assim; porém, da mesma forma que a eletricidade deixou de ser um luxo para se tornar uma infraestrutura básica de qualquer sociedade moderna, a IA está rapidamente se tornando um componente fundamental em diversos setores, incluindo a educação. De sistemas de tutoria inteligentes a plataformas de aprendizagem adaptativa, passando pela automação de tarefas e personalização do ensino, a IA está reformulando práticas pedagógicas e administrativas com profundidade e velocidade.
A metáfora proposta por Andrew Ng também nos alerta: assim como a eletricidade exigiu novas competências, regulamentações e formas de convivência, a IA demanda formação crítica, uso ético e reflexão pedagógica. Reconhecer seu poder é o primeiro passo para integrá-la com responsabilidade, e não apenas com entusiasmo aos ambientes educacionais.
Para ampliar nossa reflexão, é válido pensar que, a cada geração, novas tecnologias moldam comportamentos, valores e formas de viver. Se os Millenials cresceram com a Internet e a Geração Z aprendeu a se expressar pelas redes sociais, uma nova geração surge em meio a uma transformação ainda mais profunda: a Era da Inteligência Artificial. Estamos falando da Geração Beta, a primeira a nascer em um mundo em que a IA já é uma realidade cotidiana.
A expressão Geração Beta foi criada pelo futurista australiano Mark McCrindle para definir as crianças nascidas a partir de 2025 até aproximadamente 2039, o primeiro grupo etário a crescer com a inteligência artificial totalmente integrada ao cotidiano. Eles são considerados os “filhos da IA”. Para a Geração Beta, a presença da IA não é novidade, é infraestrutura. Crianças dessa geração interagem naturalmente com assistentes como Alexa, Siri ou Google Assistant. Assistem a vídeos recomendados por algoritmos, aprendem com jogos educativos adaptativos e, desde cedo, convivem com sistemas capazes de reconhecer padrões, prever preferências e responder a comandos de voz. Mais do que usuárias, essas crianças estão crescendo como nativas da IA, ou seja, sem distinção entre o que é “analógico” e o que é “inteligente”. Essa convivência precoce com sistemas autônomos e personalizados deve influenciar profundamente sua maneira de se comunicar, aprender, consumir e até pensar.
Na educação, o fato de essa geração ter nascido rodeada por inteligência artificial apresenta oportunidades inéditas e desafios igualmente complexos. Por um lado, temos o potencial de personalização do ensino, acessibilidade ampliada e incentivo à criatividade. Por outro, surgem questões éticas e pedagógicas, como o risco de dependência de respostas automatizadas, a superficialidade na busca por conhecimento e a necessidade de desenvolver pensamento crítico em meio à abundância de informação gerada por máquinas. Caberá às escolas, às universidades, aos educadores e às famílias o papel de equilibrar esse convívio: ensinando a usar a IA como ferramenta, não como muleta.

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IAGen na educação como oportunidade
Nessa nova realidade, a Era Digital tem transformado não só o solo em que trabalhamos, mas também as habilidades que se esperam dos educadores. O professor conectado deixa de ser apenas um transmissor de conteúdo para se tornar um curador, designer de experiências, provocador e mediador crítico. A IA não substitui o educador, mas amplia suas capacidades. Com algoritmos capazes de adaptar o ensino ao ritmo e estilo de cada aluno, professores podem investir mais tempo naquilo que só humanos fazem: cultivar vínculos, estimular a empatia e promover o pensamento crítico. É também o educador que deve garantir que a IA não substitua o processo de aprendizagem, mas o enriqueça. A IAGen abre um universo de possibilidades para professores, alunos e instituições. Veja algumas das principais aplicações:
• Geração de materiais pedagógicos
Professores podem criar planos de aula, atividades avaliativas, resumos e textos adaptados a diferentes níveis de aprendizagem com o auxílio de IA.
• Correção e feedback automatizados
Sistemas generativos ajudam na análise de produções escritas, fornecendo comentários personalizados e economizando tempo do docente.

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• Personalização do ensino
Com base no estilo de aprendizagem e desempenho dos alunos, é possível adaptar conteúdos de forma mais precisa e inclusiva. Além da análise do progresso individual, identificação de lacunas e adaptação de conteúdo.
• Apoio à criatividade estudantil
Estudantes podem usar ferramentas de IA para explorar novas linguagens, gerar ideias, estruturar argumentos ou visualizar conceitos de forma multimodal (texto + imagem + áudio).
• Simulações e aprendizagem ativa
Por meio de chatbots e cenários gerados por IA, é possível simular situações reais em sala de aula, ampliando o engajamento e a contextualização dos conteúdos.
• Agilidade administrativa:
elaboração de cronogramas, feedbacks e relatórios de forma automatizada.
Desafios e cuidados necessários
Apesar de suas vantagens, a IA Generativa também traz desafios e cuidados importantes:
• Plágio e autoria
Textos produzidos por IA devem ser usados com transparência e consciência.
• Dependência tecnológica
O uso deve ser equilibrado, sem abrir mão do raciocínio próprio.
• Alucinações da IA
Ferramentas generativas podem errar, inventar dados ou apresentar vieses, nesse sentido precisam de verificação constante.
• Questões éticas e formativas
É essencial preparar alunos e professores para um uso responsável, respeitoso e produtivo dessas tecnologias.
Caberá às escolas, às universidades, aos educadores
e às famílias o papel de equilibrar esse convívio:
ensinando a usar a IA como ferramenta, não como muleta.
As ferramentas

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Ferramentas como o ChatGPT, Gemini, Mentimeter e Gamma já estão integradas ao cotidiano escolar, proporcionando desde a automação de tarefas repetitivas até a criação de planos de aula personalizados, quizzes interativos e infográficos visuais.
Se há uma nova linguagem que os educadores precisam aprender, ela se chama prompt. Um bom prompt é mais do que uma pergunta: é uma chave que destrava o potencial criativo da IA. Saber elaborar comandos precisos, claros e contextualizados para ferramentas como ChatGPT, Manus, Deepseek, Gemini e Gamma tornou-se tão essencial quanto saber planejar uma aula. Essas ferramentas estão redefinindo a prática docente.
Com o Mentimeter, é possível criar quizzes interativos com o apoio de IA. O Napkin permite a criação rápida de infográficos para ilustrar conteúdos complexos. Já o Aprendizap ajuda na personalização de planos de aula, considerando perfis de alunos, objetivos e estratégias adequadas. Mas essa avalanche tecnológica não deve ser enfrentada com exaustão, e sim com discernimento.
Nem toda ferramenta precisa ser dominada, o essencial é identificar aquelas que fazem sentido para o seu contexto pedagógico. Entre as opções disponíveis, que fazem parte de uma nova caixa de ferramentas pedagógicas, destacam-se algumas que já têm se mostrado especialmente úteis na prática educacional:
• ChatGPT
https://chatgpt.com/
(geração de texto, feedback, roteiros de aula, correção e criação de material)
• Manus
https://manus.im/
(geração de texto, relatórios, feedback, roteiros de aula, correção e criação de material)
• Deepseek
https://www.deepseek.com/en
(geração de texto, feedback, roteiros de aula, correção e criação de material)
• Mentimeter
https://www.mentimeter.com/pt-BR
(quizzes interativos com apoio de IA)
• Gamma
https://gamma.design/pt
(criação de apresentações personalizadas)
• Napkin
https://www.napkin.ai/
(infográficos rápidos e visuais)
• Aprendizap
https://www.aprendizap.com.br/
(personalização de planos de aula baseados em perfis de aprendizagem)
• Nearpod
https://nearpod.com/
(torna apresentações e avaliações mais interativas)
• Exam.Net
https://exam.net/pt
(criação de avaliações personalizadas com IA)
• Edpuzzle
https://edpuzzle.com/discover
(criação de vídeos curtos com IA)
• NotebookLM
https://notebooklm.google.com/
(criação de podcasts e resumos inteligentes com IA)
Um bom prompt é mais do que uma pergunta:
é uma chave que destrava o potencial criativo da IA.
A ética do uso: ensinar com IA, não apenas sobre IA

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Como aponta o professor Pierre Lucena, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), “Ensinar com IA é preparar o aluno para o mundo que já existe. O desafio do professor é guiar o uso da tecnologia para que ela seja um trampolim para o pensamento, não um atalho para a superficialidade”. Esta é a missão do educador do futuro: transformar dados em sabedoria e tecnologia em humanidade.
A Inteligência Artificial Generativa já está nas escolas quer queiramos, quer não. A questão agora é: como vamos ensinar com ela? Integrar a IAGen à prática docente não significa automatizar o ensino, mas, sim, abrir espaço para um aprendizado mais personalizado, criativo e significativo. O professor conectado do século XXI não apenas domina ferramentas digitais, mas compreende seu potencial pedagógico e, principalmente, sabe ensinar os alunos a pensarem com (e além da) tecnologia. Em um mundo onde máquinas produzem conteúdo, educar permanece como um ato essencialmente humano. A inteligência artificial não veio para substituir professores, mas para expandir suas possibilidades. O futuro da educação não será moldado pelos algoritmos, e sim pelas decisões conscientes que tomarmos hoje sobre como integrá-los ao processo de ensinar e aprender.
Um exemplo dessa virada já começa a ganhar forma no cenário internacional: a partir de 1º de setembro de 2025, todas as escolas primárias e secundárias de Pequim, na China, incluirão a disciplina Inteligência Artificial como componente obrigatório da grade curricular, com pelo menos oito horas de instrução por ano letivo. A Geração Beta não está chegando, ela já está aqui. Com ela, chega também a responsabilidade de preparar um mundo onde humanos e máquinas coexistam com ética, criatividade e senso crítico. Entender as particularidades dessa geração e de outras gerações é essencial para projetar políticas educacionais, práticas pedagógicas e ambientes de aprendizagem que, realmente, dialoguem com seu tempo.
Se a educação deve preparar para o mundo, ela não pode ignorar as ferramentas desse mundo. A inteligência artificial não é inimiga da educação. Pelo contrário, quando usada com intencionalidade pedagógica e olhar crítico, ela é uma poderosa aliada na construção de uma educação mais inclusiva, personalizada e criativa. Cabe a nós, professores conectados, decidir: seremos passageiros da transformação digital ou protagonistas dela?
Em um mundo onde máquinas produzem conteúdo,
educar permanece como um ato essencialmente humano.
Adriana Bastos é professora efetiva no Instituto Federal de Pernambuco (IFPE); vice-líder do Núcleo de Estudos em Marketing no Interesse Social (MIS); Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP – 2019) na linha de pesquisa Estratégias de Marketing; Mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB/PPGA – 2013), com área de concentração em Gestão Organizacional e linha de pesquisa em Marketing e Sociedade; pós-graduada em Educação e Jogos para Aprendizagem e Tecnologia Aplicada na Sala de Aula pela UniAmérica (2021); graduada em Administração pela UFPB (2010). Tem pesquisado nas áreas de Marketing Social, Macromarketing, Comportamento do Consumidor, Pesquisa Transformativa do Consumidor e Tecnologias Educacionais. Além disso, possui experiência em gestão, empreendedorismo inovador e tecnologias educacionais. Mentora de desafios de startups.
E-mail: adrivbastos@gmail.com
Jouberte Santos é professora do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE); Doutora pela Universidade Federal de Pernambuco (Propad-UFPE) e Universidad Carlos III de Madrid (modalidade sanduíche); Mestre em Administração pela UFPE (2013); graduada em Administração pela Universidade Federal de alagoas (Ufal) (2010); tem especialização em Políticas Públicas em Educação e Metodologias Ativas da Aprendizagem; e experiência na formação de professores na área de Metodologias Ativas de Aprendizagem e Tendências na Educação.
E-mail: joubertemaria@gmail.com
Instagram: @jouberte_maria_
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/jouberte-maria-leandro-santos-01138519b/
