Edição 139
Matéria Âncora
Mas eu não sou racista!
Christianne Galdino
O racismo é uma das principais mazelas sociais que assolam toda a humanidade, apresentando-se corriqueiramente, seja em falas, seja em atitudes ou comportamentos preconceituosos, discriminatórios e, na maioria das vezes, agressivos. Os desfechos violentos e trágicos, infelizmente, são muito frequentes, e, por serem situações habituais, normalmente são normalizadas, como se tivessem fadadas a se repetir infinitamente por serem impossíveis de serem revertidas. No Brasil, esse debate ganha outras camadas; aí, para combater o racismo, como diz Djamila Ribeiro, em seu Pequeno manual antirracista (2019, p. 18):
É preciso identificar os mitos que fundam as peculiaridades do sistema de opressão operado aqui, e, certamente, o da democracia racial é o mais conhecido e nocivo deles.
Foi propagada, no decorrer da História, uma harmonia na relação entre brancos e negros no processo de miscigenação, que foi, na verdade, forçado, romantizando as violências sofridas pela população negra e escamoteando a hierarquia racial estabelecida. Por mais que, ainda hoje, alguns, baseados nesse mito da democracia racial, continuem defendendo a tese de que não existe racismo no Brasil, a realidade dos fatos prova o contrário diariamente.
Mesmo reconhecendo a presença do racismo, a maioria dos brasileiros não aceita que tem atitudes racistas e, assim, mantém-se alheia à luta antirracista. Djamila nos ajuda a sair da inércia que essa falta de percepção pode instaurar (2019, p. 22):
O autoquestionamento — fazer perguntas, entender seu lugar e duvidar do que parece natural — é a primeira medida para evitar reproduzir esse tipo de violência, que privilegia uns e oprime outros.
Também precisamos entender que a identificação da população negra aqui é fenotípica, ou seja, dá-se pela estética, a aparência física, e não pela constituição genética, como explica a escritora baiana Bárbara Carine (2023, p. 41):
Em outros termos, você pode ser filho ou filha de um casamento inter-racial (seu pai é negro e sua mãe é branca, ou vice-versa) ou ter avós negros, se a sua estética não leva você a receber baculejo semanal da polícia, se ela não faz você ser seguido no shopping, se ela não faz você perder um emprego por “ausência de boa aparência”, se ela não eleva à décima potência o risco de ser encarcerado ou morto, se ela não faz as pessoas durante a sua vida o reconhecerem como alguém menos bonito e inteligente: você não é uma pessoa lida como negra no Brasil”.
Cientes dessas peculiaridades do racismo e sabendo que se trata de um fenômeno estrutural, algo que está na constituição da nossa sociedade mesmo que a gente não queira, a questão que se coloca é: “O que podemos fazer na luta antirracista?”.
E é aí que entra a escola como esse lugar fundamental no processo de transformação social, porque, apesar de ser influenciada pelo sistema, também o influencia, já que é lá que são formadas as pessoas que vão ocupar todas as demais instâncias da sociedade. Então, repensar esse espaço é urgente, para não seguir reproduzindo a história única que só apresenta aos alunos o “mundo dos brancos”, da cultura europeia, vista e transmitida há séculos como sendo superior.
Mas como fazer isso na prática? Intelectuais e ativistas negras, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e as já citadas brasileiras Djamila Ribeiro e Bárbara Carine, apontam duas direções paralelas nessa construção: de um lado, as práticas antirracistas propriamente ditas, que denunciam e combatem o racismo em várias instâncias; do outro, e igualmente importante, a adoção de uma perspectiva afrocentrada, que apresenta referências valorosas africanas e afro-brasileiras, fazendo um reforço positivo da identidade negra.
Refletir, perceber-se criticamente e saber que a luta antirracista é de todos, independentemente se você é uma pessoa negra ou não negra, já é um bom começo. Afinal, todos temos lugar de fala e um papel a cumprir nesse movimento. E, a partir daí, buscar informações, materiais e recursos para se engajar nessas práticas; cobrar dos governos e outras instâncias a equiparação de pessoas negras e brancas, inclusive nos cargos de gestão; apoiar políticas afirmativas como as cotas raciais; e ser vigilante, denunciando o uso de termos e atitudes que reproduzem o racismo. Esses são exemplos de ações antirracistas que podemos inserir no nosso cotidiano e no dia a dia escolar.
Uma escola afrocentrada
Quando resolveu criar a primeira escola afro-brasileira do País, em sua cidade natal, Salvador, Bárbara Carine decidiu seguir, majoritariamente, a ordem das agências africanas e indígenas, ou seja, construir um projeto pedagógico baseado nas potências culturais desses povos, apresentando referências diversas, a partir da não estereotipagem das práticas pedagógicas no âmbito da educação para as relações étnico-raciais.
Na Escola Maria Felipa — que começou a funcionar em 2019 e vai abrir filial no Rio de Janeiro em 2025 —, cada turma é nomeada com o nome de um reino africano ou ameríndio, e as crianças aprendem sobre manifestações culturais afro-brasileiras, como capoeira, samba e culinária, mas também aprendem aritmética, com base em artefatos matemáticos africanos; formas geométricas, com base em papiros africanos e a partir das tranças nagô e dos fractais africanos; conhecem a história das invenções científico-tecnológicas de pessoas negras; e têm um calendário decolonial das datas comemorativas, mesclando datas ocidentais às africanas, ameríndias e afro-brasileiras.
No seu livro Como ser um educador antirracista, Bárbara Carine detalha todo o processo de criação e o funcionamento da escola e deixa diretrizes de como a educação deve cumprir sua missão antirracista (2023, p. 147):
A escola e, por sua vez, a professora e o professor precisam pautar a equidade racial em toda a sua estrutura: no corpo profissional, na construção curricular, no fomento à leitura da literatura negra e indígena, nas proposições didáticas, na apresentação de intelectuais negros e indígenas e organizando formação de professores (envolvendo também todos os funcionários, porque na escola todos são educadores) na ótica do letramento racial.
REFERÊNCIAS
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.
RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Instagram: @djamilaribeiro1 / @escolamariafelipa / @uma_intelectual_diferentona (Bárbara Carine)

Christianne Galdino é escritora, artista cênica, produtora cultural, jornalista e Doutora em Antropologia. E-mail: chrisgaldino@gmail.com
