Edição 112

A fala do mestre...

O bem comum

Lécio Cordeiro

Na última edição da nossa revista Construir Notícias, abordamos a noção de meritocracia nas escolas, sobretudo no contexto das salas de aula do Ensino Médio. O tema rendeu boas discussões, mas, evidentemente, não se encerrou ali. Nesse manancial discursivo, há um ponto que nos conecta diretamente ao tema central desta revista: o conflito entre o mérito e a fraternidade. A questão é a seguinte: se as oportunidades são “iguais” para todos, quem perde a corrida para o sucesso merece essa derrota? O bom senso mostra que, no mundo real, não estamos todos na mesma posição na linha de largada. Na verdade, para muitos, não há sequer a possibilidade de largar. No excelente livro A tirania do mérito, o filósofo Michael J. Sandel, professor na Universidade de Harvard, nos convida para uma reflexão sobre essa realidade: o que aconteceu com o bem comum?

Na sua análise, Sandel argumenta que, para quem está no topo, é difícil resistir ao pensamento de que merece de fato estar ali, afinal esse louvor ao mérito é bastante reforçado de diversas formas na sociedade. Do mesmo modo, quem está na base de alguma maneira também acredita que merece o lugar onde está. Essa dualidade é extremamente venenosa porque, por vezes, nos coloca como inimigos uns dos outros. Ela gera uma onda coletiva de raiva, frustração, ressentimento, polarização. É quase um salve-se quem puder existencial, que nos afasta da busca de um projeto democrático compartilhado, o que Sandel chama de bem comum. Um dos resultados mais evidentes dessa distopia é que hoje quase não dispomos de espaços públicos que possibilitem o convívio de cidadãos de todas as classes, etnias, crenças. Na verdade, o modelo de sociedade que temos construído faz com que as pessoas do topo e as da base simplesmente não convivam. Ou, se convivem, é certamente em posições e papéis sociais bastante definidos. E uma das consequências dessa polarização nos leva ao nosso tema: quanto mais nossos alunos pensarem que vencerão pelo seu próprio esforço e que são autossuficientes, mais difícil será desenvolver a humildade e a gratidão — bases indispensáveis para a fraternidade.

Pensar no bem comum significa, necessariamente, incluir, não segregar. É perseguir um ideal social em que as pessoas vivam como parte, não à margem. No entanto, não é assim que a engrenagem funciona. A História nos mostra que, desde o Período Colonial, a sociedade brasileira é pensada em boa medida a partir da lógica da segregação. Dessa forma, em vez de corrigir as condições adversas das quais as pessoas querem sair, a engrenagem promove ações que reforçam a mobilidade social como única resposta para a desigualdade. É como se a pessoa vivesse na escuridão, mas, em vez de a engrenagem se movimentar para tirá-la de lá, desse-lhe apenas uma lanterninha de pilha. Ou seja, o problema não é propriamente a ausência de luz, é também. O problema é a pessoa viver ali e nós acharmos isso natural.

Em todos os aspectos, a superação de obstáculos é sempre louvável. Todos nós conhecemos histórias impressionantes. Temos alunos que conseguem chegar a posições de destaque, apesar de todas as adversidades. Nesses casos, para justificar o mérito, a reflexão rasa generaliza: se é possível para uns, é possível para todos. Não é bem assim. Não é justo que algumas pessoas tenham de enfrentar muito mais obstáculos ao longo do caminho. No que compete a nós, como parte dessa engrenagem, precisamos trabalhar para a igualdade, ainda que ela pareça utópica. Em outras palavras: o objetivo não é romantizar a pobreza, os obstáculos da vida. O objetivo é socializar as oportunidades, o acesso à cultura, ao lazer, à educação de qualidade. Isso é a própria essência do que o escritor estadunidense James Truslow Adams chamou, em 1931, de o sonho americano. O foco não é a riqueza. O foco é a dignidade, a decência, a construção de uma sociedade na qual todos prosperem, mesmo que não ascendam, e se vejam como parte de um projeto comum. A riqueza é apenas uma consequência natural para aqueles cidadãos que não só prosperam, mas também ascendem, conseguindo acumular fortuna ou ocupar posições de prestígio. Parabéns para eles!

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A pergunta é: o que podemos fazer, como professores, para ajudar no bem comum? Não existe resposta simples para essa pergunta complexa. Mas o ponto de partida é uma obviedade: comecemos por não supervalorizar a competição. No fundo, sabemos que ela faz parte da nossa sociedade e tem raízes profundas até mesmo nos nossos instintos. O problema é quando todo o processo educacional coloca os alunos, primordialmente, como competidores. No fabuloso livro Lições de um ignorante, o genial Millôr Fernandes desenhou bem o resultado desse ringue existencial no texto Regras fundamentais para o Jogo da Existência. A primeira regra já deixa claro o que é a vida focada na competição: “O Jogo da Existência se joga em dois grupos. De um lado, você; do outro, todas as outras pessoas. Seu objetivo principal no jogo é continuar respirando. Se você deixar de respirar, é posto para fora do jogo. Os jogadores contrários procurarão, por todos os modos e maneiras, impedir que você respire. O jogo consiste, principalmente, em evitar isso o tempo todo”. Infelizmente, essa é a realidade de muitas salas de aula, empresas, ambientes corporativos.

Meus amigos, muito mais do que simples profissão, a docência é missão de vida. É uma atividade, fundamentalmente, fraterna. Nos limites do que nos compete, é nosso dever intervir. A própria BNCC reforça esse compromisso nas diversas ocasiões em que, por exemplo, enfatiza que os alunos precisam saber trabalhar em grupos na resolução de problemas do mundo real. Uma prática pedagógica que se baseia na competição e no louvor ao mérito pode até alcançar excelentes resultados nos vestibulares, mas o custo social desse investimento é impagável. Afinal, se a regra é ver o outro como adversário, continuaremos negligenciando o bem comum. Continuaremos formando alunos que, no futuro, trabalharão focados em resultados, na premiação pelo mérito, na ascensão social a qualquer preço, incapazes de verem uns aos outros de modo fraterno.

 

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental.
E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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