Edição 119

A fala do mestre...

O papel do gestor em um ambiente de superação

Leo Fraiman

pessoas_livros_biblioteca_AdobeStock_218745255_topvectors_3Você já reparou como há lugares muito agradáveis de estarmos? Todos temos em nossa casa aquele cantinho onde nos sentimos bem, pode ser um sofá da sala, o nosso lugar na mesa de jantar, aquele cantinho onde nossa leitura flui melhor. Assim como dentro do nosso próprio lar vamos escolhendo, naturalmente, nosso lugar, em outros ambientes também podemos sentir isso, e é justamente por essa razão que nos sentimos “em casa” em certos lugares.

pessoas_livros_biblioteca_AdobeStock_218745255_topvectors_4Marc Augé, um filósofo francês, autor da obra Não lugares, descreve o não lugar como aquele ambiente no qual não nos sentimos integrados, percebidos, abraçados, onde não há aconchego ou familiaridade. Isso costuma acontecer em repartições públicas e lugares grandes e transitórios, como aeroportos e estações rodoviárias. Esses são os não lugares. Hoje se sabe que um ambiente humanizado e feliz é altamente impactante para a saúde e, consequentemente, o sucesso profissional. Nicholas Christakis e James Fowler, autores do livro O poder das conexões, mostram que isso é tão relevante que chegamos a ser influenciados por pessoas de até 6 graus de distância de nós. Explico: sua vizinha anda brigando muito com o marido, e a melhor amiga dela está com depressão. Isso tende a afetar você no momento em que cruza com ela no elevador ou a vê de cara fechada no prédio. Não minimize essa influência, porque esse impacto exercido em você tenderá a reverberar em outras pessoas.

Somos todos interdependentes, e é a partir das nossas conexões que o nosso cérebro funciona de uma maneira livre, ágil, criativa ou o contrário disso.

O desafio, porém, é perceber que tudo isso se processa de uma maneira muito sutil, inconsciente até. Muitas vezes, não percebemos porque, “do nada”, nos sentimos irritados, tristes ou até desanimados. Quantos de nós estamos bem, tranquilos, em paz e, depois de poucos minutos conversando com alguém ou ao sair de uma reunião, percebemo-nos carregados, tristes ou irritados? Isso é o poder das conexões. Elas nos afetam. O nosso eu, na verdade, é constituído por todos os demais com quem convivemos, e não é possível ficar completamente alheio ao mundo em que estamos.

David Servan-Schreiber, em sua obra Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise, mostra, inclusive, que o ritmo de batimento do nosso coração gera uma espécie de energia que pode atrair ou repelir quem está ao nosso lado, e essa seria uma das razões que explicaria por que, às vezes, depois de sentar poucos minutos ao lado de alguém, nos sentimos “em casa”, que ali é nosso lugar, chegando mesmo a dizer: “Nossa, com você me sinto bem, me sinto vivo”, e o outro então diz: “Você mora em meu coração”. Isso acontece todos os dias, mesmo por meio de telas. Podemos influenciar e ser influenciados, de maneira consciente ou inconsciente.

Existe uma grande diferença entre o líder e o chefe. O lídepessoas_livros_biblioteca_AdobeStock_218745255_topvectors_1r comanda; já o chefe manda. O líder percebe como seu papel servir à equipe; o chefe, muitas vezes sem perceber, tenta se servir dela, assentado em seu cargo. O líder acredita que a soma é maior do que as partes e fica feliz quando sua equipe alcança resultados, supera marcas e vai além. Já o chefe, quando isso acontece, acredita que não fizeram mais do que a obrigação, é rápido em criticar, muitas vezes de forma pública. O líder, ao contrário disso, elogia em público e orienta no particular, ajudando seus liderados a entenderem como melhorar da próxima vez ou que ajustes se fazem necessários para o alcance da superação.

Fica fácil perceber que líderes têm uma chance muito maior em construir lugares, enquanto chefes, muitas vezes, acabam construindo não lugares, podendo até se tornar uma influência tóxica, especialmente quando não percebem que estamos todos hoje vivendo um momento delicado em nossas famílias, em nosso cotidiano.

O papel do gestor é crucial para a construção de um ambiente de superação. Ele é a cara da organização, ele é o responsável pelo espírito, pelo astral da equipe. É sua responsabilidade acolher, respeitar, humanizar e valorizar cada pessoa por trás do crachá, cada ser humano por trás do cargo. Ele é o grande responsável pela construção do amanhã. Começar uma reunião com um assunto mais leve, um elogio, uma história inspiradora; perguntar com desejo de saber como está o outro; elogiar boas práticas; criar momentos em que um professor aprende com o outro; promover rodas de conversas; criar ações para cuidar da saúde mental da equipe;pessoas_livros_biblioteca_AdobeStock_218745255_topvectors_2 tudo isso segue na direção da construção da escola como um lugar de superação.

Imagine o professor de História trazendo uma contribuição sobre personagens resilientes ao longo dos tempos. Imagine o professor de Educação Física trazendo pílulas de autocuidado em tempos de ensino híbrido. Imagine um professor de Geografia promovendo um sarau cultural em que todos possam falar de si e de suas riquezas internas. Imagine cada um dos seres humanos que trabalham em sua escola trazendo uma pequena contribuição para aquecer o coração uns dos outros e criar não uma fogueira de vaidades, mas, sim, uma grande chama pela vida dentro de sua escola. Imaginou? Agora mãos à obra e construa em sua escola um bom lugar para viver, conviver e trabalhar.

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Papirus, 1994.

CHRISTAKIS, Nicholas; FOWLER, James. O poder das conexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

SERVAN-SCHREIBER, David. Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicação nem psicanálise. São Paulo: Sá, 2016.

FRAIMAN, Leo. Superação e equilíbrio emocional – 35 caminhos para enfrentar os novos tempos. Belo Horizonte: Autêntica; São Paulo: FTD, 2020.

FRAIMAN, Leo; SASSI, Erlei Jr.; SASSI, Fernanda Martins; COELHO, Christian Rocha; SANCHES, Wagner; CHRIST, Claudia; PONTES, Pedro Marques Lopes. O efeito Covid-19 e a transformação da comunidade escolar. Belo Horizonte: Autêntica; São Paulo: FTD, 2020.

Leo Fraiman é psicoterapeuta, palestrante internacional, escritor e autor de mais de vinte livros, dentre os quais se destaca a Metodologia OPEE (Projeto de Vida e Atitude Empreendedora), presente em mais de 1.500 escolas no Brasil. Foi conferencista na ONU no Simpósio Internacional – Formando Lideranças para o Desenvolvimento Futuro, em Genebra/Suíça. Com mais de 30 anos de carreira, Leo Fraiman foi membro do Comitê Mundial de Educação para a Autonomia, em Paris; ganhador do Prêmio Shift – Agentes Transformadores com o case da Metodologia OPEE; e, atualmente, é autor aprovado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) com a obra Pensar, sentir e agir.

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