Edição 137

Matéria Âncora

O que a ansiedade é (e o que não é)

Tracy Dennis-Tiwary

O Dr. Scott Parazynski e seus colegas no ônibus espacial viajavam a quase 30 mil quilômetros por hora saindo da atmosfera da Terra. Seu destino era a Estação Espacial Internacional, um centro de pesquisa científica, um marco na exploração do sistema solar e a maior estrutura que o ser humano já colocou no espaço. Para muitas pessoas, a Estação Espacial representa o ápice das realizações humanas.

Na época da missão, em 2007, Scott já era um veterano, com quatro voos em ônibus espaciais e várias atividades extraveiculares — caminhadas espaciais — em órbita. Após se aposentar da Nasa, ele se tornou a primeira pessoa a ter ido ao espaço e chegado ao topo do Monte Everest. Estamos falando de alguém que se sente confortável em correr riscos. Aquela missão, porém, tinha um enorme peso adicional. Ela fora adiada por três anos depois do desastre com o ônibus espacial Columbia, a espaçonave que se desintegrou ao reentrar na atmosfera, matando todos os sete tripulantes.

Mas, para Scott e sua equipe, a missão era mais importante do que o perigo em potencial. Eles iriam entregar e instalar um componente essencial da Estação Espacial, que conectaria e unificaria os laboratórios espaciais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, oferecendo mais energia e recursos para a manutenção da vida, além de expandir significativamente seu tamanho e suas capacidades.

Após uma semana de instalações e reparos de rotina, as coisas tomaram um rumo inesperado. Scott e um colega tinham acabado de instalar dois painéis solares enormes para gerar energia. Mas, quando eles foram abertos e estendidos pela primeira vez, um cabo-guia enroscou, causando dois rasgos grandes. Era um problema sério, porque os danos impediam os painéis de abrir por completo e gerar energia suficiente para fazer seu trabalho.

Com o destino da missão sobre seus ombros,
qual havia sido o segredo para o sucesso?
A resposta? Ansiedade.

Para consertar os rasgos, a equipe precisou improvisar um cabo compridíssimo, que prenderia Scott na extremidade de um guindaste e o ligaria — pelos pés — ao braço robótico da estação. Preso ao equipamento, ele demorou 45 minutos para se deslocar 30 metros junto à asa e alcançar os painéis danificados. Suas habilidades como cirurgião foram essenciais para que ele cortasse o cabo enrolado cuidadosamente e instalasse estabilizadores para reforçar a estrutura.

Após sete horas de roer as unhas, a missão foi um sucesso. A tripulação da estação e a equipe na Terra deram gritos de alegria quando os painéis consertados se expandiram por completo. A foto em que Scott parece voar acima das brilhantes placas solares cor de laranja é uma imagem icônica da intrépida exploração espacial. Dizem que essa realização inspirou a cena do perigoso conserto da nave no filme Gravidade.

Quase oito anos depois dessa celebrada façanha, tive o grande prazer de conversar com Scott no palco do programa Brainwave, no Museu de Arte Rubin, em Nova York. Alto, louro e robusto, ele parece um herói americano da década de 1950. E também se comporta como um, com seu sorriso tranquilo e sua humildade sincera.
Perguntei a Scott como ele tinha conseguido manter a calma naquele dia, com apenas um traje espacial entre ele e o vazio do espaço. Com o destino da missão sobre seus ombros, qual havia sido o segredo para o sucesso?
A resposta? Ansiedade.

Ansiedade e medo

É provável que eu não precise lhe dizer o que é ansiedade. Trata-se de uma emoção essencialmente humana, nossa companheira desde que o Homo sapiens começou a caminhar ereto. A ansiedade ativa nosso sistema nervoso, deixando-nos tensos e aflitos, com o comum frio na barriga, o coração disparado e pensamentos a mil. A palavra, originada dos termos em latim e em grego antigo que significam sufocar, dolorosamente constrito e inquieto, sugere algo desagradável, uma mistura de fatores físicos e emocionais — um nó na garganta, o corpo paralisado de medo, a mente empacada pela indecisão. Foi apenas no século XVII que essa palavra passou a ser usada em inglês para descrever a gama de pensamentos e sentimentos que hoje reconhecemos como ansiedade: preocupação, temor, angústia e nervosismo sobre situações cujo resultado seja incerto.

Em geral, sabemos por que estamos ansiosos. O médico ligou dizendo que precisamos fazer uma biópsia. Estamos prestes a subir no palco diante de uma multidão de 500 desconhecidos para apresentar uma palestra que pode mudar nossa carreira. Abrimos uma carta da Receita Federal informando que nossa declaração de Imposto de Renda caiu na malha fina. Em outros momentos, a ansiedade é mais indefinível e não tem um motivo ou um foco óbvio. Assim como um alarme persistente e enlouquecedor, essa ansiedade difusa nos informa que algo está errado, mas não conseguimos encontrar a origem do bipe.

Seja ela geral, seja ela específica, a ansiedade é o que sentimos quando algo ruim pode acontecer, mas ainda não aconteceu. Ela tem dois ingredientes essenciais: sensações físicas (inquietação, tensão, agitação) e pensamentos (apreensão, preocupação, temor de um perigo que podemos encontrar dobrando a esquina). Juntando as duas coisas, é fácil entender por que foi batizada em homenagem ao sufoco. “Para onde eu vou? O que devo fazer? Será pior se eu virar para a esquerda ou para a direita? Talvez fosse melhor eu me fechar e desaparecer completamente.”

Assim como um alarme persistente e
enlouquecedor, essa ansiedade difusa nos
informa que algo está errado, mas não
conseguimos encontrar a origem do bipe.

A ansiedade é experimentada não apenas como uma sensação no corpo, mas também como uma qualidade dos nossos pensamentos. Quando estamos ansiosos, nosso foco se estreita, ficamos mais concentrados e atentos aos detalhes e tendemos a ver as árvores, e não a floresta. Emoções positivas têm o efeito oposto: elas ampliam nosso foco para termos uma noção da situação como um todo em vez de enxergarmos apenas os detalhes. A ansiedade também tende a acelerar nossa mente, fazendo com que nos preocupemos e nos preparemos para possibilidades negativas.

Apesar de o temor geralmente ser a sensação dominante que acompanha a ansiedade, também ficamos ansiosos quando desejamos algo. Fico ansiosa para embarcar no avião que me levará para minhas férias mais que merecidas na praia — e é bom que nenhum atraso ou tempo ruim fique no meu caminho! Esse tipo de ansiedade é um frisson entusiasmado por um futuro desejado. Por outro lado, não fico ansiosa para uma confraternização de fim de ano em que, com certeza, vou encontrar as mesmas figuras de sempre bebendo demais. Já sei que não vou me divertir. Mas não importa se é por causa do temor ou da empolgação, nós só ficamos ansiosos quando temos alguma expectativa e nos importamos com o que o futuro nos reserva.

Tanto a ansiedade quanto o medo jogam a mente em estados parecidos:
foco muito estreito, atenção aos detalhes e prontidão para agir.

Então, por que ansiedade não é a mesma coisa que medo? Costumamos trocar uma palavra pela outra, já que ambas causam inquietação e provocam reações de luta ou fuga — a descarga de adrenalina, o coração acelerado e a respiração rápida. Tanto a ansiedade quanto o medo jogam a mente em estados parecidos: foco muito estreito, atenção aos detalhes e prontidão para agir. O cérebro se prepara, e o corpo fica a postos para entrar em ação. Mas existe uma diferença.

Outro dia, eu estava revirando uma velha caixa guardada no sótão. Minha mão esbarrou em algo quente e peludo que se mexeu. Pulei para trás com uma agilidade que eu não teria considerado possível e empurrei a caixa para longe. Pesquisas sobre a resposta humana ao susto mostram que levei apenas algumas centenas de milissegundos para reagir. Meu coração ficou disparado, comecei a suar e, com certeza, senti-me mais desperta e alerta do que segundos antes. No fim das contas, a criatura na caixa era um pequenino rato-do-mato.

Minha resposta ao rato foi o medo. Só que eu não tenho medo de roedores. Acho que os ratos-do-mato são fofos, uma parte importante do nosso ecossistema. Mas o fato de eu não achar que o rato me morderia não fez diferença para a minha resposta de medo. O medo não estava interessado em debater os méritos ou a fofura do rato-do-mato nem em saber se eu realmente precisava pular para trás tão rápido. E isso é bom, porque a minha resposta automática teria sido útil caso a criatura na caixa fosse um escorpião — da mesma forma que o reflexo de afastar a mão após tocar uma panela com água fervente me protege de me queimar com mais gravidade.

Assim como um alarme persistente e
enlouquecedor, essa ansiedade difusa nos
informa que algo está errado, mas não
conseguimos encontrar a origem do bipe.

Meu medo foi um reflexo. Assim como o do ratinho, que correu pela caixa e se encolheu em um canto para evitar ser detectado. Em nenhum momento eu ou o ratinho sentimos ansiedade em relação a um futuro incerto. O perigo estava no presente imediato, e nós dois tivemos reações automáticas e rápidas para lidar com ele (apesar de, mais tarde, eu ter dado ouvidos à minha ansiedade sobre deixar um roedor solto dentro de casa e tê-lo transferido para um campo aberto).
Obviamente, a vida emocional humana é bem mais complicada que as reações involuntárias de medo, raiva, tristeza, alegria e nojo. A ciência identifica estas como nossas emoções básicas, ou primárias. Em geral, considera-se que elas tenham origem biológica e sejam universais em sua expressão. Os animais compartilham essas emoções conosco — para você ver quão fundamentais alguns sentimentos são.

Então, temos as emoções complexas, que incluem luto, arrependimento, vergonha, ódio e ansiedade. As emoções básicas são os elementos constitutivos das complexas, que transcendem o instinto: elas são menos automáticas e mais passíveis de serem dispersadas por nossos pensamentos. Talvez eu fique ansiosa na próxima vez em que mexer em alguma caixa no sótão, perguntando-me se encontrarei outro amiguinho peludo, mas posso me tranquilizar, pensando que seria improvável isso acontecer de novo.

É provável que os animais não sintam emoções complexas como a ansiedade da mesma maneira que os seres humanos. Meu ratinho não é capaz de imaginar vividamente um futuro em que mãos gigantes surgirão do nada e o removerão da segurança do ninho. Se fosse, isso o tornaria o Jean-Paul Sartre dos roedores, reclamando que o inferno são os outros ratos, recolhendo-se à sua caixa solitária e se debatendo com a angústia existencial enquanto espera pela aparição da próxima mão. Independentemente disso, só podemos saber com certeza que nosso encontro o ensinou a ter medo de mãos caso um dia as encontre de novo, e esse medo desaparecerá assim que ele achar um esconderijo em um cantinho quente e seguro.

O medo é a reação imediata e certa para um perigo real no momento presente, que acaba quando a ameaça desaparece. A ansiedade é a apreensão sobre um futuro incerto e imaginado e a vigilância, que nos mantém num estado de alerta total. Ela ocorre nos intervalos — entre descobrir que algo ruim pode acontecer e a concretização desse fato; entre fazer planos e se ver impotente na hora de tomar uma atitude, de lutar ou fugir para escapar do perigo como os animais fazem. A única coisa que podemos fazer é esperar receber o resultado da biópsia, descobrir se a Receita Federal encontrou alguma irregularidade e ver se a palestra será encerrada ao som de aplausos ensurdecedores ou de meia dúzia de palmas desanimadas. A ansiedade existe porque sabemos que estamos caminhando lenta e inexoravelmente para um futuro que pode ser feliz ou infeliz. Essa é a incerteza que torna difícil suportá-la.

Referência

DENNIS-TIWARY, Tracy. Não tenha medo da ansiedade: aprenda a administrar o estresse e a transformá-lo em aliado na resolução de problemas. Rio de Janeiro: Sextante, 2023. p. 1–12.

cubos