Edição 117

Como mãe, como educadora, como cidadã

Paciência, impaciência e tolerância

Zeneide Silva

Vou contar dois casos que aconteceram comigo e em que percebi claramente que, mesmo diante de todo esse período de pandemia, algumas pessoas ainda continuam sendo piruá (piruá é o milho que, mesmo no fogo, na dor, não muda). Vamos lá.

1° caso
Voltando para casa, vi um idoso desejando atravessar a faixa de pedestres. Coloquei o alerta e freei em frente à faixa, deixando o idoso atravessar. Enquanto atravessa, levantava a bengala e gritava para um carro que estava atrás do meu — que buzinava bastante, impacientemente. Fiquei no meio dos dois, eles se agrediam verbalmente. A impaciência de ambos foi horrível e chocante. Mesmo quando já estava na calçada, o idoso continuava a xingar, e o jovem motorista saiu xingando também.

2° caso
Numa mesma tarde, vi duas vezes a mesma cena de impaciência, intolerância e arrogância. Estava lanchando com uma amiga numa livraria; do local onde estávamos, víamos o estacionamento. Uma mulher, senhora A, já estava para estacionar, e uma outra senhora, sem avisar, entrou na vaga, arriscando-se a bater no carro. Começaram a discussão: a que estacionou, simplesmente, foi embora.
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A senhora  encostou o carro e ficou esperando por uma vaga. Como eu já tinha pagado o lanche, chamei minha amiga para sairmos e oferecer a vaga para a senhora A, que estava aguardando. Fui abrir o carro enquanto minha amiga avisava à senhora A sobre a vaga. De repente, aparece uma outra senhora, que passo a chamar de senhora B, querendo ficar na minha vaga, a que estava sendo aguardada pela senhora A. Desci do carro e fui explicar que havia cedido a vaga para aquela senhora, e que ela já estava aguardando. A senhora B ficou revoltada e disse: — Vou colar meu carro atrás do seu; aí eu quero ver quem vai sair. Você não é dona do estacionamento. Cheguei mais perto dela e disse: — Deixe disso. Coloque seu carro ali que, daqui a pouco, o manobrista vem. Mas ela continuava a gritar; quanto mais gritava, mais eu pedia calma. A essa altura, a confusão era entre mim e a senhora B. A senhora A dizia: — Deixe, eu aguardo outra vaga. A senhora B tirou o carro da rua e foi colocar no local onde eu havia indicado. Entrei no carro, retirei-o do estacionamento, e a senhora A, enfim, conseguiu estacionar. Quando penso que estava tudo resolvido, a senhora B desceu do carro e foi brigar com a senhora A, que estava descendo do carro. A senhora B era uma idosa, com dificuldade de andar, sem máscara e superignorante. Passei a tarde pensando nessa senhora B e me lembrei de uma música que diz assim: Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. A música é Tocando em frente (Almir Sater e Renato Teixeira); sua letra traz a mensagem de alguém que, depois de alguns percalços, aprendeu a encarar a vida de forma leve, seguindo o fluxo, para se permitir amar e ser feliz com as coisas simples. Porém, esta não era a realidade da senhora B, ela, já com idade avançada, continuava sendo impaciente e intolerante.briga_discussao_desentendiemnto_shutterstock_1699850458_rumka_vodki_[Convertido]-05

Estamos vivendo numa época em que as pessoas não oferecem quase nada, mas querem receber quase tudo. É um tempo difícil, de muitas incertezas, de muitos medos. Acredito que devemos, como educador e educadora, organizar projetos que trabalhem o socioemocional, para que tenhamos, no futuro, mais pessoas pacientes e tolerantes. Que seja desejo de todos nós!

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