Edição 118

Paulo Freire na escola: ensinar exige respeito aos saberes e à autonomia do ser dos(as) educandos(as) e educadores(as)

Targelia de Souza Albuquerque

Vamos tecer o caminho, rememorando…

Este texto integra as ações do Projeto Paulo Freire na Escola: Fundamentos e Práxis e representa passos de uma caminhada formativa rumo ao Centenário de Paulo Freire. É um convite a cada professor(a) para que conheça o pensamento de Paulo Freire, o seu legado, para que, juntos(as), concretizemos uma práxis emancipatória na nossa escola, em especial na sala de aula com os(as) educandos(as).

Das memórias freirianas, podemos avivar e avaliar as nossas trajetórias e, na tessitura do passado com o presente, ousarmos fazer da vida uma arte universal. Será com fios e franjas diversos que a estética de uma educação como prática de liberdade poderá ser (re)criada, trançada como uma rede de relações sociais emancipatórias que vão se concretizando, como práticas pedagógicas em defesa da vida dentro e fora da escola. Nós temos a responsabilidade de sujar as nossas mãos de barro, de colocar os pés no chão das diferentes realidades e abrir trilhas para que, com os(as) caminhantes, possamos construir uma educação como prática de liberdade substantivamente democrática.professor aluno

Paulo Freire, no livro Essa escola chamada vida, explica que há uma grande diferença entre a adjetividade democrática e a substantividade democrática. A adjetividade é ilusória; feita para adornar ou mascarar a realidade e, muitas vezes, pode paralisar as pessoas, fazendo-as acreditar que vivem na democracia, impedindo-as de desvelar as contradições sociais. Essa adjetivação vem sempre acompanhada de uma “conformidade histórica”, de fatalismos que precisam ser desvelados por quem acredita, defende e luta pela verdadeira democracia. A substantividade democrática é comunhão entre pessoas, povos e nações; é imersão crítica na realidade e emersão lúcida e solidária; é coletiva e co-laborativa (sic); é trabalho que sintetiza múltiplas relações culturais e sociais, em que a criticidade e eticidade, de mãos dadas, orientam as tomadas de decisão, a partir do desvelamento das contradições e enfrentamento dos conflitos; é possibilidade histórica de mudança. A substantividade democrática exige acolhimento, respeito aos saberes e à autonomia de ser dos(as) educandos(as), “com quem aprendemos e a quem ensinamos na prática comum da liberdade” (FREIRE e BETTO, 2000, p. 64).

O processo educativo se faz em comunhão. Paulo Freire destaca que os(as) professores(as) ensinam e aprendem ao mesmo tempo, coparticipando de um belo processo de ampliação e aprofundamento de saberes culturais, sociais, entre outros. Essa relação pedagógica precisa, assim, ser semeada, regada, cuidada, para assegurar que “as rosas floresçam na primavera” e não sejam impedidas de serem-mais por causa de circunstâncias indesejadas. Respeitar os saberes e a autonomia do ser dos(as) educandos(as), garantindo-lhes o direito a aprendizagens comprometidas com a qualidade social, é caminhar com Paulo Freire como (co)autores(as) de uma prática educativa emancipatória (FREIRE, 2000 b).

Nessa perspectiva, chamamos a atenção à formação da consciência crítica, que se constrói em diferentes espaços sociais e, de modo singular, na situação de aprendizagem em sala de aula e em demais vivências escolares, em especial quando educadores(as) e educandos(as) compartilham pensares, sentires e fazeres. Uma análise crítica e colaborativa da relação entre os saberes de experiência feitos dos(as) educandos(as) e os conteúdos do currículo formal poderá ampliar as possibilidades de apreensão e apropriação do conhecimento por parte desses(as) estudantes na escola e, por que não dizer?, dos(as) próprios(as) educadores(as). A avaliação formativa e emancipatória, da qual a autoavaliação é uma de suas dimensões, com certeza instrumentalizará o processo pedagógico em favor do direito à aprendizagem e formação plena.

A problematização, portanto, é uma estratégia pedagógica necessária à prática educativa ética. Nós professores(as) precisamos nos perguntar: Em que mundo eu vivo? No que eu acredito e defendo? Como me vejo como sujeito humano educador(a)? Em que medida a fé e o imenso amor que devemos ter à gente, a todas as gentes, move meu fazer docente em sala de aula, na escola? Quais as minhas concepções sobre preconceitos e discriminações? Como compreendo o direito aos saberes e à autonomia do ser dos(as) educandos(as) e qual a minha prática para anunciar esse respeito e denunciar a sua transgressão ética? Tenho coragem e determinação para enfrentar os meus equívocos e me (re)fazer no próprio e contínuo processo formativo ao longo da vida? Sou capaz de superar a relação vertical que impõe barreiras interpessoais, culturais e sociais entre “os que sabem e os que não sabem” em um dado contexto? Valorizo as diferentes culturas e manifestações dos seres sem tentar emitir juízos de valor e colocar umas em destaque e marginalizar ou segregar outras? Mas sou capaz também de analisar as situações com criticidade e demonstrar ser radical a qualquer ato que transgrida a ética universal do ser humano, posicionando-me em defesa da vida, justiça e liberdade? Em síntese, quais as minhas concepções sobre ensinar e aprender? Eu sou capaz de me colocar no lugar de aprendiz, olhá-lo(a) e olhar o mundo a partir de seu ponto de vista? Como professor(a), estou disposto(a) a (re)orientar a prática pedagógica em favor daqueles(as) que mais precisam de ajuda, porque sofrem na carne a opressão ou por terem dificuldades e/ou deficiências específicas que precisam de um trabalho de inclusão? Sou capaz de romper com o imobilismo, fatalismos e assumir com eles(as) os processos de construção da autonomia e emancipação social?

Caminhar com Paulo Freire na escola é assumir que o ponto de partida do processo educativo é a prática social dos(as) educandos(as), mas o ponto de chegada para novas partidas é a práxis transformadora (FREIRE e BETTO, 2000, p. 77). Esta precisa de seres pensantes e atuantes para se consolidar como história, “[...] onde a exigência de justiça não signifique nenhuma limitação da liberdade, e a plenitude da liberdade não signifique nenhuma restrição do dever de justiça” (Idem, p. 95).

1. Respeito aos saberes e à autonomia do ser dos(as) educandos(as): uma exigência ética

Caros(as) leitores(as), compartilho com vocês, neste momento, um pouco da minha experiência em processos de formação docente como ponto de partida para a compreensão dos conceitos: Respeito e Tolerância em Paulo Freire. Durante uma roda de diálogo, perguntei a alguns(algumas) docentes sobre o que significava “respeito aos(às) educandos(as)”?

Como Paulo Freire, tive um de meus espantos quando ouvi as seguintes falas: “Temos de respeitar cada educando do jeito que ele é”; “Nós não temos nada com a vida particular de ninguém, cada um tem seus credos, suas convicções e seu modo de se portar no mundo”; “Eu que não vou me meter para depois a família vir na escola e montar barraco”. Poucas foram as falas que relacionaram esses conceitos com a questão da ética, do direito à vida, diferença, justiça e liberdade em uma perspectiva político-pedagógica. Os ensinamentos freirianos nos possibilitam imergir nessa dimensão e sermos corresponsáveis pela produção do “respeito aos saberes e à autonomia do ser dos(as) educandos(as). Este que se concretiza em uma práxis radical contra qualquer forma de preconceito e discriminação cultural e social. Respeito implica em compromisso com cada sujeito humano para que ele(a) possa ser-mais; significa responsabilidade com o(a) outro(a) para que ele(a) se reconheça como sujeito de direitos no mundo, em especial um ser de autonomia e liberdade.

Paulo Freire nos ensina que “É fundamental respeitar o princípio de que o processo educativo é um processo coletivo” (FREIRE e BETTO, 2000, p. 73). Nesse processo, os(as) educadores(as) têm uma parcela de trabalho e muita responsabilidade na criação de “mecanismos pedagógicos de expressão e explicitação das lutas, das dúvidas, das incertezas, da palavra” dos(as) estudantes. (Idem). Isso é respeito, e este precisa estar expresso no núcleo do processo educativo, tanto na prática social geradora como nos processos de transformação; na práxis emancipatória.

Respeitar é deixar falar e parar para ouvir, demonstrando uma atenta escuta; é ter coragem da aproximação criativa e desveladora, que possibilita o conhecimento de cada estudante em sua singularidade e também como parte de um coletivo cultural e social; respeitar é não permitir que se sobreponha ao conhecimento do ser humano um currículo oficial, muitas vezes, acrítico, a-histórico, posto para homogeneizar visões e burocratizar mentes (FREIRE E HORTON, 2009).

Necessário se torna, portanto, criar espaços de encontro, construir o diálogo para conhecer os elementos da prática social dos(as) discentes. É indispensável, como afirma Freire, extrair os elementos fundantes da prática social e problematizar para conhecer com profundidade os(as) estudantes: “[...] quem são, o que fazem, o que sabem, o que vivem, o que querem, que desafios enfrentam”, entre tantos outros aspectos (FREIRE e BETTO, 2000, p. 77).

Uma preocupação de Paulo Freire é com a defesa do respeito verdadeiro, autêntico. Ele se opõe ao “respeito manhoso”, usado como uma tática de pseudoacolhimento e/ou convencimento para a dominação.

Respeito é um constitutivo da Pedagogia Paulo Freire diretamente articulado à questão da tolerância. A tolerância nos ensina a não fazer juízos de valor e impor nossas posições. A virtude da tolerância se faz na prática do diálogo crítico, mas, sobretudo, amoroso e pleno de respeito. A tolerância e o respeito, de mãos dadas, estão presentes nas práticas de uma ética universal do ser humano. Ser tolerante e respeitar a história de vida e a prática social originária não significa conivência com atitudes que negam a substantividade democrática e tentam desqualificar a humanização do ser humano ou destituir direitos. A tolerância, explica Paulo Freire, ensina-nos a superar preconceitos, “a conviver com o diferente, para, no fundo, brigar melhor com o antagônico” (FREIRE e BETTO, 2000, p. 56).

Ao desejarmos que Paulo Freire entre na nossa escola e ilumine as práticas educativas (re)criadas no cotidiano da sala de aula ou em diferentes espaços educativos, precisamos cultivar em cada um de nós — educadores(as) e estudantes — um sentimento de pertença que nos tire do conformismo e mova à transformação. Na medida em que assumimos de modo corresponsável nossos compromissos com a aprendizagem dos(as) estudantes em uma perspectiva de educação para a qualidade social, então estamos construindo um projeto de educação emancipatória.

Os sujeitos dessa aprendizagem, ora na condição de docente, ora na de discente, precisam se reconhecer como seres humanos incompletos, inconclusos e inacabados para coparticiparem desse permanente processo educacional de busca. É um processo de imersão na realidade, mas, ao mesmo tempo, de transcendência, de emersão crítica, de procura, de desvelamento de contradições e conflitos. Pode parecer uma atitude ingênua querer, em um passe de mágica, transformar-se e transformar o mundo. Isso é possível de acontecer e fará parte do processo, mas cabe aos professores e às professoras mediarem o processo de transitividade da consciência ingênua para a consciência crítica, analisando as possibilidades históricas e as estratégias concretas de transformação do que está dado como estabelecido e imutável.

A inquietude, às vezes, irreverência e rebeldia diante dos fatos que aparecem como verdades absolutas são saudáveis e necessárias à problematização da situação de aprendizagem, do currículo escolar, dos conflitos, das contradições. Na práxis, elas permitem a criação de um novo modo de conceber e praticar a educação, o ensino, e construir novas aprendizagens. A convocação freiriana é para construirmos e/ou consolidarmos um projeto emancipador de educação, escola, diretamente articulado a um projeto maior de uma sociedade digna, fraterna e justa. “O sonho de um mundo melhor nasce das entranhas de seu contrário.” Este sonhar coletivo pode estimular uma vontade imensa de romper com o óbvio, de descobrir coisas novas, de “fuçar”, de desvelar nuances; ele mobiliza a curiosidade epistemológica que transita da observação ao estudo sistemático, a formulações científicas, tecnológicas e conteúdos transdisciplinares (FREIRE, 2000 b, p. 133).

Paulo Freire valoriza, assim, a relação educativa dialógica que forma e nos provoca a observar as situações que deformam, em nome de falsas promessas de cidadania; situa a educação como ato político comprometido com a autonomia do ser dos(as) educandos(as); e chama à responsabilidade e a compromissos éticos para aqueles e aquelas que já avançaram na caminhada poderem ensinar com os(as) que são iniciantes no caminho. Ele insiste em colocar que “Formar é muito mais do que somente treinar o educando no desempenho de destrezas” (FREIRE, 2007, p. 14).

A prática formadora é substantivada da ética universal do ser humano. Paulo Freire declara que toda a sua Pedagogia é atravessada pela ética. Precisamos estar atentos(as), vigilantes, como educadores(as) críticos(as) para não transgredirmos a ética universal do ser humano, a ética da libertação na era da globalização, como bem relaciona Dussel (2000). Explica Freire:

A ética de que falo não é a ética menor [...] Falo, pelo contrário, da ética universal do ser humano. Da ética que condena o cinismo [...]; que condena a exploração da força de trabalho do ser humano; que condena acusar por ouvir dizer, afirmar que alguém falou A sabendo que foi dito B, falsear a verdade, iludir o incauto, golpear o fraco e indefeso, soterrar o sonho e a utopia, prometer sabendo que não cumprirá a promessa [...] (FREIRE, 2007, p. 16).

É pela ética inseparável da prática educativa que devemos lutar e trabalhar incansavelmente para não a negar nem a transgredir. A melhor maneira de integrá-la aos nossos pensares, sentires e fazeres na escola, em casa, nas relações humanas em diferentes espaços sociais é testemunhá-la, vivaz, aos educandos e às educandas, entre nós, docentes, gestores(as), funcionários(as) em nossas relações cotidianas e com eles(as). “Formação científica, correção ética, respeito aos outros, capacidade de viver e de aprender com o diferente [...] são obrigações a cujo comprimento devemos humildes, mas perseverantes, nos dedicar” (FREIRE, 2007, p. 17).

É importante salientarmos que não é concessão nem favor o que nós educadores(as) estamos fazendo a nossos(as) estudantes. Faz parte da natureza do trabalho educativo, a eticidade, o respeito à autonomia e a dignidade de cada um(a). Isso é válido também para nós e nossos pares. Se não vivenciarmos essa ética, jamais conseguiremos respeitá-los(as) nem seremos respeitados(as) por eles(as).

Precisamos trabalhar em comunhão para deixar fluírem os saberes socialmente construídos nas práticas comunitárias, em seus diferentes espaços de convivência. Há necessidade de que eles cheguem à sala de aula para se estudar a sua gênese e compreendê-los com profundidade, para até desvelar “a consciência do opressor” que pode ter se instalado nessas tessituras culturais e se corporificado nas entranhas da gente, de muitas gentes. Paulo Freire questiona:

Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes? (2007, p. 30).

Problematizar diferentes perfis sociais e modos de vida em relação a índices pandêmicos; dialogar sobre direitos e deveres e sobre as diferentes governanças e decisões políticas e a favor de quem elas são tomadas; construir problemas e identificar quais as áreas do conhecimento e/ou disciplinas que poderão auxiliar na investigação e na busca de soluções são ações pedagógicas que nascem na prática social e a elas retornam como um bem social, em direção à conquista da cidadania emancipatória (ALBUQUERQUE e OLIVEIRA, 2008).

O direito à cidadania emancipatória se realiza em uma caminhada histórica, impregnada de conflitos e contradições, mas também de possibilidades de transformação de cada ser humano em sujeito histórico, concreto e proativo, que marca a sua presença no mundo pelo reconhecimento da relevância de sua própria condição humana. A presença humanizada congrega; a relação de opressão desumaniza e fragmenta. A presença se torna presente quando os sujeitos humanizados são capazes de sonhar juntos e, no coletivo, constatar, desvelar, comparar, avaliar, decidir, romper e transformar em comunhão.

Um currículo da/na escola homogeneizador, padronizado, formatado vai castrar e aprisionar corpos e mentes. A Pedagogia Paulo Freire é fundada em uma proposta de educação como prática de liberdade. Isso significa que precisa haver lealdade e fidelidade de princípios de ambas as partes (docentes e discentes) para que a prática educativa se faça em clima de confiança e autenticidade. É importante que o professor e a professora exponham seus pontos de vista de modo crítico, mas que não queiram impor os mesmos à sua classe. Os(As) estudantes precisam compreender as diferenças de percepção dos fatos e avaliar a sua posição diante destes, sem medo de julgamentos a priori ou de retaliações. Essa postura ética deve ser construída no dia a dia da escola com todos os seus membros, em diálogo com as famílias.

2. Passos para a autonomia: como ampliar trilhas na escola em diálogo com Paulo Freire

Neste momento de nossa reflexão, sentimos a necessidade de conversar um pouco mais sobre a questão da autonomia de crianças e jovens, em especial dialogando com Kamii (2003), que se fundamenta na teoria piagetiana para explicar o conceito de autonomia em estreita relação à formação dos conceitos de ética e moral. Apresenta três princípios que devem reger a construção da autonomia de crianças e adolescentes: a) A capacidade de escolha e a decisão de crianças e adolescentes, que necessitam de relações seguras, nas quais o poder do adulto seja reduzido ao máximo possível [...]; b) Eles precisam demonstrar iniciativa, levantar ideias, problemas e questões interessantes; c) Colocar as coisas em relação umas com as outras.

Demonstraremos, aqui, como a Pedagogia Paulo Freire amplia e aprofunda esse conceito, relacionando-o à assunção cultural, à gênese do conhecimento, ao desvelamento das contradições sociais e à responsabilidade na tomada de decisões, ou seja, autonomia se torna constitutivo nuclear de uma práxis libertadora.

No seu livro Retratos vivos do cotidiano escolar: um estudo de crianças e adolescentes de camadas populares, Albuquerque (1991) estudou a questão da autonomia em processos de escolarização de crianças e adolescentes de camadas populares e constatou uma estreita relação entre autonomia, estigmatização e (des)construção de identidades sociais. Em estudo mais recente, Soares e Albuquerque (2016) aprofundaram essa temática, focando a problematização nos processos de construção da autonomia e de identidades de adolescentes e jovens, em espaço de restrição e privação de liberdade (seja na escola ou fora desta). As autoras demonstraram que a construção da autonomia e a (des)construção de identidades se configuraram como processos essencialmente pedagógicos em que a presença do(a) educador(a)-professor(a) era determinante na assunção de papéis e posturas. Este(a) conseguia mediar o diálogo, base da compreensão de si no mundo e do mundo institucionalizado e do “mundão” (sociedade). Isso possibilitava a desconstrução de identidades “negativas”, destrutivas, como também a ruptura com estigmas e explicitação da humanidade de cada ser humano ali aprisionado. “A identidade de um indivíduo está atrelada à rede de interações que ele estabelece com o meio que o cerca e como a sociedade o acolhe, rejeita e/ou estigmatiza” (SOARES e ALBUQUERQUE, 2016, p. 5).

Ficou evidente nesse estudo que a rebeldia faz parte do movimento de resistência para romper preconceitos, “rótulos”, estigmas; para exigir respeito à sua condição de ser humano; para a valorização da vida; para fazer rupturas com os preconceitos e as estigmatizações; e para concretizar a possibilidade histórica de (re)construir identidades culturais e sociais plenas — ser-mais.

Freire (2007) demonstra como o respeito à autonomia do ser dos(as) educandos(as) nas suas dimensões individual e coletiva “é absolutamente fundamental na prática educativa progressista, porque possibilita “a assunção de nós por nós mesmos”, cientes da nossa inconclusão, incompletude e inacabamento. Em seu trabalho O dilema do decente malandro, Violante (1984) também se aproxima de Freire quando aponta a necessidade de um processo educativo cujo ponto de partida seja a prática social e cujo ponto de chegada seja a autonomia e emancipação. Na sua visão, há uma urgência em se conhecer e acolher o(a) educando(a), incursionando pela sua história de vida social, seus desejos, sentimentos, suas aspirações, expectativas e pelos seus sonhos. Precisamos encontrar esse(a) estudante onde quer que ele(a) esteja e tocá-lo(a) pelo coração.

Considerações finais

A história de vida de Paulo Freire, seu legado, ensinou que é impossível assumir a vida em sua totalidade sem riscos e que só seres humanos livres são capazes de lutar pela liberdade. Essa liberdade nos permite amar e reconhecer o que é “ser amado”; possibilita desejar essa liberdade e resistir para não ser mais aprisionado. A liberdade é indissociável da luta, da conquista, da afirmação do direito à sua humanidade; liberdade é justiça, dignidade! A liberdade é nutrida pela fé profunda no ser humano, na produção de uma existência digna, fraterna e justa. Essa tessitura em rede matiza diferentes dimensões da vida dos sujeitos humanos e não humanos; do amor à natureza, do cuidado à mãe Terra e da construção da sustentabilidade do desenvolvimento no planeta.

Hoje, com tantas estimulações das mídias sociais e do uso das tecnologias no cotidiano de crianças, jovens e adultos, fica muito difícil a mobilização desses(as) para uma aprendizagem colaborativa e compartilhada. Por essa razão, precisamos estimular o desejo de aprender; ensinar com afeto e generosidade; cativá-los(as). Precisamos estar apaixonados pela vida e, parafraseando Paulo Freire, ser lembrados como quem gosta das plantas, dos animais, da natureza, da cultura, de gente. Ele nos convida a abrir as portas do nosso coração e trabalhar com-paixão, uma paixão generosa que implica no profundo respeito e amor ao ser humano.

Talvez seja muito ousado pensar assim, mas convido a todos e todas para: abrir o coração para os(as) educandos(as), sejam estes(as) crianças, jovens ou adultos; amar a nossa escola e nos apaixonar pelo lindo trabalho que realizamos a cada dia nas salas de aula, presenciais ou assíncronas. Mais do que em outras épocas, ensinar exige presença, companheirismo, firmeza, lucidez e um profundo respeito a nós mesmos(as) como professores(as) éticos(as), traduzido no respeito aos saberes e à autonomia do ser dos(as) estudantes.

Paulo Freire na escola significa caminhar com e abrir trilhas no caminho. A nossa sala de aula não pode se enclausurar em um castelo isolado dos problemas sociais. Estamos imersos até o pescoço nas problemáticas estruturais e conjunturais. Vivenciar um conhecimento-emancipação é se comprometer com a vida; portanto, somos responsáveis por manter as portas da escola abertas e, com o nosso coração, acolher estudantes, docentes e todos os(as) trabalhadores(as) da educação para construirmos uma educação substantivada de democracia em múltiplos lugares do nosso Brasil.

 

 

ALBUQUERQUE, T. de S. e OLIVEIRA, E. S. G. Avaliação da educação e da aprendizagem. Curitiba: Iesd Brasil, 2008.

ALBUQUERQUE, T. de S. Retratos vivos do cotidiano escolar: um estudo de crianças e adolescentes de camadas populares. Cascavel: Assoeste, 1991.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 35. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
___. Política e educação. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2000 (a).
___. Pedagogia da indignação. São Paulo: Unesp, 2000 (b).

FREIRE, Paulo e BETTO, Frei. Essa escola chamada vida. 11. ed. São Paulo: Ática, 2000.

FREIRE, Paulo e HORTON, Myles. O caminho se faz caminhando: conversas sobre educação e mudança social. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

KAMII, C. A criança e o número. 30. ed. Campinas: Papirus, 2003.

SOARES, M. de L. P. dos S. e ALBUQUERQUE, T. de S. Uma escola através das grades: um estudo sobre o processo de escolarização de adolescentes e jovens privadas de liberdade. Anais do IX Congresso Internacional Paulo Freire, Recife/PE, 2016.

VIOLANTE, M. L. O dilema do decente malandro. São Paulo: Cortez, 1984.

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