Edição 148
Espaço pedagógico
Transformando relatos, eternizando histórias, aprimorando a escrita
Cléa Simone Oliveira Soeiro
Em uma conversa avulsa com um estudante do Ensino Médio da escola na qual trabalho, pedi a ele que me relatasse, por escrito, algo que nunca fora esquecido de suas memórias. E quando falei de algumas práticas pedagógicas utilizadas em sala de aula para melhorar a escrita dos estudantes, propus que me autorizasse a transformar seu texto em algo mais profundo, relatando-o sem perder a essência, mas acrescentando um pouco de mistério e fantasia. Ele topou. Ao ler o texto reescrito, declarou o quanto um simples fato pode ser esmiuçado, levando a reflexões do valor da escrita na nossa vida.
A minha intenção foi levar a ele a percepção de que as nossas histórias podem ser contadas de maneira profunda, e não apenas vistas como acontecimentos passados aleatórios, praticando a escrita do modo mais natural possível.
Tenho a perspectiva de realizar essa estratégia entre estudantes, com vistas ao aprimoramento da escuta e da escrita por meio de suas próprias vivências. Compartilho com vocês o resultado, convicta de que, embora seja uma simples experiência, acredito ser uma forma de ver não só estudantes em nossos alunos, mas pessoas que, às vezes, querem apenas ter um espaço onde suas histórias sejam contadas e reformuladas. Uma voz que seja escutada por alguém em quem eles confiam.
Texto original

info@nextmars.com – stock.adobe.com
Minha mãe trabalha com aposentadoria. Um dia, nós fomos a Apicum-Açu para receber dinheiro de alguns clientes dela. Lá, surgiu a oportunidade de ela conversar com outros clientes que moravam perto da região, porém eles viviam em uma ilha, e era necessário ir de barco. Pensamos que fosse perto, mas ficava em alto-mar. Quando estávamos no meio do mar, o motor do barco parou de funcionar e começou uma forte tempestade. Eu comecei a chorar muito, pois ficamos à deriva por quase sete horas, enfrentando uma tempestade muito intensa. No final, outro barco chegou e fez o resgate.
Autor
M. M. M.
(Estudante do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Pinheirense – Pinheiro/MA)
Texto reformulado
Apenas onze anos.
Parece-me que era esta a idade que tinha quando, na mais bela companhia, isto é, ao lado da minha adorável mãe, tive uma surpreendente aventura. Aquilo foi de tirar o fôlego e talvez até capaz de findar com os suspiros de um adolescente amedrontado. Meu coração palpitava de forma estranha, e, subitamente, vi-me perdido em meio a uma situação que nunca imaginei que poderia passar.
O tempo me permitiu colocar nestas linhas esta breve história, e, quando alguém me pergunta o que posso contar de interessante, eu a trago à baila e retomo nas lembranças os detalhes da viagem que marcou a minha vida.
Não recordo o que me levou a acompanhar a minha mãe naquele dia em uma das atividades que o trabalho lhe exigia. Ela lida com pessoas de idade provecta. Para ser mais específico, e, por que não, poético, minha mãe leva esperança a essas pessoas, a tão sonhada aposentadoria. É evidente que, como é o seu trabalho, ela lucra com isso. Na verdade, não seria lucro, seria o resultado do seu esforço.
Pois bem. Ela precisou ir a uma cidade maranhense um pouco distante da nossa: Apicum-Açu, nome herdado dos Tupinambás com um significado histórico, cultural e até artístico, a meu ver. Em guarani, Apicum-Açu significa terra (açu) molhada ou lavada (apicum).

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Nessas idas e vindas, minha mãe nunca ia apenas para atender aos seus clientes já agendados, pois sempre surgiam inesperados encontros com outros idosos circunvizinhos à região que ela visitava. O caminho não era mais de terra, pois se tratava de pessoas que residiam em uma pequena ilha, e, com isso, para chegar até lá, o meio de transporte seria outro: um barco. Uma viagem de barco a essa altura trouxe para minha mente o desejo de aventurar-me. Era uma viagem inusitada. Pude perceber que alguns trabalhos parecem fáceis para quem apenas observa o retorno financeiro de outrem, mas para alcançar esses “retornos” é preciso labutar sem pensar nas consequências. Com aquele trabalho, minha mãe buscava oferecer dignidade às pessoas e a ela mesma. Talvez ela tenha me levado em sua companhia para que eu pudesse compreender o valioso sentido de “amar”. A explicação só poderia ser essa: trabalhar por vias perigosas e aventureiras por amor à sua família, aos seus filhos e a si mesma. O maior exemplo que pude ter.
Tudo parecia ir como o esperado, quando o imprevisível aconteceu. O barco, que, aparentemente, estava em ótimas condições, apresentou falhas, e o motor parou. Os sentimentos ficaram à flor da pele. E como se não bastasse, quando parados na imensidão daquele mar, fomos presenteados pela natureza com algo repentino: uma tempestade. Pense comigo: uma criança de onze anos em um barco no meio do mar, com trovões, relâmpagos, chuva; e, de minha parte, choros, muitos choros, desespero total. Como sair daquela situação que parecia não ter fim? Veio à minha mente tal indagação. Não tinha respostas, apenas a esperança. O tempo foi passando, e ficamos à deriva por um bom tempo.
Uma hora… duas… três… quatro… cinco… seis… sete… Isso mesmo! Foram sete horas no mar até que o socorro pudesse vir.
Coisas de novela, filme? Não sei explicar! Só sei que me senti, pela primeira vez, como um protagonista de uma longa história.
Para descanso de quem estava perdido, não em sonhos e muito menos em aventuras, outro barco surgiu, resgatando-nos um a um. Sorrisos amarelos, leves, e o alívio tomou conta por completo de cada rosto. Todos estavam sãos e salvos, e só os gestos de gratidão eram presença naquele momento.
E para quem não acredita em história de pescador, fiquei com a leve lembrança de que tudo aquilo foi apenas um sonho. Será?
Cléa Simone Oliveira Soeiro é professora das redes pública e privada do Maranhão e assistente pedagógica do Colégio Pinheirense, em Pinheiro/MA, escola parceira da Editora Construir.
E-mail: clea_simone@hotmail.com
