Edição 141
Refletindo
O relógio
Itamar Vian e Aldo Colombo
Certa vez, um relógio começou a preocupar-se:
“Tenho de bater 2 vezes por segundo, 120 vezes por minuto, 7.200 vezes por hora, 172.800 vezes num dia e 63.072.000 vezes num ano. Meu Deus! Em dez anos baterei 630.720.000 vezes. Isso é demais para mim.” E desesperou-se. Após chorar algum tempo — se é que os relógios choram —, teve um lampejo de sabedoria: “Não posso bater 630.720.000 vezes, mas posso perfeitamente dar as duas pancadinhas deste segundo.” Ele fez isso. Já são mais de vinte anos que ele continua batendo duas vezes por segundo.
Uma das piores doenças modernas é o estresse. No passado, era confundido com depressão. Hoje, grande parte da população vive no limite, vive estressada. Como não dorme direito, perde em qualidade profissional e em alegria de viver. As pessoas adotam a mesma lógica inicial do relógio: preocupadas com milhões de batidas que precisam dar, esquecem-se de que o importante são as batidas deste segundo.
Os alcoólatras anônimos, por exemplo, buscam a superação de seu problema nessa ótica. É difícil alguém assumir a postura de que nunca mais vai beber. Imagina mil situações: festas, reuniões de amigos, um copo de cerveja gelada…, nas quais se torna impossível acreditar que possa deixar a bebida de lado, e diz: “Nas próximas 24 horas, ou menos, nas próximas 12 horas não vou beber!”. E assim se constroem os dias, semanas, meses, anos e a desejada sobriedade. Cada dia renovando seu propósito por apenas algumas horas.
Esse método serve para outras dimensões: por um dia, posso ser bom, sorridente, compreensivo, estudioso, cumpridor dos deveres e aceitar o colega antipático ou o vizinho implicante. Só por um dia posso manter limpo meu ambiente de trabalho, reservar um tempo maior para rezar, estudar ou fazer tarefas atrasadas. Por apenas um dia, o pai pode dispor de um tempo exclusivo para os filhos ou para visitar um amigo doente.
O segredo está em planejar e executar cada tarefa diariamente, como se fosse a primeira e a última vez. Não se trata de alienação ou engano. O passado já está fora de meu alcance, e o futuro, ignorado. Meu, inteiramente meu, é o presente. Minha obrigação é dar as duas pancadinhas deste segundo.
Para refletir:
• Você vive preocupado com o que possa acontecer no futuro?
• Você planeja as atividades e as tarefas de cada dia, semana, mês e ano?
VIAN, Itamar; COLOMBO, Aldo. Histórias de vida: parábolas para refletir. São Paulo: Paulinas, 2005. Coleção Sabor de vida.
