Edição 141
Como mãe, como educadora, como cidadã
Não quero pizza, quero respeito!
Zeneide Silva
Minha filha sempre foi uma jovem determinada e cheia de energia. Todas as manhãs, ela saía para caminhar pelas ruas do nosso bairro, aproveitando o início do dia para cuidar de si mesma. No entanto, havia um ponto em seu trajeto que a deixava desconfortável: uma pizzaria onde o segurança constantemente a assediava com comentários e olhares invasivos. Infelizmente, o comportamento persistiu, e chegou um momento em que ela não pôde mais tolerar. Decidida a pôr fim àquela situação, entrou na pizzaria e pediu para falar com o gerente. Com firmeza, relatou o comportamento inadequado do segurança e exigiu respeito. O gerente, visivelmente constrangido, prometeu tomar providências e, como forma de desculpas, ofereceu-lhe uma pizza gratuitamente. Minha filha, embora goste muito de pizza, recusou e disse claramente: “Eu não quero pizza, eu quero respeito”. Em seguida, saiu do estabelecimento.
Ao chegar em casa e me contar o ocorrido, senti um misto de preocupação e orgulho. Sabia o quanto era desafiador enfrentar uma situação dessas, mas ela o fez com coragem e dignidade. Após nossa conversa, ela foi para o quarto, mas, pouco tempo depois, voltou e disse: “Poxa, pensando agora, eu devia ter aceitado aquela pizza, né?”. Rimos juntas, e ela completou: “Mas ainda bem que não aceitei, porque o que eu queria mesmo era respeito, e não uma pizza”.
Infelizmente, a experiência da minha filha não é isolada. O assédio sexual é uma realidade enfrentada por muitas mulheres diariamente. De acordo com a pesquisa Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, realizada pelo DataFolha e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2023, cerca de 47% das brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de assédio sexual ao longo da vida.
Além disso, dados da Controladoria-Geral da União (CGU) indicam um aumento significativo nas denúncias de assédio sexual em órgãos públicos federais. Em 2024, foram registradas 571 denúncias, um número alarmante que reflete tanto a persistência do problema quanto uma maior disposição das vítimas em denunciar.
O assédio e a importunação são formas de violência que afetam, principalmente, jovens e mulheres. O assédio pode ser entendido como qualquer comportamento indesejado, de natureza sexual, que cause desconforto ou humilhação à vítima. Ele pode ocorrer de diversas formas: física, verbal, psicológica e até digital. A importunação sexual, conforme a legislação brasileira (Lei nº 13.718/2018), é caracterizada por atos como toques indesejados, exposição de partes íntimas, entre outros comportamentos invasivos.
Essas atitudes são uma forma de violência que desrespeita a dignidade e os direitos da pessoa. No contexto social, a vítima de assédio, muitas vezes, enfrenta a vergonha, o medo de represálias ou até mesmo o julgamento da sociedade, o que dificulta a denúncia desses atos. Esse quadro torna ainda mais crucial a importância da atuação da sociedade na proteção das vítimas e no estímulo à denúncia desses crimes.
É essencial destacar que a denúncia de casos de assédio e importunação não deve ser vista como uma obrigação exclusiva da vítima, mas, sim, como um dever de todos. A sociedade tem o papel de ser vigilante e solidária, ajudando a criar um ambiente seguro para todos. Cada ato de silêncio diante de uma situação de assédio contribui para a perpetuação dessa violência. O ato de denunciar é uma forma de combater a normalização desses comportamentos, de fortalecer a justiça e de garantir que os agressores sejam responsabilizados.

“Respeito não é um favor, é um direito.
E, juntas, podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise escolher entre uma pizza e sua dignidade.”
A história da minha filha é um exemplo de coragem e assertividade. Ela não apenas defendeu seu direito ao respeito, mas também mostrou que não devemos aceitar menos do que merecemos. Ao recusar a pizza, ela deixou claro que gestos superficiais não substituem a necessidade de mudanças reais no comportamento e na cultura.
Se você ou alguém que conhece está passando por uma situação de assédio, não se cale. No Brasil, existe o Disque 100, um serviço de atendimento que recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo casos de assédio sexual. A ligação é gratuita e pode ser feita de forma anônima. Além disso, procure delegacias especializadas, como as Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams), e busque apoio em organizações que oferecem suporte jurídico e psicológico às vítimas.
Lembre-se: respeito não é um favor, é um direito. E, juntas, podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise escolher entre uma pizza e sua dignidade.
Referências:
1. “47% das brasileiras indicam ter sofrido assédio sexual”. Disponível em: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/47-das-brasileiras-indicam-ter-sofrido-assedio-sexual/. Acesso em: 14 fev. 2024.
2. “Painel da CGU registra este ano 571 denúncias de assédio sexual”. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-09/painel-da-cgu-registra-este-ano-571-denuncias-de-assedio-sexual. Acesso em: 14 fev. 2024.
3. “Incentivo às mulheres denunciarem os casos de assédio sexual sem receio de serem punidas”. Disponível em: https://atividadepolicial.com.br/9-incentivo-as-mulheres-denunciarem-os-casos-de-assedio-sexual-sem-receio-de-serem-punidas/. Acesso em: 14 fev. 2024.
4. “Combate ao assédio sexual”. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/governanca/integridade/campanhas/combate-ao-assedio-moral-e-sexual/combate-ao-assedio-sexual. Acesso em: 14 fev. 2024.
5. Brasil. Lei nº 13.718, de 24 de setembro de 2018. “Altera o Código Penal e define como crime a importunação sexual”. Diário Oficial da União. Acesso em: 14 fev. 2024.
